Dia mundial dos sonhadores profissionais
Há dias encontrei, perdida nos arquivos da RTP — Arquivos, uma entrevista antiga à grande Eunice Muñoz. Era 1972 e a actriz dizia qualquer coisa como isto: que amava profundamente a sua profissão e que desejava apenas que ela fosse respeitada, como merece. Não pedia muito, repare-se, pedia respeito — palavra simples, pesada como um cenário que ninguém ajuda a montar.
O teatro tem sido, desde sempre, um parente pobre do poder político, deixado muitas vezes no fundo das prioridades da cultura e dos governos, como um familiar distante de quem se gosta mas que raramente se visita. É precisamente por isso que quem trabalha nesta área compreende tão bem o que disse Eunice Muñoz sobre a profissão de actor. E se o teatro não são evidentemente só os actores e as actrizes — porque há cenários, luz, muitas mãos invisíveis que sustentam o milagre — são ainda assim eles quem dá a cara, o corpo, a alma que têm. E nos dias maus, quando a vida pesa mais do que o figurino, têm de a desencantar sabe lá Dioniso onde, porque o público não tem culpa de receberem um salário que muitas vezes não chega para viver, nem de viverem constantemente na corda bamba do desejo dos outros.
O público pagou bilhete e quer algo valioso em troca. Esse algo não é um serviço, um produto, um objecto concreto. O que o espectador deseja é aquilo que mais valioso existe: a vida contrafeita, tão verosímil que por momentos transcende a sua própria. É a vida que ele é por dentro. O público quer nada mais nada menos do que a alma dos actores por uma ou duas horas. Por quinze ou vinte euros pede-se a alma de alguém. E pede-se porque, através deles, entra-se em contacto, ainda que por breves instantes, com a sua própria existência.
Os actores e as actrizes são veículos, portais de emoção e pensamento, sonhadores profissionais, são vida em estado puro. E é por isso que desrespeitá-los é mais do que uma injustiça profissional, é uma ofensa à própria natureza humana, àquilo que de mais essencial trazemos da infância — o sonho.

