Entrevista. Carlão: “Durante muito tempo, tentei fazer parte de várias tribos. Quando somos putos queremos pertencer a alguma coisa”
Lançou-se em nome próprio em 2015 enquanto Carlão, para assinalar os Quarenta anos que acabava de fazer. Uma década mais tarde, volta a marcar o aniversário redondo, desta vez dos 50 anos, com Quinta -Essência – 75/25.
Composto por 18 faixas, este é um disco que reúne as diferentes facetas musicais de Carlos Nobre Neves, que começou por se destacar enquanto vocalista dos Da Weasel. O novo álbum integra rap, hardcore, palavra dita e sons que resgatam as suas raízes africanas.
Para o fazer, Carlão convocou alguns dos seus principais colaboradores ao longo dos anos para comporem os diferentes temas do disco — o irmão Jay Jay, companheiro nos Da Weasel; Fred Ferreira, com quem partilhou Os Dias de Raiva mas sobretudo o projeto 5-30; Branko; e os Beatbombers de DJ Ride e Stereossauro responderam à chamada.
No que toca às temáticas, Quinta-Essência – 75/25 também espelha aquilo que tem sido a obra de Carlão ao longo das mais de três décadas de carreira — há canções politizadas de crítica social, temas de amor, diferentes reflexões sobre a vida, desde as frustrações com a indústria da música à figura materna.
Em entrevista à Comunidade Cultura e Arte, Carlão fala sobre o balanço que este disco representa, a forma como o construiu, o difícil equilíbrio entre coesão e versatilidade, a tímida aproximação a Cabo Verde e, entre outros assuntos, o facto de muitos dos problemas sociais que denunciava nas suas letras dos anos 90 se manterem atuais.
Já disseste, noutras entrevistas, que tinhas três EPs entre mãos que não se chegaram a concretizar e que acabaste por juntar várias dessas canções, entre outras novas que entretanto fizeste, para este álbum. Porque é que esses EPs não aconteceram e como e quando tiveste a ideia de reunir tudo num disco de maior duração?
Houve sempre alguma coisa que impediu o lançamento de cada um desses EPs. Ou não era a altura certa, ou havia qualquer coisa a acontecer, fosse pessoal ou de trabalho. Gosto de pensar que não aconteceu nada para ter acontecido o que tu disseste, mas na verdade, nos últimos anos, no pós-pandemia, acontece o The Voice Kids e acho que o primeiro EP que acaba por cair era aquele com os Beatbombers, e depois havia o As Formas do Verbo Amar e o Detox.
Mas chegaste a querer lançar os três? Ou nunca houve essa intenção?
Não, tinha os três mas não sabia muito bem quando é que ia avançar com cada um. Depois comecei a usar as sessões com os Beatbombers noutras coisas e para ali em 2024, porque o tempo voa e às vezes um gajo não dá por ele… Na verdade estive sempre ocupado, a gravar músicas e a lançar singles, mas em 2024 fiquei com essa ideia de “OK, para o ano são os grandes 50, ‘bora lá fazer um…” Lembro-me de ter uma conversa com o Branko, em Campo de Ourique, em que lhe contei esta ideia de fazer este percurso [com um disco]. E ele disse que achava altamente, que era uma boa dica, e foi quando essa ideia assentou. De facto, para mim, cada um desses EPs…
Que também representavam diferentes facetas musicais tuas.
Exatamente. E depois tentei, não necessariamente de forma cronológica, ir a fases diferentes daquilo que é a minha carreira, os pontos importantes dela, e falar com pessoas para trabalhar nelas. Havia algumas coisas já feitas, como os dois temas dos Beatbombers, um do [DJ] Ride e outro do Stereossauro. Os outros, quase todos, foram feitos de raiz. Até porque, para o Detox, eu tinha várias letras mas os beats não estavam. Ou eram beats antigos, ou não estava muito satisfeito com eles. Em termos de conteúdo estava OK, mas de forma, nem por isso. Então, peguei nesses temas, espremi aquilo que mais me interessava em cada um desses projetos, fossem os beats ou as letras, e trabalhei em coisas novas, falei com essa malta toda. Tenho falado em fases, mas na verdade a “fase” quase pressupõe que seja uma coisa que tem o seu tempo e espaço e que depois passa. E aqui não é assim, porque tudo o que está aqui ficou e faz todo o sentido em 2026. Faz todo o sentido ter o Corta E Cola, faz todo o sentido em 2026 qualquer tema deste disco. Seja os interlúdios, ou coisas aparentemente mais fora.

Claro, nunca abandonaste nenhuma dessas tuas facetas, desses sons. E essa tal ideia de também assinalares os 50 anos, já estava subconscientemente a ganhar forma? Já tinhas marcado os Quarenta com o teu primeiro álbum como Carlão, em 2015.
Exato. Fico sempre meio dividido, porque não gosto muito de repetir ideias. O Quarenta já estava, depois tinha a ideia dos 50… Não me queria repetir, mas era um número demasiado evidente e flagrante para o contornar, sem que nada se passasse. Então, depois de vários títulos, várias coisas que me passaram pela cabeça, este Quinta Essência acaba por fazer jus àquilo que é o disco. É o espremer do sumo concentrado de várias décadas, e o 50 está lá entre o 75 e o 25, mesmo que não apareça.
E o facto de teres pensado inicialmente em EPs não significava que estivesses com mais vontade de explorar formatos de curta duração, tendo em conta que depois apostaste num disco maior.
Sim, para mim um disco pode ter meia hora como pode ter uma hora, e realmente não houve assim a ideia de embarcar… Havia um monte de coisas, umas que foram feitas agora e outras que estavam em cogitação, de que já tinha saudades de ter cá fora.
De qual tinhas mais saudades?
Nos últimos anos, por causa dos singles, as pessoas viam só um lado meu de que gosto, que me representa, mas se calhar tinha saudades de fazer um vídeo e de gravar um tema como o “Na Loucura”, que fiz o ano passado e me deu um grande gozo. É uma coisa diferente daquilo que tenho feito nos últimos tempos em termos de singles, não é? E este tipo de temas, mas também os interlúdios e o Corta E Cola, eu estava a trabalhar essa parte mas não a metia cá fora. Portanto, se pensar mais a sério nas coisas, tinha saudades de mostrar isso — não de o fazer, porque na verdade eu até o fazia, só que não mostrava.
E tens interlúdios com textos já escritos há bastante tempo.
Sim, o “Rezas de Infância” é capaz de ser a coisa mais antiga que está escrita neste disco, porque já tem uns valentes anos. Os computadores já se sobrepõem aos blocos, portanto não sei muito bem, mas é capaz de ter 20 e tal anos, talvez 30 anos.
E pensaste incluir estes interlúdios também como forma de unir as diferentes peças musicais e temáticas que estão no disco?
Sim, estava a gravar coisas, a olhar para esse material que tenho e que nunca usei em nada, e dou por mim com o “Rezas de Infância”, por exemplo, que é um poema maior, mas que foi encurtado porque não queria estar a dizer um texto de três minutos num álbum — acho que ninguém merece —, mas vejo o “Rezas de Infância”, vejo o “Oh Nha Nené”, e eu olho, man, uma coisa de há 20 e tal anos com uma coisa que foi escrita o ano passado, mas converge tudo para a minha mãe em visões completamente diferentes, takes que não têm nada a ver um com o outro, mas batem certo. Se eu meter este antes do “Oh Nha Nené”, vai ficar fixe, então foi um bocado esse puzzle de ir buscar… Tinha love songs no disco, fui ver textos antigos e, por exemplo, uma love song que já não o é bem, é mais break up ou dor de corno ou o que for, ir também buscar coisas que têm a ver com isso, e se estou deslumbrado aqui ou apaixonado ali, ir buscar coisas mais direcionadas para aí… Já são alguns anos e algumas coisas estão escritas e perdidas, ou nem tanto, então dá para ir buscar esse material.

Outra coisa muito interessante deste álbum é que resume muito a tua essência em termos sonoros. Não há propriamente ninguém nem nenhum disco neste país que tenha rap, sons mais afro, hardcore, palavra dita… E tudo isso representa-te muito bem. Sempre viste esta diversidade e versatilidade como uma qualidade? Porque também imagino que pudesse ser um desafio pensares que as coisas estavam meio dispersas, sendo estilos bastante diferentes, mas aqui usaste-o precisamente como a tua força, como o ecletismo que faz parte da tua história e da tua carreira.
Durante muito tempo, não só ao nível cultural e artístico, mas a um nível social, foi muito difícil não compartimentar as coisas. É aquela coisa de eu aparecer numa altura em que havia tribos muito definidas. Então eu tentei fazer parte de várias tribos.
E estavas a rompê-las ao mesmo tempo, essa ideia de tribo definida.
Estava a rompê-las ao mesmo tempo, mas sem perceber. Porque queria ser parte integrante de um grupo, com todos os códigos desse grupo, com toda a indumentária desse grupo, da cabeça aos pés. Uns mais felizmente, outros menos felizmente. Sei lá, nunca fiz metal, mas ouvia muito e pertencia a essa tribo. Quando fiz hardcore, era hardcore a 100%. O rock também e toquei baixo em bandas de rock. Depois surgiu Da Weasel. E as coisas todas que fiz, artisticamente ou socialmente, estavam muito nesses grupos. Até mesmo a questão da minha identidade no que toca a ser tuga ou cabo-verdiano, essa confusão toda. Depois percebi que era OK misturar tudo. Mas, durante muito tempo, foi difícil essa aceitação. Foi muito difícil, porque todos nós, enquanto putos, queremos pertencer a alguma coisa. Não queremos sobressair nem destacarmo-nos pela diferença. O que queremos é fazer parte de um grupo. Então eu tentei várias vezes, mas por uma razão ou outra, a coisa nunca tinha totalmente servido.
E os próprios Da Weasel, no fundo, representam essa fusão de diferentes grupos e fazem a ponte para um momento em que essa diversidade e identidade individual é mais aceite.
Sim, exatamente. E acho que foi uma coisa fundamental para os Da Weasel, não sermos uma coisa só. Fomos intermediários para o hip hop, as pessoas não estavam bem a ver o que era o hip hop e connosco, como éramos uma banda, não havia aquela coisa dos dois MCs e do DJ, era mais familiar. E tal como eu descobri a soul através do hip hop, porque ia descobrir os samples e ouvir os discos do Marvin Gaye, do Curtis Mayfield ou do Stevie Wonder, bué malta foi descobrir o hip hop depois dos Da Weasel. O que é que estes gajos andam a ouvir, quais são as referências? E depois acompanhámos, um bocado mais tarde, esse surgimento de bandas que faziam um grande crossover, fosse um metal rap ou outras coisas, e que tornou essa diversidade mais normal. E foi bué fixe — lembro-me de aparecer o nu metal e eu ficar contente, lembro-me de aparecerem os N.E.R.D. e eu ficar bué contente também, com um gajo como o Pharrell Williams a fazer aquela mistura de universos, que era algo que tinha a ver connosco… Mas foi difícil chegar a esse ponto em que tu achas que está tudo OK.
Foste abraçando isso, também em ti próprio, a ideia de que podes ser diferentes coisas.
Exatamente. E que era fixe, não só reconhecer isso como reconhecer que era uma coisa fixe a vários níveis. Mas é estranho porque, de facto, por muito que me digam que não, às vezes oiço, passo o disco do princípio ao fim, como na listening party que fizemos, estava a ouvir aquelas coisas tão diferentes umas das outras e pensava: o que é que será que as pessoas estão a achar disto? É aquela cena que me vai assombrar sempre. Porque ao vivo é diferente, mas assim num disco…
Preocupas-te com essa coesão, claro, mas ao mesmo tempo tudo isso faz parte de ti e as pessoas também já conhecem todas essas tuas facetas, não é? Mesmo que algumas gostem mais de uma do que de outra.
Exato.
Este disco também tem uma aproximação a Cabo Verde, especificamente nos temas “Oh Nha Nené” e “Nair Ki Fla”. Este segundo é um poema do José Maria Neves, Presidente da República de Cabo Verde e teu primo. Como é que foste parar a este poema, como é que se tornou uma canção feita por ti e pelo teu irmão?
Até foi mais ao contrário, porque há uns anos em Cabo Verde houve um músico que teve acesso a essa poesia do Zé Maria e disse: “olha, eu gostava de fazer umas canções à volta disto”. Primeiro foi um, depois foi outro e às tantas já estava ali uma malta a juntar-se e deram-nos o toque. O Zé Maria disse mesmo: “era fixe, já que muita gente vai fazer músicas com isto, os primos fazerem também”. Claro que sim. É uma coisa que eu não me costumo muito meter, porque não gosto de confundir as coisas, então não faço muita referência a isso, mas pronto, é um orgulho da família, o Zé Maria.

Têm uma relação próxima?
Sim, qb. É uma pessoa que tem uma sensibilidade cultural muito grande, então foi muito fixe porque eu nunca iria escrever um texto em crioulo. Acho que não tenho propriedade para isso, o máximo que arrisco são umas palavras soltas, umas dicas, e foi fixe pegar num texto dele e ainda por cima com aquele significado todo. Porque a Nair é a mãe dele, é a irmã do meu pai, uma pessoa que eu conheço e quando ele diz que a Nair disse isto e aquilo [no poema], eu vejo a pessoa e vejo-o a escrever aquelas palavras todas em relação a Cabo Verde, a África, ao berço da humanidade. Tudo aquilo bate certo. Então foi fácil, que é como deve ser. Uma coisa destas tem que fluir naturalmente, não pode ser uma coisa tortuosa, tipo “vou fazer um tema em crioulo”. Não, foi exatamente o contrário, a coisa fluiu toda muito bem.
E escolheste este poema entre vários, suponho.
Exatamente, tinha uma série de poemas à disposição e este chamou-me logo a atenção, pelo nome, “Nair Ki Fla”, deixa lá ver o que é que se passa aqui. Foi porreiro fazer as coisas dessa forma. De facto, é um assunto cada vez menos tabu, mas ainda delicado para mim, a minha relação com Cabo Verde, o meu crioulo, toda essa parte.
Mas aproximaste-te.
Estou a aproximar-me, lentamente, sou um gajo que vai lento. Se calhar nos 60… Tenho sido muito lento nesse processo, mas também quero que ele seja fluido e natural e não quero precipitar nada. As coisas têm de acontecer de uma maneira engraçada e constante, lenta mas segura.
Outra coisa interessante é que assinas aqui a composição de um par de temas, pela primeira vez enquanto Carlão. Foi porque tinhas ideias específicas que não existiam, digamos, na palete de pessoas que tinhas à tua volta a colaborar contigo?
Foi um bocado isso, havia música muito específica na minha cabeça que eu tinha vontade de fazer. E tinha aqui estes dois textos, “Dez Palcos” e “É Melhor Que Esqueça”, que tiveram vidas muito diferentes, passaram por uma série de beats. Até que cheguei a um dia em que foi: “OK, ‘bora lá bulir nisto”. Foi mesmo como puseste na tua pergunta, não estava na palete, então ‘bora lá fazer. A “Dez Palcos” foi mesmo isso, já tinha tido umas 30 versões, nenhuma achei fixe, então compus para aquilo. O “É Melhor Que Esqueça” foi ao contrário. Foi uma música que quis fazer e depois fiz a letra para ela. Também teve várias versões, mas tanto numa como noutra, são composições minhas, mas com arranjos e contribuição de outras pessoas, porque elas também precisavam disso.

Mas abriu-te aí uma pequena porta, para o futuro? Não sendo inédito, obviamente, o facto de compores.
Acho que sim. Eu até digo por brincadeira que estes temas são tipo Algodão 3.0, ou 5.0, na verdade… Acho que hoje tenho mais ferramentas, mais tempo, uma visão diferente para conseguir fazer essa composição musical… Se fizesse esses álbuns [de Algodão] hoje em dia, talvez na parte musical eles estivessem mais OK, menos toscos. Então, é o reabrir da porta. Ou da gaveta. É como uma gaveta que estava ali fechada e pude abri-la de novo.
Há pouco falavas do prazer que te deu fazer o “Na Loucura”, e a tua obra tem sido marcada por diferentes temas. Um deles é claramente a intervenção política e social, que está presente desde os primórdios de Da Weasel até hoje. Sempre foi algo que te moveu para escrever, para querer comunicar. Ao mesmo tempo, acredito que também se torne frustrante ver que muitos destes problemas sociais que já denunciavas nos anos 90 se mantenham. Isso também te faz questionar, enquanto músico e letrista, o impacto que as letras podem ou não ter? Talvez nem penses nisso porque estás só a purgar uma coisa que está dentro de ti.
Sim…
E se calhar é demasiado romântico acreditar que uma letra vai mudar o mundo.
Exato. Mas, se eu achasse que não mudaria nada, não o punha cá fora, se calhar guardava só para mim. Portanto, há uma visão muito… Não diria cínica, mas muito concreta daquilo que posso fazer com as minhas letras. Tendo essa noção, sigo com as coisas sem uma grande idealização de onde é que aquilo pode chegar, mas é uma mistura de necessidade com uma pequena esperança de que possa afetar alguma coisa. E as coisas saem quando têm que sair. A “Na Loucura” saiu depois de umas palavras a que eu chamei “Desventura”, um mini poema, e fiz o tema porque tinha que o fazer e tive a noção, e a minha malta que estava à volta também, que era fixe lançar o tema antes das eleições. Mesmo sabendo que não ia mudar grande coisa, eu tive que o fazer, sabes? Fiz aqui um bocado da minha parte, o resto logo se vê, mas ao menos fiz alguma coisa, não fiquei calado, não fiquei na minha.
E também tiveste o cuidado, como referiste noutras entrevistas, de não acentuares a polarização já existente na sociedade.
Para mim até torna as coisas um bocado mais poéticas, porque sou obrigado a não ser tão direto, e eu sempre fui super direto. Por um lado, há coisas que não há volta a dar e tu percebes, são evidentes; por outro há outras que te metem a questionar. Imagina que vou falar de um Trump… Tu já sabes e tiras-me logo a pinta e dizes “OK, este gajo é anti-Trump, é de esquerda e não sei quê”. Enquanto se eu falar de uma pessoa tipo, até podes ficar a pensar e depois fazes a tua ligação — ou não, mas há esse espaço.
Uma pequena ambiguidade.
Exatamente, e eu se calhar nas letras nem consigo tanto, mas noutras coisas vou tentando ter essa postura, por causa dessa polarização. Porque realmente parece que há certos triggers, que algumas palavras, algumas coisas que dizes, te metem logo para um lado e já nem há conversa. Então és um bocado obrigado, tal como nos tempos da censura, a dar a volta ao texto e isso acaba por ter a sua piada também. Eu não tenho dado muito, mas sinto que cada vez tenho de dar mais.

E talvez nos anos 90 existissem imensos problemas, e nem todas as letras fossem de todo unânimes, mas não havia uma sociedade tão polarizada nem tanta gente a votar na extrema-direita.
Sim, não havia uma data de problemas, havendo muita coisa… Se eu fizer esse trabalho, acho que a grande cena de Da Weasel sempre foi mais do que uma canção direcionada a X assunto. Era aquilo que nós éramos e como éramos. Só o simples facto de sermos aquela turma em cima de um palco a tocar a música que tocávamos… Só por si, parece que já era um statement e uma cena fixe. E dizíamos as coisas mas de forma meio desorganizada, uma coisa aqui e outra ali, não havia um discurso sociopolítico muito direcionado. Eram coisas muito soltas e acho que foi também por aí que as pessoas pegaram nelas… Também sempre existiu um lado de autocrítica, como na “Bora Lá Fazer a P*** da Revolução”, por exemplo. Se chegar domingo e o Benfica não jogar, então a gente faz a revolução. Também havia esse lado de autocrítica. Acho que isso aproximou as pessoas… Não havia uma cartilha muito…
Panfletária, não é?
Panfletária. Porque também nunca fui bem essa pessoa. Se calhar sou mais agora… Não sei. O que eu sei é que, nos anos 90, lembro-me de haver skinheads em Almada e em Lisboa. Lembro-me de haver uma cena racista muito acentuada. Com o passar dos anos, eu pensava que isso não iria voltar. Muito menos da forma que está a voltar. Tu vias os skins e já sabias o que eram. Não havia volta a dar. É aquilo. Agora está uma coisa diferente. Há muita gente que não é skinhead, que não tem uma T-shirt com uma cruz celta, que não anda de botas da tropa, com os suspensórios e a cena toda.
Que não assume o que é.
E isso é mais lixado. E eu não estava à espera, até porque isto mudou tanto. Venho de uma altura em que ninguém ouvia música africana a não ser os africanos. Havia uma discoteca africana que passava aquela música. Tu não andavas na rua e um puto branco num carro ia a ouvir funaná ou hip hop. Isso não existia. O hip hop era altamente marginalizado. Era uma coisa de bairros e de criminosos, diziam as pessoas. E ao mesmo tempo que houve esse avanço todo tão incrível e tão fixe que aproximou as pessoas, muito através da música e da cultura, e se esbateram essas fronteiras, dou por mim a ir a uma manifestação no [Teatro A] Barraca onde gajos ligados a um movimento de extrema-direita bateram em atores. E eu encontro lá pessoas: “foda-se, como é que estamos em 2025 nesta merda de novo? Como é que é possível isto ter acontecido de novo?” Ou estar no Marquês de Pombal também em protesto pela morte do Odair [Moniz]. Faz-me lembrar, há 30 anos, a noite do Bairro Alto em que morre o Alcindo Monteiro. Então… Por um lado, ficas naquela de que nada muda. Quer dizer, mudam as moscas, não é? O resto mantém-se. São moscas diferentes. E depois passam-te muitas coisas pela cabeça. Por um lado é: que se foda isto tudo, não vale a pena. É tudo uma grande merda. Vou meter a cabeça debaixo da areia. Ou então escreves algumas coisas, ou vais para a rua, se tiver que ser. Ou fazes um misto dos dois, que é aquilo que eu faço.
Com base na última faixa do disco, “Outro (O Último Canto)”, mesmo que de vez em quando possas questionar a tua relevância artística, como fazes na letra desse tema, pergunto-te se aquilo que te move depois de todos estes anos de carreira continua a ser a mesma coisa? Seja o amor ou a injustiça.
Sim, exato, acho que tem que haver algum tipo de paixão. Não que tenha de ser uma paixão na versão mais normal da coisa, da paixão que vem do amor. Podes estar apaixonado por uma causa, por uma luta, por o que for. Se quiseres ser completamente cínico, também posso dizer que não sei fazer mais nada [risos]. Portanto, fica difícil não fazer isto.
Mas este disco também prova que podes fazer muita coisa diferente. Podes fazer um disco de hardcore, podes fazer um disco de rap, podes fazer um disco mais afro, um Algodão.
Posso, posso. Se eu cantasse, por exemplo, se tivesse uma grande voz de cantor, se calhar era muito chato porque fazia um disco cantado só com umas dicas lindas e todas do mesmo género. E como tenho este registo mais monocórdico, apesar de gostar da minha voz, que era uma coisa que eu não gostava no início e hoje em dia gosto…

E é uma marca tua.
É uma marca minha. Mas como ela tem algumas limitações, se calhar tenho de metê-la em registos bem diferentes para não me chatear tanto. Algures a meio do caminho, a dada altura da minha vida, deixei de funcionar em pandilha. Se calhar foi um bocado essa coisa de estar à procura de grupos e depois não estar bem em nenhum deles e, OK, não faço parte de nada, faço parte de tudo, sou esta misturada. No que toca à música, isso também me cansa um bocado, estar muito tempo no mesmo registo. Então, seria muito difícil para mim fazer um disco inteiro só de uma coisa. Não é que não vá fazer, mas, não sei…
Não te apetece?
Não me apetece, não funciona para mim. E é muito fixe, por exemplo, ao vivo. Se vires um concerto meu hoje em dia, para mim, é uma viagem mesmo fixe, porque raramente me chateio, man. Estou ali, entro num registo, tenho um tema de piano e voz, depois passo para uma cena mais a abrir, depois uma cena de África a dançar mais uma beca, depois uma cena upbeat a saltar, depois uma música mais fodida em que ficas a olhar para o chão e te apetece partir tudo. Estás a ver? É uma viagem tão fixe. E gosto tanto mais do que estar ali a fazer a mesma cena do início ao fim. Para mim é o que funciona. E, daquilo que tenho visto, tem funcionado bem junto das pessoas também. Mesmo aquelas pessoas que vêm por causa do “Assobia para o Lado” e do The Voice Kids, as crianças de 8 anos e cotas de 80 e tal, estão a curtir. Então vou lá para baixo e danço com a cota. Depois toca aquele tema mais pesado, com caralhadas e aquela cena toda. E olha, como é que isto vai ser? Está OK, está OK.
Até em Da Weasel havia espaço para coisas muito diferentes.
Sim, Da Weasel era muito isso. Podia não haver um “Assobia para o Lado”…
Mas havia coisas mais leves e outras mais pesadas.
Havia, e também houve um choque de muita gente com Da Weasel, que iam por causa do “Re-Tratamento” e depois levavam ali com outros números. O que é isto? E agora nos meus concertos, acontece isso, mas acho que… No geral esforçamo-nos pouco e acho que temos todos uma mentalidade de nivelar a coisa por baixo e ir atrás de fórmulas. É um bocado como a programação, por exemplo, de uma TV hoje em dia. Tu sabes que o Big Brother ou o Secret Story funcionam. As pessoas veem e gostam. Mas se tu lhes deres outras coisas, elas vão ver também. E tu nivelas as coisas por baixo. Tens playlists na rádio só a seguir uma direção porque é aquilo que as pessoas gostam. Eh pá, se tu deres outras coisas elas vão curtir também. Isto a todos os níveis. As pessoas estão naquele facilitismo, naquela merdinha que é garantida. Mas há-de haver outras merdas que funcionam. Isto tudo porquê? Até nem estou numa coisa assim tão nobre com isto, porque estou a falar do meu concerto, é uma cena egoísta. Mas ali vejo que, se calhar, dentro daquela loucura e esquizofrenia, vale a pena. Se calhar eu podia entrar naquela de “OK, não vou tocar aqui caralhadas. Não vou tocar esta música mais pesada”. Estou numa terrinha, num concerto comprado pela câmara, as pessoas estão lá para o “Assobia para o Lado” e eu estou a tocar a minha cena e estamos todos a passar-nos em palco a partir aquela merda toda. E as pessoas estão a vibrar como o caralho. Portanto, aquela merda bate certo também. E nós — e quando digo nós estou a falar das rádios, da televisão, do Ministério da Cultura que não temos, dos poderes instituídos — temos que deixar de tratar as pessoas como burras. Se não, qualquer dia temos os Estados Unidos no mundo inteiro, uma cambada de gente burra a fazer o mesmo, que acha que não vale a pena conhecer o que está ao lado porque aqui é que é bom. E tudo formatado a ouvir a mesma música e o mesmo refrão.
Para terminar e perspetivar um pouco o futuro, acredito que não penses que ainda tenhas algo a provar, mas há coisas específicas ou projetos concretos que sabes que queres ainda concretizar um dia?
Gostava de ter essa definição. Está tudo assim meio turvo. É seguro para mim que quero fazer mais coisas, mas não sei o quê. Facilitava-me imenso a vida [risos]. Até porque eu levo bué tempo a fazer as merdas e era muito fixe se já soubesse assim…
Vais descobrindo com o processo.
Exatamente, tal e qual.
E tens as gavetas abertas, não é?
Está um bocado desarrumado, mas é isso mesmo. Acho que é uma boa analogia.
