Cenas da vida parental

por Martinho Lucas Pires,    14 Julho, 2025
Cenas da vida parental
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Houve um tempo em que escrevia sobre crises financeiras e o diabo a sete. Agora bebo quatro cafés por dia. Junto dois ao pequeno-almoço, e distribuo os restantes pela tarde. Procuro não passar este limite, mesmo que me apeteça, e só Deus sabe o quanto me apetece, dia sim, dia sim. O truque é ter açúcar por perto, de preferência no formato de areias. Manteiga, farinha, açúcar: uma santíssima trindade que raramente falha.

Quero contemplar. Voltei a fazer sestas e o sentimento não é desagradável. Lá fora, o tempo está mais fresco, ameno, confortável. Pelo menos de dia. De noite, ainda faz algum calor no quarto. Talvez seja da humidade. Fecho as janelas antes de acender as luzes, não vão aparecer melgas a sondar-nos as cabeças e os braços, em busca de um petisco noturno.

Agora, quando durmo, durmo pouco, mas muito profundamente. Tive este sonho no outro dia. Estava numa casa portuguesa, com certeza, sentado numa cadeira em frente a uma mesa de madeira, coberta com toalha de plástico. À minha frente estava sentado um homem que era meio Harry Dean Staton (versão Twin Peaks: The Return), meio Bill Callahan (eterno, eterno estilo), vestido com uma camisa verde de manga curta, que falava comigo sobre literatura, gatos, o ChatGPT que está no computador da mulher, e Alfama. Eu sei que este homem era o Rogério Casanova, e que toda esta conversa era para me dizer uma coisa: e o teu romance, Pires?

Quando acordo, olho para o António. Sorri, abre os braços. Quer conversa, ou pelo menos uma aparência de. Digo-lhe olá, faço perguntas, atiro onomatopeias para o ar. Ele sorri, abana os braços, e depois pára. Fica muito sério, com o olhar franzido, fixo num ponto qualquer. Tem os olhos escurecidos, pode ser que eu lhe tenha passado a cor. Ou então é outra, só dele, apesar de toda a genética que carrega. Um olhar atento, carregado, procurando capturar tudo o que consegue. Pergunto-me que imagens estará a construir, que mundos irá ocupar na sua mente, nos seus sonhos. Pergunto-me igualmente quantos cafés irá beber no futuro, quando se tornar pai pela primeira vez. Pergunto-lhe se pensa, sequer, no meu romance.

No outro dia fomos os três às vacinas. Quando chegámos ao centro de saúde apercebemo-nos de que nos faltavam duas: estavam no frigorífico, em casa, na prateleira do meio, pois segui escrupulosamente a arrumação sugerida pelas farmacêuticas da esquina. Saí do centro a correr em direção a casa, na esperança de as trazer a tempo da nossa consulta. Cheguei até ao instituto de medicina legal e vi um táxi a chegar. Parei-o, e reconheci imediatamente o condutor — era nada mais, nada menos do que Kurt Vonnegut, icónico autor de Matadouro n.º 5, talvez o melhor livro que li no ano de 2017, quando achava que o céu nunca seria para mim. Se não era ele, era pelo menos uma versão muito, muito idêntica, mas com sotaque de Massamá. Levou-me a casa e depois ao centro, onde entreguei as vacinas a tempo. Disse-me, antes de me deixar, que as pessoas estavam a conduzir cada vez pior, desejou-me saúde e, no fim, quando já estava a abrir a porta, atirou-me: e o teu romance, Pires?

O romance, o romance. Ora, o romance tem três capítulos; reescrevi-os mentalmente a todos, enquanto embalava o António na sala, nas várias manhãs que temos passado juntos. Comecei pelo segundo, mas rapidamente passei para o terceiro, antes de voltar ao segundo e de acabar, agora, no primeiro. Para concretizar o desejo é preciso saber ouvir a sua voz. Segui-la, depois, é apenas uma questão de agenda. A minha tem estado ocupada, o que não quer dizer que a organização recente não ajude, e não venha a ajudar cada vez mais.

Ainda assim, todos precisamos de um impulso. O meu está no céu, e nas palavras que não abrem, mas podiam abrir, o White Album de Joan Didion: somos todos uma história que apenas espera existir. O que é que isto quer dizer, Pires? Que é verão, e no verão as coisas são de uma doçura única. Aguardo não o calor, mas o seu efeito: a expansão físico-química das partículas e do tempo, que me fazem ganhar todo o fôlego para, de uma assentada, escrever. Que assim seja.

Sugestões do cronista:

The White Album, de Joan Didion. As novas canções de Alex G e Big Thief. Os novos discos de Kali Uchis e de US Girls. O início da pré-época futebolística, o julgamento da Operação Marquês, a entrada na silly season, Elderberry Wine dos Wednesday, as sardas da Carolina num dia de sol e o olhar do António preso no meu, como quem pergunta: e tu, o que é que estás a ver?

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