Entrar em cena
Belisa Branças e Marco Mendonça escrevem, após “Afro Saloyá”, de Isabél Zuaa, no dia 11/06/2026 no Centro Cultural Vila Flor, Guimarães, no âmbito dos Festivais Gil Vicente.
Não vimos o espetáculo de Isabél Zuaa.
Vimos a atriz entrar em cena para anunciar que não haveria espetáculo.
Entrar em cena é um ato de poder.
“Agora, durante algum tempo, este espaço pertence-me.”
Mas existe outra regra menos falada.
Para alguém entrar em cena, a cena tem de estar livre. Ou, pelo menos, a entrada tem de ser previsível. Acordada. Reconhecida.
Caso contrário, não é apenas uma entrada.
É uma invasão.
Sabemos algumas coisas sobre invasões. Ou não?
Na estreia de AFRO SALOYÁ, um pacto de respeito foi quebrado. Ou talvez nunca tenha existido.
Um homem branco entra num palco ocupado por uma mulher negra, interrompe o seu trabalho, aponta-lhe o dedo e exige uma determinada ação sob ameaça de uma consequência.
Mesmo que todas as investigações do mundo concluam que não existiu motivação racial consciente, a imagem é esta.
Demasiado reconhecível.
Uma das formas mais eficazes que o racismo contemporâneo encontrou para sobreviver foi convencer-nos de que só existe quando pode ser provado como intenção.
Como se a única pergunta relevante fosse:
“É racista?”
Quando muitas vezes a pergunta mais reveladora é:
“Porque é que isto nos parece tão familiar?”
Porque parece.
Parece demasiado.
Parece uma fotografia antiga.
Parece um arquivo.
Parece uma gravura.
Penso frequentemente na expressão “não vejo cor”.
“We must see who benefits from their race, who is disproportionately impacted by negative stereotypes about their race, and to whom power and privilege is bestowed upon – earned or not – because of their race, their class, and their gender. Seeing race is essential to changing the system.’’
Eddo-Lodge, 2018, 82-34
Ver cor é reconhecer padrões.
Ver cor é identificar estruturas de poder.
Claro que é mais fácil tapar o sol com uma peneira;
Esconder a cabeça na areia;
Fazer vista grossa;
Fingir que chove;
Admitirmos racismo é admitir que os poderes estruturais beneficiam as pessoas brancas. Aliadas ou não.
Looong story short…
Os administradores coloniais não acordavam todas as manhãs a pensar:
“This state of play is violently unjust. It’s a social construct that was created to continue racial dominance and injustice. And the difference people of colour are vaguely aware of since birth is not benign. It is fraught with racism, racist stereotyping, and for women, racialised misogyny.”
Ou.
“Sou racista, logo, hoje vou praticar racismo.”
Muitos acreditavam que estavam a impor ordem. Disciplina. Profissionalismo. Bom senso.
É precisamente isso que torna os sistemas de poder tão resistentes.
Again.
“Mas há provas?”
Expected.
“Mas qual foi a intenção?”
Typical.
“Temos de ouvir os dois lados.”
Of course.
Há perguntas que deslocam o olhar da estrutura para o indivíduo.
Porque se o problema for apenas um racista isolado, o país nunca terá necessidade de olhar para si próprio.
E Portugal detesta olhar para si próprio.
Ao mesmo tempo, continuamos a ouvir que Portugal não é um país racista.
É difícil não admirar a consistência.
A energia.
O empenho.
Very typical.
Isabél Zuaa entrou em cena para reclamar o poder de sair.
Escolher voltar a entrar num espaço que carrega a memória de violência é também um ato de resistência.
Especialmente quando a alternativa dada é apenas a ilusão de escolha.
Entrar em cena é um ato de poder.
Assim como sair.
Um grupo de mulheres negras a recusar transformar violência em rotina.
A recusar transformar desconforto em protocolo.
Essa é a imagem que escolho guardar.
