Em “A Trégua”, de Mario Benedetti, a felicidade é fugaz
A felicidade dura pouco mais do que um suspiro. “A Trégua” (ed. Cavalo de Ferro), de Mario Benedetti, é isso mesmo: uma suspensão benigna da madorna quotidiana e vivencial do mais comum dos seres humanos.
Martín Santomé está prestes a reformar-se. É viúvo, pai de três filhos adultos, vive em Montevideu na década de 50, e tem pouco mais preocupações do que arranjar ocupação para depois de se reformar. Tem cerca de 50 anos e sabe já ter vivido mais tempo do que tem pela frente. Martín vai escrevendo, num registo diarístico, o tempo que lhe resta até à reforma.
A fronteira entre a vida ativa e o ócio marca uma mudança existencial no personagem. Mais uma. A primeira foi a viuvez, a segunda seria a reforma, não fosse um rasgo na tepidez trazida por uma mulher.
Sozinho, de filhos criados, Martín quer sair daquele emprego insosso, mas não sabe como iniciar uma nova vida. Nova, sente ele, só nas rotinas. Sabe estar na meia-idade, e as perspectivas e anseios estão conformados a essa condição.

A infelicidade da viuvez foi aceite e a profissão levada até cargos de importância interna. Mas essa calma viria a ser posta em causa com a chegada de Avellaneda, uma rapariga bem mais nova, ao departamento de Martín Santomé. Até o coração se autoproclamar refém, as mulheres não deixavam marca na vida de Martín. O coração e as memórias mais felizes estavam com a falecida.
O importante era satisfazer a fome, o importante era deitar-se com uma mulher e, assim que ambos estivessem satisfeitos, sair e ignorarem-se para sempre. “Em tantos e tantos anos deste jogo, não me recordo de uma única conversa reconfortante, de uma única frase comovente (minha ou alheia), daquelas que estão destinadas a reaparecer mais tarde (…)”. Martín vê mais passado do que futuro. Olhava mais para a vida partilhada com a mãe dos filhos. Até chegar Avellaneda.
A melancolia dá lugar ao medo de se ter entregado a uma mulher mais nova, mulher que — segundos os receios de Martín — se entregará a homens novos com o avançar da idade dele. Esta ideia tortura-o e retira-lhe alegria. A certeza de felicidade constante e infinita é impudica e até indecorosa. A partir daí, percebe que está numa idade em que há consciência de que o tempo é finito, até irrecuperável. A sensação de fim é-lhe insuportável.
“Este dia com Avellaneda não é a eternidade, é só um dia, um pobre, indigno, limitado dia, que todos, desde Deus, condenámos. Não é a eternidade mas o instante que, no fim de contas, é o seu verdadeiro sucedâneo. Assim, tenho de cerrar o punho, tenho de gastar esta plenitude sem nenhuma reserva, sem previsão alguma.”
Esta “cintilação instantânea” não terá direito a prorrogações. Mario Benedetti (n.Paso de los Toros, Uruguai; 1920-2009) dotou cada frase com sensibilidade e humanismo. A história de rupturas é narrada com coerência. A estratégia elíptica proporcionada pelo registo diarístico consegue dotar a personagem de pausas que exponenciam o drama. Benedetti, um dos principais autores uruguaios, tem em “A Trégua” um discurso terno de como é débil e ténue a felicidade, principalmente para quem tem menos futuro.
