É necessário boicotar o Festival da Canção

por Miguel Rocha,    9 Dezembro, 2025
É necessário boicotar o Festival da Canção
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Há uns anos, num workshop organizado pela Wikimedia Portugal sobre o Festival da Canção, lembro-me de ouvir o Nuno Galopim referir o seguinte. Analisar a história da Eurovisão era também analisar a história da geopolítica europeia. Não me lembro das palavras exatas do jornalista, comentador Eurovisivo e consultor RTP para o Festival da Canção, mas é curioso refletir sobre tal afirmação quando a Eurovisão parece querer insistir na cara de todos que é um evento “apolítico”. Não é. A história assim o mostra.

Talvez seja por isso que é tão – e esta é a palavra certa – insano assistir a todo o debate em torno do boicote que devia ser posto em prática pela RTP face à participação de Israel na 70.ª edição da Eurovisão. Porque é que não seguimos o exemplo de Espanha, Eslovénia, Irlanda e Países Baixos? Espanha é um dos big five da Eurovisão, e, portanto, um dos principais contribuidores financeiros para a UER (União Europeia de Radiodifusão). No entanto, recusa-se a participar nesta lavagem de imagem que a UER se propõe a fazer em prol do “branqueamento do genocídio”, como assumiu o Comité de Solidariedade com a Palestina num comunicado. Contudo, parece que a UER está mais interessada em manter Israel no concurso do que perder quatro dos seus concorrentes e financiadores. Nada de chocante quando nos lembramos que a Moroccanoil, uma empresa israelita com profundas ligações à hasbara, é um dos principais patrocinadores da Eurovisão. O dinheiro, como sempre, fala mais que os sonhos das mais de 70 mil pessoas mortas pelo Estado de Israel em Gaza e pelas centenas de milhares de impactados pela ocupação na Cisjordânia desde 1967. Crianças, pais, avós, famílias inteiras. Quanto vale uma vida palestiniana para os representantes da UER?

A delegação portuguesa, porém, não parece ter ficado incomodada nem pelo genocídio e limpeza étnica e cultural do povo palestino às mãos do Estado de Israel, nem pelo passado de assédio por parte da delegação israelita a comitivas de outros países. Lembram-se quando, em 2024, a delegação portuguesa afirmou ter “assistido a casos de assédio e perseguição” por parte da delegação de Israel a outros países? Ou quando a UER é forçada a mudar as regras de votação quando se tornou óbvio (como se já não fosse) que existiam campanhas por parte de Israel para influenciar o resultado das votações do público? Não que isso importe. Apesar dessas reformas com o intuito de aumentar a transparência do concurso, os membros da UER decidiram não colocar em causa a participação de Israel na edição de 2026 da Eurovisão. Como? Rejeitaram levar a cabo uma votação sobre o assunto. 

Mudam-se as regras, mas a vontade é a mesma: despolitizar algo que não pode ser despolitizado. Por muito que a UER insista que é uma coletividade “apolítica” e que a Eurovisão também o é… A censura não é um ato profundamente político? É que a história recente da Eurovisão, particularmente das duas últimas edições, está recheada desses momentos. E não esquecer, pois claro, quando a partir de 2022, a UER impediu a Rússia de participar no concurso devido à invasão da Ucrânia. E não. Ao contrário da narrativa recente de que esse impedimento foi devido à exibição de propaganda no canal de radiodifusão russa (VGTKR), essa não foi a razão que levou à exclusão da Rússia da Eurovisão. Aliás! Inicialmente, a UER não queria remover a Rússia do concurso. Adivinhem então o que levou à exclusão? A pressão dos membros da UER, que fez a organização mudar de ideias. Onde está essa pressão hoje?

Se a invasão da Ucrânia suscitou essa intimidação, então certamente mais de 75 anos de ocupação e mais de dois anos de genocídio – sim, porque o genocídio não parou por muito que se fale num “cessar-fogo” – deviam ser suficientes para essa ser exercida para impedir Israel de participar, certo? Parece que não e parece que, mais uma vez, na Eurovisão, existem medidas com pesos diferentes a serem aplicadas conforme lhes apetece. Nada de novo e se calhar o Galopim tinha mesmo razão – é o reflexo dos tempos que vivemos. Onde um genocídio transmitido em direto 24/7 através dos nossos ecrãs não é tratado como tal e onde o consentimento fabricado tenta reimplementar a ordem estabelecida antes de 7 de outubro: a do apartheid desconhecido. A manutenção de Israel como concorrente da Eurovisão também faz parte desse processo. Um processo de rebranding que o Estado de Israel está a levar a cabo (e tanto precisa) com a conivência de muitas nações europeias e das empresas de big tech norte-americanas. Então, de que lado da história quer estar a RTP e os concorrentes do Festival da Canção?

Alegadamente, os contratos assinados pelos concorrentes que irão participar na 58ª edição do Festival da Canção indicam que o vencedor apenas ficará “habilitado” a representar Portugal em Viena. O anúncio que os Marquise publicaram nas suas redes sociais, a indicar que não se comprometeram a “um envolvimento na Eurovisão” apesar da sua participação no FdC, indica que esses rumores são verdadeiros. Todavia, tendo em conta isso, existem mais questões do que respostas. 

Se quem vencer o Festival da Canção se recusar a representar Portugal nesta charada, que irá fazer a RTP? Oferecer o lugar ao segundo classificado e assim em diante até algum dos concorrentes aceitar representar Portugal em Viena? E se nenhum dos concorrentes aceitar? Que acontece? Portugal simplesmente “desiste” de participar? Se for esse o caso, eis a questão principal: porque é que a RTP insiste em dizer que irá participar na Eurovisão em 2026? Porque assim sendo, parece que está a colocar toda a bola do lado dos artistas (e dos seus próprios trabalhadores) para que exista um boicote. Em termos de dinâmicas de poder, isto tem muito que se lhe diga, particularmente quando nos lembramos que grande parte dos concorrentes do Festival da Canção são artistas emergentes e necessitam do FdC para serem expostos ao grande público. Predatório? Um pouco. É também da destruição dos canais de comunicação em Portugal dedicados à música emergente (particularmente na televisão e rádios públicas) e da monopolização dos concursos televisivos como principal forma de exposição musical em Portugal. Sobre isso, também há muito a dizer.

No passado, houve edições do Festival da Canção que ocorreram apesar de Portugal não participar na Eurovisão – caso de 1970 ou 2000. Portanto, existe precedente para que o Festival da Canção possa ocorrer sem Portugal ter de participar na Eurovisão. Porque não trazer esse precedente à baila quando o que está em cima da mesa é participar num concurso que não tem qualquer problema em branquear um genocídio? Fica tudo mais estranho quando, tal como referiu Salvador Sobral, antigo vencedor do Festival da Canção e da Eurovisão, a RTP não parece ter grande problema em transmitir “um concerto por Gaza” (caso do evento Juntos Por Gaza), mas parece ter “medo de fazer a coisa certa” quando o assunto é a Eurovisão.

Os trabalhadores da RTP parecem entender essa hipocrisia. Uma notícia publicada no jornal Público revelou que, durante o mais recente plenário dos trabalhadores da estação pública portuguesa, estes condenaram a decisão de participar na próxima edição da Eurovisão. Consideram “incompreensível” a decisão da RTP ter “confirmado a participação” no festival. Consideram bem. Os artistas que aceitaram participar na edição de 2026 do Festival da Canção deviam fazer o mesmo. Quando aceitaram, sabiam muito bem que a probabilidade da RTP se recusar a participar era muito baixa. Se alguma coisa foi revelada ao longo destes dois anos de genocídio, é que as instituições portuguesas só fazem algo (e geralmente, é o mínimo dos mínimos) quando é para correr atrás dos “grandes”. E quanto vale a exposição na televisão em comparação à vida de um palestiniano? Onde está o comunicado conjunto dos artistas a condenar a decisão da RTP? Espero que esteja para breve.

Eis, então, uma ideia. Lembram-se quando o Fernando Alvim organizou o Festival Alternativo da Canção? Se sim: que tal o seguinte plano? Seguindo o exemplo do Spoiler Room, o evento de boicote ao Boiler Room (que funcionou, já agora), proponho a ocorrência de um Festival da Canção alternativo que envolva todos os agentes culturais que não se reveem na posição da RTP – de trabalhadores a concorrentes, de músicos a jornalistas. Um evento a ocorrer num sítio comunitário, envolvendo vários artistas do país e onde todo o dinheiro angariado será doado a famílias de Gaza com a ajuda do Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente. Que tal? Who’s with me?

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