Dos Joy Division e dos New Order à solidão de Bernard Sumner
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Chegou o verão e, com mais tempo livre, desperta em mim o “bichinho” das revistas cor-de-rosa, tanto nacionais como internacionais. Não vos trago uma história sobre novelas televisivas ou reality shows, mas sim uma história que, até aos dias de hoje, reúne ingredientes dignos de uma novela: desde o sucesso à tragédia seguida da reinvenção.
A história da música moderna não estaria completa sem o capítulo dedicado a quatro rapazes da classe trabalhadora de Manchester que, sob o nome Warsaw, inspirado na canção “Warszawa”, de David Bowie, deram os primeiros passos para mudar o rumo da música. Tudo começou a 4 de junho de 1976, quando Bernard Sumner (guitarrista) e Peter Hook (baixista) assistiram, separadamente, a um concerto dos Sex Pistols em Manchester. O impacto dessa atuação foi suficiente para os levar a formar uma banda, à qual se juntariam Stephen Morris (baterista) e, pouco depois, Ian Curtis (vocalista).
Inicialmente chamados Warsaw, acabaram por mudar de nome em 1978, evitando confusões com a banda Warsaw Pakt. E daí nasceram os Joy Division, um dos grupos mais influentes da história.
Os Joy Division começaram a afirmar-se como uma das bandas mais marcantes do movimento pós-punk com o lançamento do álbum de estreia, “Unknown Pleasures”, editado a 15 de junho de 1979. Embora o reconhecimento tenha crescido ao longo dos anos, o disco revelou uma sonoridade sombria e inovadora que viria a influenciar gerações de músicos e a consolidar o legado da banda. Canções como “Disorder” e “She’s Lost Control” revelavam a direção artística da banda.
Em 1980, lançaram o segundo e último álbum, “Closer”, mas o percurso da banda seria interrompido de forma trágica. Na véspera da primeira digressão pelos Estados Unidos, Ian Curtis suicidou-se, a 18 de maio de 1980, com 23 anos, ditando o fim dos Joy Division. Um mês depois, em junho de 1980, foi lançado “Love Will Tear Us Apart”, uma das canções mais emblemáticas da banda. A música ganhou um significado ainda mais profundo após a morte de Curtis, tendo o próprio título sido inscrito na sua campa.
O que se seguiu? Diria que uma das mais impressionantes demonstrações de resiliência na história da música.
Bernard Sumner (guitarrista), Peter Hook (baixista) e Stephen Morris (baterista) decidiram continuar juntos e deram origem aos New Order. Com Bernard Sumner a assumir também o papel de vocalista, Peter Hook e Stephen Morris a manterem os seus instrumentos de origem e a entrada de Gillian Gilbert (também de Manchester, e namorada de Stephen Morris desde a época dos Joy Division) na guitarra e nos teclados, a banda reinventou a sua linguagem musical. Sem abandonar por completo as raízes pós-punk, os New Order passaram a fundir guitarras com sintetizadores e ritmos eletrónicos, criando uma sonoridade inovadora que viria a marcar profundamente a música da década de 1980, inspirada também pelos alemães, Kraftwerk.
Ao longo dos anos, o lançamento de “Blue Monday”, em 1983, acabou por ser um momento decisivo na carreira da banda, impulsionando o grupo para um novo patamar internacional. Todavia o grupo foi passando por altos e baixos, mas a surpreendente popularidade de “Bizarre Love Triangle” voltou a colocar os New Order no centro das atenções em todo o mundo. Mais tarde, os New Order continuaram a marcar a cultura inglesa, com a música “World in Motion” para apoiar a seleção inglesa no Mundial de Futebol.
Apesar do sucesso, as relações dentro da banda nunca foram simples. Embora Peter Hook e Bernard Sumner tenham sido elementos fundamentais dos New Order como dos Joy Division, raramente foram amigos próximos. Em 2007, Hook decidiu abandonar o grupo, afirmando que já não tinham planos para trabalharem juntos.
A saída de Peter Hook marcou o início de uma longa disputa com os seus antigos colegas, que acabou por ser resolvido fora dos tribunais em 2017. A separação criou um fosso que dura há quase 20 anos, marcado por divergências, declarações públicas e batalhas relacionadas com direitos financeiros e o uso da marca New Order.
Tal como qualquer telenovela que ainda não acabou, esta história continua a alimentar-se de novos capítulos, rumores e declarações que mantêm os ouvintes e leitores atentos. E, ao que tudo indica, ainda está longe de estar terminada, pelo menos até ao próximo grande acontecimento: Marcado a 14 de novembro, data em que os Joy Division e os New Order serão distinguidos no Rock & Roll Hall of Fame, 46 anos depois da morte de Ian Curtis.
Peter Hook já confirmou que estará presente na cerimónia do Rock & Roll Hall of Fame, uma vez que todos os membros vivos foram convidados. No entanto, as suas palavras não deixam margem para dúvidas: “Nunca mais vou tocar com eles. Prefiro morrer a tocar com aqueles três.”
A quatro meses da gala, Stephen Morris e Gillian Gilbert (casal) anunciaram o seu afastamento da digressão dos New Order por motivos de saúde. E Peter Hook, fiel ao historial de alimentar esta interminável novela, não perdeu a oportunidade de lançar mais uma farpa a Bernard Sumner, afirmando que, pelo que ouviu, os dois teriam saído dos New Order.
Tudo isto, leva à grande questão, quem estará presente na cerimónia de novembro?
Será Peter Hook o único a subir ao palco para receber uma distinção que pertence aos quatro? Depois de anos a criticá-los, seria, de certa forma, um momento poético para Peter, mas ao mesmo tempo profundamente triste. Ou haverá uma surpresa?
A minha modesta opinião é simples, gostava de os ver juntos, nem que fosse apenas por alguns minutos. Não por eles, mas pelo Ian Curtis e pelo legado que todos construíram em conjunto.
Pedir que voltem a tocar lado a lado por poucos minutos pode parecer impossível, mas será assim tão errado sonhar?
Todos temos desejos improváveis. Se os meus fossem apenas musicais, um deles seria precisamente uma reconciliação em Manchester. Gostava de voltar a ver Peter Hook ao lado dos New Order. Da mesma forma, seria extraordinário assistir a uma aproximação entre Johnny Marr e Morrissey. Afinal, também poucos acreditavam que os Oasis voltariam a reunir-se e, contra quase todas as expectativas, os irmãos Gallagher fizeram as pazes e regressaram aos palcos. São histórias diferentes, é certo, mas mostram que, por vezes, o impossível acontece. Se Manchester tem sido uma cidade fértil em separações de bandas históricas, talvez também tenha um talento especial para as reconciliar.
