Carnaval do Rio de Janeiro: um lugar onde só se quer amar

por Rui Maciel,    30 Março, 2026
Carnaval do Rio de Janeiro: um lugar onde só se quer amar
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O Carnaval do Brasil não é apenas uma festa, é uma suspensão da realidade. Durante alguns dias, tudo aquilo que regula o comportamento quotidiano, normas sociais, expectativas, contenção, perde força, como se nos tirassem as algemas que nos regulam o comportamento. Numa sociedade moldada por regras invisíveis e constantes, o Carnaval surge como uma rutura coletiva, um espaço onde o excesso não só é permitido, como esperado. Entre música, corpos em êxtase e ruas tomadas por multidões, instala-se uma liberdade rara, quase primitiva, que parece devolver o mundo a um estado mais instintivo e humano.

Julgo que existe uma dimensão espiritual no Carnaval que tende a ser ignorada. À luz da tradição cristã, esta festividade é, por definição, um momento profano, um intervalo de excesso que antecede a contenção da Quaresma. Mas as suas raízes parecem recuar ainda mais, até rituais como a Saturnália, em honra de Saturno, ou a Anthesteria, dedicada a Dionísio, onde a suspensão, ou mesmo inversão, das normas sociais era fulcral. Esse traço persiste: durante um breve interlúdio, o mundo reinventa-se e aquilo que é normalmente proibido torna-se permitido. 

No Brasil, essa rutura manifesta-se com particular intensidade. Gestos que fora dali seriam julgados tornam-se banais. Dão-se beijos de língua a desconhecidos, abraça-se sem critério. Os corpos aproximam-se sem culpa. Para muitos, sobretudo as mulheres que são sujeitas a um escrutínio sexual constante, essa inversão representa uma forma ainda mais concreta de liberdade. Há, neste excesso ritualizado, algo profundamente humano, não se tratando de um desvio, mas de uma necessidade. Num tempo em que os rituais se diluem, o Carnaval permanece como um dos raros momentos em que essa dimensão ancestral ainda se faz sentir.

É precisamente nos blocos de Carnaval que essa experiência ganha forma. Nunca estive num lugar onde essa suspensão das normas fosse tão acessível e partilhada por todos. Há uma libertação quase imediata, de energia, de estímulos, de corpo, rara numa sociedade habituada à contenção e à performance social. Nos blocos, o cenário roça o dantesco: rostos mascarados, álcool a circular sem critério, música estridente, corpos colados, beijos carnudos, dança incessante. É um convite permanente ao excesso, ao descontrolo, algo que noutro contexto seria considerado pecado. Mas ali, essa transgressão não só é permitida como esperada. E é precisamente isso que arrasta até os mais contidos para dentro de uma vertigem de sentidos.

Quando se entra num bloco, a emoção floresce pelos poros da nossa pele. Os corpos amontoam-se, os ombros deslizam entre suores. A música mexe os nossos pés, os tambores marcam o ritmo do nosso coração. Os beijos à nossa volta despertam o nosso olhar e a nossa mente mergulha em pensamentos lascivos. Há gente com pistolas de água a disparar para aliviar o calor ou para procurar alguma interação social. A música acelera. Ecoa uma música de Tim Maia. Entretanto, os nossos amigos perderam-se, mas não estamos sozinhos. Há gente para dançar e, enquanto observamos esta festa, sorrisos são lançados que nos indicam que alguém quer receber um beijo. Há decisões constantes a serem tomadas. Beijamos ou não beijamos. Bebemos mais ou não bebemos. Vamos buscar os nossos amigos ou não; será que eles tão bem. Isto tudo sob um sol tórrido que cria uma cascata de suor nas nossas costas. É preciso ir beber água.

Pelo meio, há vendedores que labutam no meio daquela festa. Vendem águas, chopps, Beatz, meio sorrindo, meio queixando-se da sua vida, porque os festeiros não respeitam o andar dos seus carrinhos. Outras vezes, são a alegria do bloco, porque atiram água para o alívio de quem está à sua volta. Mas há um contraste impossível de ignorar. No meio do excesso e da libertação, há quem esteja ali por necessidade. Gente que vem das periferias, todos os dias, para garantir o sustento naquele mesmo espaço onde outros procuram esquecer tudo. O profano, para uns, é celebração; para outros, é sobrevivência.

O bloco, entretanto, continua. Quando regressamos dos nossos pensamentos, a festa ainda não parou. A nossa individualidade vai-se fundindo. O mundo é aquele bloco naquele momento, e os passos são marcados pela banda que vai parando e arrancando. Às vezes há amontoados tão grandes, que cheguei a ouvir “Peço perdão, mas eu não me quero fundir com esse menino.” E entre sorrisos e desespero, somos empurrados para dentro da multidão.

Entretanto, são duas da tarde e o álcool já não é só celebração, é também recurso. A água desapareceu dos vendedores. O calor continua uma ameaça, os olhares multiplicam-se, alguns cúmplices, ainda à procura de um beijo, outros atentos, como se a qualquer instante algo pudesse acontecer. Há uma tensão subtil que atravessa o bloco entre o festejo e o alerta. Um amigo levanta o telemóvel para registar a alegria do bloco, mas o gesto é imediatamente acompanhado por um reflexo coletivo.  Os amigos à volta rodam as cabeças à procura de sinais, de ameaças invisíveis. Mesmo no auge da entrega, nunca se perde totalmente a consciência do risco que é estar no Rio de Janeiro.

No fim de cada bloco, há sempre um amigo que pergunta: “Onde é o próximo?”. No Rio de Janeiro, durante o Carnaval, a festa não termina, desloca-se. A cidade transforma-se num circuito contínuo de música e multidões, onde há sempre algo a acontecer, seja madrugada ou início de tarde. Para os que vivem desta energia, apelidados no Brasil de carinhosamente “inimigos do fim”, o cansaço é motivo para continuar. Só os verei no dia a seguir na praia, caídos na sua canga sobre o peso do seu cansaço.

Contudo, há um lado menos visível nesta intensidade que vale a pena reconhecer. Viver o Carnaval no Brasil é um teste de resistência. Os dias começam cedo, os blocos iniciam-se logo pela manhã, deslocamo-nos sempre pelo meio das multidões, e o calor drena-nos a energia através do nosso suor. O que à distância parece leve transforma-se, na prática, numa maratona. Mas há algo de curioso nisso: o cansaço não diminui a experiência, faz parte dela. No fim de cada dia, o corpo sente o peso de tudo o que viveu, como uma prova concreta de que se esteve mesmo ali, por inteiro. A tristeza do final do dia é a testemunha de que alguém viveu naquele dia.

É importante mencionar que para os portugueses, viver o Carnaval no Brasil tem um significado particular. É um encontro com algo simultaneamente distante e familiar. Do outro lado do Atlântico, tudo parece novo: os ritmos, a escala, a intensidade. Porém, a língua cria uma ponte invisível que nos liga a essa cultura. Podemos não ser meramente espectadores, mas atores ativos, compreendendo, participando, misturando-nos. Não lhe pertencemos, mas, através da língua, conseguimos habitá-lo por dentro. 

O Carnaval do Brasil revela-se como uma celebração rara da liberdade e da própria vida. Nunca tinha estado num lugar onde os sentidos comandassem tudo com tanta intensidade, onde o corpo dita o ritmo e o pensamento cede lugar à experiência. Há uma reconexão primitiva com o que somos, tanto na relação com o próprio corpo como na comunhão inesperada com os outros. Durante aqueles dias, tudo se reduz ao essencial: sentir, partilhar, existir sem filtros. E talvez seja isso que mais marca, não a festa em si, mas a sensação inquietante de que nos blocos fomos feitos para ser felizes. 

Sugestões do cronista:

Este episódio da Rádio Novelo fala sobre o 474, um autocarro no Rio de Janeiro que expõe a profunda desigualdade social e económica da cidade carioca. Trata-se de um “ônibus” que liga o norte da cidade, a zona pobre, ao sul da cidade, a zona rica. Ouvir este podcast é essencial para quem quer compreender melhor as dinâmicas sociais do Rio De Janeiro e perceber como o desenho dos transportes públicos pode desempenhar um papel fundamental na promoção da coesão social.

The Sun Also Rises, de Ernest Hemingway, é um excelente exemplo de como é possível escrever um grande livro onde tudo acontece nas entrelinhas. O início pode exigir alguma adaptação, mas, à medida que se entra no estilo, somos naturalmente transportados para a Paris e a Pamplona dos anos 20. Sentimo-nos sentados com as personagens num café, enquanto expõem as suas tensões e intrigas pessoais. É também um retrato marcante da chamada Geração Perdida, que viveu o trauma da Primeira Guerra Mundial e mergulhou na intensidade dos loucos anos 20.

O cantor Tim Maia tem algo raro: ao ouvi-lo conseguimos ver o seu sorriso. No Carnaval, isso torna-se ainda mais evidente. As músicas dele ecoam em vários blocos, contagiando toda a gente. “O Descobridor dos Sete Mares”, “Só Quero Amar”, “Que Beleza” são apenas alguns exemplos de como o seu repertório transforma qualquer momento numa celebração da vida.

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