De jornalista a assessora de comunicação do deputado André Ventura

por Os truques da imprensa portuguesa,    6 Fevereiro, 2020
De jornalista a assessora de comunicação do deputado André Ventura

Ao longo dos últimos meses, pudemos acompanhar com surpresa o abundante caudal de notícias sobre André Ventura e a sua atividade política no site Notícias ao Minuto. Este conjunto que aqui exibimos corresponde apenas a uma ínfima parte.

Mas a surpresa não havia de ficar por aqui. Todas estas notícias da secção “André Ventura”, mais de 100 só nos últimos meses, eram publicadas pela mesma jornalista, Patrícia Martins Carvalho, que adquiriu uma espécie de especialização em “André Ventura.”

O Notícias ao Minuto tornou-se uma espécie de caixa de ressonância do programa do Chega, e chegou a fazer notícias como: “Primeiros alvos de Ventura no Parlamento serão violadores e pedófilos”

Aguardávamos, pois, com expectativa o futuro desta jornalista. E essa expectativa aumentou quando, no dia 29 de Novembro de 2019, Patrícia Martins Carvalho realizou o seu último trabalho no Notícias ao Minuto, uma entrevista a Suzana Garcia, comentadora da TVI, em torno do tema “Nós não somos um país racista.”

Para onde irá Patrícia Martins de Carvalho a seguir?

Pois bem: no dia 2 de Dezembro, Patrícia Alexandra Martins Carvalho estreia-se como assessora de comunicação do deputado André Ventura.
O despacho é público e pode ser lido neste link.

A transumância entre o jornalismo e a política não um tema novo. Pelo contrário, é um assunto sobre o qual temos vindo a escrever. Este caso tem contornos particularmente impressionantes, tendo em conta o grau de dedicação que a jornalista entregou à causa de André Ventura, antes mesmo de assumir (pelo menos oficialmente) a sua assessoria.

Por outro lado, é-nos permitida outra reflexão. Muitos dos leitores que procuram órgãos de comunicação social como o “Notícias ao Minuto” fazem-no com o intuito de obter informação gratuita, contornado dessa forma as paywalls dos órgãos tradicionais. Como temos vindo a dizer, nada é à borla. Se nós, leitores, não estamos a pagar, alguém pagará por nós — e isso pode ser incomparavelmente pior.

Este texto foi originalmente publicado em Os truques da imprensa portuguesa e foi publicado aqui com a devida autorização.

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