Beijos e cerejas de maio
Maio. A meu lado, um estranho pega numa caixa de cerejas. Eu vou com três maçãs. Gosto mais de cerejas, mas convém trazer maçãs. Depois pega numa caixa de uvas e eu em três pêras: gosto mais de uvas, mas convém levar pêras.
É que logo à noite sobrarão. O único encosto no sofá é o do meu coração à cabeça, sussurrando-lhe:
«Sentes-te sozinho?»
Não, não, estou muito bem, obrigado. Lá está esse bicho chato e sentimental com perguntas nada a ver. Não vês que tenho de escrever, que aquele jornal (de referência) me espera a reportagem e saber o que senti quando passei naqueles sítios? Não vês que sou especial? Não consegues perceber que está tudo bem os pais tão bem a big city já é small e o mundo é meu?
Sei que é maio e que há fruta para dois, sim, mas estou feliz com a maçã que evita dedos entrelaçados calor contacto talvez uns beijos sorrisos um plano de férias casa frente ao mar. Sei que é maio e que os teus dedos de pétalas já abriram mas não os quero não quero cerejas dá-me a minha maçã, minha maçã de dezembro que não me deixa frente ao mar mas frente à pista por correr a city o alcatrão esperam ainda tantas coisas de mim.
Pedes-me que sinta a brisa a noite o calor. Que brisa sinto somente vento ouço apenas o vento de dezembro que me planta frente à secretária com esta maçã e faz de mim um homem sério como o meu avô bisavô trisavô. E pago contas e multas. E lembro-me de que um homem à secretária pode ser mais perigoso do que uma arma carregada e recomponho-me sinto-me logo bem tenho onde escrever onde falar o que há uns anos tanto queria.
Tenho isto sou talvez isto mas vou-te contar um segredo o que eu mais queria era mesmo as cerejas entrelaçar a minha mão na tua depois a língua e de tantos beijinhos acerejados manchar-te de nódoas o pano branco da tua cara. Nódoas tão vermelhas que um dia na frutaria lembrar-te-ás que nunca foram as mais felizes mas foram sempre as mais docinhas.
Tira-me do alcatrão dá-me a brisa e também maio que o quero. Mostra-me os lírios no campo e o regresso das andorinhas. Esquece o IRS já o submeti. Leva-me à praia compra um daqueles pufes traz cerejas cervejas ou uvas em gelo. Porque eu não quero isto eu não quero isto.
Agarra-te ao meu coração puxa puxa puxa vamos nele à descoberta ele aguenta é grande e está calejado. Ata uma corda a terra talvez à casa dos teus pais como preferires mas vem comigo confia em mim puxa puxa rema rema estamos quase lá. Um dia seremos felizes eu juro meu amor uma casa em Aver-o-Mar quem sabe camarão al ajillo e costeletas. Só peço que me arranques deste alcatrão e perguntes o que me falta. E eu, com as mãos lambuzadas de cerejas:
«Talvez companhia».
Sugestões do cronista:
Nos livros comecei “Retrato do artista quando jovem”, de James Joyce, tradução de Alfredo Margarido (ed. Difel): não preciso de passar de metade do livro para recomendá-lo. Na poesia, «Toda a Terra», de Ruy Belo (ed. Assírio e Alvim) fez-me as maravilhas de umas férias no Algarve: «Que é feito do verão que é efeito dessa pausada estação/ onde eu sem saber cavara os alicerces da minha vida que é feito/ dos olhos sérios e dignos dessa criança ameaçada pelo fim do verão / (…) Agora sim agora estarei inquieto e triste por saber mais profundamente / do que uma unha cravada na carne que alguma coisa sem remédio acabou». Entretanto, nesses passos algarvios, esfolei-me com uma feijoada de gambas no restaurante “O Golfinho”, na Praia do Barranco em Albufeira. Na música, Chico da Tina reabriu-me as portas do verão com Vícios.
