Dança, Olguinha, dança
Houve vários outros solos no longo, diverso, singular e contrastante percurso de Olga Roriz. Solos para outras bailarinas, dentro de instituições; solos dentro de espetáculos que apagavam tudo o resto, e muitos corpos a dançarem sozinhos, ou a ficarem a dançar sozinhos. E houve o seu corpo, sozinho, rodeado das suas histórias em Travessia (1989, Teatro Nacional São Carlos), Jardim de Inverno (1989, Centre Cultural La Triangle, Rennes), In-Fracções (1990, Fundação Calouste Gulbenkian), Situações Golberg (1990, Refeitório do Mosteiro de Santa Cruz, Coimbra), Três árias para Callas (1992, gravado para a RTP), Os olhos de Gulay Cabbar (2000, Sala B, Montemor-o-velho), Electra (2010, Teatro Camões, Lisboa), A Sagração da Primavera (2013, Teatro Municipal Joaquim Benite, 2013) e agora, O Salvado (2025, Teatro Nacional São João).
Como muitos estão gravados e acessíveis através de diferentes plataformas – a começar pelo site da Companhia Olga Roriz, ou nos arquivos RTP – é possível ser-se espetador contemporâneo de um tempo que não se viveu, ou não se soube ver o que já lá estava, e o que poderia interligar uma ideia de coreografia tão intimamente ligada à representação e à ideia sobre aquilo que deve ser o corpo, e de uma mulher, em palco. Por isso, é desarmante, para quem que chegue agora ou tenha sido contemporâneo de alguns dos outros solos, ver como Olga Roriz se diverte com a sua própria imagem, da velhinha a dançar, e nua, que horror, como irá dizer, fingindo precisar de se aproximar de uma outra figura, tornada ícone popular, Tilda Swinton, igualmente de cabelo oxigenado, como se fossem as plumas brancas da águia imperial ibérica, mas se calhar mais presente e menos égérie de uma ideia de cultura massiva que, de facto, a coreógrfa faz por implodir, desde logo porque aqui nada é artifício. Está lá a máscara, mas caíram todas as outras.

Mostram-se o corpo, as feridas, os textos, e a gravidade da guitarra à qual Vítor Rua arranca notas que invadem e ocupam, logo desde a entrada, um palco que, como outros, domina mas nem por isso o dá por garantido. Essa interpretação ácida de uma partitura que intimida, é metáfora iniciática num solo que se dedica a fazer por ruir – como a parede quase no final – ideias feitas sobre o seu próprio trabalho, percurso e referências. Sim, está lá Dido’s Lament, a área usada por Pina Bausch em Café Muller (1979) – aliás, dançado pela última vez em 2008 no palco do São Luiz, onde vimos o espetáculo – e The Man I love, dançado, em língua gestual por Hans Beenhakker, em Nelken (1982), igualmente ali apresentado em 2005, mas isso são referências de todos, e as suas, porque contadas por um corpo-esponja como se, depois de tantos solos, transmissões e experiências, apenas e só, pelo conforto da referência, toda e qualquer memória fosse sempre citação. Seria como dizer que já existiram paredes que ruíam nos espetáculos anteriores de Olga Roriz; paredes das quais saíam intérpretes, pelas quais se escalavam ideias de liberdade, ou as cercas e os muros que corpos e arame foram fazendo, fossem mais artificiais do que as canções atrás das quais se esconderam. É por isso que O Salvado surge como uma inesperada volta num discurso que é exposto, e revisto, há mais de 30 anos.
“O Salvado será uma peça dedicada e um testamento da persistência, e da singularidade de um corpo num país do qual se disse não o ter, porque se escondeu na forma, na eficácia e no imediato. Olga Roriz andou também por ali, nem sempre acertou – e porque haveria?! – e este é também um espetáculo sobre esse desejo de construção permanente, de celebração da dúvida e de tudo o que não é conforme.”
O espetáculo existe para lá da memória e do recolectar de exemplos anteriores, divertindo-se a quebrar, a romper e interromper, a voltar atrás, a falar para o público, a fingir que ouve ou que quer saber. E numa sucessão impressiva de quadros que se vão acumulando e ajustando a uma ideia maior de mapa emocional e coreográfico, vai surgindo esta ideia de dançar out of balance, drunk… and always loved…., como diz a certo ponto, corpo atirado para trás, voz apontada ao eco, braços abertos como se já não esperasse nada. Out of balance, out of time, out of place…, out of job, but coming back, always coming back, physically and mentally…
O Salvado será uma peça dedicada e um testamento da persistência, e da singularidade de um corpo num país do qual se disse não o ter, porque se escondeu na forma, na eficácia e no imediato. Olga Roriz andou também por ali, nem sempre acertou – e porque haveria?! – e este é também um espetáculo sobre esse desejo de construção permanente, de celebração da dúvida e de tudo o que não é conforme. Por isso, o que vemos, num entrelaçado entre o movimento mais imediato e o discurso que descreve memórias, sensações e expetativas, é um trabalho sobre uma ideia de corpo, de presença, sobre o tempo e sobre o espaço, feito, limitado e construído nas ruínas de uma ideia única sobre o que é, e pode a dança ao fim de tantos anos. É um espetáculo de futuro porque, no desaparecimento que a efemeridade permite, O Salvado existe, e exibe-se como hipótese constante de renovação, daí o erro não ser erro, e a experiência ser o centro de um movimento inquieto, anguloso, feito por inteiro, porque se revela enquanto emanação e materialidade de um pensamento.
É preciso história para se fazer um espetáculo assim? É. Mas também é preciso não ter medo da página em branco, nem do palco vazio. Às vezes, basta o porte, o olhar o voo dessa água imperial transformada em sorte de podermos ser dela testemunha. Como lhe terão dito quando começou, em Viana do Castelo, há setenta anos, dança, Olguinha, dança. A sorte é nossa.
O Salvado estrou a 3 Julho 2025 no Teatro Nacional São João e teve apresentações no São Luiz Teatro Municipal, Lisboa (9 a 12 Julho). Em Julho poderá ainda ser visto no dia 18 no Fórum Cultural Luísa Todi, Setúbal. Em Setembro é apresentado no Teatro das Figuras, Faro (13), Teatro Aveirense, Aveiro (19) e Teatro Joaquim Bernardes, Ponte de Lima (26), seguindo-se, em Outubro, Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão (10), Centro Cultural de Lagos (25), e em Novembro CAE – Figueira da Foz (8) e Centro Olga Cadaval, Sintra (29).
As datas e locais de estreia dos espetáculos de Olga Roriz indicados neste texto, até 2000, foram retirados da biografia Olga Roriz (Mónica Guerreiro, Assírio & Alvim, 2007). As datas de estreia e digressão de O Salvado foram retiradas do site da Companhia Olga Roriz.

