As forças militares e o Alentejo em “O Hospede de Job”, de José Cardoso Pires

por Ana Isabel Fernandes,    26 Outubro, 2021
As forças militares e o Alentejo em “O Hospede de Job”, de José Cardoso Pires
Capa do livro
PUB

A Relógio D’Água reeditou, em Agosto deste ano, O Hóspede de Job, de José Cardoso Pires. Vinte e três anos após a sua morte, a Comunidade Cultura e Arte relembra a nova reedição do livro. Sendo já um escritor, por si só, não tão falado actualmente (à excepção deste ano com a publicação da biografia de Bruno Vieira Amaral) O Hóspede de Job não é dos seus livros mais destacados — mais depressa nos vem à mente O Delfim, por exemplo. Tal não quer dizer, no entanto, que este Hóspede seja fácil de catalogar ou enquadrar dentro de uma caixa. Vamos perceber o porquê. 

[Pequena nota pessoal: a primeira vez que ouvi falar de José Cardoso Pires foi numa pequena referência da minha professora de psicologia de 12.º ano para poder explicar melhor o conceito de afasia, apenas. José Cardoso Pires sofreu um AVC e a afasia veio consequentemente. Nessa altura, por coincidência, António Lobo Antunes dava uma entrevista em sinal aberto, na TV e, desde então, passei a segui-lo nas crónicas e demais entrevistas que dava – os livros vieram depois. Nessas entrevistas, raras eram as vezes que ALA não referisse José Cardoso Pires e, assim, o nome ficou gravado até ao dia em que se consolidou quando li O Delfim. Nunca ouvi uma professora de português minha dizer os nomes António Lobo Antunes ou José Cardoso Pires. Já agora, também nunca ouvi a minha professora de filosofia dizer Nietzsche. A primeira vez que ouvi o nome foi através da boca do Ricardo Araújo Pereira numa entrevista, igualmente, em sinal aberto. Lição a tirar daqui? Não escrevi esta nota por petulância, algo que, a meu ver, nem tem lugar na cultura e arte. Sim, eu sei, o tanto que há para dizer aqui. Na minha cabecinha e conjecturas, no entanto, a petulância e a “verdadeira” arrogância não cabem no que acho que é cultura.  Escrevi-a, isso sim, para relembrar o papel das escolas na difusão de conhecimento e protecção cultural (pessoal que faz os programas, é convosco) — um papel que tem de continuar e precisa de ser constantemente aprimorado e actualizado — caso não queiram, claro está, que esse papel seja completamente preenchido pelas TV’S ou, agora, pelo Youtube. Não vale dizer só da boca para fora, como frase orelhuda, que as novas gerações nada sabem (É MENTIRA!!!), quando é óbvio que nunca se começa algo pelo fim ou, já agora, pelo telhado.]

A verdade é  que o homem irá sempre oscilar “entre a imaginação e a memória, e que é a de criar ou destruir, utilizando o barro quotidiano de que ele próprio, Homem, vai sendo moldado.”

Caso se pretenda ir por esse caminho, como poderemos descrever, então, O Hóspede de Job, de José Cardoso Pires, e como enquadrá-lo?  Bruno Vieira Amaral, autor do prefácio da nova edição começa, justamente, por aí, “romance neorrealista ou revisitação de certas temáticas neorrealistas? Romance propriamente dito ou sucessão de quadros?” Aqui, podemos fazer, já, uma ponte com o que o próprio José Cardoso Pires escreveu numa nota no final do livro: “Escrito, numa primeira versão, entre Março de 53 e Maio de 54, O Hóspede de Job já nessa altura não visava à preocupação documental (aliás, legítima) de certas obras ditas de «testemunho». Seria, antes, e espero que continue a ser, apesar das , sucessivas correcções que lhe fui introduzindo até agora, uma «história de proveito e exemplo» — um romance, no sentido tradicional do termo, destinado unicamente a ilustrar uma legenda, uma moral ou um clima humano, para lá de qualquer imediatismo de tempo e de lugar histórico. As circunstâncias geográficas ou de acção e as personagens do livro são, pois, elementos típicos, recriados (como nas parábolas ou como nas narrativas populares do bom soldado e do mau ladrão) com o objectivo de um tom sentencioso, exemplar.”

A geração neorrealista portuguesa teve a sua primeira expressão na década de 40, geração essa que juntou, por exemplo, Alves Redol, autor d’Os Gaibéus, e o poeta Manuel da Fonseca, com o seu Cerromaior. José Cardoso Pires também é caracterizado pelos  neorrealistas e ainda publica, em 1949, aos 24 anos, “Os Caminheiros e Outros Contos”, livro que viria a ser retirado de circulação pela censura vigente, tal como aconteceu, aliás, com Histórias de Amor (1952) que, além da apreensão do livro, lhe valeu a sua detenção pela PIDE. O Hóspede de Job já vem no final, ou na fase final dessa era e, além disso, tem de ser tido em conta que só foi publicado dez anos depois de se ter iniciado a sua escrita, em 1963 — o que significa um hiato já considerável, com as suas reformulações. O tema, esse, alicerçado num Alentejo feudal, nas hierarquias e as dificuldades consequentes de todo um povo era neorrealista, sem dúvida, e isso José Cardoso Pires admite-o quando O Hóspede de Job lhe aufere o Prémio Camilo Castelo Branco e lhe o perguntam directamente. Há, no entanto, um avanço na tentativa de se livrar de um pendor meramente documental, histórico ou temporal — como o próprio também o confessa. 

José Cardoso Pires / DR

Há outra questão, ainda, que se levanta. Não ficará o tema datado no tempo, quando o livro remonta à presença militar americana aquando da adesão de Portugal à NATO, em 1949? Principalmente quando foi publicado depois de 61, ano em que estourou a Guerra Colonial? Cardoso Pires acaba, de certa forma, por responder a isso mesmo na sua nota impressa na edição original e que a Relógio D’Água replicou. O Hóspede de Job estaria, então, “destinado unicamente a ilustrar uma legenda, uma moral ou um clima humano, para lá de qualquer imediatismo de tempo e de lugar histórico.”

O ano de 1953, em específico, foi marcante para o autor, além do facto de ter iniciado a escrita do livro em análise. Foi nessa mesma altura que “Histórias de Amor” foi apreendido e foi, também, esse o ano em que o seu irmão mais novo, António Nuno, morreu num acidente de aviação, enquanto cadete, próximo da Base Aérea de Sintra. Segundo lembra Bruno Vieira Amaral no prefácio: “Em averiguações junto dos companheiros do irmão, o escritor soube que os aviões cedidos pelos norte-americanos à Força Aérea Portuguesa estavam em más condições e que essa teria sido a causa provável do acidente.” Assim já se compreende a razão da temática do livro, a presença militar americana aquando da adesão de Portugal à Nato e o porquê da obra ter sido dedicada ao irmão. Mas, em suma, o que há em Hóspede de Job é uma revisitação, em particular,  d’Os Caminheiros e Outros Contos, de 49, por exemplo, quase como que actualizando-o. Como Bruno Vieira Amaral relembra, são utilizadas, contudo, outras técnicas narrativas. Técnicas narrativas essas que se aprimoraram e ganharam todo um outro destaque em Delfim, por exemplo, já numa segunda fase declarada do autor. O narrador, por exemplo, ganha, em Hóspede de Job um outro destaque, uma função “ético-literária” mais forte, e aqui reside a diferença. 

Que Alentejo é este que nos é retratado? Um Alentejo de profundas desigualdades e pobreza, em que salta para o primeiro plano a dinâmica da relação entre as forças militares, oficiais e policiais e o resto da população. Uma dinâmica baseada no exercício de poder sobre os populares, nepotismo, mas numa perspectiva que traz, igualmente, à liça, um desgaste psicológico das forças dominantes. Forças dominantes essas que estão, constantemente, a ser comparadas com o que são no momento presente do livro com o que foram no passado, principalmente pela personagem Aníbal, sendo ele próprio pai de um soldado, em busca do seu “amparo” e recompensa por ter oferecido o  “filho à nação.” E aqui podemos perguntar, o que significa oferecer o filho à nação? Que obrigações tem a nação, por exemplo, para com os familiares de quem está “ao dispor da pátria”? O que significa esse exercício de se estar ao dispor da pátria? Que obrigações há para com as populações? Para os populares, esses soldados, essas forças militares,  tanto podem ser o estrangeiro, como podem ser eles próprios, os seus familiares e filhos ou, então, aqueles que levam as suas mulheres presas e abusadas e lhes sujam, por baixo do seu próprio nariz, o seu próprio poço onde dão de beber e lavam os seus próprios cavalos, sem autorização. 

Tudo isto está muito bem explicado neste excerto: “Os militares nas tabernas, os outros que passeiam ou aqueles que fazem guarda a uma baioneta não podem ver a desolação  que vai nos campos. Pensam na deles, na sua desolação. No Cercal castiga-se muito e come-se mal…» É com esta lição bem assente que os soldados deixam amigos, enxada e família para se entregarem à triste vida da caserna. Na grande maioria são homens-operários, homens-camponeses, cobertos com uma farda que cobriu antes deles outros operários, outros camponeses ou pescadores, e essa roupa, esse simples número de regimento, alheiam-nos da terra, da planície que se abre a dois passos dali. Dir-se-á: têm o eco do comboio e as notícias dos seus para os lembrar. Pior, nesse caso: o comboio é o remorso do prisioneiro (Três-Dezasseis, não vamos mais longe, serve de prova) e as notícias da família são um segundo castigo para quem sofre à distância a desgraça dos outros – principalmente nesta quadra do ano em que os campos andam varridos pelos ventos da fome.” 

Mas mais do que isso trata-se, também, de um Alentejo à procura da sua reivindicação por melhores jornas e condições laborais, sem as ter, por oposição àqueles que vêm de fora e se sujeitam a elas, à procura de melhores condições de vida. “Eles compreendiam. Ouviam e baixavam a cabeça. Tinham-se deixado ajustar por jornas que os trabalhadores da região sempre recusaram e, que remédio, ouviam. Mas perguntavam à sua consciência se seria justo vir de tão longe para voltar à mulher e aos filhos de mãos a abanar. «Seria?», perguntavam.” Deixando, para trás, uma devastação esquecida. 

O livro está dividido em trinta capítulos não muito extensos entre si. Os diálogos são terrenos, com um vocabulário terreno, sem adornos ostensivos para as próprias personagens. Aliás, José Cardoso Pires tem esse dom lapidário das palavras, que vão à artéria, sem precisarem de subterfúgios, grandes metáforas, comparações pretensiosas ou adjetivos que se repetem uma e outra vez em pleonasmo. E a mestria está na forma como se faz a montagem entre o narrador e os diálogos, sem dar a perceber ao leitor falhas ou estranheza nesse encaixe. Mesmo que sim, o narrador, neste livro, vá mais além na sua função, num há uma palavra que se desajuste ao seu lugar. 

Bruno Vieira Amaral, ao longo do seu prefácio, vai escrevendo que este não é um livro fácil de equalizar por várias razões. Mas será este, afinal, um livro datado ou não? Não, num sentido em que tem gente dentro, mesmo se essa gente estiver ao serviço de uma parábola ou mensagem, que por si só também pode escapar aos ditames do tempo. A verdade é  que o homem irá sempre oscilar “entre a imaginação e a memória, e que é a de criar ou destruir, utilizando o barro quotidiano de que ele próprio, Homem, vai sendo moldado.”.

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.

Artigos Relacionados