Argentina, a epítome de como a política faz parte de qualquer viagem

por Rui Maciel,    3 Fevereiro, 2026
Argentina, a epítome de como a política faz parte de qualquer viagem
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A política acompanha-nos mesmo quando acreditamos tê-la deixado para trás. Viajar, longe de ser uma fuga, torna isso evidente. O passaporte define fronteiras invisíveis: vistos, duração da estadia, custos de entrada. O que parece um detalhe burocrático é, na verdade, política em estado puro. Ignorar a política é perder de vista o palco no qual se desenrola a realidade.

Houve um local que exclamou mais isto do que em qualquer outro lado: a Argentina. Nunca tinha visitado um país tão esquizofrénico. Daí que, após a minha visita, tenha passado a entender mais um pouco como Javier Milei foi eleito. Este é o resultado de um país que durante o século XX foi consistentemente mal gerido, até que chega aos dias de hoje com o primeiro auto-intitulado libertário. 

A bandeira da Argentina. Para mim uma das mais bonitas do mundo

Em Buenos Aires, quem não prestar atenção à política pode facilmente julgar que está na Europa. Na parte mais rica da cidade, as avenidas são largas, os edifícios exibem uma arquitetura francesa e os jardins evocam Paris. No centro, o obelisco faz lembrar uma capital europeia. A população é também maioritariamente branca, num contraste evidente com o resto da América Latina.

Já na zona correspondente à antiga área colonial, as casas apresentam uma espécie de balcão à entrada e assentam sobre um bloco de cimento, pensado para evitar inundações quando o nível das águas sobe. Sem enquadramento histórico, torna-se difícil perceber porque foi ali que se deixou a população mais desfavorecida. Esta clivagem urbana tem origem no final do século XIX, quando uma epidemia de febre amarela levou as classes abastadas a abandonar o antigo centro e a erguer novos bairros noutras partes da cidade. Pode querer-se esquecer a frase de Pedro Mexia, “A diferença de classe é, depois da anatomia, a mais nítida e actuante distinção entre as pessoas.”, mas depois de observar repetidamente e em todo o lado este facto, torna-se difícil não reconhecer que ele tem razão.

Até no futebol, a política está presente. Corria o ano de 1986, quando nos quartos-de-final do Mundial do México, a Argentina defronta a Inglaterra. Sem a política, nunca tinha entendido o significado tão forte deste jogo. Anos antes, em 1982, a Argentina inicia a guerra das Malvinas e é derrotada pelo Reino Unido. Além da humilhação, morrem cerca de 600 soldados argentinos (maioritariamente jovens de 20 anos), são feitos cerca de 11 mil prisioneiros, e ainda numa conversa com um guia local, ele relatou como houve muitas mortes de soldados argentinos por suicídio não contabilizadas. Ora, nas conversas que fui tendo sobre Maradona, era nítido que aquela “Mão de Deus” foi um ato divino, quase como se deus tivesse intervencionado a favor da Argentina, na pessoa de Maradona, para vingar a derrota na guerra das Malvinas. Não compreender a história é perder toda a magia que ainda hoje se vive nas ruas da Argentina quando se vê uma imagem do Maradona. 

Das pinturas mais belas que já vi. Cada detalhe capta a divindade e a dimensão quase milagrosa do momento da “Mão de Deus”. O que mais me impressiona é o anjo que tapa os olhos ao árbitro. Mas há muitos outros: os anjos que puxam o guarda-redes para trás, a mão que não é a de Maradona e que parece surgir do nada. Neste quadro, fica captada a mística de algo que, vendo o golo, não passou de um simples momento de futebol.

A nível económico, na Argentina, uma decisão política tomada em 2001 ajuda a explicar a estranha dissonância que se vive no país: estar em Buenos Aires pode, por momentos, dar a sensação de estarmos num país totalmente desenvolvido, até que pequenos detalhes nos devolvem à realidade latino-americana.  Nesse ano, o país enfrentava o risco iminente de bancarrota e o governo respondeu com o chamado “corralito”, impondo limites severos ao levantamento de dinheiro nos bancos. A medida, pensada para conter a crise da dívida e salvar o sistema financeiro, acabou por minar a confiança dos cidadãos. Não consigo imaginar o que seria ter dinheiro no banco e não o poder levantar.

Com o agravamento da crise, a paridade cambial foi abandonada e o peso argentino sofreu uma forte desvalorização: depois de uma década em que um peso valia um dólar, passou a valer cerca de um terço desse valor. Na prática, poupanças inteiras evaporaram por decisão política. Imagine-se ter mil euros no banco, não poder movimentá-los livremente e, de um dia para o outro, vê-los, de forma simplificada, transformarem-se em pouco mais de trezentos.

Os efeitos destas políticas prolongam-se até hoje. A desconfiança em relação aos bancos persiste e não são raros os relatos de pessoas que continuam a guardar dinheiro em casa “debaixo do colchão”. Viajar pela Argentina obrigou-me a relativizar algo que tomo como garantido: a confiança de que o dinheiro que ganho tem valor e de que esse valor não pode desaparecer abruptamente da minha conta bancária. As consequências ainda pesam em algo que senti também como turista. Até o gesto mais elementar, levantar dinheiro, revelou-se problemático, quase sempre acompanhado de comissões de 10% ou 15% sobre o montante retirado. Ao pagar com cartão levava sempre com as mesmas comissões. O sistema financeiro argentino ainda hoje não funciona direito.

Por todas as razões acima mencionadas, comecei a compreender, ainda que parcialmente, a eleição de Milei. Entre todos os argentinos com quem falei, não houve um único que não se referisse aos políticos como corruptos, agrupando-os sob a expressão “la casta”. Recordo-me de uma conversa com uma argentina que inclusive disse: “Ele é louco, mas eu gosto dele.”, e de como a motoserra era somente a representação do corte com o passado. Fora as manifestações em Buenos Aires, não encontrei ninguém que não o elogiasse. Viajar é essencial para desafiar preconceitos e perceber o que realmente se passa para além dos filtros e algoritmos que moldam a perceção do mundo.

Foram várias as referências gloriosas ao atual Presidente argentino. Aqui fica um dos exemplos, encontrado numa livraria em Buenos Aires

Por fim, mesmo em Buenos Aires, num canto distante do globo, é impossível fugir ao contexto geopolítico. Ao longo da viagem, tenho encontrado muitos israelitas, sobretudo jovens de 20 ou 21 anos que, após anos de serviço militar obrigatório, usam o dinheiro ganho para financiar uma viagem. Carregam visivelmente marcas do que terão vivido; sente-se no tom das conversas, nas pausas, na forma como falam.

Houve, porém, um episódio em particular que fez escalar esse desconforto. Estava no quarto do hostel e, naquela noite, a camarata era composta por cinco israelitas e por mim. A certa altura, numa conversa de seguimento, um deles perguntou-me se eu achava que Israel tinha cometido um genocídio em Gaza. É uma questão complexa e difícil, e, por mais que acredite que sim, a conversa tornou-se rapidamente agressiva, centrada na disputa de números e argumentos, ao ponto de me sentir encurralado. Além disso, aquela discussão não ia dar em nada, ele não me ia convencer a mim, eu não o iria convencer a ele. Contudo, ali percebi que em qualquer espaço numa viagem, até nos quais pretendemos descansar, é impossível escapar à política.

Viajar não nos liberta da política; expõe-nos a ela. Obriga-nos a reconhecer que aquilo que tomamos como garantido: a estabilidade, a moeda, a mobilidade. Até o silêncio, é, muitas vezes, fruto de decisões políticas que não sentimos na pele. Não querer saber de política é um privilégio raro, reservado a quem nunca teve de pagar o preço das suas consequências. Quem quer que não se veja a beleza dela, e faz questão de a tornar suja, é de quem mais beneficia que nós não queiramos saber da política. E é também abdicar de compreender uma das dimensões mais profundas do mundo: a forma como a história, o poder e as escolhas coletivas são a raiz da nossa vida comum. Ignorar a política não a faz desaparecer, apenas nos torna menos capazes de a entender quando, inevitavelmente, ela nos molda.

Sugestões do cronista:

Ambos os livros abaixo recomendados são de autores argentinos.

Zama, de Antonio di Benedetto. Nunca pensei vir a torcer por uma personagem tão asquerosa. Di Benedetto consegue revelar a humanidade de alguém que, de forma reiterada, trai, age por interesse, conspira e tenta enganar os outros. A compreensão, e até a empatia, nasce precisamente do sentimento evocado na dedicatória: “às vítimas da espera”. Um autor argentino muito pouco conhecido na cena internacional que deveria ter mais reconhecimento.

O Túnel, de Ernesto Sábato, começa de forma exótica: o protagonista confessa, sem rodeios, que cometeu um homicídio. Em vez de fugir à culpa, ele expõe-se desde a primeira página, obrigando o leitor a confrontar-se com uma voz que não pede absolvição. O romance torna-se assim uma descida progressiva ao interior da sua mente, um verdadeiro túnel construído pela lógica do assassino. Para quem aprecia Sartre ou Camus, é uma leitura obrigatória.

Se estiverem interessados em acompanhar mais aventuras, sintonizem o podcast Périplo feito pelo cronista.

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