Entrevista Exclusiva: The Rolling Stones: “Quando tocamos com pessoas com quem nos sentimos bem, nunca se sabe o que vai sair dali”
Os Rolling Stones sabiam exatamente o que queriam. Depois da receção calorosa, e premiada com um Grammy, de Hackney Diamonds, de 2023, a ambição era aproveitar a energia inesgotável e a nova disciplina desse disco e canalizá-las para um sucessor apenas três anos depois. E, por vezes, quando tentamos… bom, o resto já se sabe.
Foreign Tongues é o resultado fulgurante e verdadeiramente espantoso. Depois de 25 álbuns de estúdio em 64 anos, a maior história do rock’n’roll continua a ser escrita. Se o ponto de partida foi um punhado de temas que ficaram de fora do disco anterior, o projeto ganhou verdadeira forma durante um mês particularmente produtivo nos Metropolis Studios, no oeste de Londres, onde nasceu uma nova fornada de canções.
«Quando gravámos Hackney Diamonds, tínhamos muito material, o que por vezes acontece e outras vezes não», conta Mick Jagger, sentado no escritório do management dos Stones, em Londres. «Estava a olhar para Black and Blue, quando foi reeditado, e havia oito temas no álbum inteiro! Mas, em Hackney Diamonds, dissemos: ‘Só podemos pôr aqui um certo número de faixas, por isso vamos guardar estas. Vamos mesmo fazer outro álbum’.»
«Os planos de fazer um outro álbum já estavam na calha e algumas das faixas deste disco vêm dessas sessões, mas não são assim tantas. Tivemos esta discussão, pois achámos que eram demasiado boas para ficarem na gaveta. Depois começámos a planear este trabalho e acabámos por ficar com ainda mais temas.», refere ainda.

Em videochamada a partir de Nova Iorque, Keith Richards volta a mostrar o espanto habitual perante o que acontece quando esta banda inigualável se junta. «Faz-se música, aprende-se a fazê-la e toca-se com os melhores», diz. «Quando estamos a tocar com pessoas com quem nos sentimos bem, nunca se sabe o que vai sair dali.»
«Quando olhei para isto pela primeira vez, pensei: ‘não sei se isto é um álbum’. Mas, à medida que foi ganhando forma, percebi: ‘sim, é mesmo’. Também há uma continuidade em relação ao Hackney Diamonds. Agora quero ver onde isto nos leva.», sublinha Keith Richards.
Ainda antes do pop-rock irresistível do primeiro single, ‘In The Stars’, o primeiro vislumbre do novo álbum chegou — sob o nome de ‘Cockroaches’ — com o blues cru e glorioso de ‘Rough and Twisted’. A partir da sua casa em Londres, Ronnie Wood fala-nos descontraidamente sobre Foreign Tongues: «Adoro o lado blues, porque é daí que esta banda vem e nunca queremos perder essa essência. Mesmo quando eu era apenas um fã, ninguém no Reino Unido captava o espírito do blues norte-americano como os Stones.»
Mick reconhece que as novas sessões deram continuidade à atitude focada e pragmática do disco anterior, e também à ideia de que um prazo apertado faz maravilhas pela concentração. «As pessoas estavam a gostar do processo», diz. «Perceberam que não era assim tão penoso. Antigamente, passávamos meses a fio em estúdio.»
«Desta vez, tal como da última, disse ao Andy [o produtor Andrew Watt]: ‘vamos pensar nisto. Quanto tempo é que a banda toda precisa de estar em estúdio?’, e ele respondeu-me ‘três semanas, três semanas e meia. Não precisamos de mais do que isso e gravamos duas ou três faixas por dia’. É apenas outra forma de trabalhar, é mais eficiente.», diz Mick Jagger.
«Tive várias conversas de organização com o Andy», continua Jagger, «para que todos soubéssemos ao que íamos. Mas a ideia central era avançar depressa. Não ficarmos parados e corrigir o que fosse preciso mais tarde. Queríamos deixar tudo gravado antes que as pessoas se aborrecessem, antes de terem tempo a mais para pensar se isto devia ser assim, assado ou de outra maneira. Podemos sempre voltar e refazer noutro dia, como acabámos por fazer, evidentemente. É o processo normal de gravação e, no fundo, é bastante simples. Na altura é intenso, sim, mas é intenso durante pouco tempo.»
O nova-iorquino Watt voltou a assumir a produção, assinando também a coautoria de duas faixas, ‘Side Effects’ e ‘Back In Your Life’, e tocando vários instrumentos, entre guitarras, sintetizadores e percussão. «Ele sabe como pôr um bando de velhinhos a mexer e a dizer: ‘Vá, vamos tentar’», ri-se Keith. «Por outras palavras, é um grande motivador. A partir do momento em que está contigo, ele não te deixa escapar. Eu também não, atenção, mas temos uma relação de trabalho mesmo muito boa.»
«Sinto-me muito confortável a trabalhar com ele porque conheço o método dele», diz Jagger. «Quer dizer, já o conhecia, mas não sabia se esta forma de trabalhar em estúdio ia resultar para toda a gente. Mas os resultados estão à vista. A banda, os músicos, quem quer que tenha trabalhado nisto, vê-se o resultado.», refere o votalista dos Stones.
Ronnie ri-se: «O Andrew mandou em nós ainda mais do que no último álbum. Tal como da outra vez, está cheio de energia e confiança. Agora conhecemo-nos todos melhor, por isso desta vez tudo pareceu fluir ainda melhor. Ele é ótimo porque também é músico e toca bastante no álbum — nesse sentido, faz lembrar um pouco o Jimmy Miller.»
A menção ao falecido Miller, profundamente venerado pelos Stones e pelos seus fãs pelo papel que teve na produção dos álbuns clássicos da banda no período de 1968-73, está diretamente relacionada com um dos contributos mais proeminentes para Foreign Tongues. O seu quase contemporâneo, o grande Steve Winwood, que também trabalhou com Miller, toca Rhodes, órgão e/ou piano em nada menos do que nove faixas do disco.
Diz Richards: «Conheci o Stevie, acho eu, quando ele tinha 15 anos, num sítio tipo o Nottingham Odeon. Ele tinha aquele enorme êxito com o Spencer Davis Group, ‘I’m A Man’, e já estava em palco a tocar. Achava aqueles discos fantásticos e quem os produziu foi o Jimmy Miller. Há aqui uma coincidência curiosa ao reencontrar o Stevie através de um dos nossos produtores mais famosos. No fundo, somos ambos produtos do velho Jimmy.»
Wood acrescenta: «o Stevie é fantástico. Aparecia constantemente no estúdio. Lembras-te de quando ele surgiu? A América tinha o Little Stevie Wonder; nós tínhamos o Little Stevie Winwood. Eu também estava a começar em bandas nessa altura. Rimo-nos ao recordar quando éramos os putos mais novos por ali, acho que ele tinha uns 15 anos quando começou com os Spencer Davis, e eu tinha 17 nos Birds. Mas quando entrou para tocar nestas novas faixas, o Stevie disse que era a melhor energia de banda que alguma vez tinha sentido.»
O alinhamento inclui uma série impressionante de novas composições de grande nível: ‘Covered In You’, com uma linha de baixo de Paul McCartney, no segundo álbum consecutivo em que colabora com os Stones e nascida da mesma sessão que deu origem a ‘Bite My Head Off’, de Hackney Diamonds; ‘Back In Your Life’, um crescendo em que Wood assina um solo épico, canalizando as emoções sentidas pelas mortes então recentes de Brian Wilson e Sly Stone; e ‘Hit Me In The Head’, quase punk e feroz, com uma bateria explosiva a cargo de ninguém menos do que o enorme Charlie Watts.
«Isso saiu da sessão que fizemos em Los Angeles com Don Was», explica Mick, «a mesma que também deu uma faixa a Hackney Diamonds [também com Watts], chamada ‘Mess It Up’.» Para Keith, «é uma daquelas coisas de passagem de testemunho. Tenho a certeza de que o [Steve] Jordan terá mais a dizer sobre tudo isto.» Já Ronnie observa: «acho que o Andrew afinou ligeiramente a bateria do Charlie, para que encaixasse com a bateria do Steve no resto do álbum. Depois de definido o tempo, o que é essencial, o Steve está completamente dentro dele. Içámos as velas, por assim dizer, e seguimos viagem.»
De facto, reunir em estúdio o núcleo atual da banda ao vivo era fundamental para Richards, que não esconde o entusiasmo: «Ter o Steve Jordan e o Darryl Jones de volta em disco com os Rolling Stones… porque o Darryl não estava em Hackney Diamonds; já tinha a agenda cheia, e isso foi um pequeno revés, sabes. Andávamos a chamar toda a gente que soubesse tocar baixo. Por isso fiquei muito feliz por termos, no essencial, a secção rítmica connosco neste álbum.»
Depois, a juntar-se ao grande panteão de versões dos Stones, há a homenagem sentida da banda a Amy Winehouse. ‘You Know I’m No Good’ assenta-lhes como uma luva, com a harmónica sinuosa de Jagger quase a assumir o papel de instrumento principal. «De uma forma estranha, aquela canção parecia destinada a encontrar-nos algures, por alguma razão», reflete Keith. «Eu pensava sempre: ‘Bom, um dia ainda me hei de cruzar com ela.’ Esperamos que certas coisas aconteçam e, infelizmente, não aconteceram. Pensei que já não fazíamos uma versão há algum tempo e disse: ‘Se vamos gravar outra, que seja uma da Amy.’»
Assim se apresenta o notável Foreign Tongues. Continuação de Hackney Diamonds ou algo melhor? Keith Richards sabe a resposta. «Tenho de dizer ambos», diz, sorrindo. «Continuação e melhor. Talvez porque o Andrew e nós aprendemos a trabalhar melhor juntos. Dizemos: ‘Se o primeiro ficou bastante bom, então agora é preciso superá-lo’.»
