Bad Bunny foi INoLVIDABLE na sua estreia em Portugal

por Linda Formiga,    27 Maio, 2026
Bad Bunny foi INoLVIDABLE na sua estreia em Portugal
Fotografia de Rui André Soares – CCA

Bad Bunny ocupa um lugar singular na música contemporânea: a sua ascensão da periferia do SoundCloud à ubiquidade global não alterou apenas tabelas de vendas, alterou a própria gramática do estrelato pop. Aos 32 anos, com DeBÍ TiRAR MáS FOToS a conquistar o Grammy de Álbum do Ano no início deste ano, Benito Antonio Martínez Ocasio fez o que poucos conseguem: transformou o espanhol cru e caribenho de Vega Baja numa língua franca da cultura jovem.

O seu espectáculo de intervalo no Super Bowl cristalizou essa mudança. Em treze minutos, juntou reggaetón, plena e imagens de forte carga simbólica — dos canaviais que evocam histórias de plantação aos postes elétricos intermitentes que lembravam os apagões crónicos de Porto Rico — e atraiu cem milhões de espectadores para um devaneio pan-americano. Trump chamou-lhe “ridículo”, uma rara admissão de vertigem cultural por parte de um homem que já tinha descartado Porto Rico como “ilha flutuante de lixo”. Mas o triunfo de Bad Bunny está precisamente aí — tornar a especificidade local irresistível no palco mundial.

Fotografia de Rui André Soares – CCA

A sua trajetória ajuda a explicar isso. Bad Bunny apareceu em 2016 com “Diles”, uma faixa que misturava a introspeção sombria do trap com o pulso dembow do reggaetón, gravada enquanto ainda ensacava compras num supermercado de Vega Baja. Em 2018, colaborações como “MIA”, com Drake, e “I Like It”, com Cardi B e J Balvin, levaram-no ao topo da Billboard Hot 100. Ainda assim, nunca abandonou o espanhol, num gesto de desafio numa indústria em que Ricky Martin e Shakira só chegaram ao mercado americano depois de se tornarem bilingues. A sua voz, com suspiros e Auto-Tune na medida certa, faz com que cada ritmo soe simultaneamente íntimo e expansivo.

Os álbuns X 100PRE e Un Verano Sin Ti consolidaram esse método: melancolia emo-rap, sintetizadores que lembram jogos da Nintendo, ecos de terror japonês, tudo a gravitar em torno do dembow. DeBÍ TiRAR MáS FOToS refina essa linguagem até quase à forma de arquivo vivo, cruzando salsa de El Gran Combo, plena dos bairros operários de Ponce e tambores de tradições afro-indígenas com o trap latino contemporâneo. “BAILE INoLVIDABLE”, uma salsa de seis minutos executada por estudantes de San Juan, dói com a solenidade de uma despedida; “CAFé CON RON” recupera a plena como “el periódico cantado”, o jornal cantado das desigualdades da ilha.

Fotografia de Rui André Soares – CCA

Essa evolução espelha as contradições de Porto Rico: território americano desde 1898, afogado em dívida, fustigado por apagões resultantes da privatização e por uma gentrificação que substitui boricuas por reformados continentais e nómadas cripto. Bad Bunny não se limita a dar voz a essas realidades; transforma-as em narrativa. O filme que acompanha o álbum imagina um café de San Juan esvaziado pela gentrificação, até ao silêncio turístico. “TURiSTA” acusa o olhar transacional dos visitantes; “BOKeTE” atravessa o desgaste da ilha como um carro velho em estradas cheias de buracos. A sua força está também na ligação entre gerações: quem antes rejeitava a “vulgaridade” da música urbana chora agora com a faixa-título no TikTok, enquanto a Geração Z descobre a plena como tradição de protesto.

A influência de Bad Bunny também se sente na forma como o seu som atravessa barreiras linguísticas. Muitos ouvintes não hispânicos aproximam-se primeiro pelo impacto sonoro: graves ominosos, melodias que oscilam entre a tristeza emo e uma alegria quase infantil, uma arquitetura que funciona mesmo sem compreensão literal.

Fotografia de Rui André Soares – CCA

Foi há pouco mais de um ano que Bad Bunny anunciou a sua digressão mundial. Com muitas datas esgotadas em pré-venda, a digressão foi crescendo e prevê-se que mais de um milhão de pessoas se renda aos ritmos latinos de Benito Antonio. Ontem, dia 26 de maio, foi a vez de Bad Bunny subir, pela primeira vez, ao palco em solo português.

Fotografia de Rui André Soares – CCA

A introdução foi feita em português, num vídeo em que dois amigos, sentados na soleira da porta de uma casa amarela, recitam o início de “LA MuDANZA”, preparando a entrada do artista, que surge sob uma longa ovação culminando em “Un aplauso pa’ mami y papi porque en verda’ rompieron”. “LA MuDANZA” é uma das canções mais reveladoras de Bad Bunny, porque condensa, numa só faixa, a sua autobiografia, o orgulho porto-riquenho — “En la caja la bandera azul clarito”, referência à bandeira associada à tradição independentista, outrora proibida — e a dimensão política da sua obra. “De aquí nadie me saca, de aquí yo no me muevo” soou a promessa para as mais de duas horas que se seguiram.

Depois, “Callaíta”, com elementos de “Lisboa Menina e Moça”, compôs um dos detalhes mais inteligentes do concerto, criando uma ponte entre a cidade anfitriã e o universo de Bad Bunny, enquanto “PIToRRO DE COCO” aliviou a densidade inicial e puxou o espetáculo para uma zona mais sensual e festiva, sem perder a ligação à ilha. “WELTiTA”, “TURiSTA”, “BAILE INoLVIDABLE” e “NUEVAYoL” reforçam a ideia de um álbum que olha simultaneamente para o passado e o presente.

Fotografia de Rui André Soares – CCA

Num breve interlúdio, ouvimos o sapo Concho dizer que tinha engordado com a gastronomia portuguesa, com referências ao “si” de Cristiano Ronaldo, antes da passagem para a Casita – o palco secundário que aproxima Bad Bunny do público, longe dos formalismos de fato e gravata. Aqui, Benito Antonio dedica vários minutos a cumprimentar e abraçar fãs, diminuindo a distância entre artista e audiência. Neste espaço (sem figuras públicas reconhecíveis), abre formalmente o perreo com “VeLDÁ” e “Tití Me Preguntó”, passando pela mais emotiva “Neverita” e pela antiga “Diles”. “Estamos Bien” foi a canção exclusiva que nos calhou em sorte antes do regresso ao palco principal — de gorro e luvas — para o final do grande baile. Com direito ao já tradicional discurso motivacional, Bad Bunny reforçou que, “como diz a canção, enquanto estivermos vivos devemos amar-nos o mais que pudermos”, a nós e aos outros. Mesmo com o coração partido de KLouFrenS, mesmo que esperemos um sticker novo da pessoa que amamos, mas que deixou de nos amar. Mesmo que os dias pareçam difíceis, que não nos esqueçamos de olhar por nós e pelo colectivo, do respeito pelo outro, com crítica social e a memória da perda — em suma, o mote para os últimos temas da noite “El Apagón” e “DtMF”. Terminámos o baile com “EoO” e foi muito bonita a festa. Que se repita hoje e muitas mais vezes.

Há muitas camadas na expressão artística de Bad Bunny, e é assim que deve ser lido. Hedonista q.b., divertido q.b., é também nas entrelinhas que critica quem ignora a realidade do seu povo. Não é por acaso que o espetáculo incorpora elementos da cultura do país onde atua, nem que se divide entre dois palcos — um mais performativo, outro mais íntimo. Bad Bunny não separa êxito e consciência política; organiza-os no mesmo arco dramático.

Fotografia de Rui André Soares – CCA

Há ironias, claro. A sua fama alimenta parte da gentrificação que denuncia, há uma tensão inevitável entre o artista e o ícone. A canção “LO QUE LE PASÓ A HAWAii” (ausente da setlist) ecoa aqui: a realidade do Havai não está assim tão distante dos alojamentos locais e dos fundos que substituem negócios familiares por ativos financeiros. Também por isso, a homenagem da Câmara Municipal de Lisboa, que colocou as cadeiras de plástico da capa do disco em locais de Lisboa, parece deslocada. Celebrar Bad Bunny ignorando a crítica que ele faz aos processos que a própria cidade replica — turistificação, expulsão, financeirização do espaço urbano — não é apenas incoerente, é revelador. Mostra como o sistema é capaz de absorver símbolos de contestação enquanto mantém intactas as estruturas que eles denunciam. As ironias persistem quando há lugares “premium” com estruturas que impedem a vista para o palco. Quando com temperaturas que rondam os 30 graus e as garrafas de água não podem ter tampa. Há um olhar pelo próximo que certas convenções impedem, mas às quais, colectivamente, deveremos estar atentos.

No entanto, se existe contradição entre o artista e o ícone, esse desconforto é parte da sua relevância. Bad Bunny não oferece pureza, oferece tensão, memória e escala. Num panorama pop fragmentado, permanece porque o seu som é simultaneamente enraizado e inquieto: suficientemente específico para criar pertença, suficientemente elástico para atravessar fronteiras.

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