Em AMOR’FATI, Lhast mostra-nos o bom, o mau e especialmente o mais ou menos

por Miguel de Almeida Santos,    28 Outubro, 2020
Em <i>AMOR’FATI</i>, Lhast mostra-nos o bom, o mau e especialmente o mais ou menos
Capa do álbum
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A expressão “amor fati” provém do latim e descreve um sentimento intemporal a qualquer ser humano. Pode traduzir-se como “amor ao fado”, a paixão e respeito pelo destino invisível que todos os dias construímos na nossa existência singular, e é usada para descrever todas as vicissitudes da vida como fazendo parte intrínseca e essencial da mesma: nem sempre boas mas sempre necessárias. É uma expressão erudita, sendo por isso curioso ver esse dizer associado ao mundo dos bangers e do trap, já que foi esse o título escolhido por Lhast para o seu álbum de estreia.

Mas esta escolha, vinda de um produtor tão prolífico, não surpreende. Entre as suas colaborações encontram-se nomes sonantes do hip hop tuga como Dillaz, Wet Bed Gang ou ProfJam (tendo produzido grande parte do álbum de estreia de Mário Cotrim, #FFFFFF), mas também nomes como Richie Campbell, Valas ou Diogo Piçarra. O sucesso de vários artistas está intimamente ligado à produção de Lhast: ameaçadora, compacta, um gume a trespassar o ar de forma organizada e melódica. Por isso, não é de estranhar que seja um dos produtores mais requisitados neste momento.

Lhast / DR

Desta vez, o herói atrás da mesa toma o lugar de destaque como frontman, mostrando um projecto que faz jus ao nome: em AMOR’FATI vemos um pouco de toda a caminhada de Lhast com os seus altos e baixos, sendo que alguns desses altos são sem dúvida os hooks. Lhast mostra uma especial facilidade em criar earworms de melodias intoxicantes rodeadas de auto-tune: a possante “2020” introduz-nos ao álbum com antecipação positiva, augurando um futuro mais brilhante do que aquele que de facto se verificou para este ano. “Nem sempre tenho o que eu quero / Mas era o que eu precisava”, ouvimos Lhast entoar a máxima do título do álbum descrita no tema que nos introduz a este mundo.

“Saturno” mantém as octanas a render, num tema em que o escapismo de copo vazio à espera de refill é a celebração do consagrado caminho construído por Lhast. O hook é de tal forma avassalador e apelativo que tem de ser feito duas vezes, como demonstrado por “Pa’Cima”. A música é um bocejante acenar do topo para os haters cá em baixo, com um belo verso (“Só em campo é que dá para ser médio”) e um hook que é mais do que um piscar de olhos a “Saturno”, mas desta vez replicado de forma inferior, sem o brilho e opulência dessa música. Já “VI” está num mundo à parte, com um ritmo alucinante e efervescente numa batida com muita coisa a acontecer e uma relação moribunda a soltar os últimos suspiros (“Se não há um sítio para onde a gente vai / Então o que é que interessa o que é que a gente foi”).

Os pontos mais altos de AMOR’FATI são temas em que vemos o lado mais confessional de Lhast, como no perscrutante interlúdio “2:22” ou “Pluto”, tema discreto de final contemplativo que relega LON3R JOHNY — um dos trunfos da Think Music — para um simples e esquecível refrão. São nestes momentos mais atípicos que o artista se destaca, onde a típica batuta do trap é adaptada à realidade de Lhast. Mas, infelizmente, esses momentos não abundam neste álbum, que peca por não ter uma identidade verdadeiramente cimentada.

As razões são várias: temas como “Render” ou “Pa’Cima” são superficiais, sem grande coisa a dizer, e “QE” mostra-se desapontante porque vemos Lhast com um flow letárgico e recatado que não se adequa à batida verdadeiramente ameaçadora e voraz de Holly. Aliado a esses temas, está também o facto de metade do álbum já estar cá fora antes do lançamento, existindo pouco espaço para surpresas. Ainda as há — veja-se a conclusão estrondosamente barulhenta de “11915” — mas são raras.

AMOR’FATI é um nome que assenta que nem uma luva a este projecto de Lhast. O artista leva-nos por uma caminhada pela sua vida através de canções e temas que o espelham, mas que se esforçam para o descrever verdadeiramente. Há hooks que se alojam na mente e estrofes que, salvo raras excepções, se esquecem num instante. Mas faz tudo parte da vida: o bom, o mau e o mais ou menos. Pena que esse último seja o que mais se verifica neste projecto.

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