Entrevista. Eduardo Quive: “A minha geração nasce numa condição muito específica: somos herdeiros da angústia dos nossos pais e dos nossos avós. Mas herdámos também os silêncios”

por Margarida Valença,    11 Maio, 2026
Entrevista. Eduardo Quive: “A minha geração nasce numa condição muito específica: somos herdeiros da angústia dos nossos pais e dos nossos avós. Mas herdámos também os silêncios”
Eduardo Quive / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Eduardo Quive é uma das revelações da literatura lusófona. Há quem lhe chame “o Príncipe da Literatura Moçambicana”. O seu primeiro romance A cor da tua sombra, publicado recentemente em Portugal pela Desmuro e editado pela escritora Ana Bárbara Pedrosa, é uma prova viva da maturação do seu caminho literário. A história revela uma tensão contínua entre o íntimo e o coletivo: da família para a rua. A cidade. O país. A narrativa acompanha personagens marcadas por feridas familiares e existenciais, mas essas histórias individuais nunca se fecham sobre si mesmas, funcionando antes como espelhos das fraturas sociais e políticas de Moçambique. Maputo aparece não apenas como um mero cenário, mas antes, tendo presença ativa, e onde cada deslocação, cada gesto quotidiano, acaba por revelar camadas mais profundas de uma realidade social em constante transformação.

Nascido em 1991, o jovem escritor e jornalista integra uma geração que cresceu depois da guerra colonial e da guerra civil, herdando não apenas as memórias desses conflitos, mas também os seus silêncios e as suas marcas difusas. Essa condição atravessa o seu olhar sobre o país e sobre a escrita, num tempo em que a experiência do presente é também sempre atravessada por aquilo que não foi plenamente dito ou resolvido no passado.

Capa do livro / DR

Por fim, atravessa toda a conversa a questão da circulação entre Moçambique e o espaço lusófono, entendida não como relação hierárquica ou fixa, mas como um trânsito contínuo de leituras, expectativas e deslocamentos. O livro chega também num contexto de diálogo editorial mais amplo, tendo sido publicado com o apoio e edição de Ana Bárbara Pedrosa, com quem o autor mantém igualmente um intercâmbio de crónicas entre Maputo e Lisboa, num movimento que reforça essa ideia de uma literatura que não se encerra no território, mas que se constrói precisamente nesse vaivém de olhares, geografias e interpretações.

Ao longo do seu percurso, Quive tem vindo a afirmar-se com uma obra que inclui títulos como Para onde foram os vivos (finalista do Prémio Literário Mia Couto) e Mutiladas, livro distinguido e recomendado para leitura no ensino secundário nos países da CPLP pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa. A estes juntam-se ainda participações em projetos coletivos e antologias que pensam a literatura como espaço de intervenção e diálogo, reforçando uma prática literária que não se esgota no romance.

Ana Bárbara Pedrosa, Eduardo Quive e Mia Couto / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Foi no jardim do Instituto Goethe, em Lisboa, que a Comunidade Cultura e Arte falou com Eduardo Quive sobre o seu mais recente livro, numa conversa que atravessou diferentes camadas da sua escrita e do seu pensamento. A conversa passou também pelas pontes entre países lusófonos, onde se abordou o percurso do autor e as formas como a sua obra tem vindo a construir ligações dentro desse espaço, incluindo a colaboração regular com Ana Bárbara Pedrosa nas crónicas “Maningue giro”, publicadas na Mensagem de Lisboa — um diálogo a duas vozes entre Maputo e Lisboa.

Falou-se também da relação entre Moçambique e Portugal como um espaço feito de expectativas desencontradas, assimetrias que ainda persistem e reencontros nem sempre equilibrados, onde a circulação de livros, autores e leituras pode tornar mais visíveis as distâncias, mas também as proximidades, e obrigando estes dois lugares a repensarem a forma como se olham e se reconhecem.

Este foi o teu primeiro romance. Como é que ele surgiu, e qual o processo de escrita?

Este livro surgiu, inicialmente, como um teste de encomenda. Neste caso, tratava-se de uma encomenda para uma antologia de contos de amor. A pior coisa que me podem pedir é um conto de amor, sobretudo no sentido mais convencional — relações românticas. Ainda assim, aceitei o desafio e comecei a escrever. Mas queria falar de um outro amor. Escolhi a história de um pai e de uma filha que não se chegaram a conhecer. Uma ligação que é sanguínea, mas não é presencial. Interessava-me explorar essa relação que tem amor, mas também angústia e saudade.

Comecei a escrever e o texto começou a passar as medidas do meu conto normal, que normalmente não passam das 10 páginas  de Word. A certa altura parei, e todo o texto era um monólogo. Toda a história estava na perspetiva da filha. O pai surgia como um elemento fictício, um eco, como se fosse uma coisa que a gente não sabe bem se existe. Enviei o texto a um amigo, que é encenador e dramaturgo. Ele fez um comentário sobre este termo: “paternidades irresponsáveis”. E isto despertou uma coisa em mim.

Comecei a pensar na perspetiva de um pai que coloca um filho e vai à sua vida, algo muito comum em Moçambique. Isto liga-se, por um lado, à guerra e à guerra civil, que deixaram muitos filhos a crescer sem pais ou com ligações familiares interrompidas, mas também a outros episódios do pós-independência, como os campos de reeducação e a ideia do “Homem Novo”. Uma visão de socialismo muito radical, que procurava impor uma identidade única: pessoas cultas, sem superstição, sem recurso ao curandeiro, sem “feitiços ”. Mas, no fundo, havia ali também uma lógica neocolonial. Mandavam-se as pessoas para um lugar muito afastado da cidade, no mato, para serem educadas. Com isso há famílias que se desligaram.

Com isso, houve famílias que se desligaram profundamente. Havia aldeias inteiras sem homens, apenas mulheres e crianças, e uma desorganização silenciosa das estruturas familiares que ainda hoje marca muitas trajetórias individuais e coletivas em Moçambique.

Para além disso, houve deliberadamente homens que tiveram filhos e desapareceram. Muitas vezes militares que se deslocavam entre regiões. Isso aconteceu tanto com o exército português como entre nós. Ou, em muitos casos, por causa da fome: os militares tinham privilégios, acesso a rações de combate e a comida, e acabavam por engravidar várias mulheres em diferentes aldeias por onde passavam. Isso aconteceu com frequência. Tenho amigos que não têm qualquer relação com os pais por causa disso. E depois há o outro fenómeno das minas da África do Sul. Na zona sul isso é muito comum: aldeias inteiras que ficaram sem homens, que foram levados para trabalhar nas minas, muito mal pagos. No meu caso, também cresci num ambiente em que as mulheres estavam sozinhas com as crianças.

Continuei a escrever no início de 2024 e, em abril ou maio desse ano, surgiu uma chamada para uma oficina de escrita coordenada por Chimamanda Ngozi Adichie, destinada a jovens africanos e da diáspora. Foram 15 dias só com literatura. De manhã, teoria. De tarde, escrever. O objetivo da oficina era dar ferramentas a jovens africanos para profissionalizarem o seu trabalho e perceberem que a escrita é, de facto, um trabalho sério. É preciso trabalhar todos os dias. Acho que foi aí que salvei o romance, porque interiorizei essa rotina. Lá tive de estruturar tudo: comecei a definir as personagens e a organizar a narrativa. Foi a fase mais exigente — aquela em que tens de pensar tudo e decidir o percurso de cada personagem — e foi aí que o trabalho começou realmente a ganhar forma.

Cheguei a Maputo e escrevia todos os dias. Entretanto, tinha-me candidatado também a uma oficina na Índia, onde vivi durante dois meses. Foi aí que me entreguei completamente ao livro. Entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, foi quando fechei realmente o romance. Nessa altura já tinha conhecido a Ana Bárbara Pedrosa, que dizia: “devias escrever um romance”. Eu dizia que tinha um livro de contos, mas ela insistia: “não, pá, para te publicarem em Portugal tens de ter um romance, senão ninguém te leva a sério.” Eu não fazia muita questão de ser levado a sério, mas pronto.

Enviei para várias editoras portuguesas, as grandes, e não tive resposta nenhuma. Também mandei para o Brasil, onde por acaso acabou por ser publicado, mas em Portugal ninguém respondeu. Contei isso à Ana Bárbara e ela disse: “manda-me isso, eu vou tentar.” E foi muito combativa: “vou mandar para o sítio X, para o sítio Y”, começou a fazer barulho. Mesmo assim, as respostas não eram muito positivas. Em agosto de 2025 ela voltou a Moçambique, e foi aí que as coisas se decidiram: “opá, meu, vamos fazer isto.”

“A própria história portuguesa é feita de misturas, de cruzamentos. Negar isso é empobrecer-se. A grande riqueza está no conhecimento do mundo. E, para a sorte de Portugal, não é preciso um grande esforço para ir ao encontro do mundo — o mundo já está aqui. A questão é outra: como é que olhamos para isso? É a virar o olhar? É preciso é olhar com mais curiosidade!”

Nessa construção mais densa e múltipla das personagens, à medida que começaste a ter mais ângulos de visão sobre a história, a narrativa sai de um ponto de vista mais íntimo e familiar e abre-se para a rua, para a cidade, para o país. Como é que essas histórias individuais acabaram por funcionar como um espelho das tensões sociais e políticas de Moçambique?

É uma pergunta complexa, mas chave. Eu vivo num país multicultural. Cresci muito rodeado de mulheres. Talvez não conseguisse escrever este texto sem essa perspetiva constante do universo feminino. Essas histórias pessoais eram essenciais. Num país como o nosso [Moçambique] não posso dar-me ao luxo de contar histórias pessoais. Ao mesmo tempo, era exatamente isso que eu queria fazer.

A questão era: como fazer isso assumindo também uma responsabilidade em relação à cultura e à sociedade moçambicana? A resposta foi colocar essas personagens dentro de um contexto de caos. Um caos interno, porque vivem tensões constantes dentro de si, mas também um caos externo, o da cidade, o do país, que é exposto de forma crua. Quando descrevo a Avenida da Guerra Popular, em Maputo, tento fazê-lo da forma mais real possível. Se calhar aí foi o jornalista que tentou trabalhar mais. Muito disto eu anotava nas viagens de comboio entre Maputo e Matola. Entrava na estação de caminhos de ferro, sentava-me no comboio, e começava a olhar para tudo aquilo.

Eduardo Quive / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Como foi o teu processo de relação com Maputo ao longo do processo de escrita e que novas perspetivas ganhaste com essa observação da cidade?

Foi uma coisa muito interessante e reveladora. Comecei a perceber os fenómenos da cidade, em que em certos momentos está mais tensa, em que momentos não está, e como a apreensão das pessoas vai crescendo ao longo do dia. Por exemplo, a partir das 14h, 15h, a mente de muita gente já não funciona bem. A partir dessa hora, falar com as pessoas torna-se mais difícil. A atenção já não é a mesma. Há uma preocupação constante com os transportes, o regresso a casa, com o que ainda falta fazer. E depois, em casa, não acaba a jornada: começa outra, com tarefas como cozinhar depois de um dia inteiro fora.

Se quiseres ser ouvido, tens de falar antes do meio-dia, porque depois disso tudo entra num estado de maior caos. Isso sente-se no setor público, nas instituições. O atendimento já não funciona da mesma forma, porque as pessoas estão mentalmente ocupadas com a sobrevivência do dia. Estão a pensar nas dificuldades dos transportes, em que condições vão conseguir ir para casa, e se de repente chove — e quando chove naquela cidade, tudo fica impossível. E tudo isto acaba por estar dentro do romance.

Outra coisa interessante foi aprender a história dos bairros. Há um bairro de que falo no livro: Cobi. Eu não conhecia a sua origem, e acredito que muitos moçambicanos, ou pessoas de Maputo, também não. Ele surge como uma experiência de reassentamento: pessoas foram retiradas de um lugar para dar espaço a uma autoestrada, em parceria com a África do Sul, e depois foram colocadas ali. A partir daí, percebi que muitos bairros de Maputo nascem de processos de deslocação. Raramente escolhem voluntariamente construir um bairro. Nesse sentido, o romance torna-se político, porque me obriga a olhar para a forma como as pessoas vivem a cidade. Passei a viver o espaço público moçambicano, os noticiários e os corpos das pessoas na cidade de outra forma. E essa dimensão do corpo é fundamental, porque não consigo entrar dentro das pessoas, mas consigo ler o interior através do exterior: a expressão facial, a forma de andar, o comportamento, a forma como pisam o chão, o cheiro, a respiração, o olhar.

Temos mais acesso a recursos e, com isso, a responsabilidade de construir novas narrativas, mesmo lidando com os estereótipos sobre o que é ser africano. Para mim, não faz sentido essa ideia de “atrasado” ou “avançado”; olho-me como alguém que está a viver o seu tempo, e que está tudo a acontecer ao seu ritmo.”

O romance começa com uma tentativa de suicídio. Como é que surgiu essa escolha e porque quiseste explorar a tensão entre esse acontecimento limite e a continuidade “normal” da vida da cidade, que de certa maneira engole este acontecimento?

Essa foi a última parte do livro. Já o tinha escrito, mas ainda não estava contente. Há sempre aquela fase em que nos perguntamos: “o que é que faria alguém ler isto?” ou “o que é que me faria a mim próprio ler isto?” O livro foi sempre pensado a partir da Anchia, e da ideia de paternidade irresponsável. Esse clique de perceber: eu vivo rodeado disto e nunca questionei onde é que esses homens estão, porque é que não estão, e o que faz com que estas mulheres mantenham-se fiéis a estes homens. Podiam até ter relações, mas nunca assumiam nada sério.

Depois, a personagem Anchia é albina. Pensei: se fizer um livro sobre o albinismo, corro o risco de o lado do jornalista ou do ativista falar mais alto, e não queria que o livro se tornasse um manifesto. Se o problema fosse “resolvido”, talvez o livro perdesse força. Então tinha de encontrar um outro eixo. Decidi introduzir o suicídio — um fenómeno que, na verdade, já vinha a pensar desde o meu livro de contos Mutiladas, todo ele é centrado em mulheres. E há também a questão das mortes das mulheres. No Brasil usa-se o termo “feminicídio”, e na Europa começa-se a falar cada vez mais disso. Em Moçambique, essa expressão ainda não existe.

Esta violência contra mulheres que acaba em homicídio está sempre a ser investigada, mas raramente há resultados. Depois há também outra camada: os suicídios, ou casos em que aparecem mortas sem sinais claros de violência. Também acontece com homens, mas com mulheres porque é onde isso tende a ser mais facilmente descartado.

Tudo isto cruza-se com outros fatores: a internet, as redes sociais, os jogos de azar. Há muitos jovens a morrer ou a cair no álcool por causa disso. São muitas vezes jovens trabalhadores, mas com a ideia de uma riqueza imediata. Depois há o discurso político, sempre centrado nessa promessa de futuro rico — gás, petróleo. Cria-se uma sensação constante de riqueza iminente, que na prática não se concretiza, e isso gera uma enorme ansiedade.

Hoje há também a pressão cultural de “construir casa”. Um jovem, a certa altura da vida, sente essa obrigação. Eu virei a coisa para as mulheres, porque é aí que a pressão se torna ainda mais evidente. A primeira é sempre a mesma: qualquer tia, tio, pai ou outra mulher pergunta logo: ainda não tens namorado? Tens de ter namorado, tens de ter filhos. Tens de ter um telemóvel X, uma roupa X. E tudo gira em torno do corpo da mulher. “Olha que estás a ficar velhinha, olha que estás a ficar assim. Já tens uns seios? Já deves ter um namorado.”. E eu costurei a personagem dentro dessa lógica. E, de propósito, pus a personagem sem falar. Quase que não existe ali, na sua própria voz. 

“Em Moçambique crescemos com essa ideia constante de “temos de ter cuidado ao abordar certos assuntos, porque não sabemos até que ponto isso pode ferir quem viveu tudo aquilo”. É uma responsabilidade enorme. Costumo dizer, e não é uma teoria minha, mas de sociólogos, que a sociedade moçambicana é, de certa forma, uma sociedade de infância interrompida: são crianças que tiveram de se tornar adultas demasiado cedo. Muita gente teve de assumir responsabilidades antes do tempo.”

Há muito preconceito contra pessoas albinas em África, e é uma realidade pouco abordada na literatura. O que te interessou explorar com isto?

Primeiro, o não ser uma realidade muito presente na literatura. Houve um escritor português que li e de que gostei muito, precisamente por isso. O livro é Deixem Passar o Invisível, do Rui Cardoso Martins. Ele constrói Lisboa como cenário muito vivo: há um cego e um menino que acabam nos túneis de Lisboa depois de um terramoto, e quase todo o livro se passa nesse submundo da cidade.

E a dinâmica entre os dois é muito interessante: um cego e uma criança, duas pessoas em condições muito particulares, obrigadas a navegar numa situação extrema. É um livro com muitos desafios nesse sentido. Eu achei: “uau, é raro encontrar um cego dentro de um romance, que seja uma pessoa, que tenha uma vida e tenha autonomia”. E na construção dessa personagem com albinismo, também decidi não centrar tudo na ideia de “ela é albina, logo sofre violência, pressão, perseguição”. Isso existe e é grave, mas não queria que fosse esse o eixo principal.

A ideia foi outra: dar-lhe uma vida normal, mas sem apagar o facto de ela ser albina e de ter sido vítima dessas crenças e perseguições. Porque isso existe. Há a ideia de rituais, de crenças, de que certas partes do corpo têm poder, trazem sorte ou riqueza. Foi uma escolha consciente, embora este elemento do albinismo tenha surgido mais no fim. Eu cresci com pessoas com albinismo à minha volta, estudei com elas, e sempre existiu essa ideia de que os albinos não morrem, desaparecem. Mais tarde, percebi o quanto isso são estereótipos que acabam por legitimar violência. Não é desaparecimento: há tráfico, raptos, assassinatos, tráfico de órgãos. E, muitas vezes, não há investigação.

Mas, por outro lado, há também esse lado “positivo” da crença, de se dizer que eles desaparecem porque a família está a protegê-los da vandalização, ou porque querem evitar a exposição do corpo. E quando se tenta contrariar isso, a resposta muitas vezes é: “tu já foste a algum enterro de um albino?” E a maioria das pessoas responde que não. Tudo isto me interessou, mas sem transformar a personagem numa vítima reduzida à vitimização.

Eduardo Quive / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Fazes parte de uma geração que cresceu depois da guerra e do fim do império, numa altura em que já existe outra distância em relação a esses eventos da história de Moçambique. O que é que achas que essa geração pode acrescentar, a partir dessa visão menos marcada por esse peso?

O país tem 51 anos desde que é independente. Muitos dos protagonistas e acontecimentos são frescos. Eu tenho a herança do meu pai, que foi colonizado. Os meus avós também viveram esse período. E logo a seguir à independência, em 1975/76, veio uma guerra civil — mais sangue, tragédias, uma sociedade fragmentada. Foi uma guerra que durou 16 anos e, segundo se diz, matou mais do que a guerra colonial, embora os números ainda sejam discutidos. O número mais consensual é de um milhão de pessoas. E muitas famílias nunca chegaram a enterrar os seus mortos. Em África, e em Moçambique em particular, a pior coisa que nos pode acontecer é não enterramos os nossos mortos. A última frase do livro é: “Enterra o teu pai.” Tem esse peso individual, mas também coletivo. Mas essa frase levanta outra questão: onde é que enterramos os nossos mortos, quando já não sabemos onde eles estão? Muitos foram deslocados, desaparecidos, perdidos na história. Há uma impossibilidade física e simbólica de fechar esse luto.

A minha geração nasce numa condição muito específica: somos herdeiros da angústia dos nossos pais e dos nossos avós. Mas herdámos também os silêncios. Muitas dessas dores nunca nos foram contadas. E isso cria uma sensação constante de que há qualquer coisa que nos está a ser escondida. Como se fôssemos eternos adolescentes, sempre a achar que os adultos sabem algo que não dizem: “o que é que nos escondem?”. Somos uma geração um bocadinho neste dilema, de uma certa mágoa por esse silêncio e ao mesmo tempo temos um forte sentido de responsabilidade sobre os assuntos.

Crescemos com essa ideia constante de “temos de ter cuidado ao abordar certos assuntos, porque não sabemos até que ponto isso pode ferir quem viveu tudo aquilo”. É uma responsabilidade enorme. Costumo dizer, e não é uma teoria minha, mas de sociólogos, que a sociedade moçambicana é, de certa forma, uma sociedade de infância interrompida: são crianças que tiveram de se tornar adultas demasiado cedo. Muita gente teve de assumir responsabilidades antes do tempo. Tudo isto é muito pesado, e a nossa geração vive sob esse peso. Mas, ao mesmo tempo, temos a vantagem de viver numa época com acesso ao mundo, à informação, à internet, a outras referências. Mesmo num país com poucos livros e quase sem bibliotecas. E o que chamamos de biblioteca é o que que eu encontro na casa de algumas pessoas aqui.

Temos mais acesso a recursos e, com isso, a responsabilidade de construir novas narrativas, mesmo lidando com os estereótipos sobre o que é ser africano. Para mim, não faz sentido essa ideia de “atrasado” ou “avançado”; olho-me como alguém que está a viver o seu tempo, e que está tudo a acontecer ao seu ritmo, e talvez a nossa função também seja acelerar esse ritmo, no sentido de que, pela natureza da juventude, queremos que as coisas sejam rápidas e queremos respostas urgentes.

“A minha geração nasce numa condição muito específica: somos herdeiros da angústia dos nossos pais e dos nossos avós. Mas herdámos também os silêncios. Muitas dessas dores nunca nos foram contadas. E isso cria uma sensação constante de que há qualquer coisa que nos está a ser escondida.”

Como vês a situação política e social de Moçambique, hoje?

Estamos a viver um bom momento. Em 2024, tivemos as manifestações pós-eleitorais: houve eleições, votos, e uma tensão política e social por causa da aceitação dos resultados. Houve mortes, prisões, aconteceram uma data de coisas que não são normais no país.

Mas há um lado interessante nisto: pela primeira vez, estas tensões e protestos não resultaram num conflito armado. Isso se calhar inaugura uma nova etapa da minha geração. Sabemos que não temos que pegar em armas e ir ao mato fazer guerras civis. A luta continua, mas não é com AK-47, pistolas, tiros, catanas e machados.

O voto é, claro, um instrumento mais direto, uma forma de dizer com clareza o que queremos e quem queremos que nos dirija. Mas surgiu também outro instrumento: o telemóvel. Pela primeira vez, o país viveu algo que eu nem conhecia, um lockdown, com a internet desligada. E, de repente, apareceu outra palavra: VPN. Porque a internet foi cortada, mas os jovens encontraram outros caminhos. Perceberam que há outras formas de continuar a confrontar os poderes instalados, que muitas vezes já não entendem a linguagem destes tempos. Estão habituados aos comícios, ao contacto direto. Mas esta geração sabe que pode falar de qualquer lugar, a qualquer momento. Isso, para mim, é o mais interessante.

A minha análise disto não passa por lógica de posição e oposição — se governa a FRELIMO, a RENAMO ou o MDM. Não é uma leitura centrada em partidos, mas na vida política em si: como é que se vive politicamente. Quando temos uma geração que finalmente entende que tem de agir politicamente, o momento mais alto dessa ação é o voto. E o que os políticos têm de compreender é isso mesmo: que têm de fazer a sua parte, porque vão ser cobrados.

“A ausência de políticas públicas consistentes para a cultura em Moçambique são muitas vezes os países da União Europeia que acabam por financiar essa área. Para mim isso é escandaloso e preocupante, porque levanta questões sobre o que é hoje a cultura moçambicana.”

Nos países africanos lusófonos, há por vezes esta ideia mitificada e exagerada do que é Portugal. Como é que essa relação entre Portugal e Moçambique é atravessada por essa ilusão, expectativas que nem sempre correspondem à realidade, e de que forma isso afeta a própria noção de autoestima enquanto país?

Hoje o debate mais atual em Moçambique tem que ver com a língua. Estamos rodeados de países de língua inglesa e acabamos por ser quase uma ilha de português. Para falarmos português com mais alguém fora de Moçambique, pensamos quase automaticamente em Angola, que está a vários países de distância, e depois também em Cabo Verde, etc. E quase nunca nos encontramos entre nós, porque viajar em África é caro. Isso acaba por nos tornar ainda mais ilha, e deixa-nos com uma espécie de único horizonte mais distante, que é Portugal. Sempre se cresceu com a ideia de que a realização virá a partir de Portugal. Isso colocou-nos nessa posição, mas também é compreensível do lado português: não faz sentido estar sempre virado para o outro lado. Se calhar é mais estratégico estar a olhar para a União Europeia, que é uma coisa forte, rica, cheia de dinheiro, e que partilha por todos. 

Eduardo Quive / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Não achas que possa ser injusto ser uma relação demasiado unilateral, e de poder haver o contrário: Portugal estar mais com os olhos para sul?

Devia ser assim, em princípio. Isso sempre foi uma visão mais solitária nossa. Mas depois, quando avanças alguns passos e chegas lá, percebes que os caminhos que foram sendo feitos nem sempre correspondem à expectativa. Mas isto não é sobre “ganhar” ou “perder”. É sobre pensar o conceito de país-irmão. E entre irmãos, a pior coisa que pode acontecer é ter um que está sempre mil passos à frente e outro a correr atrás. Talvez seja preciso que cada país faça o seu próprio plano, e que esses planos não sejam reféns das decisões do outro. E isso torna-se uma mensagem profunda, sobretudo numa altura em que se fala de restituições e reparações.

Fomos construindo relações com base num vazio muito grande, e muitas vezes esperamos respostas para perguntas que nunca fizemos. Será que Moçambique já fez perguntas sobre Portugal? Só se pode esperar de alguém quando houve algum tipo de compromisso. E acho que ficámos à espera de Portugal sem que Portugal alguma vez tivesse dito que viria. Isso não é justo para Portugal, mas também não é justo para Moçambique. Este paternalismo acaba por ser cansativo, até para nós.

Hoje, com a ausência de políticas públicas consistentes para a cultura em Moçambique, são muitas vezes os países da União Europeia que acabam por financiar essa área. Para mim isso é escandaloso e preocupante, porque levanta questões sobre o que é hoje a cultura moçambicana.

Se quem define os critérios, os procedimentos e os conceitos para o acesso ao financiamento é a União Europeia, estamos a submeter-nos a uma lógica que não é a nossa. Mandam-me um processo de 150 páginas para preencher, para me candidatar a um projeto, segundo procedimentos europeus. Mas culturalmente somos um país mais oral, mais tátil. Mas se a União Europeia exige 150 páginas para um artista moçambicano se candidatar, está claro que já o excluiu.

O problema é que, muitas vezes, os financiamentos acabam por ir para instituições ou pessoas mais próximas da Europa, e isso cria um debate sério que acontece quase em surdina, porque há o receio de perder apoios ou privilégios. Muitas vezes cria-se já a pensar em como será visto e compreendido pela Europa, e isso acaba por influenciar a própria originalidade. Isto acontece porque o Estado moçambicano se ausentou do financiamento à cultura. Não há apoio suficiente, e os artistas são levados a procurar alternativas, o que é legítimo. Mas isso acaba por fazer com que a criação dependa de critérios externos. E também é legítimo que a União Europeia imponha as suas regras de financiamento.

“Temos a vantagem de viver numa época com acesso ao mundo, à informação, à internet, a outras referências. Mesmo num país [Moçambique] com poucos livros e quase sem bibliotecas. E o que chamamos de biblioteca é o que que eu encontro na casa de algumas pessoas aqui.”

E o que para ti representa seres publicado em Portugal? 

Este privilégio é de poucos, e isso traz uma responsabilidade grande enquanto pessoa e enquanto artista. Como africanos e moçambicanos, não conseguimos deixar de pensar de forma coletiva. Há sempre a ideia de que, mesmo sem representar um coletivo orgânico, cada um acaba por representar alguma coisa para além de si.

Cada publicação de um moçambicano em Portugal é também uma oportunidade de mostrar que existe outro lugar, outra forma de olhar o mundo. E isso ganha sentido quando temos acesso a essa diversidade e de perspetivas. O mundo é essa coisa imensa, e faz diferença quando o conseguimos olhar a partir de vários lugares.

Quando ando pelas ruas aqui, vejo essas árvores enormes no meio da cidade. Em Moçambique, dentro das cidades não temos árvores enormes, temos florestas. Por isso, a minha perceção de natureza é diferente. Quando fico doente, antes de ir ao médico ou ao hospital, ou mesmo indo, tenho muitas vezes um tratamento alternativo ligado à natureza. Cada árvore que vejo é lida de outra forma. Está no nosso mindset: olhamos para as árvores e perguntamos quais são as funções delas.

E é bonito quando conseguimos trazer, no palco cosmopolita, todas estas visões, porque o mundo é feito dessa diversidade, e tem de a representar. Tenho a sensação de que em Moçambique, e talvez também em Cabo Verde ou Angola, conhecemos mais a Europa do que a Europa nos conhece. Muitas vezes, quando chego aqui, sinto-me imediatamente identificado em vários elementos, como se estivesse a confirmar uma imagem que já tinha construído.

Mas não sinto o mesmo ao contrário. Quando um português chega a Moçambique, há um estranhamento absoluto. Tudo se torna pergunta: “como é que isto funciona?”, “porque é que isto é assim?”. Eu ando de chapa [como são conhecidos os veículos que servem de transporte público em Moçambique], de machimbombo [autocarro], de comboio, sem esse estranhamento.

Eduardo Quive / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Tens tido feedback sobre as crónicas que tens escrito com a Ana Bárbara Pedrosa? Que outras coisas podem ser feitas para que esta relação entre lugares se aprofunde?

Uma das coisas positivas que sinto através dessas crónicas é que as pessoas começam a ganhar outra perceção. Por exemplo, era frequente acontecer, e ainda senti isso em 2022 aqui quando interagi com algumas pessoas, ouvir coisas como: “até que escreves tão bem”. Mas por detrás desse “até que escreves tão bem”, está a ideia de surpresa: escreves tão bem para alguém de Moçambique. Eu nunca disse a um português “o teu português é tão bonito”, porque é a língua dele.

Eu não tenho espanto nenhum quando encontro um brasileiro, porque nós vemos isso todos os dias. E uma coisa positiva destas interações, dos intercâmbios e da circulação de obras, é precisamente essa: reduzir o estranhamento. Há estranhamentos que são inocentes, mas também há uma imagem muito limitada. O que é que se vê na televisão e na imprensa portuguesas sobre África? É África quando há guerra. Tumultos. Golpes. Quando há escândalos de corrupção. Ou é África quando há uma coisa bizarra. A partir do momento em que deixamos de ser vistos só nesse lugar exótico, começamos a ser apenas pessoas, apenas uma sociedade, e isso é extremamente positivo.

Hoje o debate está muito inflamado, talvez porque as feridas ainda são frescas. Cinquenta anos é pouco. Pode ser que numa geração futura isto esteja mais distanciado, mais tolerante, e se consiga perceber que em vez de eu chegar a uma livraria e estar escrito “literatura africana” e ires para aquela prateleira porque está escrito literatura africana, devias ir para uma prateleira onde está escrito “ficção”. E ali hás de encontrar tudo, porque o mundo é isso.

E a positividade disto é precisamente essa: ao ouvirmos falar constantemente destes temas, começamos a normalizar. Começamos a perceber que é normal, que pode ser discutido. Ao existir espaço na imprensa, na comunicação social e nas editoras, isso vai-se tornando natural. Uma das coisas que as editoras dizem muitas vezes aqui em Portugal, por exemplo, é que “é arriscado investir num escritor africano, o público não tem mercado”. Mas o que é o mercado? Quem é que o constrói? Quem o define? Isso tem de ser desmistificado. Que provas existem de que não há mercado? Que tentativas foram feitas? O mercado é feito por pessoas. Quando há vontade, faz-se o mercado. O risco de generalizar é esse: estás a colocar dez milhões de pessoas num pacote. E dentro desses dez milhões há várias comunidades, com realidades muito diferentes.

“O debate mais atual em Moçambique tem que ver com a língua. Estamos rodeados de países de língua inglesa e acabamos por ser quase uma ilha de português. Para falarmos português com mais alguém fora de Moçambique, pensamos quase automaticamente em Angola, que está a vários países de distância, e depois também em Cabo Verde, etc. E quase nunca nos encontramos entre nós, porque viajar em África é caro. Isso acaba por nos tornar ainda mais ilha, e deixa-nos com uma espécie de único horizonte mais distante, que é Portugal.”

O que te espanta em Lisboa?  

Há um privilégio enorme em estar num lugar onde gravitam muitas culturas. E, de facto, a própria história portuguesa é feita disso: de misturas, de cruzamentos. Negar isso é empobrecer-se. A grande riqueza está no conhecimento do mundo. E, para a sorte de Portugal, não é preciso um grande esforço para ir ao encontro do mundo — o mundo já está aqui. A questão é outra: como é que olhamos para isso? É a virar o olhar? É preciso é olhar com mais curiosidade! Da mesma forma que se entrarmos na casa de muitos portugueses, aquilo que hoje se chama “gastronomia portuguesa” já não é bem portuguesa. E se calhar nunca foi. Os temperos, os modos de preparar, os ingredientes, alguém teve de ensinar, ao longo de gerações, que aquilo se come.

Tudo isto mostra que é preciso mudar essa forma de olhar. E eu acho isso bonito. Um dos lugares de que gosto aqui, só de estar e observar, é o Martim Moniz. Aquela mistura toda, aquele caos, aquela intensidade… eu vejo ali a vida em estado bruto. É a vida em estado bruto. E isso liga-se ao que a Ana Bárbara me diz muitas vezes sobre Moçambique: “Quive, tu tens a vida em estado bruto. Tu só escreves exatamente como ela é”.

É o tal “realismo mágico” para as culturas ocidentais… mas não é isso. Uma pessoa trepar um coqueiro em segundos, subir a uma altura de um prédio de cinco andares, tirar cocos e descer para vender, isso não é realismo mágico. Isso é o nosso dia-a-dia. E quando acontecem coisas difíceis, como a morte de alguém, e alguém aparece com um quilo de arroz, uma cebola… isso não é pobreza no sentido simplista em que muitas vezes é visto. Há aí outra lógica. Nas línguas bantu existe uma expressão para isso: “Ubuntu”, essa ideia de interdependência, de que precisamos uns dos outros.

Eu imagino que um português que more no Martim Moniz talvez não se sinta encantado com tudo isto, de viver com várias línguas, várias culturas, e até se assuste com isto. Mas se mudarmos esse olhar, há uma coisa interessante: os filhos destas pessoas que vivem com aquelas culturas todas, se calhar são a melhor versão de pessoas humanizadas que nós vamos ter. E eu estou curioso para ver essa próxima geração de portugueses que está a viver as coisas no seu estado evolutivo. Não entendemos agora, mas se calhar daqui a 50 anos vamos olhar e dizer: “porra, eu vivi este momento”.

Eu vivo num país de mais de 30 línguas. Chego a um mercado em Moçambique e oiço cinco, seis, sete línguas. Em Portugal há muitas vezes a ideia de uma só língua, esquecendo que há várias proveniências e uma grande diversidade. São pessoas culturalmente e etnicamente diferentes de mim, e até dentro das nossas próprias cores negras há diferenças, nas nossas histórias, origens, línguas e comidas, dentro de Moçambique.

Se calhar é-me mais fácil encarar isto com normalidade porque já vivo dentro deste universo. E nesse sentido, estas interações têm muito a dar-nos. Um português que esteja em Moçambique está a viver com 30 culturas de uma só vez, e que se entendem entre si. E essas são as grandes lições que podemos dar uns aos outros, e que também acabamos por transportar para a nossa literatura, mesmo que inconscientemente. O mundo é feito disto. É uma falácia quando se diz que “a imigração é maliciosa”. Os portugueses emigram, os moçambicanos emigram, os senegaleses emigram, o pessoal do Bangladesh emigra. Toda a gente emigra.

A África antes da Conferência de Berlim não era aquilo que hoje conhecemos como África. E nós sentimos isso nas fronteiras: as línguas que eu falo, por exemplo o Xangana, quando chego à África do Sul, em Durban ou Joanesburgo, consigo falar com sul-africanos, porque no Zulu e no Xhosa há uma grande percentagem de expressões próximas do Xangana. E isso faz pensar: será que este território que hoje é a África do Sul seria o mesmo sem este território que hoje é Moçambique? E o mesmo se aplica a outras fronteiras.

E não é só migração. Estas populações sempre conviveram em tensões, interações, continuidades. Nós é que quase esquecemos isso quando olhamos para as fronteiras como fixas. Mas se recuarmos na história, já era assim: os impérios interagiam entre si. Depois chegou um momento em que alguém disse “o limite agora é este”, e passaram a ser países diferentes. O mundo sempre foi isso. 

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