Entrevista. Carlotta Cosials (Hinds): “O amor é a única coisa mais poderosa do que o ódio”

por Manuel Neves,    4 Março, 2026
Entrevista. Carlotta Cosials (Hinds): “O amor é a única coisa mais poderosa do que o ódio”
Hinds (Carlotta Cosials e Ana Perrote) / Fotografia de Dario Vazquez
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Em 2011, as duas amigas Carlotta Cosials e Ana Perrote adotaram o nome Deers, mas viram-se obrigadas a alterá-lo devido a um problema legal. Foi então que passaram a chamar-se Hinds.

Tal como aconteceu com os The Beatles e com tantas outras bandas no início do seu percurso, as Hinds também começaram por subir ao palco a interpretar versões de temas de outros artistas. Essa fase foi fundamental para ganhar experiência e consolidar a sua identidade musical. Ainda hoje, apesar de terem um repertório próprio bem definido, continuam ocasionalmente a incluir covers nos seus concertos, revisitando canções de artistas como Charli XCX e The Clash.

Depois de mais de uma década marcada por altos e baixos, as Hinds apresentam-se, nos últimos dois anos, com o seu mais recente álbum, Viva Hinds. A banda, que começou com Carlotta Cosials e Ana Perrote, rapidamente se expandiu para um quarteto, lançando três álbuns. Neste último trabalho, retomam como tudo começou, a dois. Mais maduras e coesas, as Hinds têm vindo a consolidar o seu lugar na cena internacional, num percurso que reflete uma evolução consistente, sustentada pela experiência acumulada e por uma identidade própria bem definida, a banda segue um caminho que se cruza com o seu universo sonoro, enraizado no indie rock e no lo-fi.

No passado dia 5 de fevereiro, as Hinds regressaram a casa para um concerto especial em Madrid, seguido de uma afterparty repleta de amigos, familiares e fãs. Depois de anos a percorrer palcos internacionais, tocar em território familiar trouxe uma energia diferente. Falar em espanhol permitiu às artistas uma ligação emocional mais direta com o público ao longo do concerto, a facilidade em expressar os seus sentimentos na língua materna criou rapidamente uma atmosfera de proximidade, notória nas constantes conversas com o público ao longo do espetáculo.

O momento mais marcante aconteceu na última música, “EnForma”, quando várias pessoas foram convidadas a subir ao palco. Este gesto transformou o final do concerto numa celebração coletiva do álbum Viva Hinds que inclusive, o próprio título do álbum, como revelou o duo, nasceu dos inúmeros concertos onde o público gritava Viva Hinds, reforçando a forte ligação entre banda e os fãs.

Agora, as Hinds regressam a Portugal, mais concretamente a Lisboa, depois de no ano passado terem passado pelo Vodafone Paredes de Coura. A relação com o público português já vem de trás: há dez anos atuaram no Musicbox, aquando do lançamento do primeiro álbum, e em 2022 subiram ao palco do Super BockSuper Rock. Este ano, terminam a digressão inicialmente marcada apenas por Espanha com uma data extra em Lisboa, anunciada à última da hora, na Casa Capitão, onde atuam a 7 de março. 

Desde cedo, as Hinds destacaram-se além-fronteiras, conquistando reconhecimento primeiro fora de Espanha e afirmando-se em alguns dos palcos mais prestigiados do circuito internacional, como o Glastonbury e o Coachella, entre muitos outros. Curiosamente, o percurso das Hinds cruza-se com o dos Fontaines D.C. Nos primeiros anos, a banda irlandesa chegou a abrir concertos para as espanholas, e mais tarde essa ligação evoluiu para uma colaboração, a música “Stranger”, com a participação de Grian Chatten, vocalista dos Fontaines D.C. Partindo também desta experiência internacional, falámos com a Carlotta Cosials, das Hinds, numa entrevista por escrito.

“Quanto mais estúpidos os líderes se tornam, mais forte será a revolução

Enquanto espanholas, de que forma a cultura e a vivência no vosso país moldou a vossa autenticidade como artistas? Desde cedo queriam estar em cima do palco. Lançaram ‘TrippyGum’ e ‘Bamboo’ no Bandcamp, uma plataforma que apoia bandas em início de carreira. Sentem que Espanha também ajudou a impulsionar a banda desde o início? Há bons mecanismos de apoio a artistas emergentes? Sempre houve o garante para o crescimento por parte dos espanhóis?

Não, de forma alguma. Os espanhóis não confiam muito em “sangue novo”. O público espanhol precisa de pelo menos um ou dois álbuns para realmente começar a interessar-se por uma banda. Por outro lado, os britânicos são exatamente o oposto, as primeiras críticas e e-mails que recebemos vieram de pessoas do Reino Unido que queriam trabalhar connosco. Os ingleses não se importam com a quantidade de reproduções que a música das bandas tem no SoundCloud. Eles apoiam muito os novos artistas. Então, não. A Espanha não ajudou muito a impulsionar a nossa carreira no início.

Já passaram por muitos países ao longo da vossa carreira. Sei que têm um carinho especial por Portugal, mas, de todos os países, com qual sentiram melhor relação com o público? E em que país mais gostaram de tocar?

A conexão com o público pode ser muito aleatória, sabes? Por vezes acontece em lugares inesperados. As minhas cidades favoritas desta digressão do Viva Hinds são Oklahoma City, Londres, Amesterdão, Tóquio, Barcelona. E quanto à tua outra pergunta, tenho vergonha de admitir que adoro fazer digressões nos EUA. As estradas são grandes e confortáveis, e cada estado é diferente, e está cheio de bandas lendárias. Não consigo evitar gostar do EUA.

Há algum artista português que vos interesse ou com quem gostassem de fazer uma colaboração um dia? Costumam ouvir música portuguesa/ artista, nem que seja por inspiração?”

Não, não conheço, recomenda-me! Adoro a língua, o povo e o país, tenho a certeza de que vou adorar a música. 

Recusaram-se sempre a deixar cair a banda, depois de um percurso marcado por resistência, reinvenção e muito trabalho discreto, tornaram-se frequentemente associadas à palavra resiliência. Mas talvez a característica mais evidente seja o vosso amor pelas guitarras.

Sim… houve uma altura em que estávamos para chamar a este álbum de “o triunfo da música e da amizade”. É lamechas, mas é verdade.

Olhando para esta trajetória, que ensinamento sobre esforço, por vezes fracasso e muita persistência gostariam de ter recebido no início, e que conselho dariam hoje a quem sente que desistir é a opção mais fácil?

Bem, não culpo ninguém que desista. Para alguns de nós é impossível, é involuntário, acho eu. Pelo menos para mim, sinto que não conseguiria abandonar a música mesmo que tentasse. Ela acabaria por me encontrar mais tarde. É muito triste ver bandas desistirem, isso realmente parte-me o coração, mas eu entendo. O comum é começar uma banda quando se é jovem e nem se saber realmente o que significa pagar contas ou impostos. Então, quando somos adultos e a banda não está a gerar qualquer rendimento, é provável que comecemos a sentir frustração e irritação por causa disso. Se alguma vez formares uma banda com o objetivo de ganhar dinheiro… sinceramente, eu escolheria outra profissão.

Estamos a assistir a um número de agentes musicais a perderem a criatividade, não só por causa da indústria musical, mas agora também por causa da inteligência artificial. Sempre defenderam a autenticidade e o som puro, sem filtros nas guitarras. Perante esta tendência, o que esperam para o futuro da música?

Não me assusta propriamente… não me sinto intimidada. As emoções fascinam-me e a forma como tentamos traduzi-las em palavras, em música e em arte também. Devemos usar a Inteligência Artificial para coisas que não precisam de um ser humano, para que os humanos tenham mais tempo para fazer coisas humanas. Por isso, não devemos ter medo delas; devemos usá-las para sermos mais humanos.

Hinds / Fotografia via Facebook da banda

Quanto ao álbum Viva Hinds, curiosamente começa com a faixa Hi, How Are You”, como se fosse um “olá” do dia a dia, aqui, o título está em inglês, a última faixa do álbum termina com “Bon Voyage”, um “adeus” em francês. Existe alguma relação com o facto de terem elaborado o álbum num Airbnb em França, e essa etapa ter marcado o fim desse processo? No álbum, a sequência de “On My Own, Coffee” e “En Forma” parece quase como um dia a dia recorrente e sequencial. A escolha de “En Forma” antes do “Bon Voyage”, pelo próprio nome em espanhol, sugere que, no futuro, ambicionam cantar cada vez mais em espanhol? decidiram a ordem das músicas propositadamente, atendo a uma sequência de vida?

Levámos umas boas semanas a escolher a ordem da tracklist. A única coisa que era certa era a primeira e a última faixa, como disseste. Mas só quando estávamos a organizar a tracklist é que percebemos que “Bats” (a faixa bónus) não devia estar no álbum regular — pertencia a uma edição deluxe, era mesmo um bónus, era um pouco diferente. Mesmo quando tens as demos e já tens uma tracklist muito clara na cabeça, isso acaba por não servir de muito. As músicas podem mudar imenso quando as gravas em estúdio. É um processo mágico.

Quanto a cantar mais em espanhol, tenho a certeza de que não vamos deixar de o fazer, mas não posso prometer uma língua específica. As canções surgem como surgem, sabes? Não deve haver uma razão demasiado racional por trás delas. Devem ser escritas tal como vêm.

“O comum é começar uma banda quando se é jovem e nem se saber realmente o que significa pagar contas ou impostos.

Sei que são fãs dos The Clash e que sempre admiraram o facto extraordinário de Joe Strummer ter escrito uma música sobre a Guerra Civil Espanhola (“Spanish Bombs”). Curiosamente, os The Clash e o próprio Strummer tinham letras carregadas de crítica social e política. Falam também sobre a indústria musical em “Garageland”. De certa forma, podemos ver algo semelhante nas vossas músicas, como “Just Like Kids”. Como têm respondido à indústria nos últimos anos, lidando com as pressões e expectativas enquanto banda com consciência política e com as experiências culturais que vão cruzando no vosso dia a dia? A realidade tem mostrado um mundo em que políticos/ Estados ameaçam direitos, liberdades e a própria cultura. Sentem que poderemos estar a caminhar para um retrocesso nos próximos anos, ou acreditam que a música e a criatividade continuam a ser formas de resistência e transformação?

Tenho que dar a minha resposta mais otimista aqui, amigo. Acho que quanto mais estúpidos os líderes se tornam, mais forte será a revolução. Só espero que as pessoas continuem a ouvir e a apreciar essas bandas, o nosso material, e que aprendam a ter as suas opiniões e os seus pensamentos pessoais. O amor é a única coisa mais poderosa do que o ódio.

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