E se estivéssemos vivos quando destruíram Gaza?
Teria uns treze anos. Sentado nas jurássicas cadeiras da escola, ouvia a professora de História explicar-nos a perseguição a judeus: como primeiro foram uns e não outros; porque foram estes e não aqueles; mulheres agarradas a filhos, pais sequestrados, crianças mortas, indiferença militante. As estrelas, os comboios, os pijamas.
Debruçado sobre uma mesa de madeira, jovem herói, tinha apenas uma certeza: «Se fosse vivo nessa altura, faria tudo para parar esta barbárie. Lutaria contra a injustiça e defenderia os judeus o quanto pudesse.» Não havia cá «ses» ou «mas»: daria a minha vida, se preciso fosse, para impedir a chacina.
Profundamente angustiado pelos detalhes que aprendia – «Escrever poesia depois de Auschwitz é bárbaro», escreveu um filósofo alemão –, quis saber em casa o que fizeram os meus antepassados para impedi-lo. Por outras palavras: cobrei-lhes a História. E assim descobri, com resplandecente orgulho, que o meu bisavô, então cônsul-geral em Paris, passou vistos a judeus para fugirem para Portugal.
Em 2050, os nossos filhos e netos estarão na escola e serão os adolescentes que ficarão com dores de barriga quando aprenderem o que aconteceu em Gaza entre 2023 e 2025. E nós seremos os antepassados a quem cobrarão a História: «Pai, Mãe, o que fizeste para acabar com isto?». E para muitos, como eu, a resposta será provavelmente a mesma que daríamos se afinal fôssemos vivos na década de 40: «Nada.»
Não foi o jovem herói que aos treze anos mentiu ao mundo sobre a sua valentia: foi o adulto que não conseguiu acompanhar a coragem do jovem herói. Recuo no tempo e imagino a minha turma: sentada, hirta, desconfortável a aprender sobre os judeus perseguidos. Avanço no tempo e imagino a dos meus filhos: caída, tensa, desiludida com as imagens de cadáveres de crianças em Gaza. Desde 7 de Outubro de 2023 até ao último cessar-fogo, morreram cerca de 70 mil palestinianos em Gaza: 90 por dia – todos os dias morreu a minha turma e outras duas. Não tivemos vistos para passar aos palestinianos e até há pouco a ajuda humanitária era-lhes proibida. Enquanto Israel bombardeava a esperança em Gaza, nós tentámos negar o nosso «nada». Escrevemos nos jornais, publicámos livros, exigimos mais ao nosso Governo: lançámos ao ar pequenas fagulhas que, mal iluminavam o assunto, eram eclipsadas por novos mísseis de Telavive. Como editores, publicar sobre o tema é dar socos no ar – mas pelo menos encadernamos a desgraça. Fazemos o pouco que podemos, mas fá-lo-emos enquanto conseguirmos. Para que pelo menos os nossos filhos não morram de vergonha.
Este texto foi originalmente publicado no LinkedIn da “Ideias de Ler” e foi aqui republicado com a devida autorização, sendo que é uma versão adaptada.

