Baleia Baleia Baleia regressam aos discos com “Outra vez arroz”, um álbum “mais zangado” do que os anteriores
Os Baleia Baleia Baleia editam hoje “Outra vez arroz”, um álbum “mais zangado” do que os anteriores, criado pelas mesmas pessoas, com “as mesmas armas” e músicas que abordam os mesmos problemas, entre crises, guerras e “ódio generalizado”.
“Sempre achámos que o nosso terceiro disco ia ser um disco de rutura. Ouvimos este disco e percebemos que tem coisas diferentes, mas não é um disco de rutura”, afirmou Manuel Molarinho, metade dos Baleia Baleia Baleia, em entrevista da dupla à Lusa.
O título do álbum – “Outra vez arroz” – tem “uma dupla carga”.
Por um lado, são outra vez os dois “a fazer quase tudo”, apesar de pela primeira vez terem convidados num dos temas (Scúru Fitchádu, Evaya e o Coro Informal Antifa em “Antifa ao contrário é otário”, que abre o disco), e “com as mesmas armas – com uma bateria, um baixo, um exército de pedais, amplificadores e vozes”.
Além disso, “do ponto de vista estético acaba por ser irmão ou primo, mais ou menos afastado”, dos trabalhos anteriores.
“Mas também ‘Outra vez arroz’ porque é outra vez estar a olhar para uma sociedade que teima em não resolver os problemas básicos da sua população, é outra vez as guerras, é outro genocídio e é outra vez este ódio generalizado e esta falta de capacidade de comunicarmos uns com os outros, quando precisamos todos uns dos outros, precisamos de viver em comunidade. Achámos que esta era a maneira ácida de responder ao que se estava a passar”, afirmou o vocalista e baixista.
O terceiro longa duração da dupla é “mais zangado, mais desiludido” do que os anteriores, mas ao mesmo tempo apresenta “ritmos e se calhar mesmo notas mais festivas, ou está em acordes maiores mais vezes, por exemplo”.
“Tem este contraste entre o som e a palavra”, referiu Manuel Molarinho.
Os Baleia Baleia Baleia, que surgiram de ‘jam sessions’ informais na sala de ensaios Quarto Escuro, no Porto, assinalam em 2026 dez anos de concertos. O primeiro aconteceu no festival Zigurfest, em Lamego, em setembro de 2016.
Os últimos dez anos foram para o baterista Ricardo Cabral “tudo o que não estava à espera”.
“Tudo tem sido uma surpresa bastante grande, todos os anos têm sido bastante reveladores para nós. Temos conseguido fazer chegar a nossa mensagem, de alguma maneira, às pessoas, dando concertos no país inteiro. Tudo isto foi acontecendo. Não esperava chegar aqui, sinceramente. Não contava com isto”, partilhou com a Lusa.
Manuel Molarinho concorda que “a melhor parte” dos últimos dez anos tem sido “a quantidade enorme de concertos, e os discos lançados”. “Não temos parado de tocar”, referiu, lembrando que além de Portugal, deram também concertos na Bélgica e na Irlanda e fizeram uma digressão no Brasil.
“Tem sido assim tudo muito inesperado”, disse.
Da digressão ao Brasil destacam “a aventura em si”. “Fomos pela experiência, não temos uma atitude muito economicista nestas coisas. Tem de dar para pagar, e nós vivemos disto também”, referiu Manuel Molarinho.
Os Baleia Baleia Baleia sentem que têm público no Brasil e há vontade que voltem – “os concertos correram super bem” -, “mas há uma dificuldade que atravessa o ‘underground’ mundial”.
“No fundo estamos completamente dependentes de ter um apoio qualquer inicial para podermos fazer esse investimento de ir lá. Tivemos esse apoio, senão tornava-se quase impossível, mas foi todo gasto em partes logísticas”, disse, com Ricardo Cabral a explicar que a verba “pouco deu para comunicar, para poder chamar pessoas ou fazer concertos para grandes salas”.

“Mas deu para ir e para nós isso é o mais positivo disto tudo na verdade”, afirmou o baterista.
Além do Brasil, têm outros países no horizonte, “até porque é mais fácil ir para outros países, na Europa sobretudo”.
No entanto, por terem “tido a sorte de ter muito palco em Portugal”, não há “tanta pressa em ir”. “Mas temos alguns contactos feitos na Bélgica e na Irlanda, onde já fomos, e Espanha também”, revelaram.
Quando se pede a Manuel Molarinho e Ricardo Cabral que apontem aspetos menos bons no percurso da banda, destacam o facto de estarem a ser pela segunda vez vítimas do processo de gentrificação em curso no Porto, que acontece também noutras outras cidades portuguesas.
“Vamos perder pela segunda vez a nossa sala de ensaios. A primeira foi muito importante, sem essa sala não nos tínhamos conhecido. Foi onde fizemos as ‘jams’ informais, onde mais gente era convidada, mas só aparecíamos os dois. Foi assim que tudo começou, no Quarto Escuro, em cima do Ferrugem em Cedofeita”, disse Manuel Molarinho.
Entretanto mudaram-se para a Rua da Galeria de Paris, para o ‘atelier’ de um amigo, que acabou por tornar-se sala de ensaios também para outras bandas. Entretanto, foram avisados que terão de abandonar o espaço até ao final deste mês.
“Esta coisa de estar permanentemente a disputar a necessidade de um espaço, o direito a existir numa cidade será claramente o ponto mais negativo”, afirmou o músico.
Os Baleia Baleia Baleia acreditam que irão “encontrar uma solução” no centro comercial STOP, espaço que consideram “fundamental e único no mundo”, mas defendem que “o Porto não pode ser só o STOP, tem de ter outros locais, outros sítios”.
Para se despedirem do atual espaço de ensaios vão fazer dois pequenos concertos no sábado e no domingo, limitados a 20/30 pessoas.
Depois disso, têm os concertos de apresentação de “Outra vez arroz”, dia 19 de fevereiro no Maus Hábitos, no Porto, dia 26 de fevereiro na Casa da Criatividade de São João da Madeira, dia 27 de fevereiro na Cooperativa Mula, no Barreiro, e dia 28 de fevereiro na Casa Capitão, em Lisboa.
O álbum, uma edição da Saliva Diva (editora da qual são cofundadores), sai em CD e vinil e estará também disponível ‘online’ em algumas plataformas, nomeadamente no Bandcamp.
Em janeiro, os Baleia Baleia Baleria decidiram retirar o seu catálogo do Spotify, seguindo os passos de outros artistas e bandas nacionais e internacionais.
Não saíram antes “por preguiça”, a mesma que têm atualmente para saírem de outras plataformas. “Se é por uma questão de moral, muitas plataformas não têm a melhor moral possível com os artistas. Mas o Spotify foi mostrando ao longo dos anos que tinha uma moral pior. Com a notícia de que investiam em IA e em drones de guerra foi suficiente para percebermos ‘temos de sair’”, referiu Ricardo Cabral.
Manuel Molarinho reforça que, embora haja problemas noutras plataformas, “nenhuma concentra todos os males juntos como o Spotify”. “E por cima disso ainda vende a ideia de que aderindo à plataforma [as pessoas] estão a ajudar os músicos”, criticou.
“Já nos fazia confusão há muito tempo, mas deixávamos lá a música por delicadeza, porque era a plataforma que as pessoas usavam para ouvir música. O Spotify é simbólico e a luta pode começar por aí. Começámos a sentir-nos mal de estar ali, porque eram demasiadas coisas”, afirmou, garantindo que “vai haver outras”.
Para o músico é importante salientar que “existem alternativas”, como o Qobuz ou o Bancamp. “Mas não temos de ter só uma forma de ouvir música. Continua a haver CD, vinis, MP3, continua a haver muitas formas de ouvir música e não desrespeitar os mínimos éticos olímpicos”, concluiu.
