David Foster Wallace: melancolia, televisão e açúcar
Descobri recentemente o trabalho de David Foster Wallace, escritor norte-americano que morreu em 2008, e fiquei rendida, contaminada por uma melancolia, uma ferida invisível que se abre enquanto o lemos e que, pouco a pouco, nos transforma nessa própria escara: entramos nela, escarafunchamos a dor que afinal é nossa e não dele. Não se entra em David Foster Wallace levianamente. É preciso coragem para atacar as mais de mil páginas da sua obra mais célebre, A Piada Infinita.
Wallace não é um escritor comum, nem percebemos bem como é que entramos no seu universo tão profundamente através do ritmo e da linguagem que se impõe. De repente, estamos dentro e não é fácil sair. Gosto de estar na cabeça tortuosa de Wallace. Talvez haja em mim qualquer coisa de masoquista, porque o seu cérebro é um labirinto sombrio onde por vezes se ri para afastar a dor, uma dor funda, da depressão, da doença mental, desse mundo estranho de Wallace, sem verdadeiro paralelo na história da literatura.

Uma das primeiras imagens da obra leva-nos à infância do protagonista, Hal Incandenza, para o momento em que come bolor sem querer, enfrenta o choque da mãe e o escárnio do irmão mais velho, também ele ainda criança. Vemo-lo a ingerir bolor «horrível, verde-escuro, brilhante, vagamente peludo, salpicado com pontos fúngicos e parasitários de amarelo e laranja, vermelho», sob o olhar desesperado da mãe; sentimos os cheiros, os sons, vemos e sentimos tudo, mesmo sem nunca termos ido aos EUA, mesmo sem nunca termos comido bolor. Wallace não é literatura, é vida. E é assim que os livros deviam ser: personagens vivos, como diria Tchekhov, cheios de incoerências, contrariedades, alegrias breves e dores, sim, dores que não revelamos, mas que fazem parte daquilo que somos.
Wallace sabia aquilo que tentamos esquecer, da morte como única emergência. No seu caso, uma saída de emergência forçada e precoce. Ele sabia também que o sucesso não sabe a nada, é insosso ou até amargo, a não ser que já o tragas dentro de ti, como uma chama olímpica que tu próprio alimentas. O sucesso que nos atribuem os outros, a admiração que nutrem por nós, é insignificante, quase ridícula, inútil, serve apenas para acentuar a dor e a culpa de não sabermos viver.
Wallace foi, acima de tudo, um melancólico no sentido clássico e patológico do termo. Na Grécia antiga, a melancolia era considerada a doença da alma, do espírito, e as palavras de Wallace transportam uma crítica ácida aos EUA do século XX e início do XXI, mas sobretudo a melancolia a que muitas vezes tentou escapar através da televisão. A televisão como alienação e divertimento das massas, numa sociedade em que os cidadãos há muito foram transformados em consumidores. Wallace era viciado em televisão, em doces de todos os géneros e portador de uma melancolia que não reconhecemos facilmente num escritor norte-americano.
Em 2008 decidiu pôr fim à própria vida, enforcando-se na sua casa em Claremont, na Califórnia. Tinha 46 anos. Muitos livros ficaram por escrever. A Quetzal prepara-se agora para lançar uma nova edição de A Piada Infinita. Se ainda não o conhecem, força, entrem na cabeça de Wallace, mas mantenham-se lúcidos e não se descalcem.
