Entrevista. Fernando Tordo: “O país não está preparado para nada de exorbitante: nem para as cheias, nem para a cultura”

por Francisco Silva,    17 Fevereiro, 2026
Entrevista. Fernando Tordo: “O país não está preparado para nada de exorbitante: nem para as cheias, nem para a cultura”
Fernando Tordo / Fotografia de Rui André Soares – CCA
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No dia 10 de Fevereiro, a Comunidade de Cultura e Arte conversou com Fernando Tordo.

No Teatro da Trindade INATEL, descem-se as escadas que conduzem ao seu camarim — uma passagem para o breve instante da loucura, entre o palco e o silêncio que o antecede. Casacos e pautas espalhados, um cravo pousado sobre a cifra de “Estrela da Tarde”.

O que à partida seria uma conversa sobre “60 Anos de Canções” revelou-se uma reflexão sobre o estado da cultura em Portugal, o esvaziamento do gesto criativo face às grandes editoras, o mercado global do entretenimento e o ruído político que reduz a cultura a nota de rodapé.

Fernando Tordo é, para a música portuguesa, o compositor de “Tourada”, “Cavalo à Solta”, “Estrela da Tarde”, “Sonata de Outono”. Mas é também — em continuidade — um defensor da luta pela dignidade e liberdade da expressão artística; um promotor do novo talento – tendo como convidados especiais para este concerto Filipa Vieira e FF; uma voz da esperança contra os tempos sombrios que se aproximam.

Sentarmo-nos com Fernando Tordo naquele camarim foi perceber que construir o futuro é, antes de tudo, saber transmitir tradição através da arte.

Como se sente hoje ao revisitar seis décadas de canções num concerto no Teatro da Trindade, em Lisboa, com uma sala cheia?

Sinto-me muito satisfeito. E não é só por mim — é por toda a gente que, ao longo de tantos anos, portugueses e estrangeiros, fez com que a minha carreira pudesse singrar durante tantos anos. Sinto muita alegria a pensar nessas pessoas, nos locais, nas viagens, nos concertos.

Celebrar aqui 60 anos tem um significado concreto para mim, porque eu conto a minha profissão a partir do ano em que ganhei o primeiro cachê, quando me tornei profissional — foi em 1966. Portanto, aqui são mesmo 60 anos. A sala cheia é uma alegria grande. E é um encontro com músicos com quem trabalho há anos — o Lino Guerreiro e o Valter Rolo fazem há muito tempo arranjos e orquestrações para discos e espetáculos — e com outros músicos que se juntam agora (Francisco Santos, Sertório Calado e João Frade). São músicos de altíssimo nível, a uma escala internacional.

Eu respeito profundamente os músicos: sem eles, eu não teria carreira. Entramos em palco, olhamo-nos… e também nos divertimos. Mas há sempre ansiedade — faz parte do profissionalismo. Mesmo com esta carreira, isso não desaparece. E isto não é uma profissão escolhida por paixão: é escolhida por amor.

Com o tempo, esse amor torna-se ainda mais gratificante. Há uma gratidão enorme, porque ao fim de muitos anos isto não é normal.

Fernando Tordo / Fotografia de Rui André Soares – CCA

E por que razão considera que esta adesão é tão invulgar?

O ambiente artístico mudou. Há países onde longevidade e experiência são muito respeitadas; noutros, não. E há a questão do negócio em que isto se transformou — erradamente. Vivemos o aparecimento e desaparecimento das grandes editoras e depois uma “substituição” que parece quase uma maldade engenhosa: está tudo na internet. Isso trouxe sofrimento, sobretudo para os artistas. As editoras eram impérios — já eram nos anos 60 — e foram-se aproveitando. Não é por acaso que hoje temos o problema do Spotify: sacaram tudo aos artistas. Não foi um bocado, foi tudo. E nós acabámos vítimas de uma manobra: parece que os artistas ficam satisfeitos por “estarem na net”, mas no momento de pagarem a conta do supermercado fica mais difícil.

Ao mesmo tempo, há muita gente que quer aparecer — revistas, televisão — mas sem experiência para dizer: “eu vou, mas isto é uma profissão”. Em Portugal essa consciência ainda está atrasada. Eu sou do tempo de me dizerem: “Oh Fernando, não tem uma cassete que me ofereça?”. E eu perguntava: por que razão me pedem de borla a única coisa que eu tenho para vender? Por isso é importante existirem instituições como a vossa: ajudam a pôr água na fervura envenenada em que isto tem funcionado. Aproveito para vos saudar pelo vosso trabalho.

Falou do Spotify, ecoando a decisão do Salvador Sobral de retirar o seu catálogo da plataforma. Na sua perspetiva, o que é que o streaming mudou na criação e na vida profissional dos músicos?

Vou ser sincero: a mim não me afeta rigorosamente nada. Jamais esperaria que uma coisa lançada na internet trouxesse lucro, muito especialmente no plano das artes. E eu afastei-me há muitos anos desse “galope” das multinacionais sobre artistas, compositores e autores. Passei a fazer a minha própria produção: sou eu o produtor, aprovo ou reprovo. Isso tem custos — pode ser uma “fatura” grande — mas tem a ver com dignidade e com estar bem com a consciência. Olhe para este momento e para o concerto de hoje: não foi preciso nenhuma grande empresa para isto acontecer.

Indo para o concerto “60 Anos de Canções”: este espetáculo é um olhar retrospetivo ou uma forma de manter a sua obra em diálogo com o presente e o futuro?

É retrospetivo, claro — no sentido de dizer às pessoas: isto é sério e há canções conhecidas. Mas também traz novidade. Eu estou há dois anos a gravar uma série de quatro CDs, um trabalho que se vai chamar A Música nos Poetas Portugueses. São 50 canções. Dois discos já estão gravados e o terceiro já está composto. É um trabalho demorado, mas quero deixá-lo feito: é um olhar sobre a musicalidade única da poesia portuguesa. Há poetas — como a Sophia de Mello Breyner— com uma musicalidade extraordinária. A música já está lá. Está “escondida”. E o compositor tem de a respeitar.

Ao mesmo tempo, as pessoas querem ouvir certas canções: “Tourada”, “Cavalo à Solta”… e isso faz parte. É uma visita ao passado? É, mas é um passado que convém recordar. A “Tourada” é de fevereiro de 1973: ainda não estávamos em liberdade. E essa ligação no tempo interessa-me: tenho uma noção abstrusa do tempo, como Einstein.

O concerto será também um culminar de atitude: Quero que esta noite fique na memória de quem está comigo — e de quem luta pela dignidade desta profissão.

Fernando Tordo / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Este concerto conta com Filipa Vieira e FF. O que simboliza, para si, a escolha destes convidados?

Se me perguntassem quem eu gostava que continuasse na música profissional — no sentido sério, de carreira e de respeito pela profissão — estes dois nomes eram dois deles. Quem assistir vai perceber: vão acontecer coisas de deslumbramento no plano da interpretação. Ouvir pessoas a cantar coisas que eu fiz — algumas quando eu era mais novo do que eles são hoje — é muito satisfatório. E isto também é um sinal que eu quero deixar. Mesmo que seja uma elite, são artistas que vão continuar a fazer trabalho de grande qualidade. Nenhum deles vai “abastardar” o que faz: é uma espécie de pedrada no charco.

Quer dizer, faz-se um espetáculo em 2026 para um homem já com alguma idade e, de repente, tem como convidados pessoas que, em princípio, nada teriam a ver comigo. E isso interessa-me: esse encontro, essa surpresa, esse cruzamento. No final de contas, vejo na Filipa e no FF respeito pela profissão e pelo público — e não existe maior responsabilidade do artista do que essa. Porque muitas vezes o público é enganado.

De que maneira é que o público é enganado?

O público é levado por uma máquina de promoção difícil de compreender. Há campanhas enormes, com muito dinheiro. Uma promoção feita “à americana” custa milhões; cá custa dezenas de milhares — mas o problema é o que vem depois. Porque a seguir, muitas vezes, não acontece nada. Não fica ninguém. Falta continuidade.

E atenção: nós tivemos — e temos — figuras com contributos gigantescos. Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto, Paulo de Carvalho… São obras únicas. Hoje, pelo menos, há uma coisa que nos “salva” do esquecimento absoluto: a tecnologia. Está tudo gravado, registado. Se não estivesse, muitas dessas obras tinham desaparecido da memória coletiva.

Mas isto não é apenas mercado. Em Portugal, política e divulgação também pesaram — e houve afastamentos quase programados. Eu tive a sorte de crescer num tempo em que se podia tentar entrar dignamente, porque o mercado era outro: havia um monopólio real – a Valentim de Carvalho – que concentrava muito do melhor que se fazia. O meu primeiro disco foi lá, com os Sheiks.

Depois, veio a lógica do afastamento: quando baixa o lucro ou aparece “a próxima coisa”, passa-se para outra. E esta corrida tem muito a ver com aculturação, com falta de critério — tem a ver com cultura. E aqui entra a formação. Para encontrar o melhor é preciso procurar — e saber procurar. O que falta é conhecimento e instrução: ir buscar o que é bom, trazê-lo ao de cima e divulgá-lo.

Eu acredito que Portugal pode ser um país de música daqui a 20 anos. A questão é: o país está preparado para acolher esta gente? Acho que não. Não está preparado para cheias, nem para cultura. E é duro chegar a 2026 e perceber que a prioridade não existe. Portugal está normalmente “à beira de um precipício” qualquer e esse precipício continua a existir.

Hoje acredita que a cultura é reconhecida como um pilar democrático no desenvolvimento do país? Ou estamos a reduzi-la a um elemento decorativo da nossa memória coletiva?

Enquanto não se levar a sério — enquanto não se pensar que a cultura está, provavelmente, antes da economia — estamos condenados. Oiço todos os dias falar de economia — e a economia é importantíssima, claro. Mas pergunto: não há um intervalozinho para o que nos forma? Quando vamos a Florença, o que vemos? Números? Estatísticas? Não. Vemos a história da humanidade através da arte. Se não respeitamos isso, não respeitamos nada. É não respeitar o ser humano no que tem de mais profundo.

Num país que escolheu a democracia e teve uma revolução, é legítimo perguntar o que se passa no Ministério da Cultura. Muitas vezes, nada. E isso é uma violação dos nossos direitos. É verdade: houve ministros que fizeram coisas importantes, como recuperar teatros, cinemas e salas. E isso ajudou muito quem anda a trabalhar pelo país.

Mas depois olhamos para certas decisões e eu pergunto: como é possível alguém responsável achar normal juntar Cultura com Desporto? Consegue ficar a gostar dessa pessoa? Não pode — e mais: temos de ter coragem de acusar esta pessoa. Estamos a falar de um cargo de enorme importância. Ninguém pergunta: “Você acha isto normal? Você sabe o que é cultura portuguesa? Você sabe o que é um país que a única coisa que transborda é de cultura?” Não. Para esta pessoa, o nosso país tem de transbordar é de economia. Economia essa que não existe. Que é fraquíssima. Portugal não produz nada. E, entretanto, cerceia-se a cultura às crianças e aos jovens — como se fosse uma coisa menor.

Ainda assim, há esperança — porque há pessoas com uma determinação enorme para fazer as coisas acontecerem. Porque, devo dizer-lhe, a frio não apetece nada. A frio dá vontade de dizer: “já fiz, já está.” Eu podia estar quieto. Mas continuo.

E há um lado concreto: eu vivo de quê? Tenho direito a viver. Sou rico? Não. Nunca fui. Se alguma vez tive muito dinheiro foi antes do 25 de Abril, porque trabalhava muito. E às vezes perguntam: “Então o 25 de Abril só veio prejudicar?” Não! O objetivo nunca foi ser rico; o objetivo era que isto fosse uma coisa muito mais gira para toda a gente. Mas não quiseram.

Fernando Tordo / Fotografia de Rui André Soares – CCA

O que sente que tem faltado — nos jovens artistas e no país, nos últimos 20 anos — para a cultura voltar a ter um peso determinante, cá dentro e lá fora? E o que é que ainda nos falta, enquanto sociedade, para valorizar verdadeiramente quem cria: artistas, escritores, poetas, pensadores?

Faltam pessoas. Faltam decisores. Isto não cai do céu às trambolhões. Falta gente que olhe para as coisas, que conheça, que saiba, que tenha memória. Quando eu era miúdo, nas aulas de canto coral e música, ia cantar o Hino da Mocidade Portuguesa. Era uma realidade. Depois isto deu um salto enorme — e muita gente hoje não tem isso presente.

Os jovens não têm culpa. Mas é preciso explicar o que foi este país a partir de 1974: o que era e o que é. Um jovem com 15, 16, 17 anos… se isto não for explicado, como é que vai saber? Não tem obrigação de adivinhar. Até porque há forças que nunca quiseram que o país fosse diferente e hoje isso aparece em declarações públicas. E então a pergunta é: como é que se resolve isto? Vai-se à procura dos exemplos, vai-se à procura do que foi, e do que é.

Nós saímos de uma situação muito triste: guerra colonial, polícia política, tudo o que era pior. E demos um salto para o dia. A emoção, o enlevo desse salto, tem de ser contado à malta mais nova. E isso é uma peça de arte: é uma obra que tem de ser feita artisticamente, no sentido de explicar: “Isto era assim. Vocês não têm culpa, nasceram agora. Mas foi assim.” Porque senão corremos o risco de só perceberem muito tarde o que é “penar” a sério — e, infelizmente, já estivemos mais longe disso.

Francisco Silva, Fernando Tordo, Filipa Vieira e FF / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Sente que a desvalorização da cultura tem contribuído para a radicalização — sobretudo entre os mais novos? E que papel pode ter a cultura como resposta, como caminho para contrariar essa tendência?

Sinto. Tem de se dar a conhecer as pessoas. Porque elas foram retiradas, afastadas do conhecimento e das artes — e ficam “ombros no ar”, sem referências. Dou-lhe um exemplo: eu conheci o José Afonso. E ele mostra como muitas vezes só damos valor total às figuras depois de morrerem: transformamo-las em referência. Enquanto isso, quem está vivo tem de aguentar o desgaste do dia-a-dia — a insatisfação, o desgosto, o cansaço. Isso pesa.

Resistir a isso é dar o exemplo. É o exemplo que devíamos dar para que ninguém pense que é no extremismo que se resolve alguma coisa. O extremismo só facilita as coisas. Nós temos de andar por um caminho mais sério, mais ligado à realidade. Olhe: o tipo que fez o telemóvel não estava a brincar. Não estava a dizer “um dia faço um telemóvel com asas”. Mas eu acredito numa sociedade que o deixe fazer um telemóvel com asas.

Este alheamento da realidade — este “deixar andar”, este “deixar arder” — faz mal às sociedades. E a nossa está perto de perder uma coisa muito importante: o sorriso.

Para terminar, que ideia ou sentimento gostaria que o público levasse consigo hoje, ao sair da sala, depois de “60 Anos de Canções”?

Que estamos vivos. Hoje acordei a pensar que ia ser um dia diferente — um dia de concerto é sempre especial, sobretudo para quem gosta muito do que faz. Até lhe digo: fiz a barba, olhei para o espelho e pensei: “epá… estou mal na mesma, mas pelo menos fiz a barba.” (risos)

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