As novas perguntas que vão definir a política do Séc. XXI

por Bartolomeu Marçal Grilo,    13 Agosto, 2026
As novas perguntas que vão definir a política do Séc. XXI
Fotografia de Brian Kostiuk / Unsplash
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As novidades que o advento da Inteligência Artificial nos trará não serão as injustiças que promete aprofundar, nem as extinções em massa que arrisca provocar — nem mesmo a do próprio Homem. A novidade terá antes a forma de uma pergunta. De uma pergunta que não pode ser respondida em coro nem delegada à multidão: Deixarias que um algoritmo escolhesse o parceiro da tua vida? Pagarias para que o teu filho fosse mais inteligente, se soubesses que os outros pais estão a fazer o mesmo? Deixarias que um robot tomasse conta da tua mãe, se te poupasse tempo e dinheiro? Implantarias um chip na cabeça se estivesses a ficar para trás no mercado de trabalho? É nestas perguntas, e no exercício que cada um de nós faz para lhes responder, que está a matéria-prima de que será feita a política no século XXI.

Não é que estas sejam de natureza política. Pelo contrário, estão mais próximas da pergunta religiosa, aquela que leva o silêncio do nosso interior até ao limite que apenas a fé se atreve a atravessar, e para as quais a política não tem, nem deve ter uma resposta. Mas se num primeiro momento estas perguntas pertencem a cada um, a soma das respostas já se aproxima da política. Isto porque quer respondamos sim ou não — ao chip, à manipulação genética ou ao algoritmo — a resposta não fica no nosso interior: ela inscreve-se no mundo que todos teremos de habitar, e determinará o aspeto que este terá.

Para os homens que ergueram a luz do fogo pela primeira vez, apareceram os seres que a lua nunca iluminara, e uma vez resolvido o mistério dos rastos vindos da noite, o dia nunca mais foi o mesmo. A tecnologia não nos dá um mundo novo — desapossa-nos do antigo. E o poder segue as perguntas, desloca-se para onde elas renascem, que hoje é no laboratório e na empresa. Os parlamentos continuam a debater, os media a comentar, as eleições a realizar-se, mas as perguntas que importam já não passam por lá. É por isso que o espetáculo toma conta — para devolver o significado ao gesto que perdeu a autoridade.

Este fenómeno não é novo. A comunidade política herda perguntas que não escolheu e que nem sequer sabe fazer, mas que tem de compreender para sobreviver. As instituições, porque são a cristalização das respostas de ontem, são também as primeiras vítimas. Pelo facto de precisarem de edifícios, de carreiras e de manutenção para existir, as instituições são corroídas pelas leis do tempo, ganhando os vícios dos Homens e da terra que estes habitam, raramente envelhecendo bem: resistem e continuam a funcionar sem alma, insistindo na administração de um mundo que já não é o delas.

Se para os nossos antepassados a tecnologia reinstaurava o mistério do mundo, para a nossa geração promete resolvê-lo para sempre. As ideologias modernas, determinadas a erradicar a morte e a fome, concordaram pelo menos nisto: a tecnologia deveria servir para nos redimir do trabalho e drenar o “vale de lágrimas”. Hitler e Estaline viram na ciência moderna e na tecnologia uma solução derradeira para o problema da finitude humana, uma ferramenta para criar estados que não morrem e Homens que não erram. Vencida a Segunda Guerra Mundial, e depois a Guerra Fria, o livre-arbítrio das sociedades liberais prevaleceu. Mas ainda assim a conquista do indivíduo livre reduziu-se a uma escolha, entre esquerda e direita, que no final de contas são dois caminhos de um único processo histórico que os totalitarismos abraçaram sem pudor: o de superar os limites impostos pela matéria. Revestido da tolerância cristã, o conflito entre o marxismo e o capitalismo foi apaziguado e tornou-se numa questão técnica, uma questão de grau — e foi precisamente por isso que a social-democracia se tornou possível: quando o desacordo é sobre quanto Estado, quanta redistribuição, quanto mercado, o conflito de classes é passível de ser resolvido num orçamento de Estado.

O que o trabalhador e o burguês têm em comum é aquilo que Hannah Arendt viu melhor do que ninguém, que é o facto de que ambos pertencem a uma sociedade que fez do trabalho o centro da existência. Mesmo o mais bem-intencionado ambientalista só consegue garantir o valor político da espécie ameaçada se provar que o animal sofre ou que tem valor económico. Em ambos os casos tem que recorrer a um cálculo. O mesmo acontece com a eutanásia ou o aborto. A obsessão da ciência com as semanas de gestação, a formação do feto ou o número de batimentos relembra uma ansiedade, quase religiosa, em calcular o sofrimento. É uma esperança de que um número resolva o que não tem solução — porque a disputa nunca foi sobre quanto se sofre, mas sobre o que é que está ali.

Deixar a questão qualitativa em segundo plano foi um luxo a que os modernos se puderam dar durante o período em que o corpo humano permaneceu intacto. O corpo foi para o Homem moderno — como Da Vinci mostrou no seu famoso desenho — a medida de todas as coisas. Mas o estudo do corpo, da sua mecânica e dos seus apetites, tinha em vista a construção da máquina e dos seus algoritmos, e hoje também é das inconveniências do nosso corpo que tecnologia nos promete libertar. A última vez que o mundo em que o Homem vivia sofreu uma transformação de tal ordem foi antes da revolução industrial — quando o dinheiro deixou de nascer da terra — e dela nasceu o primeiro conflito entre esquerda e direita. Até então, a vida era uma herança da terra, e com ela o peso de um lugar, de uma família, de uma tradição. A invenção do crédito privado e dos títulos mudou isto: para o jovem que podia comprar ações e viver dos juros, livre para se sentar nos cafés de Paris e Londres, a terra perdeu a sua autoridade — enquanto o aristocrata continuava preso à terra, tão preso quanto nós ainda estamos ao nosso corpo. O que estava em causa neste conflito não era uma nova pobreza, pois nem o próprio Marx tinha ainda nascido, mas o fim de um mundo inteiro de vínculos. Quando, décadas depois, uma Assembleia em Paris se dividiu pela primeira vez entre esquerda e direita, era essa a fratura que tomava assento: de um lado, os que não queriam abandonar o mundo que habitavam; do outro, os que apostavam tudo num mundo em devir.

Se os termos liberal e conservador alguma vez expressaram um verdadeiro confronto entre duas conceções distintas sobre a natureza humana — entre a autoridade deposta no passado e a autoridade depositada no futuro —, foi apenas neste início da história moderna. Desde então, perante a revolta do homem moderno contra a autoridade imposta pelas forças obscuras da natureza, viver o passado deixou de ser uma possibilidade. As velhas hierarquias naturais foram substituídas pelas hierarquias do mercado livre, que organiza a nossa vida como se de Deus tratasse, e que têm ao menos a vantagem de serem justificadas através de um cálculo matemático; e substituir o mistério da realidade dada por uma realidade inteligente tornou-se no próprio movimento das sociedades modernas.

Dentro deste movimento incessante, nem o conservador escapa: o mundo que queria salvar já não existe, e sobra-lhe apenas um temperamento. Ser conservador, diz Oakeshott, é “preferir o familiar ao desconhecido”. Quando num mundo dominado pela escolha a necessidade da terra se perdeu, as duas visões sobre a autoridade reduziram-se a uma questão de gosto, e o velho conflito tornou-se uma expressão estética.

Mas há nas guerras identitárias de hoje perguntas que nenhuma instituição resolverá e que o mundo digital só vai intensificar. Perguntas que devolvem ao liberal e ao conservador o seu espírito. Que a sexualidade se tenha tornado o tema central do confronto entre conservadores e liberais não é um acaso: revela que é já em torno do corpo que a política gira. A euforia dos sexos é um último grito de um corpo cujas fronteiras começaram a dissolver-se.

Se depois de a máquina trabalhar por nós teremos abundância ou escassez é uma questão que partilhamos com o resto dos seres na terra, mas que ainda assim não nos é tão próxima como saber se: poderemos ser humanos sem um corpo? É o nascimento desta pergunta que abriu a fratura sobre a qual a política do futuro irá, em parte, debater-se. O aparecimento do próprio termo trans-humanismo demonstra uma compreensão, ainda que vaga, de que algo está prestes a ficar para trás. E é esse algo que irá reacender o brilho nos olhos dos políticos do futuro — daqueles que, seja num parlamento, no conselho de uma empresa ou numa praça pública, se juntarão para falar sobre o lugar dos Homens na era digital

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