Entrevista. Bruno Costa sobre o ‘Imaginarius’: “O festival não procura conforto nem consenso, não é elitista e nem é populista”

por Ana Monteiro Fernandes,    21 Maio, 2026
Entrevista. Bruno Costa sobre o ‘Imaginarius’: “O festival não procura conforto nem consenso, não é elitista e nem é populista”
Bruno Costa / DR

O Festival Imaginarius, de Santa Maria da Feira, faz 25 anos e um dos motes para a edição que começa hoje, dia 21, e se estende até dia 23 é, precisamente, não procurar o consenso nem o conforto, como explicou à Comunidade Cultura e Arte (CCA) Bruno Costa da direção artística do certame, a par de Daniel Vilar. “Queremos assumir claramente o festival como um espaço plural, capaz de trazer diferentes perspetivas para o espaço público. Acreditamos que a arte não tem de ser consensual e que o festival deve ter coragem para colocar as perguntas de que a sociedade precisa”, referiu. É isso mesmo que evidencia o espetáculo a ser apresentado pela companhia francesa Dyptik, que combina linguagens urbanas contemporâneas com danças tradicionais da Palestina e do Líbano. Por isso, Bruno Costa reitera que “para nós faz todo o sentido que o festival toque temas da atualidade, mesmo que não sejam consensuais”

A esta temática junta-se ainda a crise climática, outro tema atual, com a instalação de uma pirâmide de gelo de 2,5 toneladas. Pelo que Bruno Costa explicou, “durante oito horas, no sábado, a partir das 15 horas, haverá um enorme bloco de gelo que vai sobrevoar a zona da Igreja Matriz — entre a Matriz e o Convento dos Loios — e, ao fim de uns minutos, percebemos que o grande bloco de gelo vai começar a derreter ao mesmo tempo que, durante o dia, em momentos diferentes, os performers vão subindo ao bloco de gelo. Há diferentes mensagens, diferentes perspectivas sobre como é que diferentes pessoas olham para a crise climática mas, essencialmente, queremos passar a ideia de urgência, de que não há tempo a perder.”

Em números concretos, o festival recebe este ano 42 companhias, mais de 200 artistas de 16 países com um total de 39 espetáculos, uma instalação, mais de 125 apresentações, cinco estreias absolutas e 23 estreias nacionais. O diretor artístico Bruno Costa disse-nos ainda que “gostaria ainda de destacar precisamente essa dimensão de apoio à criação. Há uma história do ‘Imaginarius’ no apoio à emergência artística e cerca de metade da programação deste ano é composta por artistas emergentes que chegam através de convocatória”.

O “Imaginarius” vai fazer 25 anos. Que balanço faz do festival durante este tempo?

Mais do que um balanço, gostaria de falar do impacto, porque na verdade em 2001, quando um festival como o “Imaginarius” — algo muito pouco habitual em Portugal e até na Europa — surge, estamos a falar de uma disciplina que nasce nos anos 70 em França, muito ligada ao pós-Maio de 68 e à ideia de ocupação do espaço público e dos direitos. O conceito de artes de rua como o conhecemos vem muito dessa matriz francesa.

O início do “Imaginarius” liga-se bastante a essa forma francesa de fazer artes de rua, que entretanto evoluiu para aquilo a que hoje chamamos criação artística em espaço público ou artes performativas em espaço público.

Quando, em 2001, algo desta dimensão aterra numa cidade como Santa Maria da Feira — que na altura tinha um contexto muito diferente do atual — há um impacto artístico muito forte sobre um território que se estava a desenvolver ao nível das políticas culturais. O “Imaginarius” acabou por trazer uma dimensão mais performativa, mais narrativa, com estéticas diferenciadoras, e conseguiu marcar posição logo nos primeiros anos, criando uma marca na cidade, na região, no país e também internacionalmente.

Aquilo em que acreditamos agora enquanto direção artística, ao regressarmos ao festival cerca de oito anos depois — após um primeiro ciclo de direção artística eu e o Daniel Vilar regressámos nesta edição — é precisamente olhar para este legado e perceber como reinterpretá-lo passados 25 anos, trazendo-o para a atualidade sem perder o impacto das grandes estruturas e da surpresa que o festival gera na comunidade.

Uma das ideias que quisemos trazer este ano foi também a valorização da arte popular, muito importante nos primeiros dez anos do “Imaginarius”. Por isso convidámos os “Diables del Barri Gòtic”, de Barcelona, para trazerem a tradição do “correfoc”, do fogo que se usa, por exemplo, nas festas de “La Mercè” [festival de Barcelona, Catalunha] e trazê-lo à rua, ao mesmo tempo que convidámos uma associação de Santa Maria da Feira a reinterpretar esta tradição no espaço público da cidade.

Trata-se de uma outra dimensão que tem muito a ver com as tradições europeias e que, na nossa opinião, faz parte do que são artes performativas em espaço público, num prisma de arte popular que faz todo sentido, além da arte mais contemporânea e das narrativas que queremos trazer para questionar o público. Que as pessoas venham não só pela estética, pela imagem, pela fotografia, (sabemos que hoje em dia tudo é instagramável), mas o próprio cartaz desta edição questiona a efemeridade não só das artes performativas, mas da nossa sociedade. Que os visitantes levem alguma coisa na bagagem e algum tema para casa, para refletirem depois de assistirem aos espetáculos no festival. 

“No espaço público, gratuitamente, conseguimos chegar a públicos que provavelmente nunca iriam entrar num espaço cultural tradicional e que não iriam contactar com narrativas contemporâneas ou com arte contemporânea.”

Tem sido, então, também importante para a afirmação artística do território?

Sim. Aqui falo enquanto direção artística e não diretamente em nome do município, mas o desafio que nos foi lançado, tanto pelo presidente como pelo vereador da Cultura, foi precisamente continuar a encarar o “Imaginarius” como um ativo cultural do território.

Queremos perceber como é que o festival pode continuar a inovar, surpreender, gerar impacto e reforçar o seu posicionamento internacional. Ao mesmo tempo, é um festival feito para as pessoas, trabalhado no espaço público, por isso queremos eliminar a ideia das barreiras. Dizem os estudos, embora possa não ser totalmente real, que muitas vezes só vai ao teatro quem já se interessa por determinado tema ou quem foi envolvido numa ação de mediação específica. Mas no espaço público, gratuitamente, conseguimos chegar a públicos que provavelmente nunca iriam entrar num espaço cultural tradicional e que não iriam contactar com narrativas contemporâneas ou com arte contemporânea.

Queremos manter essa relevância internacional, mas também conseguir tocar diferentes públicos. A ideia de uma família que venha ao espaço público e que quer contactar com o festival, será totalmente diferente de um grupo de jovens universitários de uma determinada disciplina, uma vez que já procuram um tipo de espetáculo específico. Tentamos, por isso, que o festival consiga ser diverso o suficiente para tocar nestes diferentes prismas, para que consigam coabitar e gerar diferentes experiências no festival. 

“THAW” – Legs on the Wall / DR

De que forma também a direção artística tenta envolver freguesias e outras localidades do concelho e até da região neste festival?

Essencialmente através da audiência. Temos consciência de que, pela natureza do festival e pelas características do centro histórico de Santa Maria da Feira, existe uma centralização dos três dias no território central. Mas há outras formas de envolvimento. Queremos trazer público regional ao festival e, quando falamos de associações locais, embora este seja um projeto de criação profissional, faz sentido continuar a trabalhar a profissionalização.

Este ano, por exemplo, convidámos uma associação da freguesia de Mosteirô para trabalhar com o “correfoc”. Não é uma associação do centro da cidade, mas vem ao centro trabalhar com um grupo internacional e criar dinâmicas que possam reforçar o seu trabalho diário. Há um esforço para identificar pontos de ligação entre aquilo que está fora do centro e o festival. E eu nem gosto muito da palavra “recinto”, porque queremos que a cidade seja vivida como ela existe, com algumas alterações de fluxo e não com uma visão de recinto.

A companhia francesa Dyptik vai apresentar um espetáculo que combina linguagens urbanas contemporâneas com danças tradicionais da Palestina e do Líbano para defender que resiliência implica comunhão. É importante para o festival pautar-se também por esta ideia da resistência, principalmente no atual clima de guerra? 

Para nós faz todo o sentido que o festival toque em temas da atualidade, mesmo que não sejam consensuais. Vamos lançar na abertura do festival o “Manifesto do Imaginarius”, uma espécie de visão para os próximos três ou quatro anos. Uma das ideias centrais é precisamente esta: o “Imaginarius” não procura conforto nem consenso. Queremos trazer diferentes perspetivas para o mesmo espaço físico, o centro histórico de Santa Maria da Feria. Faço aqui um aparte: temos a sensação de que o público não está a compreender totalmente a ideia de resistência que trazemos para o festival. Não é um tema, mas é uma espécie de fio aglutinador que pode ser entendido como a resistência de uma entidade promotora em aguentar um festival desta envergadura há 25 anos.

Ainda hoje, há pouco, avisaram-me que não vou poder estacionar à porta de casa, então onde é que vou poder estacionar? Portanto, toda esta comunidade sente orgulho, mas sabe que vai durante quatro dias — porque as montagens começam mais cedo — ter limitações, complexidades de acesso à casa. Simboliza isso, mas ao mesmo tempo há uma perspectiva mais global da sociedade atual. Fez-nos todo sentido quando procurávamos uma obra de dança contemporânea, que esta pudesse ser abrangente para o público e, fazendo um spoiler, vai convidar o mesmo público a fazer parte desta ideia de resiliência. Esta é a proposta de Dyptik que na verdade se baseia em França, mas cujos coreógrafos são originários do Magrebe e muito interessados pelas danças tradicionais do Médio Oriente. Há, portanto, esta ideia de trazer o que se passa na região do Levante, esta ideia de dança comunitária que simboliza também a união e a resiliência da comunidade. É um simbolismo que o festival também deixa para questionarmos, a partir da ideia de resistência e comunhão, como é que encaramos a Palestina, assim como as restantes guerras. Estamos num clima de guerra internacional em que a comunidade da Ucrânia também tem de ter a sua resiliência, tem de saber viver em comunhão. Podemos traduzir, a partir deste espetáculo, a perspectiva de que o mundo de hoje está em conflito e podemos questionar até onde isto se vai expandir.

“Queremos assumir claramente o festival como um espaço plural, capaz de trazer diferentes perspetivas para o espaço público. Acreditamos que a arte não tem de ser consensual e que o festival deve ter coragem para colocar as perguntas de que a sociedade precisa.”

A questão da crise climática também está presente, certo? Há um projeto, “Degelo”, com uma pirâmide de gelo de 2,5 toneladas.

Esse é um projeto de grande impacto e que também mostra o enorme trabalho da equipa do festival. Estamos há cerca de 20 dias a preparar esta peça cenográfica construída em Santa Maria da Feira. A companhia é australiana, mas optámos por não transportar grandes estruturas da Austrália para reduzir a pegada de carbono. Pedimos os desenhos técnicos e reconstruímos tudo em Portugal com empresas portuguesas. Apenas os performers e a direção técnica vêm da Austrália.

Durante oito horas, no sábado, a partir das 15 horas, haverá um enorme bloco de gelo que vai sobrevoar a zona da Igreja Matriz — entre a Matriz e o Convento dos Loios — e, ao fim de uns minutos, percebemos que o grande bloco de gelo vai começar a derreter ao mesmo tempo que, durante o dia, em momentos diferentes, os performers vão subindo ao bloco de gelo. Há diferentes mensagens, diferentes perspectivas sobre como é que diferentes pessoas olham para a crise climática mas, essencialmente, queremos passar a ideia de urgência, de que não há tempo a perder. Enquanto estamos no festival, os glaciares estão a derreter ao ritmo similar àquele bloco de gelo que vemos sobre as nossas cabeças, durante as 8 horas em que a performance vai durar. Teremos um final um pouco mais ativista, posso dizer assim, e que nos vai ser muito mais impactante para levarmos aquela imagem fotográfica para casa.

Vão ter também um mercado dedicado às artes independentes, certo?

O “Imaginarius” ocupa todo o centro histórico da cidade e as ruas vão estar fechadas ao trânsito.  O Mercado Municipal será também um dos espaços do festival. É um mercado, no seu dia-a-dia, um bocadinho diferente dos mercados municipais tradicionais. Não é um mercado dos frescos convencionais, existe artesanato, existem produtos regionais, tem os seus operadores, mas estará aberto durante o festival. Percebemos, contudo, que existiam espaços abertos e criámos uma parceria com a mostra de edições independentes, a “Amostr”, promovida pela associação Cabe-Cave, de Vila do Conde, que normalmente organiza esta mostra anual e que vai trazer diferentes expositores que vão conviver neste mercado municipal com os regulares, trazendo vinil, livro independente, fanzine e banda desenhada. Acreditamos que isto vai chegar ao público habitual do “Imaginarius”, que pode encarar também este espaço de mercado como um espaço para estar, um espaço para fugir do ritmo acelerado que um festival tem normalmente, ler um livro e ver as diferentes exposições destes projetos de fanzine que vão estar em algumas das bancas do mercado. Acaba por ser um complemento para um público que nos visita habitualmente e que não teria esta oferta no festival.

“Há uma história do “Imaginarius” no apoio à emergência artística e cerca de metade da programação deste ano é composta por artistas emergentes que chegam através de uma convocatória. Há, portanto, vontade em dar voz aos novos possíveis valores da criação artística em espaço público para os próximos anos, mas também em apoiar a criação.”

Que espaço e que direção o Imaginarius vai querer seguir nos próximos anos?

A mensagem desta edição resume muito bem aquilo que queremos para o futuro. O “Imaginarius” não procura conforto nem consenso, não é elitista e nem é populista.

Queremos assumir claramente o festival como um espaço plural, capaz de trazer diferentes perspetivas para o espaço público. Acreditamos que a arte não tem de ser consensual e que o festival deve ter coragem para colocar as perguntas de que a sociedade precisa. Falamos da crise climática, da Palestina e de outras questões da atualidade porque queremos usar o festival não apenas como festa, também é uma festa, mas como espaço de reflexão. Ao mesmo tempo, continuará a ser um festival de apoio à criação artística, à circulação e à valorização dos artistas. Na verdade, é mais do que um festival. É um projeto cultural ativo ao longo do ano, com um centro de criação que está a trabalhar todas as semanas no apoio a residências artísticas nacionais e internacionais. No entanto, narrativamente, ou em termos de um prisma artístico, gostaríamos muito de vincar esta visão de um festival que é plural e que consegue trazer ao mesmo espaço diferentes vozes para que o público consiga ouvir diferentes perspectivas. Para que pelo menos tenha um espaço, durante o ano, no qual possa debater de forma aberta diferentes perspectivas do mundo e levar uma bagagem para casa para pensar melhor e compreender a atualidade.

Gostaria de destacar precisamente essa dimensão de apoio à criação. Há uma história do “Imaginarius” no apoio à emergência artística e cerca de metade da programação deste ano é composta por artistas emergentes que chegam através de uma convocatória. Há, portanto, vontade em dar voz aos novos possíveis valores da criação artística em espaço público para os próximos anos, mas também em apoiar a criação.

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