“Batalha Atrás de Batalha”, de Paul Thomas Anderson: o perdido nostálgico que sonha com a revolução que não foi

por Afonso Marrocano de Almeida,    3 Outubro, 2025
“Batalha Atrás de Batalha”, de Paul Thomas Anderson: o perdido nostálgico que sonha com a revolução que não foi
“Batalha Atrás de Batalha”, de Paul Thomas Anderson

Este artigo pode conter spoilers.

Paul Thomas Anderson nasceu em San Fernando Valley, Los Angeles, a 26 de junho de 1970. Saber isto é perceber talvez a principal força que tem motivado os seus filmes em quase 30 anos de carreira, logo desde o seu primeiro épico, “Jogos de Prazer” (“Boogie Nights”), sobre estrelas pornográficas no auge industrial dos anos 70 e sonhos californianos. A sua última obra baseada no seu contemporâneo fora há 23 anos com o romance-musical “Embriagado de Amor” (“Punch-Drunk Love”) e, neste tempo, como único filme filmado fora da terra natal tem-se “Linha Fantasma” (“Phantom Thread”) dedicada ao ícone inglês de Daniel Day-Lewis. Pelo granulado da sua amada película contra o invasor digital, PTA sempre deixou bem claro que a sua ficção é sobretudo um veículo de apreço nostálgico pela sua terra e época de infância, um sonhador do passado, do outrora aquando o advento tecnológico era o analógico e a vanguarda política norte-americana estava no seu apogeu revolucionário, o sol californiano a brilhar-lhe mais que alguma vez havia feito. Assim, como com qualquer cineasta que valha a pena, é muito fácil entrar em contacto consigo a partir dos seus filmes, extensões de si mesmo, pessoais janelas para todos os cantos do seu corpo e espírito. A sua mais recente estreia, “Batalha Atrás de Batalha” (“One Battle After Another”) é talvez a mais próxima e transparente destas janelas.

Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) é um adormecido revolucionário que passa os seus dias a sonhar com a sua juventude de violento ativismo sem frutos, charros e filmes radicais a comporem o dia-a-dia que alimenta tais agridoces refúgios. Tem uma filha, Willa Ferguson (Chase Infiniti), que tanto nasceu da revolução como a dinamitou por nascer e cuja mãe, guerrilheira negra à “Black Panther”, Perfídia Beverly Hills (Teyana Taylor), havia traiçoeiramente desaparecido enquanto bebé após um assalto falhado. Bob finalmente acorda para luta quando o regime norte-americano controlado por uma sociedade secreta de supremacia branca atinge a podridão suficiente para nomear como membro o coronel Steven Lockjaw (Sean Penn), militar que persegue imigrantes em público e tem fetiches sexuais com mulheres negras em privado, “especial” conhecido de Perfídia, talvez pai biológico de Willa. Para limpar quaisquer registos de impureza racial, uma perseguição estatal liderada pelo coronel sobre Bob e Willa começa. Sobrevivência em risco, os juvenis sonhos da revolução voltam a ser realidade.

“Batalha Atrás de Batalha”, de Paul Thomas Anderson

O novo épico de PTA funciona com base em distintas tramas política e familiar, respectivamente. Um ex-revolucionário forçado a regressar à luta num contemporâneo de um cada vez menos envergonhado regime racista e autoritário, com um pai a aprender a reconhecer e amar a sua filha, não mais a criança que lhe havia custado as ambições políticas e a sua amada. Ambas são miscigenadas num poderoso corpo cômico-dramático, sustentado sobretudo pela imaginação cénica e perícia tonal do cineasta. Este é um filme muito engraçado feito nos particulares, isto é, composto por sucessivas grandes cenas que permitem sustentar tal caráter, enquanto resguardam uma melancolia em mágoas que prevalece e densifica o tom. É imaginado um resignado contemporâneo californiano, preso à tecnologia e cultura das décadas de 1960 e 1970, forçado a habitar o século XXI, atmosfera que fomenta o enraivecido coração dramático disto enquanto proporciona detalhes para criar vários dos melhores momentos. O trabalho de Anderson nas personagens é novamente notável, um esforço coletivo em humanização e expressão com elenco para garantir os focos humanos e desumanos da superfície dramática, os veículos emocionais das cenas. De destacar também a ingressão do filme em cinema de género, nomeadamente, de ação, com uma perseguição automóvel a três maravilhosamente composta, o fruto máximo da tensão construída, tal energia que sustenta o frenético ritmo disto pela longa duração de 160 minutos.

Por mais divertida e acessível que seja a superfície de “Batalha Atrás de Batalha”, é a pessoalidade que desta emana, humano elo entre quem assiste com a pessoal ficção, que consagra totalmente a vida ao filme. A tragédia de um cineasta preso a um passado fictício para não aceitar o seu contemporâneo. Da era Trump, um mais agressivo regime protofascista sem uma oposição revolucionária para o combater, o advento do digital a adulterar o cinema que conhecia e com o qual se apaixonara e demais novas tecnologias que nos deixam felizes presas de tais estado vigilante e modelo de consumo. Percebe que tem de continuar a lutar, mas não consegue reunir energias para tal. As mágoas da experiência do tempo transformadas em correntes. Resta-lhe procurar-se a si próprio no passado que não existe. Tão bonitos e tão tristes esses tempos. A sina do revolucionário não é lutar contra o mundo que combate mas lutar consigo mesmo. PTA já havia explorado estes sentimentos de nostalgia e perdição políticas na sua maravilha hippie, alucinógena “Vício Intrínseco” (“Inherent Vice”) e este novo filme quase se trata de uma sequela espiritual – não partissem ambos de obras de Thomas Pynchon – agora adaptado ao contemporâneo retro que habita e mais vincadamente explícito na sua sátira ideológica.

Após todo o absurdo da fuga política que depois se transforma em resgate familiar que serve de narrativa ao filme, lá encontram Bob e Willa Ferguson a paz mútua. Ambos torturados pelos magoados sonhos do passado, agora firmes no presente e de olhos postos no futuro. Bob tira selfies com o seu novo iPhone, o seu antigo e hilariante telefone a cabo presumivelmente no lixo em conjunto com as suas paranoias em frustração pessoal, enquanto guia a filha para mais um protesto antirracista, a seguir as pisadas da mãe apenas ausente em presença física. Enquanto a classe dominante continua a canibalizar-se pelas suas hipocrisias, tais frustrações descarregadas nos mais vulneráveis, heróis sem capa como o sensei de karatê de Willa, Sergio Carlos (Benicio Del Toro), organizam caminhos de liberdade e esperança para estes num estado que tais vias lhes retira e depois culpa pelos seus podres. De Nixon a Trump, dos hippies aos novos teóricos online, da mansão de um solitário Daniel Plainview até à barraca que Bob e Willa partilham, o sol californiano nunca cessará de iluminar. O tempo apenas passa, as tecnologias mudam, a vida continua e a luta também, pois é para isso que existe. Espero que Paul Thomas Anderson também tenha encontrado a paz consigo mesmo.

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