Entrevista. Filipa Almeida Mendes: “O maior problema atualmente não é a entrada propriamente dita das mulheres na ciência, é conseguirem chegar a lugares de topo”
Agradecimentos: Tânia Ferreira, Museu de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC), pela cedência do local para esta entrevista.
Filipa Almeida Mendes é licenciada em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e mestre em Ciências da Comunicação, com uma especialização em Estudos dos Media e do Jornalismo, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Atualmente, é jornalista de ciência no jornal Público e depois de inumeráveis peças a destacar a melhor ciência que se faz pelo mundo, “O Efeito Matilda – As Mulheres Cientistas que a História Tentou Esquecer” é o seu primeiro livro.
O efeito Matilda consiste na minimização, esquecimento ou apropriação do trabalho de uma investigadora por parte de um homem, por vezes seu superior direto. Curiosamente, a palavra “cientista” não denuncia o seu género – quem tem esta identidade pode ser homem ou mulher. Quem cunhou a palavra foi Mary Somerville, ela própria uma cientista, que não consta que tenha sofrido do Efeito Matilda. Mas as dezoito mulheres biografadas sim, em conjunto com Margaret Rossiter, a historiadora de ciência que cunhou o nome deste efeito ao deparar-se com caso após caso, e com Matilda Joslyn Gage, em honra de quem foi baptizado por ter descascado todas as camadas que mantêm ainda hoje as cientistas arredadas do mérito que os seus cérebros merecem.

Após a exploração inicial deste tema num artigo do jornal Público de 2024, Filipa, que é divulgadora científica premiada, mergulhou em bibliografia para contar a vida dentro e fora do laboratório desde o século XVIII à atualidade. Da paleontologia à medicina, passando pela física, química e astronomia, houve espaço para homenagear duas cientistas portuguesas: Branca Edmée Marques, que deixou o marido em Lisboa e se doutorou em Paris, tendo sido recebida no grupo de Marie Curie, e Seomara da Costa Primo, a primeira mulher portuguesa a doutorar-se em Ciências, pedagoga, autora e ilustradora em pleno Estado Novo.
Com prefácio de Elvira Fortunato, cientista e ex-ministra da Ciência, “O Efeito Matilda” salienta como apesar do conhecimento poder não ocupar lugar, as autoras das descobertas merecem tanto protagonismo quanto os seus colegas homens. Pela mais elementar justiça, pelos direitos humanos ou, se formos pragmáticos, porque sem mérito há menos oportunidades de fazer descobertas subsequentes. E aí perderemos todos.
Da descoberta da matéria escura à estrutura do ADN, da identificação do GLP-1 à bomba atómica, apenas uma minoria destas mulheres produtivas recebeu o Prémio Nobel (tendo, por vezes, sido recebido por outrem pelo mesmo trabalho). Filipa leva-nos através das décadas em biografias que nos deixam sempre a pedir mais. Não como as cientistas escolhidas, que amavam a ciência pela ciência.
Qual a motivação para o artigo inicial do jornal Público, de 2024, e para a expansão no livro, “O Efeito Matilda”?
O artigo original foi publicado inicialmente em fevereiro de 2024 e surgiu de uma iniciativa da Teresa Firmino, editora de Ciência do Público. Na altura tínhamos pensado em fazer algo porque se aproximava o Dia Internacional da Mulher e portanto queríamos fazer algo sobre as mulheres na ciência. Entretanto, decidimos abordar algumas histórias, alguns exemplos, mas claro, por limitações de espaço, tivemos que reduzir em muito os casos que pudemos abordar. E depois da publicação desse artigo fui contactada pela LeYa, que me lançou o desafio de aprofundar o tema e de realmente escrever um livro sobre a discriminação contra as mulheres na ciência. E fiquei, obviamente, muito honrada por poder escrever algo sobre isto. É um tema extremamente importante. E inicialmente tinha pensado até fazer menos histórias e aprofundar um bocadinho mais cada história, mas depois quando reparei que realmente os casos eram inúmeros, acabei por decidir fazer mais histórias, dar visibilidade a mais mulheres. E, portanto, ficamos aqui com estas 18 mulheres, mais as duas que fazem parte da introdução que deram origem ao termo, e que estiveram nos primórdios de tudo isto.
Como é que selecionou as 18 cientistas que estão no livro? Houve alguma história que a tocou particularmente durante a pesquisa?
Tentei selecionar os casos em que a discriminação era mais evidente, ou em que realmente fosse mais visível a preferência pelo trabalho de um colega homem do que por aquela mulher em particular, ou em casos em que a discriminação fosse mais óbvia. Mas depois, claro, há outros casos em que a discriminação não é tão visível a olho nu, que não é tão direta, mas que também são exemplos deste efeito Matilda e deste preconceito contra as mulheres na ciência. Há várias histórias entre estas que me tocaram particularmente: uma delas é de Alice Ball, que era uma jovem cientista afro-americana, que foi trabalhar para a universidade de Hawaii, e na altura a lepra era considerada uma doença muito grave, havia um estigma social muito grande associado à lepra. E as pessoas que tinham esta doença eram encaminhadas para as chamadas “leprosarias”, como se fossem para o exílio e ficavam lá, muitas delas até morrerem. E Alice Ball, esta jovem investigadora descobriu uma cura para a lepra, que depois foi usada até 1940. Portanto, durante vários anos esta cura foi usada e teve resultados muito bons. E ela desenvolveu a técnica e na altura o reitor da universidade do Hawaii, Arthur Dean, colaborava com ela. Entretanto quando ela desenvolveu a técnica, pouco tempo depois, cerca de um ano, ela acabou por morrer, muito jovem, aos 24 anos. Quando morreu, [Alice] ainda não tinha publicado os resultados das descobertas, já tinha desenvolvido a técnica mas ainda não tinha publicado os resultados. E ele apropriou-se do estudo e chegou mesmo a denominar aquela técnica e aquele tratamento “método Dean”. E ela caiu completamente no esquecimento até recentemente, até ao início dos anos 2000, em que realmente houve investigadores que lutaram para que ela tivesse o devido reconhecimento. Eu gosto muito dessa história. É uma história bastante triste mas que realmente me tocou.
Outra que eu gosto é a de Lise Meitner, também conhecida como a “mãe da bomba atómica” e também foi completamente relegada para o segundo plano, tal como Alice Ball. Foi discriminada não só por ser mulher, mas também pela sua origem, por ser filha de pais judeus na Alemanha nazi, acabou por ter que ir para o exílio para a Suécia. Depois, durante todo este percurso de vida, os resultados dela e a investigação que tinha feito em colaboração com dois outros colegas homens, ela acabou por não receber o devido crédito. Eles receberam o prémio Nobel e ela não. E agora sabe-se, porque estas coisas só se vêm a saber muitos anos mais tarde, mas agora sabe-se que ela foi nomeada ao longo da sua vida 48 vezes para o Nobel e nunca ganhou. Este número dá para termos uma noção do papel dela e da sua importância na ciência, mas acabou por nunca ter o mérito que devia ter tido. Além disso, ela tem uma parte muito humana que eu gosto muito e apesar de ser conhecida como a “mãe da bomba atómica”, sempre se quis afastar um bocadinho do uso militar das bombas atómicas e chegou mesmo a criticar publicamente o uso das armas nucleares. Apesar de ter recebido inúmeros convites, nunca quis participar no famoso projeto Manhattan dos Estados Unidos, e acreditava na ciência como um esforço para chegar à verdade. Apesar de ser uma cientista, uma investigadora importantíssima, nunca perdeu este lado humanista.

Como é que se preparou, que fontes consultou e tendo em conta tudo o que já disse, qual foi a descoberta sobre estas mulheres biografadas que mais a chocou?
Para escrever este livro, não consigo dar um número, mas foram dezenas, centenas de biografias, de ensaios, de livros, de notícias. Desde ensaios do século XIX como “Woman as Inventor” da Matilda Joslyn Gage, o primeiro que em que ela abordava as invenções de mulheres, até publicações muito recentes. Uma coisa importante no livro é que não são só casos do passado, também tentei colocar alguns casos mais recentes, como o da Katalin Karikó ou o da Svetlana Modjov. E foram centenas de biografias, de livros, de artigos que eu consultei ao longo de mais de um ano. A descoberta que mais me chocou, diria talvez a da Alice Ball, porque alguns dos nomes que eu abordo eu já tinha alguma ideia das histórias e dos casos. Este de Alice Ball foi totalmente novo para mim, não tinha conhecimento, não fazia ideia desta história. Outro que me marcou também e que me chocou até foi a forma como Rosalind Franklin foi tratada. E como era descrita até pelos seus colegas, e a questão do batom, e de como a menosprezavam. Mas mais do que me ter chocado pela negativa, houve algo que me surpreendeu pela positiva, que é muito transversal a todas estas histórias, que é o facto destas mulheres não guardarem rancor. Apesar de terem sido vítimas de discriminação, de preconceito, e de terem enfrentado inúmeros obstáculos nas suas vidas e nas suas carreiras profissionais, elas não guardam rancor e não faziam a ciência pelo mérito. Isso é algo muito bonito, mesmo morrendo sem ter noção de do seu reconhecimento, e sem terem tido o reconhecimento devido. Elas morreram em paz com aquilo que fizeram, estavam cientes da importância das suas próprias descobertas e não precisaram do reconhecimento das outras pessoas. É muito bonito.
Na introdução do livro, a Filipa cita a socióloga Ligia Amâncio, “Quanto menores forem as oportunidades, mais os homens são favorecidos”. Uma vez que é jornalista de ciência e tendo em conta a situação da ciência portuguesa, que é da maior escassez já conhecida, como salientou no Público em janeiro, como vê este tipo de situação em território nacional para o futuro?
Felizmente, muita coisa tem vindo a mudar, nas últimas décadas. É um aspecto bastante positivo, por exemplo, o facto de a maior parte dos alunos do ensino superior em Portugal serem mulheres, e de Portugal ter uma percentagem de mulheres doutoradas acima da média europeia. Isso é bom. Agora, continua a haver algum preconceito e por exemplo nas áreas STEM isso é muito notório, há um predomínio masculino nas STEM e há poucas mulheres a entrarem nestas áreas. Infelizmente, não consegui falar de todos os casos no meu livro, mas há muitos casos também em Portugal de mulheres cientistas que sofreram de algum tipo de discriminação ou de obstáculos por serem mulheres, em áreas dominadas por homens. O maior problema atualmente não é a entrada propriamente dita na ciência, é conseguirem chegar a lugares de topo. Continua a ser mais difícil para uma mulher do que para um homem chegar a cargos superiores, seja em laboratórios, seja na academia, seja em empresas, continua a ser mais difícil, mais demorado. As mulheres, mesmo que cheguem lá, demoram mais tempo do que os homens a lá chegar. Outra questão também é importante é a questão da maternidade, e o facto de o cuidador ainda ser um papel muito atribuído à mulher, e ela depois chega a uma altura, a uma fase da vida, em que se vê deparada com a carreira por um lado, e depois com a vida doméstica e a maternidade por outro. Muitas vezes é muito difícil, quando uma mulher sai para ter um filho, regressar à área e ser competitiva e conseguir financiamento, e etc. Esses são os dois grandes problemas atualmente: a dificuldade em chegar aos lugares de topo, e a maternidade.
“Muita coisa tem vindo a mudar, nas últimas décadas. O facto de a maior parte dos alunos do ensino superior em Portugal serem mulheres, e de Portugal ter uma percentagem de mulheres doutoradas acima da média europeia. Isso é bom. Agora, continua a haver algum preconceito.”
As cientistas que biografou no livro estão organizadas por data de nascimento. Quando é que acha que irá nascer a última Matilda? Poderá ser Evie Swire, a jovem que conseguiu persuadir os governantes a construir uma homenagem a Mary Anning [primeira cientista descrita no livro]?
Espero que essa seja a última Matilda, mas infelizmente não acredito que seja assim. Espero que cada vez escasseiem mais e que sejam cada vez menos casos, mas infelizmente vamos continuar nos próximos anos a ter ainda algumas Matildas. Também está muito relacionado com estereótipos de género que estão enraizados na sociedade. Estudos recentes mostram que mesmo crianças com seis anos já associam termos como “ciência”, “matemática”, “engenharia” aos homens, portanto vai ser difícil de combater rapidamente estes estereótipos, e ainda há muito caminho a percorrer. Infelizmente ainda vai haver mais Matildas mas cabe-nos dar a conhecer essas Matildas, fazer com que as suas histórias sejam ouvidas, e mostrar que realmente há exemplos de mulheres extraordinárias na ciência, porque o que falta muitas vezes são exemplos e modelos femininos para as raparigas que gostariam de seguir as ciências e muitas vezes pensam que não têm exemplos para seguir. É importante mostrar que realmente há esses modelos femininos. Gostaria que daqui a 50 anos já não houvesse nenhuma Matilda.

Existe este fenómeno do efeito Matilda noutras áreas, como por exemplo na literatura, como Zelda Fitzgerald e ou na arte, com Margaret Keane. Na sua opinião, que características terá a ciência para conseguir provar a contribuição verdadeira de outra pessoa que não a que ficou na ribalta por esta descoberta?
[Pausa] Uma boa pergunta. Pelo menos daquilo que percebi destas histórias que abordei, muitas vezes é difícil comprovar que realmente uma mulher teve um papel significativo naquela descoberta. Porque muitas das provas que existem são documentos escritos que, com o passar do tempo, acabam por se perder, e é difícil comprovar que determinada mulher teve um papel naquela descoberta. Uma grande parte das vezes, pelo menos daquilo que percebi com estas histórias, foram investigadores, colegas que tiveram a noção e o impulso de tentar repor a verdade. E isso é muito importante, porque, por um lado, se há colegas que tentam usurpar as descobertas de mulheres e relegá-las para o segundo plano, depois há outros que também tentam dar o merecido reconhecimento e o devido crédito a essas mulheres. Muitas das vezes foi isso que aconteceu, foi impulsionado por outros investigadores que tentaram repor a verdade que estas mulheres tiveram o devido reconhecimento. Na ciência, atualmente é mais fácil, porque temos a questão das patentes, etc., que podem ajudar. Mas, por exemplo, no caso da Svetlana Mosjov é um dos casos que mostra que nem sempre é assim: ela foi excluída das patentes, e não foi assim há tanto tempo, e também esteve envolvida na descoberta. Portanto, não é fácil de comprovar, e é preciso que haja um impulso e que alguém pense: “não, realmente temos que dar o devido reconhecimento a quem o merece”.
Que tenha um laivo de consciência.
Exatamente, e por isso é que também é importante este livro, e não só este livro, mas livros como este. Mais do que um exercício de reparação histórica, é um exercício de consciencialização, para evitar que no futuro estes erros continuem a ser cometidos e para garantir que o mérito e o reconhecimento são dados na hora. Por exemplo, um dos casos que ilustra isso muito bem é o da Mileva Marć, a mulher do Einstein, que realmente se calhar nunca se vai chegar a saber que contribuição teve para o trabalho do Einstein. O que nos resta são cartas, são documentos, e isso dá sempre espaço para interpretações diferentes. Há alguns historiadores que interpretam aquela correspondência como uma prova factual de que ela teve uma contribuição, e outros que dizem que não. Espero que sim, mas temo que nunca se venha realmente a saber que contribuição teve no trabalho de Einstein e isso é um exemplo de que é muito difícil comprovar que uma mulher teve um papel determinante em determinada descoberta.
“O maior problema atualmente não é a entrada propriamente dita das mulheres na ciência, é conseguirem chegar a lugares de topo. Continua a ser mais difícil para uma mulher do que para um homem chegar a cargos superiores, seja em laboratórios, seja na academia, seja em empresas, continua a ser mais difícil, mais demorado. As mulheres, mesmo que cheguem lá, demoram mais tempo do que os homens a lá chegar.”
Isso é porque também depende do viés de confirmação desse próprio historiador?
Exatamente, e depois temos isso também: os próprios historiadores também têm esse viés e muitas vezes acabam por influenciar a forma como uma determinada investigadora é vista, como uma determinada descoberta é encarada.
Sabemos que o efeito Matilda é quando um investigador, sénior ou não, mas sempre homem se apropria do trabalho, e também da fama, dessa investigadora mulher. Conseguiu detectar alguma instância de um efeito “anti-Matilda”, ou seja, uma cientista mulher que se terá apropriado do trabalho de um homem?
Confesso que não investiguei essa parte, não pesquisei sobre isso, mas também é algo importante, porque pode acontecer. O efeito Matilda vem no seguimento ou vai beber inspiração ao efeito Mateus / Matthew. E esse é um termo usado para designar quando investigadores séniores se apropriam dos resultados, ou da investigação, de investigadores mais juniores e portanto acabam por ficar com o reconhecimento também do trabalho dos seus subordinados. E acredito que isso também aconteça entre as mulheres, mulheres séniores investigadoras que se apropriam do trabalho de investigadores mais juniores. Ou seja, este preconceito e esta discriminação não têm só uma direção. Mas haverá certamente casos de mulheres que se apropriaram do trabalho de homens, mas pelas circunstâncias e pela história será sempre mais fácil um homem apropriar-se do trabalho de uma mulher do que uma mulher apropriar-se do trabalho de um homem.
“As pessoas têm tendência para dar mais atenção àquilo que as afeta no dia-a-dia e àquilo que tem uma aplicabilidade imediata. E nem sempre é assim, e a maior parte das descobertas e das inovações que foram feitas partiram da investigação fundamental, e isso também é importante.”
Por causa do tal custo de oportunidade? Eles chegam primeiro e em maior número.
Exatamente, chegam primeiro lá. E no passado era muito mais fácil para um investigador apropriar-se de uma descoberta do que é atualmente. Mas, de facto, ainda hoje eles continuam a chegar lá mais rápido e mais facilmente, portanto acredito que haja casos de mulheres que se apropriam de trabalhos de homens, mas acredito que será em maior número o contrário.
O local em que estamos a entrevistá-la é solo sagrado: o Laboratório de Química do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa. É um local histórico em que aprenderam muitos homens, e nem assim tantas mulheres. Pelo menos uma das mulheres que biografou, Branca Edmée Marques, terá trabalhado aqui e também aprendido durante o curso. Tendo em conta tudo o que Branca passou na sua carreira, como acha que receberia este destaque dado no seu livro?
Acho que ela iria gostar do destaque, mas morreu com a sua consciência muito tranquila do trabalho que fez e da importância do seu trabalho. Mas claro, é uma honra estar aqui e ver o local onde ela trabalhou. É uma história em que tenho particular interesse e particular gosto, porque é uma história de perseverança e ela sabia efetivamente o que queria e não estava disposta a deixar que nada se atravessasse no seu caminho. Nem mesmo um casamento, e isso é excepcional, principalmente tendo em conta a época em que viveu. Realmente é preciso uma coragem imensa para dizer, “não, eu caso-me, mas só se prometeres e assinares aqui este acordo e garantires que não te vais intrometer na minha carreira”. É preciso uma coragem muito grande. E é preciso coragem para, naquela altura, ir para Paris com a mãe e estar a trabalhar no Instituto do Rádio, que era um dos grandes institutos daquela época. E ela deu provas, mais do que provas, do seu talento e da sua capacidade. Por outro lado, depois é triste quando ela regressa a Portugal e acaba por ter vida um bocadinho dificultada e só passado muitos anos é que chega a professora catedrática, e acaba por ser vítima também de alguma discriminação por ser mulher.
“Estudos recentes mostram que mesmo crianças com seis anos já associam termos como “ciência”, “matemática”, “engenharia” aos homens, portanto vai ser difícil de combater rapidamente estes estereótipos, e ainda há muito caminho a percorrer.”
É interessante, porque ela veio de um dos laboratórios paritários, um dos poucos à época, e depois volta para Portugal e demora 12 anos entra a aprovação do posto de professora catedrática e efetivamente a assunção da posição. Encontrou alguma justificação ou tem alguma especulação sobre porque é que demorou tanto tempo quando ela tinha o grau?
Não encontrei nenhuma explicação oficial em nenhum dos documentos que eu consultei. Pode-se sempre especular que seria por ser mulher e que efetivamente a vida estava-lhe mais era mais difícil conseguir chegar a professora catedrática. Não quero especular, mas a única razão que eu vejo para tal ter acontecido é precisamente o facto dela ser mulher. É engraçado e esse fenómeno ainda acontece muito hoje em dia: o facto de esta ser uma cientista que tinha muito reconhecimento no estrangeiro, nomeadamente em França, em Paris, e que depois chega a Portugal e acaba por não ter assim tanto reconhecimento. E isso ainda acontece muito hoje: cientistas portuguesas que estão no estrangeiro e que têm muito reconhecimento lá fora e que em Portugal não são faladas ou ninguém sabe quem são. E a Branca também é um exemplo disso.

Existem iniciativas como o Non-Conformist Scientist [@ncsientist] da Ana Cadete, que é uma cientista a trabalhar no estrangeiro que pretendem ser, como a Filipa aliás, uma Margaret Rossiter do século XXI ou seja, pretendem aumentar o número de mulheres cientistas portuguesas líderes. E qual é que acha que foi o contributo destas 18 + 2 mulheres para que consigam continuar esse trabalho que ainda hoje é difícil?
O contributo foi essencial. Foram as gerações anteriores à nossa, fizeram todo um caminho para nós chegarmos até aqui. Estas mulheres foram essenciais para que hoje em dia as coisas estejam a mudar e haja cada vez mais iniciativas para dar o devido reconhecimento às investigadoras e às cientistas, sejam portuguesas, sejam estrangeiras. Mas há cada vez mais iniciativas e isso é importantíssimo, porque está relacionado com mostrar que existem exemplos, mostrar que existem modelos femininos na ciência, mostrar que há investigação extraordinária a ser liderada por mulheres. E muitas vezes as meninas que entram para o ensino básico não têm noção disso, até porque os próprios manuais escolares muitas vezes deixam de fora estas mulheres. É importante iniciativas como essa para que elas percebam que há exemplos e que, se não for cá em Portugal, podem sair para o estrangeiro e podem fazer investigação de ponta e liderar laboratórios sendo mulher.
Em praticamente todas as biografias as cientistas tinham outro tipo de interesses: artísticos, culturais, algumas seriam desportistas e parece que há uma necessária unidimensionalidade quando se fala na mulher. Tendo em conta a sobre-especialização do ensino hoje em dia, como é que estas mulheres são recebidas e se, por outro lado, a Filipa sendo jornalista de ciência, se acha que daria uma boa cientista e se uma cientista pode dar uma boa jornalista?
Acho que não daria uma boa cientista, confesso. Gosto muito das minhas palavras, gosto muito de escrever. Não sou tanto de investigação, da ciência propriamente dita. Mas uma boa cientista pode ser efetivamente uma boa jornalista de ciência e têm vindo a ser feitos esforços e noto isso no meu dia-a-dia: os investigadores têm cada vez mais formação em comunicação de ciência, e isso é extremamente importante, não só porque nos facilita o trabalho a nós jornalistas, mas porque é muito importante que consigam realmente explicar ao público o que é que fazem e qual é a sua investigação, e porque é importante. As pessoas têm tendência para dar mais atenção àquilo que as afeta no dia-a-dia e àquilo que tem uma aplicabilidade imediata. E nem sempre é assim, e a maior parte das descobertas e das inovações que foram feitas partiram da investigação fundamental, e isso também é importante. E realmente cada vez têm sido feitos mais esforços para que os cientistas consigam explicar aos cidadãos em geral o que estão a investigar.
Em relação à unimensionalidade de cientistas, é importante que se perceba que uma mulher não é só uma dona de casa, não é só uma cientista, não é só uma desportista, não tem que ser só uma coisa. Há uns dias, tive a oportunidade de participar numa mesa redonda no Dia das Mulheres e Meninas na ciência [11 de Fevereiro]. E a professora Paula Diogo, da Nova FCT, disse algo que achei muito curioso: uma cientista também pode chegar a casa e fazer batatas e preparar o jantar. E é mesmo isso, temos que normalizar esta questão. Uma mulher cientista pode perfeitamente estar num laboratório a ser química e estar num laboratório a trabalhar, e depois ir para casa e preparar o jantar, ou não; pode ser desportista, pode ser uma artista, pode ser mil e uma coisas ao mesmo tempo. E isso é que é bonito.
“O que falta muitas vezes são exemplos e modelos femininos para as raparigas que gostariam de seguir as ciências e muitas vezes pensam que não têm exemplos para seguir. É importante mostrar que realmente há esses modelos femininos.”
Falando destes papéis de género e dos papéis na ciência, citando o capítulo de Chen-Shiung Wu, “O principal obstáculo ao progresso é, e sempre foi, a tradição inquestionável”. Tendo em conta as raízes chinesas desta cientista, estava numa sociedade extremamente tradicional. Mas também tendo em conta a secção de introdução em que menciona as diferentes percentagens de mulheres cientistas em diferentes países e sociedades, como vê o movimento crescente do conservadorismo e o que pode querer dizer para as mulheres cientistas?
São muito preocupantes os tempos em que vivemos atualmente, esta questão de conservadorismo e principalmente nas camadas mais jovens. Cada vez se vê mais movimentos conservadores infiltrarem-se nas camadas mais jovens da população, e vejo isso com extrema preocupação. Espero que não tenha implicações irreversíveis, porque os tempos atuais são muito preocupantes. Acredito que para movimentos destes haverá sempre outros anti-movimentos, e acredito que se houver aqui esforço e ambição, poder-se-á combater esse tipo de movimentos, poder-se-á continuar no caminho que temos vindo a percorrer nos últimos anos em direção a uma maior igualdade e a uma maior paridade. Mas preocupa-me. Não só os movimentos conservadores, são também os movimentos anti-ciência que se têm verificado, nomeadamente nos Estados Unidos e não só. Tudo isto preocupa-me um bocadinho enquanto jornalista de ciência e preocupará certamente as investigadoras, porque com cada vez menos financiamento, com cada vez menos bolsas, com cada vez mais dificuldades, vai ser certamente difícil para elas conseguirem construir um percurso na ciência. Mas as mulheres são resilientes e quero acreditar que tudo isto não vai passar de um pesadelo, e que em breve as coisas tomarão o seu devido rumo.

E a falar disso quando falou de desinformação e dos movimentos anti-ciência, no caso de Katalin Karikó, que foi desacreditada durante muitíssimos anos na investigação em mRNA, foi despedida, foi várias vezes quase impedida de fazer aquilo que acabou por ser muito vantajoso, passados uns anos, para a sociedade. Neste mundo pós COVID-19 com tanta desinformação, poderá este caso ter mudado a narrativa das mulheres na ciência e servir como ponto de inflexão, ou uma mudança estrutural ?
Espero que sim, que as pessoas olhem para este caso precisamente como aquela que era chamada louca do ARNm, afinal tinha aqui uma razão para acreditar no potencial daquilo, e continuou e investigou apesar de todas as dificuldades e todos os obstáculos e chegámos a uma fase em que aquilo foi mesmo importante e as pessoas conseguiram perceber que se não fosse a perseverança dela e a obstinação dela, se calhar não teríamos as vacinas que tivemos tão prontamente, que ajudaram a salvar milhões de vidas. Espero que as pessoas olhem para o caso dela precisamente como isso mesmo. Katalin Karikó é uma das poucas no livro que recebeu um prémio Nobel. E isso é importante porque efetivamente ela recebeu o reconhecimento, mas à custa de quê? À custa de tantos anos a ser menosprezada, a ser maltratada até. Portanto, mesmo aqueles casos em que elas recebem o reconhecimento, isso foi à custa de alguma coisa. E espero que as pessoas olhem para a história da Katalin Karikó como um exemplo de que devemos começar a ouvir mais estas as mulheres e a tentar perceber se realmente aquilo que elas investigam e que elas estudam pode ter uma aplicabilidade e de que forma.
“O efeito Matilda vem no seguimento ou vai beber inspiração ao efeito Mateus / Matthew. E esse é um termo usado para designar quando investigadores séniores se apropriam dos resultados, ou da investigação, de investigadores mais juniores e portanto acabam por ficar com o reconhecimento também do trabalho dos seus subordinados.”
Sublinha um fator de alerta no livro porque “ao apagar sistematicamente as mulheres da narrativa científica não só distorcemos o passado, como empobrecemos o presente e limitamos o futuro”. Se só pudéssemos levar uma mensagem do seu livro, qual gostaria que fosse?
Existem mulheres extraordinárias responsáveis por descobertas inacreditáveis. Existem modelos femininos a seguir na ciência. E realmente é preciso perseverança, e é preciso [pausa] obstinação, e é preciso esperança, e acreditar que muitas vezes quando parece que tudo está contra nós, podemos chegar lá enquanto mulheres. A mensagem a passar é mesmo essa: existem sim exemplos, já muito mudou, felizmente, para melhor, mas ainda há muita coisa a mudar, ainda há um caminho a percorrer. E é importante nós desvendarmos estas histórias, e darmos o merecido reconhecimento a estas investigadoras para que os erros do passado não voltem a cometer-se no futuro, e para que realmente possamos “construir” ou contribuir para um mundo melhor em que em que as investigadoras, sejam mulheres, sejam homens, independentemente do género, tenham merecido reconhecimento, tenham o mérito pelas suas descobertas, e que não haja impedimentos nem discriminação pelo facto de alguém ter dois cromossomas X.
Por último, podemos esperar um segundo volume?
Eu gostaria. Vou deixar essa possibilidade em aberto, não posso dar uma resposta definitiva mas vou deixar a possibilidade em aberto. Há ainda muitos casos para descortinar, seja em Portugal seja no estrangeiro, muitas histórias que ficaram por contar, portanto há aqui pano para mangas.
