David Byrne no Ageas Cooljazz: enxurrada de criatividade num paraíso por inventar

por Tiago Mendes,    16 Julho, 2026
David Byrne no Ageas Cooljazz: enxurrada de criatividade num paraíso por inventar
PUB

Se há noites que têm um sabor a oportunidade e raridade, a de terça-feira no Ageas Cooljazz encontra-se definitivamente entre elas: diante de uma plateia esgotada no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, David Byrne entregou com generosidade um fluxo de criatividade e musicalidade que demonstram como o legado sónico dos Talking Heads — e do génio artístico do seu vocalista e principal compositor — permanece relevante e fresco décadas depois da viragem do século. Dizer que saímos inspirados seria pecar por defeito: há no espectáculo de Byrne a força e a ousadia suficientes para saciar a sede de boa música e, ao mesmo tempo, estimular sedes novas pelo que está ainda por inventar e descobrir por entre acordes, ritmos e timbres — até dentro de nós mesmos.

Estaríamos ainda em Cascais — ou na Lua? — a olhar de fora para o nosso planeta, que emergia no horizonte, enquanto David Byrne e três outros músicos, posicionados no centro de um palco escuro, interpretam “Heaven”. Byrne aponta para a Terra — azul como a vestimenta simples de todos os intérpretes do concerto — e diz que ali está o nosso paraíso (heaven): “o único que temos”, acrescenta. É um começo de concerto contemplativo — e o único segmento que o público aguentou sem se levantar das cadeiras e começar a dançar, atitude que pautou o corpo da maioria até ao final do concerto, uma hora e meia depois.

Fotografia Ageas Cooljazz / DR

A partir do segundo tema a paleta de sons expande, muito à custa dos excelentes arranjos que marcam todo o espectáculo, interpretados de forma exímia pela grande banda que Byrne traz consigo: somos apresentados à mais de uma dúzia de músicos que, desde o primeiro momento, nos conduziram por uma mão invisível para o seio de uma intrincada e misteriosa coreografia. De resto, todo o concerto se assemelha a um bailado de dança contemporânea, fundindo movimentos artísticos e orgânicos com marcações pelo palco de cariz quase militar, passando por coordenações assimétricas entre grupos partidos. É bonito o momento em que vemos uma constelação com os nomes de David e todos os músicos deslocar-se por um céu projetado, acompanhando os movimentos e marcações de cada um no chão do palco.

Ressalve-se, para que fique explícito, que a totalidade dos músicos assumem uma atitude de total mobilidade ao longo do espectáculo: não existem instrumentos musicais pousados no chão, todos são carregados pelos respectivos instrumentistas — sim, mesmo os teclados, e até a bateria (dividindo por vários percussionistas os seus diversos componentes). A mobilidade física e coreográfica ilustra a amplitude simultaneamente arrumada e provocadora da música de Byrne: os ritmos e os acordes são instantaneamente cativantes, mas a composição esconde curvas e contracurvas complexas, estranhezas que trazem ao palato auditivo o prazer quase intelectual de tentarmos perceber o que não compreendemos ali.

Fotografia Ageas Cooljazz / DR

Talvez essa incapacidade de compreender o todo — mistérios escondidos nas melodias, nas letras por vezes crípticas (característica que pautou a obra dos Talking Heads), e até no próprio nexo da complexa coreografia do espectáculo — faça parte do ponto e da intenção de Byrne. Aliás, num momento divertido, o músico americano destaca (e mostra evidências fotográficas) o passeio de bicicleta que fez com a sua crew à Fundação Champalimaud durante a sua estadia em Lisboa: o “Centre for the Unknown” é um lugar real na nossa cidade, sublinha Byrne, espantado com a proposta da fundação. Parece fascinado com uma proposta que, afinal, reflecte a sua atitude artística.

Talvez a altura do palco não tenha potenciado a fruição do espectáculo para uma grande parte da plateia. O recinto do hipódromo parece mais adequado para o formato de audiências sentadas — como costuma, de resto, ser norma no festival de Cascais — o que acabou por não ser o caso no concerto de Byrne: foi, aliás, o próprio músico a convidar a plateia a acompanhar com o corpo a fruição da música (não que tal pedido fosse sequer necessário). A distância ao palco — aliada ao facto de os ecrãs gigantes terem um tamanho talvez insuficiente para o tamanho do recinto — terão prejudicado a capacidade de absorver a riqueza coreográfica (e as dinâmicas de profundidade no espaço) para uma boa parte da plateia central, principalmente para quem estava mais distante no recinto — ficando na imaginação o que um terreno em anfiteatro natural teria potenciado ao nível da fruição.

Fotografia Ageas Cooljazz / DR

Musicalmente, as propostas sucedem-se, mantendo-se sempre interessantes, sempre estimulantes, sempre uma ideia de vanguarda que funde géneros musicais e latitudes geográficas, elaborando coisas novas. Será talvez uma das maiores riquezas que Byrne tem para oferecer: o de a sua paleta sónica nunca ter sido emulada directamente por outras bandas ou projectos. Para isso também terá contribuído o berço de influências musicais da cena nova-iorquina em que formaram o seu ouvido, e cuja colaboração com muitos outros (houve em Cascais uma referência a Arthur Russell, génio ainda hoje injustamente relegado à condição underground de que nunca teve a oportunidade de sair) terá contribuído para a inovação que provamos na sua discografia. A fusão, que não deixa de ser pop, é profundamente alternativa no seu âmago, em estilo e abordagem, por princípio. E essa diferença cativa, agarra, e convida a uma dança que não tem regras (porque também a música as subverte, constantemente).

O resultado é a sensação de uma enxurrada de criatividade. Os arranjos — que construem e inovam por cima das versões antigas dos Talking Heads — soam cheios, recheados de timbres diversos, instrumentos (muitos, tantos, de sopros, percussivos, de cordas, e sons sintetizados tirados de um fundo de um saco sem fundo) que vão rodando nas mãos dos multi-instrumentistas. São uma aula de inovação, presidida por alguém a quem a idade nunca trouxe rendição, e nunca foi capaz de amansar a irreverência e a sua criatividade desconcertante. A isso se soma a alegria, o humor, uma leveza, e uma ode ao amor e à bondade como recursos punk do século XXI (para além das mensagens ambientalistas, e de revolta e resistência política, que pontuam os cenários de fundo da dança simultaneamente humana e animal).

A emotividade de “Once in a Lifetime” terá sido talvez o cume do êxtase do espectáculo (provavelmente o momento mais emotivo de um concerto que tem muito de cerebral, apesar de divertido), o azul das roupas sob o fundo vermelho intenso, e a voz de Byrne a libertar-se ainda mais sob a pedal note (ou o pedal chord) aguda do teclado sintetizado. O cantor americano dificilmente teria ganho um concurso de talento vocal nos formatos televisivos a que a cultura pop nos habituou — mas a sua voz é uma expressão orgânica de entrega e vulnerabilidade, veículo do âmago de um entendimento musical rico, por meio de uma abordagem que não é “excepcional” ou “anormal”. É uma voz relatable, mas que nos leva a trilhos a que não chegaríamos de outra forma.

Fotografia Ageas Cooljazz / DR

É a segunda vez que o Ageas Cooljazz convida David Byrne a assumir uma das noites do festival, naquelas que constituem as únicas aparições do artista em palcos portugueses nos últimos 16 anos. Para além da excelente proposta de programação, o festival merece ainda que lhe tiremos o chapéu pelo seu resoluto compromisso numa modalidade de festival de verão que dá o primado ao conforto do público face ao crescimento desmesurado do lucro. A noite estava esgotada, mas a sensação que dava era que ainda muito mais gente caberia no fundo do relvado. Os resultados sentem-se na fruição do espaço e das propostas musicais que antecederam o concerto principal: deslocações fáceis pelo recinto, bons serviços, e uma noite muito agradável na relva do Parque Marechal Carmona.

Destaque ainda para o excelente concerto dos Bardino no simpático anfiteatro do palco. A banda portuense apresentou um jazz de fusão com propostas electrónicas, a piscar o olho a The Comet is Coming em certos momentos (e Black Country, New Road noutros) — referências imperfeitas a que associámos o seu som, construindo paisagens imersivas a partir de elementos ora satisfatoriamente repetitivos ora estimulantemente densos e complexos.

Fotografia Ageas Cooljazz / DR

Também Bia Maria, a artista escolhida por Byrne para fazer a primeira parte (e sucedendo a Sara Tavares nesse papel, como ocorrera no concerto de 2018), conseguiu envolver o público, não só por meio da sua impressiva voz e agudos, como das composições intricadas cantadas num português de dicção cativante — das dissonâncias e propostas mais ousadas da primeira metade do seu concerto, ao abraço musical mais orgânico e acessível da segunda metade do espectáculo. Destaque para “Lenço de Papel” — a sua canção mais triste, segundo a autora —, que ilustrou com eficácia o poder que a vulnerabilidade do seu concerto incorporou desde o primeiro instante.

PUB

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.

Artigos Relacionados