Entrevista. Diogo Madre Deus, editor da Cavalo de Ferro: “Hoje, obrigam-te a ser um consumidor e não um leitor”

por Joana Rodrigues Stumpo,    12 Maio, 2026
Entrevista. Diogo Madre Deus, editor da Cavalo de Ferro: “Hoje, obrigam-te a ser um consumidor e não um leitor”
Diogo Madre Deus / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Um especial agradecimento à Livraria Buchholz, em Lisboa, pela cedência do local para a gravação desta entrevista.

Uma conversa sobre o mercado literário, hábitos de leitura, o Prémio Nobel, sobre o livro. O livro enquanto objeto com o qual se estabelece uma relação. Em que se pega, dobra, escrevinha, que se deixa cair e se sacode o pó. O livro enquanto presença, não um produto. Diogo Madre Deus é editor da Elsinore e Cavalo de Ferro, esta segunda que co-fundou em 2003 e geriu independentemente, até ter sido adquirida e integrada no que é hoje a Penguin Random House. Entre as prateleiras da Livraria Buchholz, explica como tem tido sorte na “lotaria” do Prémio Nobel da Literatura: dos últimos cinco vencedores, três já eram autores Cavalo de Ferro.

Co-fundaste a Cavalo de Ferro em 2003. Porque houve esta vontade de criar uma coisa nova?

Na altura, o mercado era um bocadinho diferente, sentimos que havia várias lacunas. Havia muitos autores e livros que não estavam cá traduzidos. Existia alguma desatenção das editoras em relação a esses autores, sobretudo a nível das traduções, e também uma desatenção com o cuidado do próprio livro como objeto. E eram muitos os autores quase óbvios de constarem numa prateleira de bons leitores que não estavam disponíveis [em português]. Não quer dizer que não fossem conhecidos dos leitores, mas conheciam-nos através de outras línguas, de outras traduções. Tínhamos muito pouco dinheiro e muito poucas hipóteses, foi um salto no escuro. Tínhamos dinheiro para fazer três ou quatro livros e correu bem.

“A construção do catálogo da Cavalo de Ferro privilegiou a coerência, sempre, contra todo o tipo de adversidades e há muitos tipos de editores mas acho que se pode distinguir os editores entre aqueles que estão mais preocupados com o leitor, com o mercado, e os que estão mais preocupados em construir uma obra, um catálogo, e às vezes esses acabam mal. Tem de existir uma equidistância.”

E que livros eram?

Lançámos [O Pátio Maldito] do Ivo Andric, uma tradução do Servo-Croata. Começámos logo a lançar livros de geografias um pouco menos óbvias. O mercado estava muito saturado, ainda está, mas menos, de literatura francesa, norte-americana ou de expressão inglesa. Editávamos até autores que nem sequer eram muito conhecidos nos seus países. Por exemplo, traduzimos do polaco um autor chamado Stefan Grabinski, que nem os polacos conheciam. Do Jonas Lie, fomos buscar um manuscrito a uma biblioteca no norte da Noruega, porque o livro não estava sequer disponível nas livrarias norueguesas.

Como se transforma, então, o catálogo da Cavalo de Ferro?

A construção do catálogo privilegiou a coerência, sempre, contra todo o tipo de adversidades e há muitos tipos de editores mas acho que se pode distinguir os editores entre aqueles que estão mais preocupados com o leitor, com o mercado, e os que estão mais preocupados em construir uma obra, um catálogo, e às vezes esses acabam mal. Tem de existir uma equidistância; não basta ter só muito dinheiro para se editar o que se quer e para se ser um bom editor. É um gesto que tem também de comunicar com o público, mas não podes ficar obcecado com esse público, não podes deixar que isso influencie as tuas escolhas. No meu caso, tem a ver também, felizmente, com leituras minhas e com autores que conheço ou com os quais tropeço e que desejo publicar.

Essa era outra das minhas questões: como é o processo de pesquisa e descoberta de novos autores? E como tem mudado ao longo do tempo?

Mudou muito. Não me considero especialmente velho, mas de facto a primeira contratação de direitos que fiz foi via fax. Havia uma aura especial em que os editores eram vistos. Era quase um clube a que se tinha que pertencer. Hoje em dia é muito mais fácil fazer uma editora e é tão ou mais difícil manter uma editora.

Quase sempre fui um editor independente, até 2018. Depois integrei sucessivos grupos e isso mudou bastante o trabalho. A base da escolha é sempre a mesma, no sentido em que só escolho aquilo que leio, que gosto e que acho que faz sentido publicar. Mantenho essa coerência, tanto com a Cavalo de Ferro quanto com a Elsinore. Mas há muito mais propostas neste momento. Agora trabalho com scouts e agentes internacionais que pedem um ritmo muito veloz na escolha. Há muito mais concorrência também entre editores e cada vez mais manuscritos, mais livros. Portanto, a dificuldade de escolher boa literatura, sobretudo a contemporânea, tornou-se mais difícil e exigente.

“Não basta ter só muito dinheiro para se editar o que se quer e para se ser um bom editor. É um gesto que tem também de comunicar com o público, mas não podes ficar obcecado com esse público, não podes deixar que isso influencie as tuas escolhas.”

Entre Cavalo de Ferro e Elsinore, uma das grandes diferenças que identifico é que na primeira há autores já consagrados, ou pelo menos conhecidos, e na segunda há espaço para novas vozes.

É uma boa leitura. A identidade precisa de fronteiras claras, essa é uma boa fronteira e é aquilo que repito a mim mesmo e a toda a gente. A Elsinore publica uma literatura mais contemporânea com autores que ainda não demonstraram tudo, que ainda têm muita obra para escrever. A Cavalo de Ferro tem autores com um percurso já estabelecido e que provavelmente já deram o melhor que tinham. No entanto, há exceções e é sempre bom publicar uma coisa que as pessoas encaixariam num outro catálogo. Já tive, aliás, discussões com agentes internacionais que achavam que a minha escolha para uma das editoras não era a visão deles. Por exemplo, a Cavalo de Ferro publica Irene Solá, uma autora muito jovem, catalã, que tem ainda muitos livros pela frente, de certeza absoluta. Poderia estar na Elsinore, mas tem um estilo muito clássico que me recorda [Halldór] Laxness e autores que publico na Cavalo de Ferro. É preciso ver o casamento dos autores num catálogo.

Olhando para a Cavalo de Ferro, o que procuras nestes escritores?

Inovação literária, ou seja, autores que trouxeram algo novo para a literatura. Estou a lembrar-me da Ludmila Ulitskaya, considerada uma herdeira de Tolstói que se inscreve na tradição do romance realista. Mesmo assim, ela traz coisas novas com a sua escrita. O que me entusiasma não é propriamente a história que contam, mas a forma como essa história é contada, pela técnica com que é contada e pelo que traz de novo essa técnica à literatura.

Diogo Madre Deus / Fotografia de Rui André Soares – CCA

O que já se diz sobre um livro na opinião pública e na comunicação social pesa nessa escolha?

Pesa no sentido do encontro com o livro, não é? Ou seja, é mais fácil ter ouvido falar num autor se já foi falado. Senão teria de andar à procura de autores obscuros — que também os há, tão ou melhores do que os outros —, mas seria um trabalho de pesquisa muito específico. Pesa a montante, não pesa a jusante, nesse sentido.

“Hoje em dia é muito mais fácil fazer uma editora e é tão ou mais difícil manter uma editora.”

E o que procuras na Elsinore, sendo que há apostas em autores um pouco mais novos, mais contemporâneos?

É mais ou menos a mesma coisa. Vozes novas, diferentes. Também tem uma componente de não-ficção bastante grande. O que eu não privilegio são livros que se associam a momentos ou temas específicos que estão a ser falados, a uma tendência que está em voga. Vou à procura do livro e do autor em si. Hoje em dia torna-se um bocadinho difícil porque… como disse, há muita coisa a ser escrita e com muitas suspeitas de que essa escrita seja não inteiramente humana. Repete-se uma fórmula, um modo de dizer um tema, que está no gosto da opinião pública. Portanto, é mais difícil identificar a novidade.

A inteligência artificial já é um desafio para o editor?

É, sim, cada vez mais. Ainda se consegue identificar o que é um texto vindo de inteligência artificial, mas vai tornar-se cada vez mais difícil. E o problema nem é isso, o problema é se o público estará ou não interessado — neste momento está — na proveniência desse texto.

Diogo Madre Deus / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Falávamos há pouco, em off, sobre as alterações nos hábitos de leitura, nos tipos de literatura que têm vindo a ter mais adesão. Isso também é uma questão desafiante?

Vou dizer uma coisa que não é muito do agrado de muita gente. Em Portugal, o ato de ler sempre foi elitista, não só ler, mas de consumir cultura. Nos últimos anos difundiu-se essa ideia generalizada, muito politizada, de que há mais leitores e de que estamos a avançar para uma sociedade com mais leitores e isso é tudo muito festejado. Mas eu distingo entre bons e maus leitores.

“Os grandes leitores estão a ler menos porque não têm tempo para isso, estão distraídos com a quantidade de tecnologia que existe, e com a forma de leitura que neste momento se está a instalar na sociedade.”

Não basta ler?

Não basta ler. Há livros que mais valia não ler, na minha opinião. Não acho que tragam nada de positivo. Muitos deles nem sequer estão bem escritos, nem se aprende português. O que existe em Portugal são fenómenos de consumidores que entram no mercado do livro, consomem determinados produtos que a indústria do livro lhes proporciona, e depois saem do mercado. Ou seja, leitores ocasionais que entram e saem e que aumentam essa estatística dos livros. Mas a verdadeira base de leitores, aquela que alimenta o mercado e a indústria editorial, são aqueles leitores de base, que sabem escolher, que têm um percurso de leitura. E essa base está a diminuir, não está a aumentar. Os grandes leitores estão a ler menos porque não têm tempo para isso, estão distraídos com a quantidade de tecnologia que existe, e com a forma de leitura que neste momento se está a instalar na sociedade. Eu diria que esse é talvez o maior problema. A forma como lês, como te obrigam a ler hoje em dia, no meio de tanta produção: estão a obrigar-te a ser um consumidor e não um leitor. Lê-se também de forma mais fragmentada, com a ânsia de não se ter tempo para o fazer ou com a ansiedade de haver demasiada coisa, sem espaço mental nem tempo para te isolares do mundo e desfrutares desse tempo de leitura.

Estive o ano passado num colóquio de editores internacionais e havia um muito novo, espanhol, que dizia que era um leitor e editor fragmentado, no sentido em que as referências dele são diferentes, é uma colagem de várias pequenas leituras. Isso é que coloca em perigo uma base sólida de leitores e de leituras. E já foi repetido mil e uma vezes ao longo do século XXI, e que ainda é válido hoje em dia, o livro ainda é a melhor forma de aceder à cultura e a forma como se acede e se desfruta a essa forma é muito importante e é isso que está a ser alterado. Não estou a dizer com isto que não continue a haver leitores e bons leitores, mas fazem parte de uma minoria.

“O que me entusiasma não é propriamente a história que os escritores contam, mas a forma como essa história é contada, pela técnica com que é contada e pelo que traz de novo essa técnica à literatura.”

Falar de Cavalo de Ferro é falar sobre o Nobel. É incontornável. László Krasznahorkai, Jon Fosse, Abdulrazak Gurnah, na Elsinore também a Svetlana Alexievich, são vários. Há alguma coisa que se possa identificar num livro ou numa obra que te diga que pode ser um concorrente ao Nobel da Literatura?

Não. E seria terrível se eu começasse a escolher por achar que o livro vai ganhar um Nobel. Atenção, eu sou editor há vinte e não sei quantos anos e só recentemente é que tem dado frutos nesse sentido.

Os sinais que há são a boa literatura, bons autores, como estava a dizer, que trazem coisas novas à literatura. A partir daí é uma questão de lotaria. De facto é estranho que nos últimos tempos, tenha calhado tantas vezes [à Cavalo de Ferro]. É um prémio, quer dizer, não é uma sentença. Há prémios Nobel que passam, outros que ficam. Nos últimos 10 anos, se calhar lembramo-nos de dois ou três. É claro que há um gosto enorme acertar no Nobel, não é? De repente um livro que está no teu catálogo é um Nobel. É, sobretudo, uma ótima ocasião para comunicar com o público leitor e de o fazer interessar-se pela leitura de um autor que se calhar muito provavelmente nunca iria ler. Isso é ótimo.

“Ainda se consegue identificar o que é um texto vindo de inteligência artificial, mas vai tornar-se cada vez mais difícil. E o problema nem é isso, o problema é se o público estará ou não interessado — neste momento está — na proveniência desse texto.”

O Nobel, acima de tudo, é uma via rápida para chegar ao leitor?

Sim, sobretudo aqui em Portugal, onde a literatura é tão maltratada, e os autores são tão pouco lidos, de repente torna-se um autor óbvio para comprar e ler.

Enquanto editor, o que te parece que a Academia procura e distingue para atribui o prémio Nobel?

Não faço a minima ideia. Há muitas especulações sobre isso. Eles estão comprometidos com a missão do Alfred Nobel, portanto, tendencialmente escolhem contributos em forma literária para a humanidade. Agora, se o Bob Dylan é melhor do que outros que não levaram o Nobel, não sei. Tudo é discutível, não é?!

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