Chernobyl: 40 anos depois do desastre 

por José Malta,    26 Abril, 2026
Chernobyl: 40 anos depois do desastre 
“D. Markosian: One Day in the Life of Chernobyl”, VOA News, / via Wikipédia

Na madrugada do dia 26 de abril de 1986, um acidente na central nuclear V. I. Lenine em Chernobyl, na então República Socialista Soviética da Ucrânia, pertencente à União Soviética, ficaria para a história como um dos mais graves desastres nucleares que o mundo testemunhou. O que parecia um acidente vindo do acaso que se transformou numa tragédia sem precedentes foi, na verdade, um erro de origem humana que ocorreu devido ao design do reator nuclear em causa. Tudo começou com um ensaio de segurança que acabaria por levar ao colapso do reator número quatro e à libertação de várias substâncias radioativas e radiação ionizante. O episódio deixaria marcas duradouras na região e nas populações que se encontravam na chamada Zona de Exclusão, correspondente a um raio de 30 quilómetros do epicentro do acidente. Os habitantes de Pripyat, cidade próxima onde grande parte dos trabalhadores da central nuclear vivia, foram obrigados a deixar as suas casas na expectativa de ser algo temporário, até a radiação resultante decair, havendo condições que salvaguardassem a vida destas pessoas no seu normal quotidiano. 40 anos depois do acidente, esse regresso nunca chegou a acontecer.

Antes do acidente

Até ao dia 25 de abril de 1986, Chernobyl era uma pequena localidade conhecida por abrigar uma enorme central nuclear, e Pripyat uma cidade pacata no norte da então República Socialista Soviética da Ucrânia. A história de Chernobyl remontava ao século XII, e Pripyat foi praticamente construída para abrigar os trabalhadores da central nuclear, situando-se a três quilómetros e contando com cerca de 50 mil habitantes à data do acidente. Possuía infraestruturas modernas, como hospitais, escolas, pavilhões desportivos, superfícies comerciais, atividades lúdicas e culturais, piscinas e, ainda, um parque de diversões com uma roda gigante que abriria no dia 1 de maio desse mesmo ano, feriado que foi sempre celebrado de forma entusiasta e efusiva na União Soviética. A floresta era também uma das características da cidade, que se encontrava no meio de um ecossistema fascinante repleto de árvores e de vários animais selvagens.

Fotografia do reator 4 vários meses após o desastre. O reator 3 pode ser visto atrás da chaminé de ventilação / via Wikipédia

A central de Chernobyl, inaugurada na década de 70, com o nome de Vladimir Ilich Lenine, era uma central nuclear que utilizava reatores do tipo RBMK (Reaktor Bolshoy Moshchnosty Kanalnyy), um design soviético cuja sigla significa Reator Canalizado de Alta Potência. Produzia eletricidade para a região, sendo uma das maiores e mais importantes centrais nucleares da União Soviética. O principal responsável era Viktor Bryukhanov, que acompanhou tudo desde a sua construção até à sua implementação e modernização. A central era composta por quatro reatores RBMK, sendo que o terceiro e o quarto reatores foram construídos depois dos dois primeiros, em simultâneo. Outros dois reatores, estavam a ser construídos com o objetivo de produzirem energia no final da década de 80.

A República Socialista Soviética da Ucrânia era uma das principais fornecedoras de energia da União Soviética, sendo uma das repúblicas mais desenvolvidas do país, com uma larga abundância de recursos naturais. Era uma referência na produção de aço, carvão, máquinas e artilharia, e uma referência no setor agrícola, como produtora exímia de cereais, e também no setor energético sendo uma produtora de energia em grande escala. O líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, que tomou posse em 1985, tinha em mãos uma economia inflacionada, enfrentando uma crise que o obrigaria a adotar medidas específicas. Como tal, resultaria a aplicação da Perestroika, que em russo significa reestruturação, e que visava à adoção de uma economia de mercado, mais aberta, de forma a salvar a crise em que a União Soviética se encontrava. A outra medida, Glasnost, que em russo significa transparência, visava a uma maior liberdade de imprensa e à conceção de diferentes ideologias dentro da União Soviética, e acabou por ser um complemento à Perestroika. 

As medidas relativas à Perestroika teriam sido implementadas em 1985, logo após a tomada de posse de Gorbachev, e a Glasnost seria uma resultante a ser aplicada no ano seguinte. Esta reestruturação implicaria também uma maior exploração de recursos e uma melhoria da eficiência energética do país que contava com cerca de quinze centrais nucleares, cinco das quais na região da atual Ucrânia, e as restantes espalhadas pela atual Rússia. Tudo indicava que as medidas da Perestroika e da Glasnost pudessem vir a rejuvenescer a União Soviética, que enfrentava a sua maior crise desde a sua existência. Porém, o acidente nuclear em Chernobyl, viria a mudar por completo um eventual cenário de recuperação económica e social, sendo uma dura derrota que a União Soviética tivera que admitir perante os adversários do ocidente. Mikhail Gorbatchev, escreveu em 2006, 20 anos após o desastre, que o acidente de Chernobyl, mais do que a sua ideia da Perestroika, foi talvez a verdadeira causa do colapso da União Soviética. Chernobyl seria assim o princípio do fim da União Soviética, que seria oficialmente dissolvida cinco anos mais tarde, em 1991.

Os reatores nucleares

Em 1938, Otto Hahn e Fritz Strassmann bombardearam átomos de urânio de núcleo atómico 235 com neutrões, que se dividiu em dois núcleos mais leves, nomeadamente bário e krípton, libertando uma enorme quantidade de energia juntamente com outros neutrões resultantes. A explicação teórica deste fenómeno viria a ser comprovada no ano seguinte por Lise Meitner e Otto Frisch (sobrinho de Lise Meitner) e que viria a ficar conhecido como fissão nuclear. Para além dos neutrões altamente penetrantes, também são libertadas radiações ionizantes, isto é, radiações suficientemente fortes para remover eletrões dos átomos, provocando, por exemplo, a desintegração de moléculas. As radiações ionizantes mais conhecidas são a radiação alfa, que embora pouco penetrante é extremamente ionizante, a radiação beta, que tem um nível de penetração maior mas um nível de ionização relativamente mais baixo do que a alfa, e a radiação gama, que é menos ionizante e altamente penetrante.

Imagem de satélite da central nuclear e da área circundante, que inclui a lagoa de refrigeração dos reatores / NASA Earth Observatory via Wikipédia

Em 1942, Enrico Fermi e a sua equipa de investigação construíram aquele que viria a ser o primeiro reator nuclear, batizado apenas com o nome “pilha”, o famoso Chicago Pile-1. Em fevereiro do ano seguinte, fora construído um segundo reator nuclear no Laboratório Nacional de Oak Ridge, em Tennessee, como resultado do sucesso da “pilha” de Fermi. O X-10 Graphite Reactor seria o primeiro a operar em contínuo, o que permitiria obter, neste caso, plutónio em quantidades consideráveis a partir de urânio. Este foi o momento de partida em que a humanidade verificou que conseguiria produzir reatores em larga escala que pudessem gerar grandes quantidades de energia. A construção destes reatores nucleares e os seus estudos foram efetuados em paralelo, enquanto Fermi trabalhava no Projeto Manhattan, que visava o fabrico da primeira bomba atómica, em plena Segunda Guerra Mundial.

Os reatores RBMK tinham combustível nuclear (urânio), um moderador que reduz a velocidade dos neutrões (grafite), e um líquido de refrigeração (água). A fissão nuclear do urânio faz com que se liberte energia na forma de calor. A grafite desacelera os neutrões, permitindo que continuem a ocorrer sucessivas fissões até que o combustível se esgote, provocando assim uma reação em cadeia. A água circula por canais ao redor do combustível, absorve o calor, transformando-o em vapor que se expande diretamente para as turbinas, gerando energia elétrica. Devido à quantidade de água necessária, esta é a razão pela qual grande parte das centrais nucleares se encontra à beira-rio ou próxima do mar. A central de Chernobyl encontrava-se próxima de rio Pripyat um afluente do Rio Dnieper que hoje percorre Rússia, Bielorrússia e Ucrânia

Estes reatores possuíam vantagens como o facto de poderem ser abastecidos com combustível durante a operação, mas possuíam desvantagens relativamente aos reatores ocidentais. Apesar do seu baixo custo de implementação, apresentava maior instabilidade e coeficiente de vazio positivo. Isto é, o modo como a reatividade do reator varia com a transformação de água em vapor, conduziria a um aumento de potência, causado pelo aumento de fissão. Tal poderia ser aparentemente vantajoso. Porém, no caso de uma simples falha, poderia eventualmente causar uma tragédia. Durante anos e anos, ignorou-se que essa falha pudesse vir a acontecer. O inesperado e o quase impossível, na madrugada do dia 26 de abril de 1986, no quarto reator da central nuclear V. I. Lenine em Chernobyl, quando o botão AZ-5 foi acionado para parar uma reação durante um ensaio de segurança.

A cronologia do acidente

No dia 25 de Abril de 1986, o engenheiro chefe-adjunto, Antony Dyatlov, tinha em mente a preparação um teste ao reator número quatro, algo que tinha discutido com o próprio responsável da central, Viktor Bryukhanov e com o engenheiro chefe Nikolai Fomin. O objetivo seria verificar se a turbina poderia gerar energia suficiente em caso de falha elétrica e todo o processo ocorrera na sala de controlo, quando se deu início ao ensaio de segurança. Os sistemas de segurança foram reduzidos para permitir o teste, o que levaria a que o reator operasse a uma potência baixa, porém instável, algo que ocorrera às 00h38, já na madrugada do dia 26 de abril. O procedimento era aumentar novamente a potência do reator e verificar se a turbina poderia gerar energia suficiente em caso de falha elétrica. Porém, tudo mudaria quando passassem 40 segundos da 01h23. Como qualquer reator nuclear, os RBMK tinham um botão que faria com que praticamente se desligassem em caso de emergência. Ao ser acionado, todas as barras de controlo são acionadas, o que reduz a reatividade e leva ao término da reação. No caso do modelo soviético, o botão era o AZ-5 (Avariynaya Zashchita 5), que significa “Proteção de Emergência – 5ª Categoria”. 

Perante o modo como o teste tinha sido feito, e dada a implementação das barras, este botão teria um efeito contrário. A instabilidade da potência durante o ensaio indicaria que o teste estava a correr da pior forma. O AZ-5 fora acionado por um dos homens na sala de controlo, Leonid Toptunov, sobre pressão na sala de controlo. As barras eram feitas de boro, o que reduz a reatividade devido ao boro conseguir absorver os neutrões. Contudo, as pontas destas barras eram feitas de grafite, que por sua vez dariam continuidade à reação. Esta foi a maneira mais barata e prática destas barras serem implementadas nos reatores RBMK. Quando foram acionadas, as primeiras pontas que entraram no reator, feitas de grafite, fariam com que a reatividade, por instantes, aumentasse, o suficiente para causar uma catástrofe.

O AZ-5, que tinha como fim parar a reação, fez com que esta tivesse continuidade e a potência do reator aumentasse abruptamente. Ao ser acionado, a grafite desacelerou os neutrões, permitindo que a reação se desenrolasse, e toda a água em volta do reator foi convertida em vapor de forma praticamente instantânea, devido ao efeito de vazio positivo característico dos reatores RBMK. O reator número quatro passaria a operar a uma potência cerca de 10 vezes superior ao seu máximo e o aumento abrupto de pressão foi verificado nas turbinas e o reator número quatro preparava-se para explodir devido a alta pressão provocada pelo vapor e pelo hidrogénio. Com a entrada de oxigénio da atmosfera que se manteve em contacto com a grafite a alta temperatura, esta entra em combustão total, culminando numa tempestade perfeita. O reator RBMK, que ninguém acreditava que viesse a colapsar, acabaria por fazê-lo. O mundo testemunharia, pela primeira vez, um desastre nuclear em massa como nunca existira. 

Os alarmes soaram, acionando as manobras de emergência. Os bombeiros e as ambulâncias, com profissionais médicos, dirigiram-se ao local para combater as chamas e salvar a vida dos trabalhadores da central. Não demorou muito para que estes homens sentissem a radiação proveniente do acidente, que lhes causaria graves queimaduras, vómitos e mazelas para o resto das suas vidas e, em muitos casos, falência de órgãos e morte, passadas horas ou escassos dias. O que se julgava ser um simples acidente de uma fábrica, tornou-se palco de um das maiores tragédias nucleares de que há memória.

O incêndio libertara chamas de cor forte e substâncias radioativas, nomeadamente elementos como césio-137, iodo-129, iodo-131, estrôncio-90, bem como o vapor que se misturara com partículas radioativas que se alastravam além fronteiras. Estima-se que a radiação no núcleo do reator tenha atingido 300 sieverts por hora, uma quantidade mais de 100 vezes superior àquela considerada letal para o ser humano. A radiação ultrapassou as fronteiras da União Soviética no dia seguinte ao acidente, chegando à Escandinávia. Uma nuvem rica em Xénon-133 e outras partículas radioativas, aumentaria os níveis de radiação da atmosfera, algo que deixaria a União Soviética em apuros, numa altura em que esta procurava o rejuvenescimento através das políticas implementadas por Gorbachev. O mundo ficaria a saber que algo de grave acontecera. Durante cerca de duas semanas, grande parte da União Soviética não teve conhecimento do acidente, havendo grande limitação da circulação da informação, até ao líder Mikhail Gorbachev se ter dirigido em canal aberto a todos os sovietes sobre o que se passara em Chernobyl no dia 14 de Maio. 

Gorbachev admitiria a existência do acidente, bem como as medidas a serem tomadas, de forma a salvaguardar a segurança das populações. Reivindicaria ainda a importância da energia nuclear para o país e insurgir-se-ia contra as supostas mentiras propagadas pela NATO e pelos adversários do Ocidente, que seriam usadas para fragilizar a União Soviética. Não adiantaria muito. O mundo teria conhecimento do acidente e o primeiro grave acidente nuclear ocorreria oficialmente na União Soviética. Milhares de pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas devido às condições adversas provocadas pela radiação, nomeadamente aquelas que se encontravam na chamada Zona de Exclusão, que engloba um raio de 30 km com centro na central de Chernobyl. Vários autocarros transportaram milhares de pessoas nas proximidades para regiões da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia. Tudo apontava para que fosse algo temporário, que durasse, no máximo, algumas semanas. 40 anos depois do acidente, o regresso das populações movidas das suas casas nunca chegou a acontecer.

Acidentes nucleares anteriores a Chernobyl

Apesar de associarmos Chernobyl ao nome referente ao maior acidente nuclear que marcou o mundo, acidentes nucleares outros acidentes aconteceram antes. Não tiveram o mesmo impacto, pois não ocorreram numa cidade de escala considerável, nem provocaram um desastre nuclear semelhante. Chernobyl entrou no vocabulário de todo o mundo como o local onde se deu o maior acidente nuclear da história da humanidade. A nível de radiação emitida e prolongada, nem as bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki no Japão em Agosto de 1945, tiveram níveis equivalentes. Outros pequenos acidentes, como o Incêndio de Windscale no Reino Unido, num reator de produção de plutónio, o acidente SL-1 em Idaho, nos Estados Unidos, em que três militares morreram durante a manutenção de um reator nuclear, ou ainda o acidente de Three Mile Island na Pensilvânia, que libertou radiação considerável, obrigaram os Estados Unidos a reformar os protocolos de segurança e proteção radiológica. Este último acidente foi classificado como grau 5, na escala de INES (International Nuclear and Radiological Event Scale), o mais grave à data.

O grande acidente nuclear, que hoje se sabe que ocorreu a 29 de Setembro de 1957 foi o Desastre de Kyshtym, um dos mais graves da história, que se manteve em sigilo absoluto durante décadas, até à dissolução da União Soviética. O acidente ocorreu na instalação nuclear de Mayak, devido a uma falha no sistema de refrigeração de um tanque de armazenamento de produtos radioativos. O calor acumulado provocou uma explosão que liberou uma enorme quantidade de material radioativo na atmosfera. Resultou na evacuação de mais de 10 mil pessoas das suas habitações, sendo que  centenas de milhares terão sido expostas à radiação, ficando a região impedida de ser habitada durante décadas. O governo soviético escondeu o acidente, tornando-se conhecido apenas vários anos depois, muito graças ao cientista dissidente da União Soviética, Zhores Medvedev. Há quem diga que os Estados Unidos terão tido conhecimento através de ações de espionagem, e o pudessem usar contra a União Soviética caso a Guerra Fria escalasse.

Depois de Chernobyl

Chernobyl não foi o único acidente nuclear grave que provocou a libertação de substâncias radioativas e radiação ionizante que colocou em perigo a vida das pessoas à sua volta, e cuja razão só fora obtida após uma investigação minuciosa. Essa investigação foi conduzida por vários cientistas e especialistas, com destaque para Valery Legasov que presidiu à comissão nomeada pelo governo soviético. A comissão governamental foi liderada por Boris Shcherbina, um membro do governo soviético que também teve um papel importante na gestão da crise e no apuramento dos factos. A história desta dupla encontra-se retratada na mini série Chernobyl, exibida em 2019 pela HBO, inspirada no livro Midnight in Chernobyl de Adam Higginbotham. Os três homens com responsabilidades pelo acidente, Antony Dyatlov, Nikolai Fomin e Viktor Bryukhanov, foram julgados e condenados, embora mais tarde tenham sido reabilitados no desempenho de funções. Pensar-se-ia que Chernobyl seria apenas um desastre nuclear ou de radiação singular, numa altura em que os avanços tecnológicos permitiram dar segurança ao nuclear. Contudo, outros desastres ocorreram.

Um ano depois, em 1987, ocorreu um acidente em Goiânia, Goiás, no Brasil, que envolveu um aparelho de radioterapia com césio-137, abandonado num hospital. Foi o maior acidente radioativo da história do Brasil e o maior do mundo devido a uma fonte radioativa fora das centrais nucleares, levando à morte de 4 pessoas, e mais de 1000 pessoas afetadas pela radiação. Em 1999, um acidente nuclear em Tokaimura, no Japão provocou dois mortos e libertou uma quantidade considerável de radiação que levou à evacuação de centenas de pessoas. Foi considerado de grau 4 na escala de INES e deveu-se a uma reação nuclear descontrolada, sendo o último grande acidente nuclear que terá ocorrido no século XX.

O maior acidente nuclear depois de Chernobyl, ocorreu já no século XXI na central nuclear japonesa de Fukushima Daiichi, no Japão no dia 11 de março de 2011. Um sismo na escala de Richter de 9 e o consequente tsunami obrigaram a que o sistema de energia e de refrigeração fossem desligados. Tal viria a causar a fusão parcial de três reatores e a libertação de radiação ionizante, levando à evacuação de cerca de 160 mil pessoas da região. Para além de ter causado grande impacto ambiental e social no Japão, este é considerado o maior acidente nuclear do século XXI. O acidente foi classificado como grau 7 na escala de INES, igual ao do acidente de Chernobyl. Muito recentemente, no passado dia 16 de Abril [de 2026], a central nuclear japonesa de Kashiwazaki-Kariwa, a maior do mundo, que foi encerrada depois do acidente em Fukushima de forma a rever protocolos, começou a fornecer eletricidade depois de ter estado desligada durante mais de 14 anos. A central fora reaberta depois de terem sido asseguradas as condições para a sua normal manutenção, tendo em conta eventuais percalços no futuro. 

O Regresso a Pripyat

Quatro décadas passaram desde que Chernobyl fora despertada por aquele que é considerado um dos maiores desastres nucleares de que há memória. A vida selvagem em Pripyat e em Chernobyl tem vindo a surgir de forma surpreendente nos últimos anos. Um novo ambiente tem tomado conta da cidade, abandonada pelas trevas da radiação que ainda persistem. O cenário tem sido alvo de interesse por parte de curiosos e sobretudo de cientistas, que pretendem estudar o modo como a vida que “desapareceu” à volta de Chernobyl e Pripyat, voltou a reflorescer de forma espontânea. As árvores queimadas pela radiação, que vieram a ser conhecidas por “floresta vermelha”, ganharam outra forma tendo crescido no meio da cidade, ajudando na fixação da radiação no solo. Animais de anteriormente, como lobos, veados, alces, javalis e até mesmo cavalos selvagens, tomaram conta da cidade fantasma que apenas recebe escassas visitas controladas de humanos e algumas de forma clandestina. Pripyat tornou-se num local com dois mundos paralelos: um onde a radiação ainda persiste e onde as condições para o quotidiano humano estão longe de ser as ideais, e outro marcado pela vida selvagem que prospera não só à volta da cidade como também na zona e nos edifícios abandonados. A radiação, que afastou a presença humana, trouxe outras formas de vida que têm despertado a atenção, podendo vir a ser este um renascer das cinzas que ditará um novo capítulo na história de Chernobyl e Pripyat.

O Futuro do Nuclear

A questão da energia nuclear ainda divide alguns especialistas, tendo em conta os seus benefícios e eventuais malefícios caso algo corra mal. É indiscutível que a energia nuclear é uma energia limpa com baixas emissões de dióxido de carbono, altamente rentável, que consegue resolver muitos dos problemas ligados à crise energética. Porém, para além da questões dos resíduos radiológicos inerentes, nem todos os locais têm as condições para conceber uma central nuclear ou recursos que permitam a sua manutenção. Um pequeno acidente, é o suficiente para causar uma catástrofe ambiental e de saúde pública, como se verificou na madrugada do dia 26 de Abril de 1986 em Chernobyl e em muitos outros cenários anteriores e posteriores. A energia nuclear continuará a ser um tema de discussão durante todo o século XXI, dividindo tanto especialistas como intervenientes políticos. É certo que, tendo em conta as centrais nucleares existentes em todo o mundo, estes foram acidentes praticamente singulares, mas suficientemente graves para reconsiderarmos e reavaliarmos as normas e os protocolos em questão. 

Nos registos soviéticos, foram contabilizadas 31 mortes nos primeiros dias após o acidente. Estima-se que, devido aos efeitos de radiação, o valor tenha chegado às 60 mil mortes que ocorreram de forma prolongada, para além das graves mazelas nas gerações seguintes, dos quais muitos nasceram com mutações, vítimas também da radiação resultante. Para além dos habitantes de Pripyat, vários milhares de pessoas tiveram que abandonar o local onde viviam e nunca regressaram até hoje. Estima-se que sejam cerca de 300 mil as pessoas que tiveram de deixar tudo para trás para salvaguardar as suas vidas. 40 anos depois, o fantasma de Chernobyl permanece, com Pripyat como principal rosto desse desastre, tendo sido transformada numa cidade inabitável e ainda longe de poder sê-lo. O futuro da energia nuclear permanece em aberto, exigindo uma reflexão contínua sobre segurança, responsabilidade e sustentabilidade. As feridas causadas por Chernobyl ainda estão longe de sarar, sendo uma lição que permanecerá atual por mais anos que passem, servindo de exemplo para que olhemos para nós e para o mundo que nos rodeia de uma maneira mais ponderada, para que nunca consigamos destruir o nosso presente e o futuro das gerações que hão de vir.

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