Como esquecemos um zoológico humano?
Artigo de Eduardo Esteves e Simão Leal, estudantes do mestrado em História na FCSH-UNL e professores na mesma área.
Volvidos 92 anos sobre a inauguração da Primeira Exposição Colonial Portuguesa, é tempo de inscrever definitivamente a sua memória no espaço público da cidade.
Entre os dias 16 de junho e 30 de setembro de 1934, os Jardins do Palácio de Cristal, no Porto, acolheram a Primeira Exposição Colonial Portuguesa. Ao longo de pouco mais de três meses, o certame atraiu cerca de 1,3 milhões de visitantes, tornando-se num dos maiores eventos públicos da história da cidade.
Numa recriação imaginada da realidade colonial, os jardins foram pontilhados por «aldeias indígenas» habitadas por 324 pessoas oriundas dos diferentes territórios africanos e asiáticos sob jugo português. Expostas ao olhar europeu, estas pessoas foram chamadas a reproduzir as suas vivências quotidianas e culturais num modelo de representação que reduzia a alteridade colonial a espetáculo. Nas palavras de Henrique Galvão, o diretor técnico, tratava-se da «primeira lição de colonialismo dada ao povo português».

Entre os presentes, constava a guineense Rosinha — nome cristão e europeu que lhe havia sido atribuído — e que foi alvo do mais manifesto racismo e violência de género. Fotografada até à exaustão em posições encenadas para tornar mais evidentes os seus seios expostos, Rosinha foi sexualizada pela imprensa e pelo público que acorreu à Exposição. Acabou por ficar em segundo lugar na competição da «Rainha das Colónias», onde a vencedora foi escolhida pela duração do aplauso do público. Venceu Maria, a «Virgem do Quipungo», que tinha 15 anos.
Um outro exemplo é o de Papé, um jovem de 24 anos, descrito como forte e atlético, que faleceu no dia 8 de julho, resultado de problemas cardíacos. Também era original da Guiné, de onde havia partido, para nunca regressar, com as suas irmãs, o seu primo Bako e os homens e mulheres com quem havia crescido. No dia seguinte ao seu funeral, a Exposição bateu um recorde de visitantes — foram 40 mil pessoas num só dia.
Papé ainda lá está, na campa 242 da secção 32 do cemitério de Agramonte. Uma campa sem qualquer identificação e que nada mais é do que um pedaço de terra nua, adornado com uma pequena cruz. Quando a fitamos, somos confrontados com o destino deste homem, com sonhos e medos iguais aos nossos. Um homem que veio para o Porto, como tantos outros, com ideias de «ver a Metrópole», e que acabou apenas visto por ela. Um homem que foi esquecido, que merece recuperar a sua dignidade histórica e um local digno para o seu repouso final.

Recentemente, o Porto tem refletido sobre o seu passado liberal, republicano e antifascista. Jorge Sobrado, vereador da Cultura, defendeu, a propósito da criação do Museu da Resistência e da Liberdade do Porto, «a importância da memória numa política cultural». Porém, essa reflexão permanecerá incompleta enquanto não integrar a história colonial da cidade. Se existe hoje uma preocupação legítima com a criação de um lugar de memória para a luta contra a ditadura, importa também denunciar as violências do colonialismo português, remetidas para as margens da memória pública. E, nesse sentido, os Jardins do Palácio de Cristal podem e devem ser ressignificados como um lugar de memória.
Durante décadas, prevaleceu a ideia de um colonialismo excecionalmente benigno, marcado pela miscigenação, pela tolerância e pela inexistência de racismo estrutural. Findado o império, este imaginário continua bem vivo, mas as suas violências estão frequentemente omissas da discussão pública. É nesse sentido que importa questionar o esquecimento da Exposição Colonial de 1934 – esta expõe uma dificuldade mais profunda da sociedade portuguesa em confrontar criticamente o seu passado colonial.
Foi precisamente para combater esta amnésia que nasceu a Iniciativa Cívica pela Memória Colonial do Palácio. Entre as medidas defendidas pela Iniciativa encontra-se a proposta de instalação de uma placa que contextualize a Exposição Colonial nos Jardins do Palácio de Cristal, a interpretação crítica do Monumento ao Esforço Colonizador, fixado na foz do Porto desde 1984, e a instalação de um jazigo digno na sepultura de Papé. Mais do que propor uma «guerra» contra o espaço, o que está em causa é contar a sua história completa e plural, tornando visível uma narrativa que continua ausente da paisagem mnemónica urbana.
No fundo, a questão é menos sobre o passado do que sobre o presente. Uma democracia mede-se também pela forma como escolhe lembrar. E o império português não foi apenas dos altos heróis, poetas, santos e navegadores, foi também dos senhores negreiros, dos violentos chefes de posto e dos burocratas e ideólogos responsáveis por expor, como animais, homens e mulheres iguais a si.
Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico.
