Entrevista. Courtney Barnett: “Partilhar histórias e pontos de vista encoraja a empatia e um entendimento partilhado do mundo”

por Tiago Mendes,    25 Fevereiro, 2026
Entrevista. Courtney Barnett: “Partilhar histórias e pontos de vista encoraja a empatia e um entendimento partilhado do mundo”
Fotografia de Lindsey Byrnes
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Mudou de continente, deixou para trás a sua editora independente e, no meio do deserto norte-americano, criou “Creature of Habit”. O novo álbum de Courtney Barnett, com lançamento a 27 de Março, tem por título essa ironia: a de alguém que preza a segurança das repetições a atravessar mudanças significativas na sua vida. Passaram quatro anos desde o lançamento do introspectivo “Things Take Time, Take Time”, criado no contexto caseiro a que a pandemia nos confinou. O primeiro single do novo álbum, “Stay in Your Lane”, vem romper com essa suavidade, trazendo uma atitude e um volume que já deixavam saudades na música da artista australiana; o som distorcido e o ritmo propulsivo constitui um regresso à energia que, desde o começo da sua carreira, a tornou quase instantaneamente reconhecida.

Mas a conversa entre a artista e a Comunidade Cultura e Arte revela que Courtney – que desde cedo encontrou na guitarra o principal instrumento de trabalho e de expressão – se tem vindo a transformar: há uma crescente honestidade nas letras de uma artista que, nos primeiros capítulos do seu percurso, explorou o sarcasmo e a ironia como uma forma de expressão que não comprometiam a sua segurança. Essa epiderme de piadas algo amargas em que se refugiava tem vindo a descamar, dando espaço a uma vulnerabilidade refrescante.

“Creature of Habit” é rico em sonoridades; da energia de “Stay in Your Lane” à leveza de “Site Unseen” (regada pela voz de Waxahatchee), passando pela emotividade de “Mostly Patient” (que pode ser ouvida na gravação de um concerto na Tasmânia, apesar de ainda não ter sido lançada como single). “Mantis”, de ritmo envolvente e atmosférico, reflete sobre o encontro místico entre a artista e um louva-a-deus no beiral de uma porta: esse ponto focal artístico, que vem a motivar a escolha da capa do álbum, constituiu um sinal na vida de uma artista que se tinha mudado há pouco tempo de malas e bagagens de Melbourne (Austrália) para a Califórnia (nos EUA).

Entre tantas mudanças, a cantora e guitarrista continua a encontrar refúgio nas suas rotinas; que passam, também, pelas viagens constantes que a vida de digressão exige. Para trás vão ficando álbuns que as setlists dos concertos sempre reconvocam, cada um deles documentando tempos, histórias, contextos e estados de espírito que colocam em diálogo uma carreira que se vai consolidando. Portugal não lhe põe a vista em cima desde 2019, quando deu no palco principal do Primavera Sound Porto o seu último concerto entre nós, diante de um relvado iluminado pelo pôr-do-sol. Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, o álbum inaugural que a catapultou cedo na carreira para grandes audiências, parece uma memória distante de um outro tempo – mas, à conversa, Courtney ainda o referencia, como alicerce da forma de escrever e compor que a artista continua a desenvolver.

Apesar de em certos dias continuar a sentir-se como se estivesse a começar agora a sua carreira, a outsider promissora tem vindo a tornar-se figura de referência para novas gerações, principalmente no território de fusão entre o indie rock desarrumado e o chamado dolewave (de sonoridade mais lânguida, descontraída e folky). Courtney olha com optimismo para todas estas mudanças de papéis, de ambientes e de flutuações emocionais; e, num contexto em que viver na América é particularmente assustador, afirma que a música é uma ferramenta operativa que pode ajudar a tornar o mundo um lugar mais empático.

No primeiro single do teu novo álbum, “Stay in Your Lane”, subiste o volume, o peso e a energia da guitarra em comparação com o teu último disco, que era mais calmo. Era importante para ti que esta primeira janela para o novo álbum contrastasse com a sonoridade prevalente do anterior?

Acho que isso aconteceu naturalmente. Esse último álbum tinha sido escrito e gravado durante a Covid. Eu estava a viver num apartamento pequeno e todos os sons eram “pequenos”, bastante próximos e íntimos… era esse o sentimento do álbum, e acho que a música refletiu isso. Este novo parece quase o completo oposto! Eu andava a viajar pelo país e estava a viver no deserto; era grande e não havia limites. Por isso, acho que a música copiou essa sensação. Alguns dos sons acabaram por ser maiores, mais amplos e mais abertos. Foi a primeira coisa em que pensei quando fizeste essa pergunta: a diferença entre as duas mentalidades e ambientes em que esses álbuns foram feitos. Apesar de não saber se foi realmente consciente…

E também será um álbum muito diverso, pelo que percebo. A “Stay in Your Lane” contrasta com o segundo single, “Site Unseen”; e as outras canções que já tens tocado ao vivo são muito diversas na sua sonoridade. Como é que sentes que o álbum liga todas estas diferentes energias? O que é que o une enquanto álbum?

Acho que todas essas diferentes energias refletem o tempo do álbum. Comecei a escrevê-lo no início de 2023, e agora estamos em 2026. E eu vejo sempre um álbum como um documento temporal. Pensando em todos os altos e baixos pelos quais passamos ao longo de um ano: a música reflete isso — tens alguns dias tristes, outros felizes, outros de raiva. A música recebe um bocadinho de cada um desses momentos.

Lembro-me que o meu primeiro álbum tinha a “Pedestrian at Best” e a “Depreston”… duas canções que são polos opostos [risos]. Tento não pensar demasiado em como as canções vão encaixar juntas, porque acho importante representar esses diferentes lados da minha personalidade, ou daquilo que estou a viver. Acho que encaixam porque é tudo uma representação de algo por que passei. Às vezes, sonoramente, as canções parecem estranhas juntas, ou parecem desequilibradas… mas tenho de olhar para a obra como um todo e pensar: “Ah, não, isto é apenas o fluxo natural desta minha história”.

Isso faz sentido, a vida tem muitas cores diferentes, os dias passam e nós experienciamos emoções diferentes. Queria agora fazer-te uma pergunta sobre a canção “Mantis”, que eu adorei (talvez seja a minha favorita das quatro que já ouvi deste futuro álbum). Notei que esta música em particular parece ligar tudo: inclui a referência ao louva-a-deus (“praying mantis”) que aparece na capa do álbum, e o título do álbum (“Creature of Habit”) surge ali escondido no meio da letra. Qual é o simbolismo desta canção? Sentes que é uma peça central do disco para ti?

Exatamente, é isso que eu sinto. Quando terminei essa música senti o álbum todo a ganhar forma e a começar a fazer sentido; como se as outras tivessem passado a ter sentido em torno dessa. Até o título do álbum veio dela… quando eu decidi que esse seria o título do álbum, isso uniu todas as canções. Foi uma espécie de cola do conjunto. Sempre me pareceu a parte mais crucial e importante; parece incorporar o espírito do álbum, parece que diz tudo o que todas as outras estão a tentar dizer [risos].

Eu estava a viver no deserto e tive este momento muito bonito em que vi um pequeno louva-a-deus à minha porta, e foi como se ele me estivesse a mostrar o caminho; estava a dar-me um sinal, a tentar enviar-me uma mensagem. Esse momento entrou na canção, e foi tão importante para mim que acabou por ser também a capa do álbum. Por isso, sim, é definitivamente uma peça importante de todo o processo.

E a canção é linda; e não sai da cabeça (até porque tenho estado a ouvi-la em loop). Voltando ao primeiro single, partilhaste numa entrevista que a inventaste de forma inesperada: estavas a procrastinar uma outra tarefa qualquer, e acabaste por dar por ti a escrever a “Stay in Your Lane”. Pelos vistos, até os grandes músicos continuam propensos a procrastinar como qualquer outra pessoa! Achas que a procrastinação pode, por vezes, ser uma ferramenta útil para um músico? Como costumas lidar com esse “bichinho” chato?

Sim, acho que procrastino muito. Mas o truque que estou a aprender é que não é útil martirizarmo-nos por procrastinarmos; é melhor procurarmos o lado positivo da procrastinação [risos]. Eu sou a rainha da procrastinação: faço qualquer coisa para me distrair do que é suposto estar a fazer. Mas acho que coisas maravilhosas podem acontecer quando procrastinas: se fores dar uma caminhada para sair de casa quando estás a escrever, podes encontrar um desconhecido, podes ter uma interação muito agradável com alguém… Há pequenos momentos na vida que às vezes acontecem quando menos esperamos. Acho que é isso que a procrastinação pode ser.

Quando comecei algumas destas canções – por exemplo, a “Stay in Your Lane”, ou a “Sugar Plum” (que também está no álbum) – comecei-as por procrastinação. E depois transformaram-se em algo de que eu realmente gostei. E acho que isso aconteceu precisamente porque eu não me estava a esforçar demasiado. Não achava que fossem dar em nada, por isso nem estava a pensar qual seria o resultado. E acho que há algo de poderoso nessa falta de expetativa. Por isso, sim, acho que a procrastinação é importante [risos].

Fotografia de Courtney Barnett – via Facebook da artista

Não sei se concordas com esta perspetiva, mas dá-me a sensação de que as tuas letras estão a tornar-se tendencialmente menos sarcásticas, em comparação com o início da tua carreira. Concordas que o sarcasmo está a tornar-se um elemento menos central na tua música? E, olhando para este sarcasmo como uma possível “armadura”, sentes que estás a baixar as tuas defesas na forma como te expressas?

Sim, essa é uma boa maneira de ver a coisa. Acho que notei algumas coisas dentro de mim… como a minha tendência para usar o sarcasmo como um mecanismo de defesa, às vezes. E, ao observar alguns desses padrões dentro de mim, tentei escavar esses sentimentos e descobrir o que tapavam. E o que acontece quando fazes isso é que encontras algo mais vulnerável… encontras, de certa forma, a honestidade por trás disso; e era isso que eu procurava. Não queria esconder-me atrás de sarcasmo ou de piadas.

Sinto que ultimamente tens andado a explorar essa vulnerabilidade. Por exemplo, no teu documentário “Anonymous Club”, expuseste-te. O filme foca até a forma como lidaste com desafios ao nível da tua saúde mental.

O documentário foi realmente interessante. Foi difícil de assistir, no final, mas foi um processo interessante. Acho que acabei por aprender muito sobre mim mesma; até porque foi um exercício de bastante confronto. Mas sim, acho que é importante explorar as partes de nós mesmos de que não gostamos tanto. É isso que é ser vulnerável: conhecermo-nos a nós mesmos e compreendermo-nos. Se há coisas de que não gosto, tento alterá-las gentilmente. Em vez de ser cruel comigo mesma, tento encontrar outra forma de estar ou de me expressar. Acho que estou sempre a tentar encontrar a honestidade nas coisas – o que é difícil porque nós, como humanos, fazemos tudo para sermos mais espertos que nós próprios e para nos enganarmos, seguindo um instinto de sobrevivência; o nosso cérebro está constantemente a tentar proteger-nos usando todas estas pequenas ferramentas estranhas. É algo complicado de entender, por vezes.

Fotografia de Lindsey Byrnes

Sentes que falar sobre essas vulnerabilidades é muito diferente de criar música sobre elas?

Acho que tudo é um processo de aprendizagem. E escrever e fazer música é um processo muito educativo. Na minha demanda de querer aprender e descobrir coisas novas, grande parte do que descubro acaba por ser sobre mim mesma. E não sei de que outra forma poderia fazer isso, pessoalmente: a música é um lugar realmente seguro e divertido, e um lugar criativo onde posso sair da minha cabeça.

Nesse processo de aprendizagem, tens a companhia do teu instrumento, a guitarra, que imagino ser uma grande constante na tua vida. Como descreves a tua relação com este instrumento? A guitarra é para ti mais do que um mero objeto?

Sim, a guitarra é definitivamente o meu instrumento principal e acompanha todos os meus pensamentos. Toco guitarra quase desde sempre, acompanha toda a minha vida; tinha menos de 10 anos quando comecei a aprender. E simplesmente faz sentido para mim. Ajuda-me a desbloquear pensamentos. É sempre o meu refúgio.

O título do teu novo álbum é “Creature of Habit” (Criatura de Hábitos), o que parece um pouco irónico, porque nos últimos anos houve muitas mudanças na tua vida. Mudar da Austrália para os Estados Unidos, deixar para trás a tua editora… Mesmo no meio de todas estas mudanças, consideras-te ainda assim uma criatura de hábitos? Se sim, como é que uma criatura de hábitos navega por todas estas mudanças?

Essa é a grande questão: eu sinto-me uma criatura de hábitos, alguém que tem rotinas e gosta da segurança da repetição. Mas acho que também há uma parte de mim que anseia por coisas novas, anseia por espontaneidade e por caminhos diferentes. E, na justaposição desses dois sentimentos conflituosos tens permissão para sentir ambos. Mas às vezes, fazer uma mudança, encontrar uma nova rotina, estabelecer um limite pode ser muito difícil. Por isso, acho que foi isso que acabei por explorar: tentar perceber esses sentimentos e aceitar o contraste entre eles. Aceitar que podia fazer coisas novas. Foi uma experiência interessante.

E quanto à experiência de viver em Los Angeles? Sinto que a tua música costumava referenciar locais específicos da Austrália, por exemplo; agora que mudaste de casa para outro país, como é que este novo ambiente afeta a forma como experiencias o mundo?

Acho que o ambiente de fundo de onde estou a escrever, a paisagem, acaba sempre por se refletir na minha música. Mas não notei grandes diferenças até agora. Acho que tenho muita sorte numa coisa: posso viajar, e muitas vezes estou a escrever enquanto me desloco por diferentes pontos do mundo. Por isso, é engraçado, porque mesmo que esteja a escrever uma canção em L.A., posso estar a referenciar uma situação que aconteceu noutro lugar. Nunca é só uma coisa ou outra: o ambiente está sempre a mudar, o que é divertido; e ajuda-me a manter-me alerta.

E retirar inspiração de muitos lugares provavelmente enriquece a tua arte.

Sim, exatamente.

Como é viver nos Estados Unidos neste momento particular da história? No meio da polarização, gostava de perceber o teu ponto de vista – até como estrangeira. Como estás a lidar com a experiência de morar aí?

É um momento muito difícil. É muito difícil assistir ao que está a acontecer. Há tanto ódio, e divisão; e as pessoas estão assustadas. É de partir o coração, assistir a tudo isto. De certa forma, sinto-me uma espécie de observadora… como não voto aqui, sinto-me como alguém de fora. Mas sinto muita dor nas pessoas, é desolador.

Fotografia de Pooneh Ghana – via Facebook de Courtney Barnett

Acreditas que a música tem um papel específico nesta paisagem cultural? Pode a música ajudar-nos de alguma forma a seguir em frente?

Eu acredito nisso, num certo sentido. A música não vai resolver todos os problemas, e uma canção não vai mudar o ponto de vista de toda a gente. Mas acredito que partilhar histórias e pontos de vista encoraja a empatia e um entendimento partilhado do mundo. E acredito que pode ser muito poderoso as pessoas compreenderem os pontos de vista dos outros. E é isso que a música pode ser; a música pode ser uma força muito poderosa.

Eu também acredito nisso; e boa sorte nessa missão! Uma última pergunta. O teu catálogo está agora a tornar-se maior, e tens influenciado uma nova geração de músicos a explorar esta ponte entre o indie rock e as sonoridades folk… Ainda te sentes como uma “outsider” na cena, a explorar sons indie, ou estás a passar para um papel de mentora ou de “irmã mais velha”?

Eu escrevo canções e toco ao vivo em digressões há já muito tempo; e é bom ver como o meu papel muda à medida que os anos passam. É engraçado como às vezes ainda me sinto como se estivesse a começar agora, e noutras alturas sinto que já cá ando há muito tempo. E isso pode ser um sentimento muito engraçado, e confuso. Houve muitas pessoas que, ao longo da minha carreira, me ajudaram, guiaram, inspiraram, ou simplesmente tiraram tempo para falar comigo, e isso significou muito para mim. Por isso, acho que é muito importante transmitir todo esse legado sempre que puder; é isso que me vou esforçar por fazer no resto da minha carreira.

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