Elio e Carl Sagan: do desconforto nasce a pergunta, da pergunta nasce a descoberta 

por Ana Monteiro Fernandes,    25 Outubro, 2025
Elio e Carl Sagan: do desconforto nasce a pergunta, da pergunta nasce a descoberta 
Elio e Carl Sagan / DR

Já há muito que os filmes de animação deixaram de ser exclusivamente para um público infantil. Aliás, as próprias histórias infantis não são, exclusivamente, para crianças. Muitas delas, tal como as que conhecemos através das recolhas de Giambattista Basile, Charles Perrault e irmãos Grimm, tiveram o propósito de ajudar as bases populares, maioritariamente afastadas de uma educação escolar e mais erudita, a expressarem as suas preocupações, alegrias, dores, sentido de justiça e injustiça: se não de forma directa, muitas vezes de forma subtil e velada. Mesmo no que diz respeito às histórias de encantar, não é ao acaso que há sempre a tentativa de misturar as classes mais baixas com a nobreza, inacessível, e que na mente colectiva de então representaria a ascensão para um estilo de vida melhor, quando a ascensão social era quase ou mesmo impossível. Não quer dizer que, no meio da simplicidade aparente destas histórias, a noção do bom sempre bom e do mau sempre mau fosse sempre respeitada. Esse lado acabou por ser depurado quando tivemos a consciência de que eram as crianças as principais consumidoras destas histórias e, por isso mesmo, começou a haver mais cuidado com a forma como as mesmas são apresentadas.

Relembro, por exemplo, que na primeira edição do livro dos irmãos Grimm, quando estes ainda não suspeitavam que as histórias iriam passar a ser contadas às crianças, a madrasta da “Branca de Neve” não era, na verdade, a madrasta, mas a mãe; o mesmo aconteceu com o conto de “Hansel e Gretel”. Estas histórias acabaram por ser alteradas porque, no entender popular, uma criança deve sempre confiar na sua mãe, o amor de mãe está sempre envolto neste conceito de sagrado. Neste mesmo livro constava também uma história em que um grupo de crianças comete um crime enquanto brinca, sem a consciência de estarem a cometer esse mesmo crime e, quando apresentadas ao juiz, surge a dúvida: seremos culpados quando não temos maturidade suficiente para a consciência do mal feito? Ou é essa consciência de que estamos a fazer mal que nos torna culpados e nos rouba a inocência?

Giambattista Basile por Nicolaus Perrey

Na primeira versão escrita de “Cinderela” por Giambattista Basile, a Cinderela mata a sua primeira madrasta. Na versão da “Pequena Sereia” de Hans Christian Andersen, a sereia não fica com o humano por quem se apaixonou, mas acaba por se desfazer em espuma no final, o que funciona como uma metáfora para a sua morte. Portanto, é possível perceber como a profundidade destas histórias acabou, com o tempo, por ser alterada e adulterada, claro, sem esquecer os filmes da Disney que também contribuíram para tal.

Quanto aos filmes de animação, não é surpresa nenhuma a profundidade dos anime japoneses tal como “As Asas do Vento”, do estúdio Ghibli, que vai desde a poesia de Paul Valéry, com o verso “le vent se lève, il faut tenter de vivre”, até à “Montanha Mágica” de Thomas Mann, abordando a Segunda Guerra Mundial passando, obviamente, pelos filmes da Pixar como “Wall-E” e a sua reflexão sobre ecologia e para onde a humanidade caminha. Depois de “Wall-E” ainda temos “Divertida-Mente” e a forma como aborda a saúde mental na pré-adolescência e adolescência. Há ainda o próprio “Turning Red – Estranhamente Vermelho” e a forma como vai mais longe na abordagem do que é, de facto, o crescimento no feminino passando pela menstruação, até “Elio”, que saiu este ano, e que traz para o universo das longas de animação o pensamento sobre o espaço assim como a memória de Carl Sagan.

“Elio” (2025), filme de Adrian Molina, Madeline Sharafian e Domee Shi

Numa entrevista a Jane Goodall lançada postumamente, “As últimas palavras: Jane Goodall”, e que pode ser vista na Netflix, a primatologista chegou a referir o seguinte: “para tocar no coração, basta termos uma história”. Explica como ante uma visão contrária e até prepotente, uma boa história tem uma maior capacidade de dar a entender o nosso ponto de vista, muito mais do que o lado totalmente racional ou agressivo. E explica como esta foi sempre a sua estratégia enquanto comunicadora do seu trabalho, face às adversidades que lhe foram surgindo. As histórias têm de facto esse poder mas, talvez, por num filme de animação existir uma maior pureza no trato das questões mais sérias, ou seja, por não haver uma pretensão de seriedade como, por vezes, acontece nos filmes ou em qualquer tipo de arte para adultos, estes filmes ditos “infantis” podem tocar-nos a um nível mais profundo. Há uma ingenuidade, fragilidade e honestidade que nos consegue desarmar.

O filme “Elio”, da Pixar, lançado em Junho de 2025, este ano, é exatamente um desses casos. “Desde o início dos tempos que o Homem contempla as estrelas e se interroga: estaremos sozinhos?” É esta a frase e pergunta que guia o filme, fazendo a ponte para as inúmeras referências a Carl Sagan feitas do início ao fim: “A procura de vida em outros lugares é, na nossa era, admirável, porque é a primeira vez que podemos realmente fazer algo, além de especular”. Elio trata-se, pois, de uma aventura espacial em que um menino, órfão a viver com a sua tia, quer realmente saber se há ou não vida extraterrestre. Lança-se numa aventura no espaço e, entre as feridas da solidão e o sentimento de não pertença a nenhum lugar, aprende não só a cultivar a sua curiosidade, mas mais do que isso. Apesar das feridas e da falsa ideia de não se sentir querido, justificada pela perda dos pais, aprende a confiar no conceito amizade.

Carl Sagan / DR

Mas pensemos no valor que uma pergunta tem. Cada pergunta tem por trás uma dúvida, tal como cada dúvida tem por trás o desconforto do desconhecimento. É justamente esse desconforto que impulsiona a pergunta e nos faz avançar. Portanto, sem a dúvida, sem a questão, “estamos realmente sozinhos”, e sem esse desconforto de não sabermos, os avanços e descobertas que a humanidade já fez não seriam possíveis.

Vamos reparar outra vez na frase principal que guia o filme: “Desde o início dos tempos que o Homem contempla as estrelas e se interroga: estaremos sozinhos?”. Em primeiro lugar, a espécie humana sempre teve a ideia de se sentir única pela forma como sente, pela forma como interroga, pela complexidade das suas relações sociais e linguagem e, até, por tudo o que conseguiu construir. Com um nível de pensamento e observação mais complexos, começou a olhar à sua volta e a ter consciência do tanto que não sabia – a explicação para a natureza à sua volta e, principalmente, a explicação para os corpos celestes perceptíveis a olho nu no céu, tal como as estrelas. Tomámos consciência de que, enquanto espécie, estávamos efectivamente sós para o alcance das repostas que queríamos a fim de suprirmos as nossas dúvidas e, assim, criámos as primeiras mitologias, os primeiros deuses, para tentarmos dar sentido às experiências do nosso dia-a-dia. O que Carl Sagan explica no excerto expresso no filme é que, actualmente, é a primeira vez na história que dispomos de mecanismos mais avançados para uma descoberta de facto, sem especulações, tal como fizemos no passado.

Mas esta é a experiência colectiva de solidão que o ser humano sempre sentiu – sim, apesar de sabermos actualmente que houve mais hominídeos com os quais nos acabámos por misturar – e que, no fundo, apesar das constantes descobertas de que, afinal, não somos a única espécie a sentir, a ter uma linguagem mais complexa e até a fabricar ferramentas, foi esse o sentimento que motivou não só a criação das primeiras religiões mas, também, o impulso para o desenvolvimento dos primórdios do pensamento científico. Há, no entanto, uma outra solidão mais individual. Apesar de sermos sociais, todos já nos sentimos sozinhos, em maior ou em menor escala, numa ou noutra situação. E também isso acabou por gerar o desconforto que nos conduziu à nossa individualidade, para as nossas próprias crenças e para as nossas próprias descobertas individuais. Todas estas reflexões cabem no filme “Elio”, afinal um filme infantil, afinal um filme da Pixar, que afinal pertence à Disney, que afinal não tem feito muito mais, ultimamente, do que repetições, salvo algumas excepções.

Mas é possível rever-nos neste rapaz, Elio, que no meio do seu desconforto e sentimento de não pertença, parte à descoberta para perceber que afinal, não, ninguém nasceu para estar sozinho. De que há muito mais do que o nosso próprio mundo e que, afinal, aqueles que nos parecem diferentes – neste caso a sua tia e os extraterrestres que acabou por descobrir – são mais seus semelhantes do que diferentes, unidos pelos mesmos sentimentos e receios, unidos pelo mesmo desconforto. Por vezes, é só preciso desconstruir a capa dura, para vermos que, afinal, somos todos feitos do mesmo.

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