Ensino Superior: estamos a perder alunos e o país está a perder o futuro
Os números da primeira fase do concurso nacional de acesso ao Ensino Superior soam a alarme: 43 899 estudantes colocados, menos 12,1% face a 2024. No total, candidataram-se 48 718, uma quebra de 16,4 % em apenas um ano. São menos 6 000 jovens a entrar no sistema e mais de 11 500 vagas a ficarem por preencher — um recorde negativo das últimas duas décadas.
É fácil culpar a demografia. Sim, temos menos jovens. Mas essa explicação é demasiado cómoda. A verdade é que estamos a erguer barreiras adicionais que afastam milhares de estudantes do ensino superior. O novo modelo de acesso, mais exigente em exames específicos e menos atento ao percurso escolar global, está a penalizar sobretudo os que vêm de famílias com menos recursos. Quem pode pagar explicações intensivas e preparação extra, consegue competir. Quem não pode, fica para trás.
E há uma barreira ainda mais brutal, tantas vezes esquecida: o custo de viver fora de casa para estudar.
Em Lisboa, arrendar um quarto custa hoje em média 500 euros por mês. No Porto, 400 euros. Mesmo em cidades tradicionalmente mais acessíveis, como Braga ou Aveiro, os valores já rondam os 300 euros — valores impensáveis para muitas famílias.
Perante isto, muitos jovens nem sequer chegaram a candidatar-se. Para quê sonhar com um curso universitário, se a primeira barreira é uma renda impossível de pagar? A Federação Académica do Porto resumiu bem: em Portugal, para estudar é preciso dinheiro e sorte no código postal.
As residências públicas não chegam para metade da procura. Em Lisboa, há pouco mais de 2 700 camas para quase 50 000 estudantes deslocados. O ambicioso plano nacional de alojamento prometia 27 000 camas novas até 2026. A realidade? Apenas 13 % concluídas até agora. Promessas que não pagam renda.
E enquanto adiamos soluções estruturais, milhares de jovens estão a desistir. Não porque não querem estudar, não porque não tenham mérito, mas porque o sistema lhes diz que não há lugar para eles.
Este não é apenas um problema de estatísticas. É um problema de justiça social e de coesão territorial. Quando os institutos politécnicos do interior ficam com vagas por preencher porque os estudantes não têm condições para se deslocar, estamos a condenar regiões inteiras a um futuro mais pobre e desigual.
É hora de assumir, sem rodeios: Portugal não pode continuar a desperdiçar talento porque estudar se tornou um luxo. Precisamos de mais residências públicas, de apoios eficazes ao alojamento e de um modelo de acesso que não discrimine quem tem menos recursos.
O ensino superior deve ser a porta de entrada para oportunidades, não um privilégio reservado a quem nasceu no sítio certo ou tem carteira mais recheada.
Se não corrigirmos este caminho já, daqui a alguns anos vamos olhar para trás e perceber que perdemos uma geração inteira — não por falta de capacidade, mas por falta de coragem política.
E isso será imperdoável.

