Diário de uma cama de hospital: como a percepção do tempo muda

por Ana Isabel Fernandes,    16 Fevereiro, 2020
Diário de uma cama de hospital: como a percepção do tempo muda
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Na noite em que a morte de Goerge Steiner foi anunciada decidi rever, por inteiro, a sua conversa com outro grande mestre, o escritor António Lobo Antunes, que ocorreu no dia 9 de Outubro de 2011.  A forma como olhamos e analisamos as coisas metamorfoseia-se consoante crescemos e nos modificamos também, é verdade. Por isso mesmo é que pude, agora, entender por um outro prisma a afirmação de Steiner quando liga medicina, criatividade e perdão — quando o professor de Cambridge se vira para António Lobo Antunes e lhe diz, “…que o considero a si e a Tchékov, como dois génios, nos quais a medicina é importante na imaginação. Você e Tchékov, e isso sempre o disse de mim para mim, têm o lado médico do perdão, que perdoa a enfermidade do homem.” Estas pequenas afirmações, que à vista desarmada parecem um mero galanteio à obra de ALA,  cravaram-se bem fundo em mim e, a verdade, é que ainda não consegui parar de pensar nelas e no que perdoar a enfermidade do homem significa. Estas simples frases, não, não são simples, são muito profundas. Se as associarmos aos recentes casos de agressões a médicos, por exemplo, então ganham uma outra ressonância e relembram-nos que, acima de tudo, dói muito e há um longo caminho a percorrer para sabermos aceitar a fragilidade da carne. Quando a nossa mente quer ir mais além mas o corpo, esse, já não nos acompanha e nos sentimos presos a uma dor que nos comprime e sentimos não nos representar. Por mais novos avanços que venham e que serão sempre bem vindos, um hospital é sempre o reflexo do que a nossa condição de humanos tem de mais frágil e da nossa impotência. É a constante comunhão do nosso próprio phatos com o phatos do outro. É, além da nossa dor, a impossibilidade de ignorar ou virar as costas aos ais alheios de quem está em crise. Ouvir e sentir, constantemente, o sofrimento do outro enquanto se está na cama de hospital ao lado tem tanto de extenuante e desgastante como a própria dor sentida. Ela não é nossa, é verdade, e que ninguém diga “I feel your pain” porque isso soa a mentira — não é preciso dar aqui uma aula sobre a “Autopsicografia” de Pessoa para explicar o porquê — mas é vermos a nossa própria miséria, Litost, espelhada no outro, e o outro sentir a sua própria miséria espelhada em nós. Somos muito frágeis, não se está aqui para enganar ninguém, mas na aleatoriedade aparente das coisas é a constatação que entre a fé e a esperança de uns, e o pessimismo e a revolta de outros, doutores e varredores de rua, não importa, todos nós, no fundo, somos iguais perante a incerteza de uma cama de hospital.

Há uns anos, quando o meu corpo ainda me mimava com aquela sensação de imortalidade tão típica de quem é jovem, tive um pneumotórax espontâneo e o meu pulmão direito colapsou por completo. Nesta primeira vez, foi tudo tão momentâneo e tão rápido que nem estava a ter bem a consciência do que me estava a acontecer. Senti uma dor súbita e extremamente forte na parte de trás do ombro direito que se espalhou pelas costas e que, por vezes, chegava até à perna. Tossia constantemente e, no peito, não sentia, propriamente, aquela sensação ofegante de falta de ar, mas, antes, o que se sente quando se acaba de correr ou de fazer um determinado esforço físico. Tomei um paracetamol para as dores e estas aliviaram, mas a tosse e aquela sensação no peito continuavam e não havia meio de passarem. Foi num tórrido dia 1 de setembro, estava em casa. Quando o meu pai regressou e me ouviu a tossir sem se saber o porquê, ainda passamos uma meia-hora nisto, “vamos ao hospital, não vou, anda lá, não, isso não é normal, já vai passar”, até que acabei por ir mesmo. Já na consulta, a médica que me atendeu fez-me, logo, uma ECG — estava tudo bem — e fui, depois, fazer um raio x ao tórax. Enquanto estava à espera de ser chamada, de novo, pela médica, rapidamente se aproximaram de mim uma outra médica, a técnica que me fez o raio x e mais uma auxiliar. Mandaram-me tirar rápido a roupa e deitar-me numa maca. A ordem foi tão clara e célere que nem me atrevi a perguntar o porquê, nem o que tinha ou não tinha. Na minha ingenuidade, no entanto, pensava que me iam fazer algo rápido para, daí a uma hora ou duas ir para casa. Mas estava enganada, teria de ficar, pelo menos, três dias e a intervenção que me estavam a fazer, cuja explicação só veio depois, era a colocação do dreno. Nem sequer sabia o que era um pneumotórax, só ouvi essa palavra depois, quando estava já deitada na cama no quarto das observações, no momento em que pedi à enfermeira que me explicasse o que se estava a passar comigo. Este não é um artigo de autocomiseração e vão perceber isso — um pneumotórax nem é assim para tanto, na verdade. Mas, enquanto jovem, foi a primeira vez que o meu corpo me traiu e tive lidar com os tais ais alheios. A primeira vez que o meu corpo não me conseguiu acompanhar nos compromissos previstos e tive de lidar com imprevisibilidade da vida com algo mais sério do que a febre de um só dia. Afinal, o que significa quereres levantar-te porque tens uma história lá fora e há uma gravidade que te prende àquela cama.

Nessa primeira vez em que estive internada, nunca me vou esquecer da altura em que um idoso deu entrada nas observações mas não tinha consciência do espaço em que estava nem do tempo. Não podia, de maneira nenhuma, levantar-se e, por causa disso mesmo, tinha de usar fraldas. Mas, como não tinha consciência nenhuma de onde estava, não parava de gritar, de chamar pela filha (que não estava ali), porque o tinham preso e queriam que “mijasse” nas calças — isto no seu entendimento, claro. Era uma constante. Num momento estava a maltratar a filha com aquele palavrão que começa por “P”, angustiado por não aparecer quando a chamava,”vem já ao teu pai!”, como a seguir estava a dizer que gostava dela. Por mais que auxiliares e enfermeiros lhe explicassem onde estava, que não se podia levantar e que tinha uma fralda, não adiantava nada. Aquele senhor estava num mundo só seu e, sim, foi bastante penoso ver tanto auxiliares como enfermeiros a extenuarem-se enquanto percebiam que as suas explicações não levariam a lado nenhum, como foi de partir o coração o desespero e a tristeza daquele homem quando percebia  que não havia meio da sua filha aparecer. A única solução encontrada pelos enfermeiros, até porque o senhor poderia muito bem arrancar os tubos aos quais estava ligado, foi mesmo uma injecção para a veia que o fez adormecer instantaneamente. Estas são situações que marcam mas das quais não faço tenção de me esquecer. A sensação com que fiquei é que por mais que uma pessoa estude pelos livros, estas são sempre situações difíceis nas quais os cuidadores ou profissionais de saúde tendem a responder com improviso, para fazer frente àquela crise ou problema momentâneo. Enfermeiros e auxiliares queriam explicar ao idoso que estava num hospital, que não podia levantar-se, mas o problema foi fazerem-no como se aquele homem partilhasse, naquele momento, a mesma realidade que nós. Faz-me lembrar aquela máxima, “o pior de ter uma doença mental é que as pessoas exigem que nos comportemos como se não a tivéssemos.” Havia, por um lado, a frustração e a impotência de não se conseguir passar a mensagem e, por outro, uma revolta mais acicatada por se estar ali, naquela cama, sem a possibilidade de ir à casa-de-banho. Quanto mais lhe explicavam que não se podia levantar, mais o homem gritava e se revoltava. Houve ali uma outra coisa que achei bastante curiosa, é incrível como,num corpo frágil, o desespero faz criar uma força incrível. De alguma forma foi, também, o que me aconteceu a mim nos momentos em que já não conseguia suportar bem aquela cama e aquele dreno. Transpiramos imenso com o nervosismo, levamos os dedos das mãos contra a grade lateral da cama, não paramos de mexer com os pés, mas é porque, inconscientemente, quase que desejamos que a energia contida interiormente escape pelas extremidades dos dedos ou do corpo.

Este foi o meu primeiro internamento. Saí do hospital com uma indicação para passar a ser seguida por um pneumologista, mas com a advertência de que tanto poderia voltar a acontecer como não. Da minha parte, claro que me quis convencer que não voltaria a acontecer, mas estava errada. Quatro meses depois fui à primeira consulta do pneumologista — ainda sentia muitas dores e desconforto, quando na minha ingénua ideia pensava que no prazo de uma semana estaria como nova. Foi-me dito para não me preocupar porque no raio x e espirometria estava tudo bem nem havia nenhuma indicação que apontasse para um outro problema de saúde que pudesse ter provocado o pneumotórax. Mas, um mês após essa consulta, quando nem ainda me tinha livrado, por completo, das dores e desconforto do peito, o temido aconteceu mesmo. Lá voltei eu ao hospital mas, dessa vez, acabei por ser transferida para a unidade hospitalar de Vila Real. Se da primeira vez custou mas, como não tinha ainda grande consciência, sentia-me como uma criança a quem era dada uma vacina rápida de mais para se dar conta, à segunda vez já não achei grande piada — já sabia o que aí vinha. Era o médico a dizer-me que o pneumotórax estava confirmado e eu a recuar, como que a preparar uma fuga, “não, muito obrigado, médico, pode você ficar com a porcaria do dreno que não me importa nada.” Escusado será dizer que, a partir daí, passei a ter uma cara de poucos amigos e já tinha estipulado que o meu internamento seria passado, 24 sob 24 horas, com os phones nos ouvidos sem querer ter grandes conversas. Mas é impossível ter essa atitude quando, por exemplo, sabes que a pessoa ao teu lado já está há mais de um mês internada com uma pneumonia e, mesmo assim, ainda se levanta para te ajudar em alguma coisa quando é preciso. Entendi essa atitude como a mais genuína e desinteressada na minha vida e quase que passamos a ser “irmãs” de dor. Sentia que a senhora, que devia ter mais de sessenta anos, percebia aquilo porque estava a passar, mas eu, pelo contrário, ainda não tinha a maturidade suficiente para a entender a ela. Durante os sete dias de internamento, eu e essa senhora falámos de tudo um pouco, desde hospitais até aos episódios de violência doméstica horríveis de que foi vítima. No dia em que tive alta, essa paciente tinha recebido a notícia de que, devido aos corticóides que tomou, os seus diabetes agravaram-se bastante e, a partir daí, teria de passar a tomar injecções de insulina durante toda a vida. Estava inconsolável. Embora resignada, só conseguia chorar. Os médicos tentavam-lhe explicar que não, que não era o fim do mundo, mas não valia a pena. Naquele momento aquela dor era só dela e a ela tinha o direito. Quando, ao final do dia, fui para casa e me despedi, voltou a chorar, mas percebi que era, também, por ver mais uma pessoa a ir-se embora sem ela o poder fazer. Desejei-lhe as melhoras mas, nestas situações é sempre complicado e confuso. Ambas sabíamos que, daí para a frente, nada se tornaria fácil.

Nesta segunda vez, que durou uma semana, pude compreender um pouco mais os efeitos psicológicos que um internamento prolongado pode provocar. Em primeiro lugar, a nossa percepção do tempo muda e não sentimos a diferença entre uma segunda-feira e um sábado. O que difere o dia da noite é, mesmo, a ampliação de todos os sentidos e a intensificação de toda a nossa sensibilidade. Nunca consegui perceber o porquê, mas tudo se intensifica, dores e sentimentos, durante a noite e é impossível dormir bem, de forma seguida. Numa cama de hospital tudo parece eterno, mesmo que só se tenha passado um minuto breve de dor, mas é incrível como se chega ao final do dia e tem-se a sensação de que, afinal, tudo passou muito rápido, mas de forma exactamente igual, quando há milhares de coisas que se podem fazer numa hora. É a expressão máxima de se ser Sísifo sem se saber muito bem onde podemos encontrar a nossa revolta. A sensação de que nos partimos em dois e há uma parte de nós confinada à dor, enquanto há uma outra que deveria estar a viver uma outra história que lhe é vedada.

Como já era o meu segundo pneumotórax, tive de ser operada. O segundo internamento foi para tirar o ar do peito mas a indicação para a operação já tinha sido feita. Tive sorte, foi daí a um mês. Mas ainda me lembro da raiva que senti, depois de todo aquele tempo parada e, ainda por cima, numa situação de desemprego, a operação ser no mesmo dia do lançamento de uma revista a que devia ir. Por um certo prisma foi, até, cómico, porque ali estava eu a chorar porque ia ser operada, justamente, nesse dia e, pela razão oposta, outra senhora chorava porque a sua operação tinha sido adiada, outra vez, e não ia ser operada nesse dia. Essa paciente já estava no hospital há muito tempo, também, e só dizia, “ai menina, isto satura sabe?” Sim, sabia. Sabia muito bem.

Fui, sempre, a única jovem nos internamentos. Pude constatar que a saturação e a impaciência, a forma como se lida com o tempo num hospital, não difere consoante a idade. A única diferença é que, pela primeira vez, o meu corpo teve de fazer uma adaptação e foi isso que, acima de tudo, estranhei mais. Nos mais velhos senti que, a esse nível, havia uma outra maturidade para lidar com isso que eu ainda não tinha. Mas o que é importante ressalvar é que, além do tratamento da doença em si, o corpo médico precisa de entender a transformação que ocorre num paciente durante um internamento — o modo como o afastamento da sua realidade pode afetá-lo. Não estou é certa se, no SNS, isso está garantido — ainda há um longo caminho a percorrer. Por isso mesmo tomei a decisão de escrever este texto. Perdoar a enfermidade do homem, tal como Steiner dizia, não significa apropriamo-nos da dor alheia — embora partilhar noites de dor com outros transforme — mas, antes, entender que a racionalidade anda de mãos dadas com a irracionalidade e que, numa situação limite, é normal uma pessoa tentar encontrar a sua revolta ou o seu ponto de fuga. Depois da operação tudo ficou bem e, embora ainda sinta algumas dores ou algum desconforto sou, no momento, saudável. O que ficou desta experiência foi, sem dúvida, o início da minha maturidade.

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