Entrevista. Carlo Rovelli: “O progresso cego sem um pensamento sensato sobre as suas implicações é uma tolice”

por Ana Monteiro Fernandes,    10 Julho, 2026
Entrevista. Carlo Rovelli: “O progresso cego sem um pensamento sensato sobre as suas implicações é uma tolice”
Carlo Rovelli / Fotografia de Jamie Stoker
PUB

Para Carlo Rovelli o risco de uma guerra nuclear é real e é amplamente subestimado “por políticos e pelas pessoas em geral”. Haveria, no entanto, uma solução se todos contribuíssemos para a substituição “da lógica de confronto internacional pela lógica de cooperação. Precisamos de voltar aos ideais dos fundadores das Nações Unidas e da lei internacional que os governos ocidentais, que nós mesmo elegemos, desrespeitaram”, avisa. Não culpabiliza as redes sociais, aliás, afirma que as pessoas sempre tiveram “certezas e opiniões tolas, precisamos é de escolher líderes mais sensatos.” Os ideias éticos das empresas por trás da Inteligência Artificial também são para si uma preocupação, mas acredita que muito dinheiro investido nessas tecnologias será perdido pelo lado especulativo do sucesso dessas mesmas tecnologias.

Carlo Rovelli é físico teórico e membro da Academia Internacional de Filosofia das Ciências. É também responsável pelo Departamento de Física Teórica da Universidade de Aix-Marseille e professor afiliado do Departamento de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Pittsburgh. A sua mais recente publicação é “La Cattiva Coscienza dei Fisici”, ou em português, numa tradução livre, “A Má Consciência dos Físicos”, sobre a história da bomba atómica e sobre a responsabilidade ética dos cientistas. Já “Sobre a Igualdade de Todas as Coisas” é o seu mais recente livro publicado em Portugal, pela Penguin, em Maio deste ano. Se não há um único molde nem uma única substância, se a velocidade e o movimento são relativos, como se explica então a igualdade de todas as coisas? “Pelo conceito democraticamente implícito de que uma só coisa não é mais importante do que as outras”. Explicou à Comunidade Cultura e Arte (CCA) Carlo Rovelli, na entrevista que se segue.

No livro “Sobre a Igualdade de todas as coisas” escreveu que a filosofia, em parte, mantém a sua distância da ciência contemporânea. Acrescentou também que acredita que essa distância é um erro. A filosofia deveria ser mais aberta e remodelar-se?

Não estou a sugerir mudanças de maior na filosofia. Estou apenas a referir que uma maior atenção à ciência contemporânea poderia ajudar os filósofos a compreenderem melhor este nosso século. Muitos filósofos têm uma ideia desactualizada da ciência. Não compreendem o conhecimento científico tanto no seu conteúdo como na sua natureza.  

Capa do livro / DR

As pessoas geralmente olham para as ciências exactas e para as ciências sociais como duas vias completamente separadas. Existe algum ponto em que estas duas ciências se possam encontrar e complementar entre si? Por exemplo, as ciências exactas também poderiam crescer com uma maior atenção às ciências sociais? 

O conhecimento é uno e as suas diferentes partes nutrem-se umas às outras. As ciências sociais ajudam os cientistas a perceberem o que eles próprios estão a fazer. A filosofia sempre inspirou os físicos das ciências exactas. Não teríamos Einstein ou Newton sem as suas leituras filosóficas. A cultura é uma conversa muito vasta. 

Dá uma especial atenção à forma como escreve e comunica?

Sim, claro! Não apenas no que escrevo para um público mais abrangente, mas ainda mais nos meus livros e artigos técnicos. O conteúdo não pode estar separado da forma. 

É importante incluir a comunidade física na discussão de assuntos sociais mais abrangentes? 

A Física sempre desafiou visões e ideias que pareciam inquestionáveis. Porquê ignorar novos conhecimentos? 

A humanidade sempre viveu nesta dualidade: podemos ser a nossa salvação ou a nossa destruição. 

Sim, de facto. A humanidade adquiriu tanto poder que pode ser benéfico ou desastroso para si própria. 

“Muitos filósofos têm uma ideia desactualizada da ciência. Não compreendem o conhecimento científico tanto no seu conteúdo como na sua natureza.”

Hiroshima e Nagasaki despertaram em nós o medo da energia nuclear e do que pode fazer. Isto levou-nos a olhar para a ciência de forma dual: ao mesmo tempo que sentimos fascinação, sentimos também receio. Tendo isto em conta, o que significa para si o verdadeiro progresso?

O progresso cego sem se pensar nas suas consequências é uma mera tolice. Mas o problema não é o progresso, são as nossas escolhas políticas e sociais. Se continuarmos, frequentemente, a massacrar-nos uns aos outros como temos feito ao longo da nossa história, somos simplesmente idiotas. Agora que temos armas nucleares, ainda mais. O problema passa por aprendermos a viver uns com os outros, em vez de pensarmos sempre na nossa auto-preservação. O progresso cego sem um pensamento sensato sobre as suas implicações é uma tolice. 

Alguns especialistas e historiadores dizem que vivemos na altura mais crítica desde 1930, ainda mais perigosa do que a Guerra Fria.

Concordo. 

Na sua visão, o risco de uma gurra nuclear é real? 

Sim, e é amplamente subestimada por políticos e pelas pessoas em geral. O risco de uma guerra nuclear nunca foi tão grande quanto hoje. 

Ainda há esperança, uma possibilidade de fuga?

Há esperança se toda a gente contribuir para que se substitua a lógica de confronto internacional pela lógica de cooperação. Precisamos de voltar aos ideais dos fundadores das Nações Unidas e da lei internacional que os nossos governos ocidentais, que elegemos, desrespeitaram. 

“O progresso cego sem se pensar nas suas consequências é uma mera tolice. Mas o problema não é o progresso, são as nossas escolhas políticas e sociais. Se continuarmos, frequentemente, a massacrar-nos uns aos outros como temos feito ao longo da nossa história, somos simplesmente idiotas.”

Acha que a comunidade científica tem falado o suficiente sobre o actual estado do mundo? Deveria fazê-lo?

Não o suficiente. Alguns fazem-no, mas deveriam fazê-lo mais. Durante a Guerra Fria, os cientistas  desempenharam um papel importante para se evitar uma catástrofe nuclear, fazendo com o que os governos dialogassem e desenvolvessem tratados, em vez de uma oposição ideológica.

Numa entrevista à Wired Itália disse que precisamos de incertezas: “se vivermos na certeza, não estamos abertos a ouvir os outros, a diferentes visões do mundo, a novas informações que nos fariam mudar de ideias.” No entanto, parece que vivemos num mundo em que as redes sociais proporcionam uma maior conexão mas, ao mesmo tempo, parece que toda a gente quer ter razão. Como explica este paradoxo? 

Na minha opinião, o problema não reside nas redes sociais. As pessoas sempre tiveram certezas e opiniões tolas. Precisamos é de escolher líderes mais sensatos. 

“O risco de uma guerra nuclear nunca foi tão grande quanto hoje.”

No início do seu livro, “Sobre a igualdade de todas as coisas”, escreveu: “se não queremos ser como a criança que apenas conhece a sua aldeia, temos de aprender a distanciar-nos dela.” Mas não vivemos já numa aldeia global? 

Não, não vivemos numa aldeia global. O mundo está muito mais conectado, mas nos últimos anos fechou-se outra vez em entidades separadas que não se compreendem e se demonizam entre si. Economias separadas que constroem cada vez mais armas e que se prepararam para a guerra. É de loucos. 

O que é que esta “aldeia” representa para si? Uma pessoa pode vir de um grande país, uma enorme potência mundial, mas mesmo assim pode estar confinado à sua própria experiência, vendo-a como uma verdade universal. Viajamos mais do que nunca mas parece que não há grandes diferenças. O que pensa disto? 

Devíamos ter em mente que somos todos uma única comunidade no mundo. Uma vasta comunidade com várias diferenças e com uma grande riqueza de tradições mas, ainda assim, uma única comunidade com um destino e problemas em comum. Só ultrapassaremos esses mesmos problemas se pusermos a colaboração à frente do confronto. A nossa cidadania e a nossa lealdade devem ser para com a humanidade como um todo.  

“O mundo actual necessita de mais gentileza, mas ainda mais de regras compartilhadas.”

Como olha para o avanço da Inteligência Artificial? 

Estou menos impressionado e convencido do que a maior parte das pessoas que ouço. 

Trazem mais desafios éticos consigo? 

Tudo traz consigo desafios éticos. Estes desafios em particular precisam de ser controlados e discutidos tranquilamente. 

Preocupa-o os valores éticos que guiam as empresas por trás da Inteligência Artificial? 

Sim, muito preocupado. O controlo tem de estar nas mãos dos governos, não nas mãos de indivíduos ou empresas. Mas penso que as empresas que estão a investir todo o dinheiro nestas novas tecnologias vão ficar desiludidas, portanto não estou particularmente preocupado. O que parece ser mais provável é uma grande desilusão e uma crise financeira. O dinheiro investido será perdido. 

Porque é que acha que o dinheiro será perdido? 

As expectativas de ganhos avultados não se baseiam no desempenho atual destas tecnologias, mas sim em extrapolações sobre a evolução esperada das mesmas. Historicamente, as extrapolações relativas às melhorias de novas tecnologias que são bem-sucedidas nem sempre correspondem à realidade. 

“O controlo dos valores éticos das empresas de Inteligência Artificial tem de estar nas mãos dos governos, não nas mãos de indivíduos ou empresas.”

Se a velocidade é relativa, se cada pessoa experiencia o tempo de forma relativa, se o movimento é relativo. Se não há um único molde nem uma única substância, como se explica então a igualdade de todas as coisas?  

Pelo conceito democraticamente implícito de que uma só coisa não é mais importante do que as outras. 

O mundo precisa de mais gentileza e de menos regras? 

Acho que o mundo actual necessita de mais gentileza, mas ainda mais de regras compartilhadas.

PUB

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.

Artigos Relacionados