Entrevista. Ana Lua Caiano: “Há pessoas que estão à espera da reforma para poderem começar a viver”
Depois do primeiro single, “Nem Mal Me Queres”, seguiram-se os EPs “Cheguei Tarde a Ontem” (2022) e “Se Dançar É Só Depois” (2023). Em 2024, lançou o seu primeiro álbum, “Vou Ficar Neste Quadrado”, editado pela alemã Glitterbeat Records. O reconhecimento chegou cedo, no mesmo ano, foi nomeada para três categorias nos Globos de Ouro, acabando por conquistar o prémio de Melhor Canção com “Deixem o Morto Morrer”.
Agora, Ana Lua Caiano prepara o seu segundo álbum, onde promete explorar novos elementos sonoros, dando maior espaço ao silêncio, aos instrumentos acústicos e a atmosferas menos frenéticas.
Futuramente, a artista continuará a apresentar o seu trabalho em diferentes palcos, destacando-se a atuação no Ageas Cooljazz, em Cascais, marcada para julho. Em maio, atua na Croácia, em Zagreb e em Rijeka, nos dias 21 e 22 de maio.
O novo single, “Uma Vida a Menos”, com videoclipe realizado por Joana Caiano é dado hoje a conhecer. Em conversa na Casa Capitão, Ana Lua Caiano falou-nos sobre esta nova canção, o videoclipe e as experiências e inquietações que têm marcado o seu quotidiano e influenciado o seu processo criativo.
Tens um estilo muito próprio, referido como uma mistura entre o electrónico e uma vertente tradicional portuguesa, podemos esperar alguma novidade deste novo projecto?
Este álbum tem novos elementos. Com este novo single já se percebe que dei mais relevância aos elementos acústicos. Por exemplo, há aqui uma parte em que só entra o piano, e isso é muito importante para mim. No disco anterior havia muito mais “barulho”, era tudo mais frenético. Neste disco a ideia, ou aquilo que acabou por surgir naturalmente, foi a vontade de procurar mais os silêncios no meio da confusão. Portanto, há novos elementos, alguns, até de forma quase acidental, como vozes mais “malucas” que vão existir em músicas futuras deste meu novo trabalho.

A imagem e a música sempre estiveram muito interligadas na forma como apresentas o teu trabalho. Dia 22 de maio [hoje] sai, “Uma vida a Menos”, uma música que espelha a ânsia dos trabalhadores, ao longo do videoclipe, podemos ver um dualismo entre trabalhadores e animais? Pressão e descontração? No videoclipe, o teclado de um computador aparece como um piano, ou seja, tentas encontrar na própria música algum símbolo de refúgio para uma putativa felicidade? O que sentes que falta nos locais de trabalho? Mais “pianos no teclado”?
Sim, diria que falta isso, como falta uma maior separação entre o trabalho e o tempo de descanso. As pessoas estão sempre a pensar no trabalho, recebem um e-mail ou um telefonema e acaba por não existir uma divisão muito clara entre os dois momentos. Esta música fala sobre o facto de não haver tempo suficiente durante o dia para descansar. Oito horas de trabalho acabam por ocupar praticamente o dia inteiro e tudo gira à volta do trabalho, enquanto os momentos de descanso e lazer acabam por ser muito reduzidos. O videoclipe tem essa interpretação e acho que pode ser visto de várias formas. A ideia do videoclipe era precisamente desconstruir a ideia de trabalho, há trabalhos em que as pessoas sentem que estão a fazer tarefas sem perceber muito bem qual é o objetivo. Preencher um Excel, tratar de determinadas coisas… mas sem entender realmente o propósito.
O videoclipe é da autoria da Joana Caiano. Começámos a trabalhar durante a quarentena, e com o tempo, a linguagem visual dela acabou por se misturar com a minha linguagem musical. Quisemos explorar essa ideia do que pode ser o trabalho. No final do vídeo, por exemplo, vemos pessoas a tirarem as teclas do teclado uma a uma, quase numa atitude de brincadeira e desconstrução.
A questão dos animais surgiu para criar esse contraste. Dentro de um escritório ou de um espaço fechado existe muita tensão e muito stress. A ideia era transportar isso para o exterior e perguntar, será que, num ambiente que parece mais harmonioso, esse stress continua presente? Ou seja, tentar contrastar a calma da natureza com o stress do trabalho. Às vezes estamos muito ansiosos e depois olhamos para a natureza, que parece muito mais calma e equilibrada. Mas há várias ideias subjacentes no videoclipe. Não gosto de fechar totalmente a interpretação, uma vez que podem existir muitas leituras possíveis.
“A ideia do videoclipe era precisamente desconstruir a ideia de trabalho, há trabalhos em que as pessoas sentem que estão a fazer tarefas sem perceber muito bem qual é o objetivo.”
Na altura em que soubemos o título [“Uma Vida a Menos”], ainda não conhecíamos propriamente o conteúdo nem o videoclipe. E agora, olhando para tudo o que referiste, o sofrimento dos trabalhadores, a falta de descanso, a ausência de felicidade e de tranquilidade no dia a dia, bem como a ideia de estarmos muitas vezes desencontrados na nossa rotina. Todos os fatores referidos fazem com que “uma vida a menos” possa não ser apenas literal, mas também simbólica, no sentido em que a vida acaba por estar tão sobrecarregada e cheia de trabalho e pressão que, de certa forma, sentimos que estamos todos um pouco “a menos”?
Sim. Era um bocadinho essa ideia de que há pessoas que estão à espera da reforma para poderem começar a viver, digamos assim. Portanto, acho que essa foi uma das inspirações da canção, perceber que existe essa espera para se fazer aquilo de que se gosta, e que é triste não haver uma melhor conciliação entre o trabalho e a vida pessoal. Felizmente, sinto que já acontece noutros países, que têm, por exemplo, semanas de quatro dias ou horários de trabalho menos extensos, em que as pessoas conseguem realmente aproveitar mais a vida para além do trabalho. Claro que o ideal é que toda a gente goste do seu trabalho, mas mesmo quem gosta muitas vezes sente-se exausto. Não é tanto uma questão de não gostar do trabalho, mas sim de determinadas condições que acabam por piorar essa experiência.
Sentes que na tua profissão enquanto cantora, ao longo do teu percurso, foste sentido “uma vida a menos”?
Sinto que os artistas têm um problema, que é não conseguirem separar as coisas. Como gostamos muito do que fazemos, não existem propriamente pausas, o nosso lazer acaba por ser o nosso trabalho. Portanto, estamos sempre a trabalhar, a toda a hora, em qualquer momento. Isso também pode ser complicado de gerir e de saber quando parar, porque não temos propriamente fins de semana, há sempre trabalho, sempre coisas a acontecer, seja uma nova ideia ou um novo projeto. O trabalho começa logo cedo e os dias acabam por se estender até à noite. Acaba por ser uma confusão, mas também é algo que se tem de aprender, saber distinguir e encontrar equilíbrio. As pausas são necessárias, pois ajudam as ideias a surgir mais facilmente.

Em Portugal ainda é muito difícil uma pessoa conseguir dedicar-se 100% a uma carreira ligada ao mundo musical ?
Sim, é muito difícil. Principalmente quando se começa. Antes de ter este projeto, que felizmente correu bem, tive outros projetos que eram mais complicados. Neste projeto a solo, tenho a facilidade de circular mais, o que me permitiu desde o início ir a alguns sítios apenas com o meu técnico de som. No início nem tinha técnico, mas com poucas pessoas, em termos de logística, tudo se torna mais fácil.
Já numa banda era praticamente impossível sair de Lisboa. E isso cria uma grande dificuldade para quem não é de Lisboa, porque, em muitos locais do país, não há espaços pequenos onde se possa mostrar música. É muito difícil para alguém começar e dar-se a conhecer. É importante existir uma Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses (RTCP), mas também seria importante existir uma rede nacional de clubes, ou seja, espaços mais pequenos que pudessem ser financiados.
Mesmo para mim, às vezes ir a um teatro pode ser intimidante, porque há mais lugares e outra dimensão. Por isso, fazia sentido existirem também espaços mais pequenos, onde as bandas pudessem começar, rodar, experimentar e desenvolver-se. Às vezes quero apresentar o projeto em sítios muito diferentes e é difícil encontrar espaços adequados, queremos ser o mais diversos possível, mas nem sempre existem esses espaços mais pequenos para mostrar as canções.
“Depois de ter feito o álbum, que já está todo finalizado, reparei que sou, de facto, bastante pessimista. Já tinha alguma noção disso, mas durante o processo não tinha essa perceção de forma tão clara.”
Há algum aspeto positivo que tenhas visto lá fora, desde concertos ou festivais internacionais que aches que faz falta cá em Portugal? Até a nível de logística e do tempo que é dado ao trabalho no contexto musical, sentes que, em alguns casos, eles [internacionais] têm métodos que são completamente diferentes dos nossos?
Uma coisa que noto imenso é que, lá fora, existe muito mais preocupação com questões ambientais. Por exemplo, é muito raro num festival grande, ou até mais alternativo, existirem garrafas de plástico. Isso praticamente não existe e, em muitos casos, nem é permitido levar plástico para o palco. Por outro lado, existe um maior apoio a espaços mais pequenos. Percebe-se que há um suporte estatal mais forte, que não os deixa tão dependentes de si próprios. Ou seja, uma artista emergente ou menos conhecida consegue mais facilmente ter oportunidades de tocar. Existe claramente mais investimento público na cultura, o que ajuda esses espaços a existir e a funcionar. Os próprios equipamentos muitas vezes são melhores, nota-se essa diferença até em salas mais pequenas ou mais underground.
Aqui em Portugal, se quiseres tocar no Alentejo ou no Algarve, por exemplo, não há propriamente clubes ou espaços, ou os poucos que existiam foram fechando. Isso torna tudo mais difícil. Em França, mesmo em sítios pequenos, há sempre salas muito boas, muitos clubes, e apesar de ser uma escala diferente, nota-se claramente um maior investimento na cultura, apoio que em Portugal ainda não existe tanto.
“Sinto que os artistas têm um problema: como gostamos muito do que fazemos, não existem propriamente pausas, o nosso lazer acaba por ser o nosso trabalho. Portanto, estamos sempre a trabalhar.”
O facto de teres vindo a pisar em alguns palcos internacionais, de certa forma, ajudou a moldar o álbum que vai sair?
Sim, acho que molda. Felizmente, nestas viagens que tenho feito, cruzo-me com imensos músicos diferentes, imensos projetos e várias formas de ver a música ao vivo. E tudo isso acaba por influenciar. Acabo por conhecer muitos projetos lá fora e isso tem-me permitido criar muitos contactos, bem como iniciar ideias e colaborações que ainda não saíram ou que vão surgir mais à frente, precisamente por ter tocado em diferentes países e contextos, algo que talvez não surgisse de outra forma.
No primeiro álbum são referidas muitas vezes as dificuldades do dia a dia. O segundo álbum também irá carregar consigo esse peso de letras ligadas ao quotidiano, em especial, das dificuldade que nos assistem diariamente?
Depois de ter feito o álbum, que já está todo finalizado, reparei que sou, de facto, bastante pessimista. Já tinha alguma noção disso, mas durante o processo não tinha essa perceção de forma tão clara. Os temas abordados neste novo disco refletem várias inquietações minhas sobre o dia a dia. Este novo trabalho vai falar sobre temas como a morte, a guerra e outras questões que me inquietam.
E, nesta música em particular [“Uma Vida a Menos”], o tema central é a questão do trabalho e dos direitos dos trabalhadores, que muitas vezes acabam por ser postos em causa, e que é importante não esquecermos, porque há pouco tempo nem sequer existia o sábado como dia de descanso. Todas estas pequenas lutas são importantes. No fundo, acho que passa muito pela ideia da importância do descanso para que as pessoas possam trabalhar melhor e serem mais felizes.
Já abordaste isto algumas vezes mas, desde a pandemia, quando começaste a trabalhar de forma mais séria na música, tens falado de várias referências que te foram marcando ao longo do tempo como o Sérgio Godinho, o José Afonso, o Fausto e o José Mário Branco. Abordas com frequência as tuas inquietações, tal como eles faziam na sua época. A tua fonte de referência vem do olhar para o mundo através das letras, ou seja, da inquietação com o estado atual das coisas, ou também do ponto de vista musical? Achas que eles próprios deixaram um legado que hoje permite a novos artistas pegarem nessas inquietações do quotidiano e transformarem-nas em canções?
Sim, sem dúvida que eles me influenciaram, além do aspecto musical. Muitas das canções do Sérgio Godinho, por exemplo, falavam, mesmo depois da revolução, sobre coisas que não estavam bem e que precisavam de ser mudadas. Ouço as músicas deles desde muito nova, portanto sinto que essas canções me fizeram também olhar para o mundo de uma forma mais crítica, ou usar a canção como uma forma de desabafo, de alguma maneira.
Ouvir esses compositores desde cedo fez-me pensar e também querer escrever sobre as coisas que me inquietam. Sinto que, muitas vezes, é uma forma de conseguir falar sobre coisas que me incomodam ou que não sei bem pôr em palavras de outra forma. E, de repente, numa canção, torna-se mais fácil expressar isso
