Companhia do Teatro Oficina, sob a direção de Bruno dos Reis, estreia a peça “Tudo em Avignon e Eu Aqui”

por Lusa,    12 Dezembro, 2025
Companhia do Teatro Oficina, sob a direção de Bruno dos Reis, estreia a peça “Tudo em Avignon e Eu Aqui”
“Tudo em Avignon e eu aqui”, de Bruno dos Reis (Teatro Oficina 2025) © Teresa Queirós

A companhia de teatro Oficina, sob a direção de Bruno dos Reis, quer aproximar-se da cidade de Guimarães, onde está sediada, e vai estrear este fim de semana a peça “Tudo em Avignon e Eu Aqui”.

Em duas partes, a peça relaciona duas vidas separadas no tempo e no espaço: a do músico mexicano Chalino Sánchez (1960-1992) e a da atriz vimaranense Rebeca Cunha, cujo pai, Jacinto, também faz parte do elenco do espetáculo da companhia na qual trabalhou quase desde a fundação.

O encenador e atual diretor artístico do Teatro Oficina, Bruno dos Reis, explicou aos jornalistas, depois de um ensaio na semana passada, que a figura de Chalino Sánchez surge por ser um “gatilho fácil” num espetáculo no qual o “motivo” é Rebeca Cunha.

“Depois, tinha a muito deliciosa particularidade de ser um par com a Rebeca no sentido em que ambos são duas figuras que querem muito estar em palco. A Rebeca, [enquanto atriz] a sua vida é esperar por papéis”, enquanto Chalino teve um derradeiro episódio na vida em que, durante um concerto, lhe foi passado um papel – literal – com uma ameaça de morte caso continuasse a atuar. Como continuou, foi abatido a tiro, sem que os responsáveis tenham sido encontrados.

Num palco no Centro Cultural Vila Flor (já esgotado para a estreia de sábado e para a récita de domingo) marcado por um automóvel capotado e por onde até um cavalo real passará, a primeira parte do espetáculo é muito mais sobre Chalino do que sobre a Rebeca, que surge nesse momento como “mistério, de certa maneira”.

O carro capotado em palco representa o capotamento real que Rebeca Cunha sofreu, em 2010, ao viajar de um ensaio Guimarães para outro no Porto, um momento que a atriz também marca no tempo como um ponto em que a sua vida começou a “descarrilar”, nas palavras do encenador à Lusa.

Na peça, é retratado o momento de uma conversa telefónica que Rebeca teve com Jacinto, na qual a atriz aponta o dedo à sua vida por ter estado “sempre a viajar no banco de trás”, à espera de papéis escritos por outros e em que questiona se a própria decisão de ser atriz terá sido influenciada – ou não – pela existência do pai.

Como disse após o ensaio para os jornalistas o ator João Cravo Cardoso, a ficção é criada quando se juntam elementos da realidade e os “baralham”, havendo na peça uma “ambivalência” sem leituras fechadas que permite ao espectador decidir sobre o que está a assistir.

Em “Tudo em Avignon e Eu Aqui” há um “momento de catarse” para Rebeca Cunha “em que ela rebenta com o espetáculo ou a narrativa que o espetáculo estava a seguir” e o “espetáculo quebra completamente, há uma desconstrução absoluta”, e a atriz conversa com o público, antes de haver um encontro entre pai e filha, que finalmente pisam o palco juntos.

Questionado sobre o título, Bruno dos Reis, que tem a direção da companhia até ao próximo ano, explicou que este precede o espetáculo em si, sendo um trabalho sobre se estar aquém daquilo que se deseja, e Avignon “todos os anos concentra lá, em teoria, as grandes figuras que vão à frente da imaginação da civilização ocidental e não só”, referindo-se ao Festival de Avignon, atualmente dirigido pelo português Tiago Rodrigues.

“Avignon cristalizou o que é ser esse panteão da imaginação”, afirmou Bruno dos Reis, acrescentando que se o teatro e a própria vida significa “sempre estar aquém”, há um almejar a essa “ideia de civilização perfeita” no “Tudo em Avignon e Eu Aqui” do título.

Aos jornalistas, Bruno dos Reis afirmou que o espetáculo enceta uma trilogia que pretende “aproximar do território” a companhia de teatro, fundada em 1994 dentro da cooperativa A Oficina, com o “objetivo de dotar a cidade de uma estrutura capaz de combater as assimetrias regionais, proporcionando aos cidadãos espaços de formação e fruição cultural na área do teatro”.

O segundo espetáculo terá como título “Não é Serpente, é Snake”, e será uma viagem entre Guimarães e Matosinhos, num título que remete para “A Grande Serpente”, primeiro trabalho do Teatro Oficina.

O terceiro será “Não é uma Rave, é Apenas Longe”, no final do próximo ano.

Com encenação e dramaturgia de Bruno dos Reis, assistência à encenação e direção de atores de Nuno dos Reis e apoio à dramaturgia de Simão Freitas, “Tudo em Avignon e Eu Aqui” é interpretada por Ana Fonseca, Daniel Seabra, Duarte Melo, Jacinto Cunha, João Cravo Cardoso, Iuri dos Santos, Martinha Carvalho e Rebeca Cunha.

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