Entrevista. Bob Hardy (Franz Ferdinand): “Escrever sobre pessoas reais dá às canções uma certa autoridade”

por Bernardo Crastes,    6 Julho, 2026
Entrevista. Bob Hardy (Franz Ferdinand): “Escrever sobre pessoas reais dá às canções uma certa autoridade”
Franz Ferdinand / Fotografia de Fiona Torre
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Há uma grande probabilidade de que, ao abrir esta entrevista, o cérebro do leitor tenha começado a tocar “Take Me Out”. A verdade é que os Franz Ferdinand estarão indelevelmente associados a essa música, mas também é verdade que a banda escocesa tem continuado a lançar álbuns de rock dançável, inquieto e ocasionalmente experimental desde 2004. O mais recente (e sexto no total) foi The Human Fear, um álbum sobre — adivinharam — o medo. Será esse o mote para se apresentarem ao vivo em Cascais, no Ageas Cool Jazz, no próximo dia 25 de julho. Em antecipação desse animado concerto, tivemos a oportunidade de falar com Bob Hardy, baixista dos Franz Ferdinand desde a sua génese, que nos falou sobre os êxitos, o processo criativo da banda, o panorama musical e até sobre comédia.

Qual é a relação da banda com os vossos êxitos? Cansam-se de os tocar?

Não me canso de as tocar ao vivo. Há uma grande diferença entre tocar uma música só os cinco, numa sala de ensaios, ou tocá-la perante um público. Quando estamos a ensaiar, sobretudo se estivemos alguns meses sem tocar, limitamo-nos a tocar o alinhamento todo. Quando chega a altura de tocar, por exemplo, a “Take Me Out”, pensamos apenas: “Pronto, temos de a tocar para confirmar que ainda a sabemos.” Isso é meramente mecânico. No entanto, quando a tocamos perante uma plateia, temos a reação do público, e isso nunca perde a magia. As pessoas continuam a criar uma ligação muito forte com essa música. Continua a ser um dos grandes momentos do concerto e é algo que procuro saborear, sem nunca dar por garantido que as pessoas ainda a queiram ouvir.

Franz Ferdinand / Fotografia de Fiona Torre

O panorama musical mudou muito desde que começaram. Onde é que achas que os Franz Ferdinand e a música que fazem se inserem em 2026?

Acho que isso é o tipo de coisa em que os jornalistas pensam mais do que os músicos. Quando se está dentro da banda, não é algo sobre o qual reflita muito. Temos uma base de fãs bastante consolidada e, dentro desse contexto, sei quem somos e o que fazemos. Gosto muito disso. Adoro tocar ao vivo, conhecer os fãs e também as conexões que consegues ter com as pessoas através das redes sociais; tipo, os fãs podem enviar-nos mensagens diretamente. Gosto muito desse sentido de comunidade. Não costumo pensar muito na questão mais ampla de onde é que nos encaixamos no panorama social da música. Sinceramente, não é algo que me passe muito pela cabeça. Nós limitamo-nos a fazer música.

Achas que hoje é mais difícil criar uma canção de sucesso do que quando começaram?

Por causa da forma como as pessoas consomem música hoje em dia, tudo mudou muito. Houve uma enorme democratização da música. Já não existe aquele papel dos radialistas como grandes guardiões do sucesso. Uma música passar na rádio já não significa automaticamente que se torne um êxito. Hoje, os grandes fenómenos acontecem em plataformas como o TikTok e tal. De repente, aparece uma música completamente inesperada, de um artista desconhecido, e explode. Parece um processo muito mais orgânico. Acho que também não existe uma receita para isso. Nesse sentido, sim, é difícil conseguir um grande sucesso vindo do nada.
Ao mesmo tempo, estas redes sociais têm outra coisa interessante: fazem com que as pessoas redescubram músicas de há vinte, trinta ou quarenta anos, que talvez já não tivessem grande atenção. De repente, essas músicas tornam-se virais entre a Geração Z. Durante a pandemia, aconteceu isso com uma banda chamada Life Without Buildings. Eram uma banda fenomenal, uns grandes heróis de culto na Escócia. Obviamente, sempre foram muito respeitados nos círculos musicais, mas depois uma das suas músicas, a “The Leanover”, começou a ser usada nas redes sociais e tornou-se uma tendência. E isso não se consegue fabricar. Foram simplesmente pessoas a descobrir uma música com a qual sentiram uma ligação genuína e tudo aconteceu de forma natural. Por isso, não sei… O panorama musical de hoje é bastante complexo.

Olhando para o percurso da banda e para a forma como continuam a tocar juntos e a divertir-se ao fim de todos estes anos, o que é que vos mantém motivados?

Acho que é exatamente o mesmo impulso que nos levou a formar a banda há mais de vinte anos. É tão simples quanto isso. Adoramos música e somos meio obcecados por ela. A música tem uma espécie de magia estranha: basta pôr uma canção a tocar e ela consegue alterar completamente o teu estado de espírito. Não consigo imaginar-me a ficar farto dessa magia, de brincar com ela ou de experimentar coisas diferentes.
Depois há também a outra vertente da banda. Uma coisa é escrever e trabalhar em estúdio; outra é tocar ao vivo e andar em digressão. O público mantém tudo isso fresco. As pessoas continuam a vir ver-nos. É difícil descrever o êxtase de tocar para uma plateia muito receptiva. Também não consigo imaginar-me a cansar-me disso.

Franz Ferdinand / Fotografia de Fiona Torre

Reparei que o intervalo entre os vossos álbuns foi aumentando ao longo da carreira. Porque é que reduziram a frequência dos lançamentos?

Quando lançámos o segundo disco tão depressa, demos por nós numa situação muito estranha de, de repente, sermos uma banda conhecida internacionalmente. Já não podíamos simplesmente voltar ao ritmo de vida que tínhamos antes. Entrámos logo em estúdio. Com o passar dos anos, acho que separámos a ideia da vida na estrada da vida em estúdio. Também aprendemos que tentar escrever durante a digressão nem sempre resulta nas melhores canções. É preciso algum espaço mental, algum tempo para pensar no que estamos a fazer. Isso melhora muito a qualidade do trabalho. Hoje já não temos qualquer problema em demorar o tempo necessário para fazer um disco de que realmente nos orgulhemos e que sintamos que vale a pena editar.

E quando é que sentem que um álbum está realmente terminado? Qual é a sensação quando concluem um trabalho?

É engraçado, porque há um momento, quando o álbum já foi masterizado e recebes os ficheiros finais no email, em que sentes um grande entusiasmo para as pessoas o poderem ouvir. Às vezes, entrega-se um álbum à editora, mas ele só é lançado seis meses depois. Há este período quase mágico em que o disco já existe, mas ainda ninguém o conhece. Durante esse período, é como se fosse apenas nosso e estamos ansiosos para o lançar. No entanto, nessa altura, já estamos completamente envolvidos na promoção do mesmo: a gravar videoclipes, dar entrevistas, preparar a digressão… Por isso, nunca há realmente tempo para parar e pensar: “Foi bom fazer este disco, não é?” É mais: “Certo, agora temos de ensaiar porque vamos entrar em digressão.” É um período muito intenso. Há imensa coisa a acontecer ao mesmo tempo, tanto fisicamente, porque estamos constantemente em movimento, como mentalmente, porque toda a nossa energia está concentrada no lançamento do disco. É uma sensação parecida com quando compras um presente de Natal para alguém e estás ansioso para ver a reação dessa pessoa. É esse género de entusiasmo.

Quais são os temas sobre os quais mais gostam de escrever?

Ao longo dos anos, eu e o Alex [Kapranos, vocalista da banda] escrevemos algumas letras em conjunto. Acho que ambos gostamos de abordar os grandes temas da experiência humana: a morte, o amor, Deus… Esse é o tipo de música de que mais gosto: que fala desses temas universais, mas que é muito enérgica, dinâmica e acessível. Quero que alguém possa ouvir uma música uma única vez e gostar imediatamente da melodia, do arranjo, do ritmo e da energia. Mas, ao mesmo tempo, se a letra tiver profundidade e significado, cada nova audição recompensa o ouvinte. Podes divertir-te com a música numa discoteca ou num concerto, simplesmente a dançar. Mas também podes ouvi-la de auscultadores, sentado num autocarro, e descobrir novas camadas de significado. Esse é o tipo de música que mais me entusiasma. É isso que tentamos fazer.

É difícil encontrar esse equilíbrio?

Sim, pode ser difícil. Às vezes, se começamos a trabalhar na música antes das letras, pode surgir algo incrivelmente cativante ou riffs muito fortes, mas depois escrever uma letra para colocar em cima disso pode ser bastante difícil. Pela minha experiência e pela forma como observo o nosso processo de composição, acho que o melhor é começar pela ideia da canção. Isso pode surgir de alguém a tocar alguma coisa na guitarra acústica. Tu começas a cantar e a estrutura da música já lá está. Percebes que funciona como uma canção porque te comove, faz-te sentir alguma espécie de emoção mesmo nessa versão mais despida. Depois trabalhamos no ritmo, os arranjos e tudo o resto — aquilo que dá sabor à canção. Na minha opinião, essa é a forma mais sólida de trabalharmos.

Uma coisa que reparei em várias das vossas músicas é que muitas vezes escrevem através de personagens. Contam histórias e criam pequenas narrativas. Gostam particularmente dessa abordagem? Faz-me lembrar um pouco a tradição do britpop, essa forma de contar histórias através de personagens.

Sim, sempre gostámos disso. Muitas das personagens que aparecem nas nossas músicas são, na verdade, pessoas reais. Quando eu e o Alex começámos a escrever juntos, uma das primeiras canções foi “Jacqueline”, que abre o nosso primeiro álbum. Na altura, éramos apenas os dois. Ele tocou-me o primeiro verso no piano Wurlitzer que tinha na cozinha. Nessa altura, nem sequer tocava nenhum instrumento. Ele deu-me um baixo e disse: “Porque é que não tentamos acabar esta música?” Foi então que escrevemos juntos o segundo verso, que fala de dois dos nossos amigos, que por acaso se chamavam ambos Gregor. Foi muito divertido.
Acho que escrever sobre pessoas reais dá às canções uma certa autoridade. Há uma sensação de que aquilo aconteceu mesmo, e isso acrescenta peso à canção. Gosto quando as músicas contêm histórias verdadeiras. E também é divertido porque, no fundo, passamos muito tempo a conversar sobre os nossos amigos: “Viste o que o fulano tal e tal fez no outro dia? Isso dava uma ótima canção. Vamos incluir isso de alguma forma.”

Faz sentido! Na verdade, nem estava a ir nessa direção. Estava a pensar mais, por exemplo, na “The Doctor”, naquela personagem que não quer sair do hospital.

Essa foi escrita pelo Alex e acho que é bastante autobiográfica. Quando ele era criança — e ainda hoje, na verdade — ele sofria de asma. Na altura, tinha crises frequentes e era muitas vezes levado para o hospital, chegando a ficar internado durante dois ou três dias. Era um problema bastante sério. Essa música fala da sensação que ele tinha quando era miúdo: pensar que talvez nem quisesse sair dali, porque estava confortável, estavam a tomar conta dele, sentia-se seguro. Era quase como pensar: “Porque é que não fico aqui?” Mais uma vez, é um exemplo de como usamos episódios das nossas próprias vidas nas canções. Acho que isso acrescenta uma qualidade diferente à música.

Ainda sobre as letras: elas têm muito humor. Tenho curiosidade em saber quais são as vossas referências humorísticas. O que é que vos faz rir?

Somos grandes fãs de comédia. Crescemos todos mais ou menos na mesma altura, durante os anos 90, a ver programas semelhantes na televisão. Adoro, por exemplo, o “Vic and Bob” — o Bob Mortimer e o Vic Reeves. São figuras muito conhecidas no Reino Unido. Também gosto muito do Armando Iannucci. Foi ele quem criou a série “Veep”, nos Estados Unidos. Mas, muito antes disso, ele já era uma figura muito importante no Reino Unido, desde os anos 90, e escrevia muita sátira política. Também trabalhou na personagem Alan Partridge, interpretada pelo Steve Coogan. Enfim… há demasiadas referências para enumerar. É como se metade do meu cérebro fosse música e a outra metade fosse comédia.

Uma das coisas que mais me entusiasma na vossa música é a vossa vontade de experimentar. Ao longo da carreira exploraram a música eletrónica, por exemplo. No último album, achei muito interessante ouvir a “Black Eyelashes”. O que é que ainda gostariam de experimentar? Há alguma coisa que sintam que ainda falta fazer?

É uma boa pergunta. Antes de mais, sobre “Black Eyelashes”: para nós, é provavelmente a canção mais assumidamente grega que alguma vez fizemos. No primeiro álbum, havia uma música chamada “40′” que já apontava um pouco nessa direção, mas esta vai muito mais longe. Mas esta, o Alex escreveu-a depois de passar umas semanas sozinho em Atenas. Como ele é meio grego, sentia ao mesmo tempo que pertencia e não pertencia àquele lugar. A música fala precisamente desse sentimento. Gosto muito da sonoridade grega da canção e do uso do bouzouki, que ele próprio toca. Isso tem que ver com o que falávamos há pouco, sobre canções que partem de experiências reais.
Quanto ao futuro? Sinceramente, não sei. [pausa longa] Muitas destas experiências surgem quando estamos em estúdio, muitas vezes por acidente. Às vezes basta ligar um sintetizador e um som específico chama-nos a atenção, por isso usamos isso como base para algo.

O que é que o público português pode esperar do próximo concerto? Agora que o álbum já saiu há algum tempo e vocês tocaram bastante estas músicas, como será o espetáculo?

Vamos apresentar uma mistura. Vamos tocar algumas músicas do novo álbum, mas também muitos temas antigos e vários dos nossos maiores êxitos. Nos festivais, gostamos de fazer concertos muito enérgicos, quase como uma grande festa. É assim que encaramos este tipo de atuações, porque é isso que eu próprio gosto de ver quando vou a um festival. O nosso grande objetivo é pôr toda a gente a mexer, a levantar-se e a divertir-se. Esperamos que muitos fãs dos Franz Ferdinand estejam presentes e criem aquele ambiente característico dos nossos concertos.

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