Brad Pitt sobre “Heróis Inseparáveis”: “É o cuidado, o amor e a lealdade que mantêm as duas personagens ligadas ao longo do filme”
Paulo Portugal no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián.
“Trabalhar com um cão foi realmente muito bonito.” Foi assim que Brad Pitt resumiu uma das experiências centrais da rodagem de Heart of the Beast – Heróis Inseparáveis (chegou às salas de cinema hoje dia 24), de David Ayer, apresentado esta quarta-feira na Selecção Oficial, fora de competição, do Festival de San Sebastián. O actor regressou ao Zinemaldia 17 anos depois da sua última passagem, quando acompanhou Quentin Tarantino na apresentação de Inglourious Basterds.
O regresso começou, aliás, antes da conferência de imprensa. Desde as primeiras horas da manhã, centenas de pessoas concentraram-se junto ao Hotel María Cristina, algumas esperando durante horas por alguns segundos diante da estrela de Hollywood. Quando Pitt chegou, deteve-se para cumprimentar os fãs, tirar fotografias e assinar autógrafos. A cidade preparava-se assim para receber não apenas o actor de Heart of the Beast, mas uma das figuras mais reconhecíveis do cinema contemporâneo.

Na conferência de imprensa, Pitt falou sobretudo do filme e da relação entre James Belmont e Odin, o cão de combate que o acompanha. Depois de um acidente de avião, o antigo oficial das Forças Especiais e o animal ficam isolados no Alasca, obrigados a enfrentar as condições extremas da natureza e as marcas do passado militar.
É, durante grande parte do tempo, um filme de duas personagens — e quase nada mais. J.K. Simmons aparece numa breve sequência no início; Anna Lambe surge já no final. Pelo meio, a narrativa pertence praticamente por inteiro a Brad Pitt e ao cão Odin. As únicas interrupções são os flashbacks e pesadelos de ambos, que recuperam fragmentos da experiência de combate.

“Estávamos a tentar mostrar um homem e o seu cão que tinham sofrido ambos esse tipo de perda e que tinham visto coisas terríveis”, explicou Pitt, referindo-se às feridas físicas, psicológicas e morais provocadas pela guerra.
A relação entre os dois é, para o actor, o verdadeiro centro do filme. “Foi mais a ligação entre eles, como se lutássemos mais por outros do que por nós mesmos”, afirmou. “Foi esse tipo de cuidado, amor e lealdade que os mantêm ligados ao longo do filme.”
A experiência de trabalhar com Odin ocupou uma parte significativa da conversa. Pitt destacou as condições da rodagem — frio, chuva e longas jornadas de trabalho — e o facto de o animal ser um cão verdadeiro. “Gosto do facto de ser tudo real”, disse. O realizador David Ayer acrescentou que Odin tinha praticamente o estatuto de qualquer outro actor: cabeleireiro, maquilhagem, guarda-roupa, camião próprio, lugar para dormir e tenda.
Heart of the Beast é, portanto, antes de mais, um exercício de sobrevivência. A dimensão física da aventura aproxima-o de uma tradição do cinema americano em que o homem é confrontado com uma natureza hostil. A certa altura, é inevitável lembrar Deliverance (1972), de John Boorman. Mas aqui a expedição é reduzida a uma espécie de versão a solo: não há grupo de homens, apenas Brad Pitt e Odin perante a paisagem do Alasca.
O próprio Pitt prefere sublinhar outra dimensão do filme. “É uma história de sobrevivência, mas, em última análise, precisa de ser uma história”, afirmou. E acrescentou que deveríamos prestar mais atenção àquilo que temos em comum: “aquilo que nos une, aquilo que nos liga”.
Enquanto Pitt falava da importância dessa ligação entre personagens, do lado de fora do festival San Sebastián continuava a produzir uma outra narrativa: a da estrela e do público. As horas de espera junto ao María Cristina, as barreiras, os telemóveis levantados e a procura por uma fotografia ou um autógrafo lembravam que, para além do filme, existe ainda toda uma maquinaria em torno das estrelas. Em San Sebastián, Heart of the Beast – Heróis Inseparáveis trouxe um homem e um cão para o meio da natureza selvagem. Brad Pitt trouxe Hollywood para o centro de San Sebastián.
