Entrevista. Anthony Passeron: “O meu trabalho de escrita procura interrogar as causas exteriores à destruição da minha família”
Saiu muito discretamente no início de 2025. Tão discretamente que demoramos a dele dar conta e, no entanto, As crianças adormecidas, primeiro livro de Anthony Passeron (Nice, 1983), é um relato que encontra eco em centenas de famílias que viveram com o flagelo do HIV-SIDA no silêncio, no desconhecimento, na recusa e na vergonha social. Publicado originalmente em 2022 pela Editions Globe, a edição portuguesa pela Livros do Brasil reinscreve a luta diária e sem mediatismo de famílias inteiras, socialmente transversais mas, sobretudo, remediadas, modestas e sem acesso a cuidados médicos, conhecimento científico ou uma rede afetiva, maioritariamente urbana e nos grandes centros.
Um dos capítulos refere a importância dos bravos pioneiros que enfrentaram as dúvidas, as pressões e o medo, entre eles a médica portuguesa Maria Odette Santos-Ferreira, (1925-2018) que em Portugal muito contribuirá para o estudo e avanço das investigações sobre o vírus, e que estará na fundação da Associação Abraço. É um livro cheio de heróis, todos eles cheios de fragilidades. Um livro que reescreve a bibliografia sobre os anos-SIDA, à escala da mesa de jantar.

É a história do rastro de destruição deixado pelo vírus nas famílias do interior, deslocando o olhar mediático da mais fácil das estigmatizações, a comunidade homossexual, para falar de outros invisíveis: os toxicodependentes. É um livro sobre uma família destruída, contada pelo sobrinho, filho de um pai que se substituiu a todas as outras figuras, e, pelo caminho, se destruiu a si.
Quando falamos com Anthony Passeron, professor de História e Geografia no ensino secundário francês, já o seu segundo livro, Jacky (Grasset, 2025), havia saído. É nesse que conta o que ficou por saber no anterior, aquilo que ele, criança, não poderia saber e que os pais esconderam, que é outra forma de conjugar o verbo proteger. A conversa que publicamos, atravessa os dois livros, ainda que Jacky esteja por traduzir e publicar em Portugal. Mas o que um antecipa, o outro amplia e, nos espaços por preencher, cabem as histórias de todos aqueles que viveram esta realidade de forma muito próxima ou, agora, podem aprender como terá sido.
“A minha mãe é bastante narcísica, e só tem uma grande preocupação: que eu manche a sua imagem. Ela está muito contente que eu escreva a história do lado paterno, mas também, creio que, tendo sido ela a criar-me depois do desaparecimento do meu pai, é com ela que tenho uma grande dívida de gratidão.”
Não será um detalhe o facto de ensinar geografia, porque sendo a geografia também sobre mapas, e as fronteiras sendo políticas, a forma de o contar, é também um ato político. Há nesta descrição de um mapa a ideia de um silêncio, como se a dor daqueles que também sofreram, vítimas diretas e indiretas, não pertencesse à grande história. Pergunto-me se isso é algo que também da forma de ensinar História a partir da Geografia.
Em França, ou se estuda História, ou se estuda Geografia. Eu tenho uma obsessão pelo espaço que é, talvez, mais forte do que a minha obsessão pela temporalidade. Interroguei-me sempre sobre a especificidade geográfica desta família, porque é uma família periférica, no sentido geográfico do termo. Está desclassificada, mais no sentido geográfico do que no sentido económico. Em França, quando se fala de classes sociais, e de desclassificação, a dimensão geográfica é sempre ignorada. O meu trabalho de escrita procura interrogar as causas exteriores à destruição da minha família, em paralelo com as convulsões do final do século XX.
A minha tese é a de que, com rendimento igual, podemos ser mais ou menos desclassificados em função da nossa geografia. A minha família não faz parte das classes populares, mas das classes médias, mas foi desclassificada geograficamente, dada a sua distância em relação às infraestruturas de informação, políticas e de cuidados médicos. No caso específico da história que este livro conta, a família do meu lado paterno, não tem voz na representação das definições sociais, o que as encerra num círculo vicioso de ausências. É essa ausência nas representações políticas que faz com que não se sintam autorizadas a expressar-se.
Essa geografia, que começa por ser a do seu avô, é também a de muitos autores que se instalam em Paris vindos do interior de França, e que escreverão sobre o mesmo tema. Penso no dramaturgo Jean-Luc Lagarce (1957-1995), que, no mesmo período em que o seu romance se passa, trabalhará o choque intercultural que existe num mesmo país, e que se tornou mais presente com o trabalho do sociólogo Didier Eribon [recorda a entrevista], e mais recentemente com o escritor Édouard Louis [recorda a entrevista]: a redescoberta de uma espécie de isolamento do real. Acho muito interessante o modo como, através desta narrativa, somos levados a rever o que se oficializou como a bibliografia oficial dos anos do VIH-SIDA, e, por não estarmos a falar do impacto na comunidade homossexual, nos darmos conta de como o silêncio sobre a comunidade heterossexual e toxicodependente, contribuiu para um impacto igualmente devastador.
Sim, foi a partir dessa bibliografia oficial, e do ângulo morto dessa bibliografia, que me autorizei a escrever. Se eu tivesse tido um tio que morrera de SIDA e que fosse um intelectual homossexual, um fotógrafo como Hervé Guibert [1955-1991], talvez me dissesse que não seria necessário contar a sua vida. Foi o facto de identificar uma falta, de facto, num campo delimitado que imagino que possa existir, igualmente, em Portugal, que mo autorizou.
“O meu trabalho de escrita procura interrogar as causas exteriores à destruição da minha família, em paralelo com as convulsões do final do século XX.”
Quando fala de ângulo morto, no fundo, a estigmatização ligada à sexualidade, lembro-me de uma expressão atribuída à sua avó para descrever o que estava a acontecer ao filho: “uns disparates”. No caso dos toxicodependentes, essa estigmatização passava pela ideia de fraqueza, que seria mais difícil para a sua família aceitar caso o seu tio fosse homossexual?
Sim. O que causava a vergonha na minha família era, sobretudo, o facto de a toxicodependência lhe transmitir uma doença que, em 1982, era vista como uma doença dos homossexuais. Existiam outras vítimas, mas não eram tão mediatizadas. É preciso lembrar que em 1982, falar de seropositividade é falar de homossexualidade, mesmo que não sejas homossexual. Acredito que, no caso, houve uma dupla vergonha: primeiro, a vergonha em reconhecer o filho como toxicodependente, depois a relação entre o VIH-SIDA e a homossexualidade. E é este estigma da homossexualidade que se cola a todos os doentes, mesmo que não o fossem. Ainda hoje, na pequena cidade onde os meus avós moravam, 25 ou 30 anos depois, os homossexuais continuam “no armário”. Toleramo-los, mas não têm a mesma liberdade que nas grandes cidades. Há como que uma dupla infâmia em relação à homossexualidade. Além da vergonha pela homossexualidade, havia ainda uma vergonha social, porque sendo as vítimas expostas pela sua sexualidade, havia também o estigma da saúde pública, posta em risco por homens que haviam sido expostos pela sua sexualidade.

O romance constrói-se na aprendizagem da relação entre o vírus e a sexualidade, consciência que ganhou muito mais tarde. Numa cena descrita no romance que se seguiu, Jacky, usa a palavra fraqueza para definir a razão pela qual se impressiona ao ver um seu colega de escola a ser agredido por causa da sua homossexualidade. Escreve a palavra fraqueza. Por ser homossexual, era fraco. E projeta-se nessa fraqueza.
Parece paradoxal, mas essa é uma cena que descreve a homossexualidade para lá da sexualidade, já que é na ausência de virilidade que se define a sexualidade. Durante muito tempo, acreditei que ia ser definido não pela minha sexualidade objetiva, mas pela minha sexualidade suposta devido à minha falta de virilidade.
Na leitura cruzada dos dois livros, As crianças adormecidas e Jacky, apercebemo-nos que a razão da doença da sua prima nunca é revelada, mas pressentida: ela própria nasceu com HIV. Essa gestão dos dados que servem a narrativa, participam do mesmo exercício de reflexão sobre o que está no centro, ou foi obscurecido, pelo discurso mediático?
Sim. Mas, na verdade, eu teria querido contar a destruição da minha célula familiar em As crianças adormecidas, mas não consegui porque em termos narrativos era demasiado complexo e lembro-me que a minha editora francesa me disse “esta parte da história é talvez outro livro.” Quando somos um romancista estreante, não sabemos que vamos escrever um livro e ainda menos que iremos escrever um segundo. Um livro deixa sempre questões que podem ser respondidas num livro seguinte, e inversamente. Foi preciso aceitar que algumas questões seriam deixadas em suspenso no final de As crianças adormecidas. A questão do pai, por exemplo. No final percebemos que o vírus vai deixar para trás, além dos mortos, uma família destruída.
“Ainda hoje, na pequena cidade onde os meus avós moravam, 25 ou 30 anos depois, os homossexuais continuam “no armário”. Toleramo-los, mas não têm a mesma liberdade que nas grandes cidades.”
Jacky responde a uma dimensão tão heroica quanto trágica, que é o papel do teu pai em As crianças adormecidas. É ele que “aguenta” a família, porque se sabe sem da possibilidade de escolha. Tem que aprender a gerir os seus sentimentos, a lidar com os da sua mãe… Com Jacky percebemos que, bom… efetivamente, falhou. Não gostaria de usar palavras muito duras porque não se trata de uma personagem de ficção, mas o próprio livro deixa entender que falhou.
Tive de fazer uma dissociação em As crianças adormecidas, Jacky é o irmão corajoso…
Aquele que não tem tempo para ser vítima.
Exatamente. Mas se em As crianças adormecidas ele é o irmão, em Jacky ele é o pai, o meu pai. E um pai dececionante, aquele que falha. Isso exigiu de mim um trabalho sobre a dissociação e sobre a própria narrativa ao serviço do livro. Nesse momento, deixei de pensar de forma afetiva, mas distanciada, dissociando as escolhas emocionais das escolhas narrativas. Ele foi, também, o pai que abandonou, o pai que falhou, o pai que errou. E isso era matéria para outro livro, não aquele onde era aquele que aguentou, e onde aprendemos o quanto isso lhe custa.
Cada pessoa é várias coisas ao mesmo tempo. Nesse segundo livro, é permitido que o pai mostre o que estava a sentir e a viver.
Exatamente. Pode ser, como era, ao mesmo tempo um filho, um irmão e um pai.

A estrutura fragmentada, onde cada capítulo tem um título – em As crianças adormecidas, nomes de tratamentos, palavras de código, cidades, personagens, casos; em Jacky, nomes de videojogos, datas e acontecimentos – funciona como se fossem diferentes camadas que se juntam na mesma história, sugestionamento, ao mesmo tempo, um controlo sobre a narrativa. É correta esta leitura dúplice?
Gosto de manter os vestígios da construção do romance que, antes de o ser, é uma sucessão de textos que eu tentei organizar, e que, por razões práticas, lhes dei um nome. É o computador que me manda dar um nome para gravar o texto. Mas eu gosto desta ligação entre a necessidade objetiva prática e o resultado. Eu não quero apagar todas as estruturas assim. Houve um artigo no jornal Le Monde sobre Jacky onde a jornalista dizia, a propósito da dimensão documental que existe em cada um dos meus livros, qualquer coisa como “Anthony Passeron pensa que a história da sua família não é importante o suficiente, então junta-lhe uma história coletiva”. E tinha razão.
É, primeiro, a crença de que a história da minha família, de classe média, do campo, não é importante o suficiente para integrar a [história da] literatura, que faz com que eu acrescente uma dimensão documental. Tenho vontade de ser autor de uma escrita que não esconda os seus estigmas. Para mim, isso é significativo. Onde fiquei um pouco insatisfeito com esta análise, é que a jornalista diz isso mas não se interroga sobre as razões que me levaram a isso. Porque é que Emmanuel Carrère [autor, entre outros, de Yoga, Limonov, O Reino ou O Adversário], não precisa necessariamente de o fazer, embora o faça na mesma, mas quero dizer, no seu meio. Para mim, é uma forma de assinar a origem da minha escrita.
“Quando somos um romancista estreante, não sabemos que vamos escrever um livro e ainda menos que iremos escrever um segundo. Um livro deixa sempre questões que podem ser respondidas num livro seguinte, e inversamente.”
O que aliás é o que a sua avó fará para agradar aos seus sogros.
É isso. Há algo da ordem da resistência… ou que, pelo menos, que resiste. Mas é engraçado que mo pergunte dessa forma, porque no próximo romance, gostaria de tentar fazer duas coisas: não dar título aos capítulos, e não adicionar uma dimensão documental. Não sei se vou conseguir [risos]. É como se me quisesse libertar das minhas próprias restrições, ou tentar, como alguém que anda de canadianas, abandoná-las.
Na verdade, usamos esta grande palavra “documental” como se a ideia de documento oficializasse a história e a vida, o quotidiano. É também uma testemunha de alguma coisa, é em si mesmo testemunho. Mas há uma dimensão interessante nessa mesma palavra, documental, e que é o sentido de pertença. Volto aqui, e novamente, à ideia de geografia: pertencer a algo para tentar ver o mérito próprio de fazer parte da história. Quem são estes homens que foram obrigados a aguentar? Terão tido direito a sentir, por exemplo? Penso nas personagens de Jean-Luc Lagarce, nomeadamente na peça Tão só o fim do mundo [1990; publicado em 2005 na coleção Livrinhos de Teatro, Artistas Unidos/Edições Cotovia; adaptado ao cinema por Xavier Dolan, 2016], e em como o irmão mais velho não sabe lidar com a notícia que o mais novo lhe trará: também ele vai morrer, de VIH-SIDA.
É engraçado que fale de Lagarce porque estou a relê-lo e há algo que me toca muito nos seus textos, e que é a dimensão que referiu: não sabemos gerir as emoções daquilo que nos ultrapassa. Há sempre uma relação com a questão do regresso à terra natal e há uma questão da culpabilidade.
E no sentido mais espectral, que vai habitar, não só mas também, a sua trilogia final Estava em casa e esperava que a chuva viesse [1994; 2005] e Le pays lointain [O país distante, 1995; inédita em português]
Sim, sim. Para mim, a dimensão documental é também uma forma de obrigar o leitor a não ver o meu trabalho como um trabalho puramente estético. Há uma pretensão em tentar, mesmo que seja desajeitado, mesmo que fosse mais o trabalho da Sociologia, mas de tentar participar numa compreensão destes fenómenos vividos pela geração de homens naquela geografia.
“Reconheço-me muito nos autores que não sacrificam tudo pela estética, e que tentam compreender alguma coisa.”
Pergunto-me se não será, também e ainda, cautela de que está a começar como romancista.
Não sei se é modéstia, mas em todo o caso, acho que é uma tentativa de compreensão. É talvez porque eu peço [à literatura] outra coisa que não a estética. Reconheço-me muito nos autores que não sacrificam tudo pela estética, e que tentam compreender alguma coisa. Esta vontade de [em Jacky] inscrever o videojogo no livro, é também uma forma de assinalar uma origem social, de não me inventar como outra pessoa. Em França, nem todos os escritores – ou muitos – jogaram videojogos na adolescência.
…ou então jogaram, mas acham que é mais interessante dizer que leram livros.
Exatamente. Há uma vontade de se ser fiel às suas origens da classe média e, nomeadamente, de reabilitar esta geografia de ‘segunda zona’ com esta cultura de ‘segunda zona’ [em sociologia, um “cidadão de segunda zona” significa alguém que é vítima de discriminação sistémica e permanente]. Em França, gostamos muito dos trânsfugas de classe [aqueles que ascenderam a uma outra classe social], mas gostamos ainda mais dos trânsfugas que tiveram sucesso graças aos códigos dos dominadores. Annie Ernaux é professora agregada; Didier Eribon é sociólogo. Édouard Louis frequentou a Haute-École des Études en Sciences Sociales [em Portugal seria, por perfil aproximado, o equivalente ao ISCTE]. Gostamos muito dos trânsfugas de classe porque vêm validar a meritocracia. Vêm dizer que a meritocracia funciona sempre. Portanto, isso permite a toda a gente dormir descansada.

É muito interessante que nessa ideia de videojogo se esconda um gesto de proteção familiar, e que permite a justificação sem a moralidade da alienação. Como se, sabendo tudo o que se passava à vossa volta, os vossos pais vos deixassem à solta nas realidades paralelas, e protegidas, criadas por esses videojogos. Como se tivessem compreendido que os videojogos vos protegiam do real.
É verdade. Há um estereótipo muitas vezes atribuído aos videojogos, de dizer que é algo que é perigoso, que permite evadir-se, que às vezes se exagera, etc… Eu queria realmente lembrar em que condições esta juventude, à qual pertenço, se serviu dos videojogos [para viver]. Primeiro, porque os meus pais eram da classe média, asseguravam-nos as condições, mas não muita atenção… Como se diz muitas vezes na classe média, “não te faltou nada”. Que frase típica da classe média, esta: “Não me faltou nada.” Por outro lado, tive pais que trabalhavam muito e que ficavam contentes e tranquilos por eu jogar videojogos, e ao mesmo tempo, desolados por eu jogar tantos videojogos.
Mesmo que descreva como a sua mãe insistia para que, de vez em quando, lesse um livro.
Exatamente. Mas o que me interessava era poder também mostrar do que é que os videojogos nos podiam subtrair, do que é que nos podiam proteger. Queria mostrar que face à brutalidade da chegada do SIDA; à brutalidade da toxicodependência; à brutalidade de uma disputa parental com fundo de adultério, os videojogos podem constituir um refúgio totalmente honroso. E que, sendo a obra de uma outra geração, muitas vezes de jovens engenheiros americanos e japoneses com muita esperança no futuro numa época em que o progresso técnico era sinónimo de felicidade, para mim, para a minha família e para a comunidade onde estacamos inseridos, na época e na geografia a que pertencíamos, o progresso é sinónimo de desclassificação social
Este contraste interessava-me muito, porque o mesmo progresso que me maravilhava, e que fazia com que eu jogasse Zelda ou Super Mario, participa do processo de desclassificação da minha comunidade de origem. Não queria ser explícito, mas queria que o leitor fosse capaz de o sentir, ao se aperceber das mudanças de época entre uma geração maravilhada e uma outra, que a precede, a sofrer as consequências.
Jacky tornou-se um romance sobre a desilusão coletiva e como uma desilusão, pouco a pouco, vai contaminar as crianças. E isso interessou-me, e precisamente, porque os videojogos, as consolas, as máquinas e as cassetes vão atrasando a data de confronto com a desilusão.
“Tenho vontade de ser autor de uma escrita que não esconda os seus estigmas. Para mim, isso é significativo.”
No adiamento dessa desilusão lemos também a história da sua avó, que se recusa a ouvir as notícias, que rejeita inscrever o seu filho, doente, no contexto da epidemia, e não estando em negação, nem ignorando, persiste numa luta individual contra a realidade. É uma escolha pela sua própria sobrevivência?
Completamente. E acredito que esta escolha de sobrevivência não era dada às mulheres. Durante muito tempo, e mesmo hoje quando regresso a esse lugar, as pessoas mais velhas diziam-me o quão corajosa era a minha avó. Acho que ela era objetivamente corajosa, mas era ainda mais corajosa porque não tinha outra escolha senão ser corajosa. A possibilidade de se subtrair nem sequer existia nestas mulheres. Essa possibilidade de fuga, ou daquilo a que chamaríamos, encontrar um refúgio, não existia. É essa enorme abnegação que torna esta personagem romanesca. Acessoriamente, e aquilo que, para mim, a torna numa personagem eminentemente romanesca, é que ela pertence a diferentes movimentos do século.
Eu sou professor de História e Geografia e nas minhas aulas nunca falei de como a imigração italiana em França participou das lutas contra o HIV-SIDA. Mas a verdade é que a minha avó atravessou, ao longo da sua vida, todas essas narrativas maiores que fazem a história do século XX francês. Conheceu o fascismo em Itália, a imigração, o racismo em França, o sucesso nos “trinta gloriosos” [referente ao período do pós-guerra, 1945-1975, de ascensão económica e social em França] e, no final da sua vida, vai enfrentar a luta contra o HIV-SIDA. É isso que a torna eminentemente romanesca, também porque pertence a uma geração de mulheres cujas histórias nunca foram contadas. Na vida e morte do seu filho, está também o silenciamento da sua narrativa pessoal.
Como acontecerá, aliás, com a sua mãe, para quem o pragmatismo face à ausência de romance, de amor e do reconhecimento pelo marido. E que, de certo modo, aceitará que o papel que o seu marido haveria de ter de cumprir junto da mãe, sobre o irmão e a sobrinha, não lhe deixava qualquer outro espaço para os outros papéis que também era os seus, de marido e de pai.
Exatamente. A minha mãe, ao contrário do meu pai e da sua família, vem de um meio social mais modesto, e estava um pouco menos ligada às aparências burguesas do casamento. A minha mãe vem de uma família de camponeses e o meu pai de comerciantes. Isso pode parecer muito próximo visto daqui, mas há uma diferença pragmática, por exemplo, na relação com a religião. A questão não é saber se ela acredita ou não em Deus, mas outra: no dia em que precisámos de Deus, ele não estava lá. Não é de todo uma relação espiritual, mas uma relação prática com a religião.
“Em França, gostamos muito dos trânsfugas de classe [aqueles que ascenderam a uma outra classe social], mas gostamos ainda mais dos trânsfugas que tiveram sucesso graças aos códigos dos dominadores. Annie Ernaux é professora agregada; Didier Eribon é sociólogo. Édouard Louis frequentou a Haute-École des Études en Sciences Sociales [em Portugal seria, por perfil aproximado, o equivalente ao ISCTE]. Gostamos muito dos trânsfugas de classe porque vêm validar a meritocracia. Vêm dizer que a meritocracia funciona sempre. Portanto, isso permite a toda a gente dormir descansada.”
Se As crianças adormecidas não é escrito a partir do olhar da criança, mas de quem relata factos e os contextualiza, face o que aprendeu depois, Jacky é narrado pelo adolescente. Mas são estes dois livros exclusivamente biográficos?
No primeiro romance, eu tento explicar ao meu pai a catástrofe que atingiu o seu irmão, para o libertar da sua raiva. E mesmo que já não tenha contacto com o meu pai desde os anos 1990, ambos os livros lhe são dirigidos. Não escrevo senão porque o meu pai está ausente. Se o meu pai estivesse presente, eu acho que não me teria tornado autor. É por isso também que, por enquanto, os meus livros se interessaram pela família paterna. Não é que não houvesse nada de interessante a dizer sobre a família materna, mas eu acho que é com a ausência deste pai que eu tenho algo a resolver. Em Jacky, eu queria provocar uma relação mais frontal com o meu pai, para explicar o meu ponto de vista sobre o seu desaparecimento. No início, quis escrever um panfleto acusatório. Queria ajustar contas com o meu pai. Mas, ao terminar o livro, fiquei com a impressão de não ter escrito uma homenagem, mas de ter escrito uma tentativa de compreensão.
Porque a homenagem está em As crianças adormecidas.
Exatamente. A homenagem ao que ele foi, e ao que fez pela sua família. E o que eu digo muitas vezes às pessoas é que As crianças adormecidas é uma homenagem a Jacky enquanto filho, irmão e mesmo enquanto tio, porque ele era o pai substituto da minha prima. E em Jacky ele não é, se não, o meu pai. Necessariamente, o retrato que eu traço dele é menos lisonjeiro, porque podemos ser um excelente irmão e um mau pai e vice-versa.
Como é que a sua mãe reagiu a estes livros?
[pausa] A minha mãe é bastante narcísica, e só tem uma grande preocupação: que eu manche a sua imagem. Ela está muito contente que eu escreva a história do lado paterno, mas também, creio que, tendo sido ela a criar-me depois do desaparecimento do meu pai, é com ela que tenho uma grande dívida de gratidão. Na minha escrita, há um grande respeito pela personagem da minha mãe, porque eu tenho muita dificuldade em atacar esta personagem de forma objetiva. Nesse sentido, está bastante satisfeita. Mas a minha mãe, gosta dos meus livros de forma subjetiva. Gostou de Jacky porque, na verdade se reconheceu enquanto mulher responsável. Não sei se gosta do livro enquanto tal.
Mas talvez seja esse o papel das mães: estarem no centro de tudo o que fazemos, mesmo quando não são reconhecidas como protagonistas.
Exatamente. E é uma personagem que, é ao mesmo tempo, muito secundária, mas a versão que eu entrego é muito fiel ao seu ponto de vista. E mesmo que a sua personagem não seja muito presente, a sua influência é fundamental.
Falamos antes de autores que se inscrevem nesta linha de abordagem. Como é que o influenciaram?
Antes de ser professor de Geografia e de História, dei aulas de Francês, e encontrei na escrita de Édouard Louis uma forma de “abanar” os meus alunos. Mesmo que eu seja um pouco mais velho do que ele, ele sendo do Norte e eu do Sul, foi ao lê-lo que me autorizei a escrever. Fez-me ganhar consciência de que o mundo social no qual eu tinha crescido podia ser objeto de livros. Depois há Annie Ernaux, obviamente, mas gosto do trabalho de Constance Debré [n.1942, antiga advogada, autora, entre outros de Offenses (2023) e Protocoles (2026), inédita em Portugal]. O que me interessa nesta geração de escritores é que não fecham a porta atrás deles, e que em França descrevemos como não-ficção e “écriture de soi” [escrita sobre si mesmo].
“A minha avó era objetivamente corajosa, mas era ainda mais corajosa porque não tinha outra escolha senão ser corajosa.”
Significa isso que, a haver um terceiro livro, continuaria num mecanismo de reflexão alargado sobre esta narrativa familiar?
Eu tenho duas ideias de livros. Uma que é sobre o luto do território, visto que falávamos de Jean-Luc Lagarce. E outra, sobre o mais novo dos meus tios, Youl, cuja história é a de alguém que está à margem de tudo o que aconteceu, mas que a viveu. Portanto, por enquanto, vou permanecendo nesta geografia. Não me vejo a escrever sobre outro lugar, confesso.
Teve ecos de pessoas que viveram histórias semelhantes?
Muitos, sim. Sobretudo de jovens, às vezes mais jovens do que eu, que pensam ser o primeiro homossexual da família e que, por isso, têm receio de fazerem o coming out. E quando o fazem, explicam-lhes que houve um homossexual antes deles, mas que está no cemitério. Isso é muito, muito forte. Às vezes a história também é essa, uma história de silêncios e tabus sobre crianças, sobrinhos ou filhos de toxicodependentes infetados, que sobreviveram e que cresceram. Uma das grandes satisfações resultante do impacto de As crianças adormecidas, é refazer uma família com desconhecidos a partir de uma história comum, numa geografia mais ou menos semelhante.
