Entrevista. Francisco Pereira Coutinho: “A política transpôs-se também para as redes sociais e o direito internacional passou a ter de lidar com essa nova realidade”

por André Batoca,    30 Junho, 2026
Entrevista. Francisco Pereira Coutinho: “A política transpôs-se também para as redes sociais e o direito internacional passou a ter de lidar com essa nova realidade”
Francisco Pereira Coutinho / Fotografia de Rui André Soares – CCA
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Num tempo marcado pela crescente instabilidade geopolítica, pela proliferação da desinformação e pelos desafios colocados à ordem internacional, compreender os conflitos contemporâneos tornou-se uma necessidade cívica.

É neste contexto que surge “Guerra, Mentiras e Direito Internacional”, a mais recente obra de Francisco Pereira Coutinho, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde leciona e desenvolve investigação nas áreas do Direito Internacional Público, Direito da União Europeia e Relações Internacionais. Doutorado em Direito pela Universidade Nova de Lisboa, tem dedicado uma parte significativa da sua carreira académica ao estudo das questões relacionadas com a integração europeia, a segurança internacional, os direitos fundamentais e a governação global, sendo um dos principais comentadores de assuntos internacionais.

Através de uma abordagem acessível, estruturada em 46 questões, o autor conduz o leitor pelos principais acontecimentos e narrativas que moldam a guerra na Ucrânia, confrontando factos, argumentos e enquadramentos jurídicos num exercício de esclarecimento particularmente relevante para os dias de hoje.

O livro procura demonstrar como o Direito Internacional continua a ser uma ferramenta indispensável para compreender os conflitos armados, enquanto alerta para o papel da propaganda e da manipulação da informação nos cenários de guerra.

Nesta entrevista, com Francisco Pereira Coutinho, falou-se da sua obra, dos desafios atuais do Direito Internacional, do impacto da guerra na Europa e da importância do pensamento crítico perante um mundo cada vez mais complexo e polarizado.

O livro desmonta várias narrativas falsas sobre a guerra. Considera que o direito internacional ainda consegue competir com a velocidade emocional da propaganda nas redes sociais?

Com alguma dificuldade. O direito é um conjunto de regras gerais e abstratas que depois se aplicam a factos concretos. O problema das mentiras está precisamente no pressuposto factual que depois nos leva à aplicação das normas. Escrevi este livro muito por causa disso. Porque havia narrativas diferentes que conduziam também a justificações alternativas — justificações que poderiam ser lícitas se o pressuposto de facto fosse verdadeiro.

Claro que podemos ter divergências sobre a interpretação do direito e sobre a forma como ele se aplica. Mas, muitas vezes, nos conflitos armados, o grande problema está antes disso: está justamente nos factos que lhes deram origem. E isso é algo que verificamos todos os dias. Antes de discutirmos o direito aplicável, temos de saber de que factos estamos a falar.

Capa do livro / DR

Mas tendo aqui em conta a velocidade a que vamos acompanhando as redes sociais e em paralelo o direito internacional, nós vemos muito daquilo que é criado pelas redes sociais a tornar-se notícia, por vezes. Qual é a resposta do direito internacional a isso?

Não é só um problema do direito internacional; é um problema do direito em geral. Muitas das críticas que se fazem ao direito internacional poderiam também ser dirigidas ao direito interno. No plano internacional, porém, as pessoas talvez acompanhem mais estas questões porque percebem que há aqui um perigo quase existencial, no limite, de uma guerra nuclear. E, por isso, tudo se torna mais dramático e mais trágico, porque as consequências podem ser muito maiores.

A polarização trazida pelas redes sociais dificulta muito a resposta do direito. Isso é especialmente visível com esta administração norte-americana, que usa diariamente as redes sociais e os media para fazer política. E isso faz com que eu próprio seja muitas vezes chamado aos media para comentar publicações nas redes sociais. A política transpôs-se também para as redes sociais, e o direito internacional passou a ter de lidar com essa nova realidade.

“O direito é um conjunto de regras gerais e abstratas que depois se aplicam a factos concretos. O problema das mentiras está precisamente no pressuposto factual que depois nos leva à aplicação das normas.”

Quando temos a página oficial da Casa Branca a reproduzir conteúdos numa rede social, parece que chegámos aqui a um limite?

Claro. Quando temos o Estado iraniano, aparentemente, a patrocinar memes que funcionam bem na batalha pela opinião pública, isso acaba por ter importância.

Agora, as redes sociais também servem para que nós, académicos e outras pessoas que intervêm no espaço público, estejamos melhor informados. Hoje conseguimos ter acesso a informação que antes surgia muito filtrada pelos Estados. Qualquer pessoa pode ir às redes sociais, fazer um vídeo, mostrar qualquer coisa que está a acontecer. Ou seja, houve uma enorme democratização do acesso à informação.

Claro que isso também tem riscos. É mais fácil, especialmente para as pessoas menos preparadas, mais jovens ou mais suscetíveis, acreditarem em mentiras. E, com a inteligência artificial, isso é cada vez mais evidente.

Mas, para quem quer estar informado e acompanha estes temas, hoje é possível saber em tempo real factos que antigamente passavam pelo filtro dos meios de comunicação social, alguns deles controlados pelos Estados. Temos, portanto, um acesso mais direto à informação. Conseguimos, se quisermos, formar opinião com base em muito mais informação. O problema é que é obviamente difícil filtrar tudo isso.

E esse tem sido um bocadinho o meu trabalho nos últimos quatro anos. Eu era um académico que estava na faculdade, na minha torre de marfim, a escrever livros que apenas especialistas liam. Mas, a certa altura, percebi que talvez fosse interessante ir para os media falar sobre estes assuntos para o público em geral.

Nesta fase da minha vida, depois de tudo aquilo que estudei e de todas as experiências profissionais e académicas que tive, acho que consigo fazer essa triagem e construir a minha própria opinião. E é uma opinião que considero independente. Sou académico, não devo nada a ninguém, e acho que isso acaba por ter alguma importância no espaço público. É por isso que este livro se chama “Guerra, Mentiras e Direito Internacional”. No fundo, tento desconstruir uma série de fabulações que foram sendo construídas pelas máquinas de propaganda, especialmente do Kremlin. Esse foi o objetivo.

“A reforma mais evidente na ONU seria limitar o direito de veto em situações de violação manifesta da Carta das Nações Unidas, como é o caso de uma guerra de agressão.”

Há no conflito da Ucrânia um designado “direito internacional para potências” e outro para Estados mais pequenos, ou essa desigualdade sempre existiu e apenas se tornou mais visível agora?

Formalmente, não. As regras são muito claras: a ideia de soberania é igual para todos. Mas essa foi a crítica que Mark Carney [Primeiro-ministro do Canadá] fez em Davos, há uns meses, quando falou do enorme cinismo e da hipocrisia que muitas vezes existem na aplicação do direito internacional.

Nós já sabíamos que o poder fáctico dos Estados determina que, em algumas circunstâncias, certas violações do direito internacional — especialmente quando são cometidas por membros permanentes do Conselho de Segurança — acabam por não ter um mecanismo eficaz de penalização. Isso sempre existiu. E, por isso, no plano internacional, é sempre difícil conter esses impulsos de aplicação da lei do mais forte.

O problema é que o mais forte pode até conseguir ganhos a curto prazo violando o direito internacional, mas, a médio e longo prazo, não tem interesse nenhum numa ordem internacional caótica. E isso é algo que talvez venhamos a ver com mais clareza daqui para a frente.

Vemos isso, por exemplo, em algumas grandes potências, como a China, que percebe muito bem essa lógica. Mesmo quando procura expandir a sua influência, tende a evitar violações demasiado frontais do direito internacional quando percebe que os custos sistémicos podem ser elevados. Uma ordem internacional instável cria problemas para todos os Estados, incluindo as grandes potências.

“Antes de discutirmos o direito aplicável, temos de saber de que factos estamos a falar.”

Veja-se o que aconteceu agora na guerra do Irão, os Estados Unidos da América apareciam, invocando que “sou mais forte, posso atacar, posso decapitar as lideranças político-militares”, e isso vai significar o quê?

Muita gente bateu palmas e achou ótimo, porque o regime iraniano é péssimo. Mas estamos a ver que as consequências a médio e longo prazo podem ser muito más, mesmo para a grande potência que decide agir dessa forma.

O caso da Rússia é outro exemplo. A Rússia achava que conseguia conquistar a Ucrânia em poucas semanas, mas tomou uma decisão de que possivelmente já se terá arrependido, porque claramente não conseguiu atingir esse objetivo. Além disso, os outros Estados reagiram e não aceitaram aquele tipo de intervenção militar. E não aceitaram porque isso criaria uma enorme entropia no sistema internacional. Se se admite que um Estado pode simplesmente dizer “sou mais forte, posso atacar, posso decapitar lideranças político-militares”, passamos a ter uma ordem internacional caótica.

Francisco Pereira Coutinho / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Esta guerra também mostrou limites jurídicos claros das organizações internacionais, em especial da ONU. Que reformas concretas é que defende que hoje poderiam ser feitas para tornar a ONU menos dependente do direito político à aprovação do Conselho de Segurança?

A reforma mais evidente seria limitar o direito de veto em situações de violação manifesta da Carta das Nações Unidas, como é o caso de uma guerra de agressão. Mas essa é também a reforma mais difícil, porque, em termos práticos, depende precisamente dos Estados que hoje beneficiam desse poder.

Isso cria incentivos para que outros Estados procurem alternativas fora do quadro da ONU, ou pelo menos fora do Conselho de Segurança. Ora, os membros permanentes têm responsabilidades especiais. Foram eles que, depois da Segunda Guerra Mundial, ficaram com a missão de garantir a paz e a segurança internacionais. Mas, ao abusarem dessa posição, estão a lançar as sementes da destruição de um sistema que ainda os beneficia, mas que não será o sistema que teremos no futuro.

Preocupam-me não apenas as guerras de hoje, mas até mais as guerras de amanhã. Preocupa-me o tipo de precedentes que estamos a criar quando admitimos o tipo de intervenções militares levadas a cabo pelos Estados Unidos ou pela Rússia. As organizações internacionais dependem sempre daquilo que os Estados quiserem que elas sejam. E, neste momento, especialmente com esta administração americana e com este regime russo, a ideia de multilateralismo é algo que parece não ser compreendido.

Os Estados Unidos tornaram-se uma potência hegemónica no ambiente multilateral que criaram, promoveram e de que muito beneficiaram. Mas hoje é muito difícil convencer a atual administração dessa realidade. Existe um Presidente que parece achar que os Estados Unidos eram grandes há mais de cem anos, quando não eram mais do que uma potência regional.

E há ainda outro aspeto importante: as relações internacionais precisam, muitas vezes, de uma grande potência que assegure alguma estabilidade dentro de um quadro multilateral. No século XIX foi o Reino Unido, por exemplo, na garantia da liberdade de navegação. Depois foram os Estados Unidos. Não havendo neste momento uma potência disponível para exercer esse papel, as relações internacionais tornam-se mais instáveis e perigosas.

“A polarização trazida pelas redes sociais dificulta muito a resposta do direito. Isso é especialmente visível com esta administração norte-americana, que usa diariamente as redes sociais e os media para fazer política.”

O conflito na Ucrânia veio acelerar uma normalização do discurso bélico na Europa. Considera que as sociedades europeias perderam parte da cultura jurídica de paz construída após a 2.ª Guerra Mundial?

Acho que não. Aliás, penso que a resposta das sociedades europeias à intervenção da Rússia foi um momento de grande vitalidade do direito internacional. Vimos isso nas nossas sociedades. As pessoas mobilizaram-se, receberam milhões de ucranianos, algumas abriram as suas casas, contribuíram financeiramente, porque consideraram inadmissível a ideia de termos uma guerra de conquista e anexação na Europa. Uma guerra que se destina a obrigar os ucranianos a integrar um espaço político russo, que era e é a ambição de Putin.

Acho, por isso, que foi um momento importante da história europeia. Vimos uma reação conjunta dos vários Estados europeus, porque todos perceberam uma coisa essencial: na Europa, somos todos pequenas e médias potências.

E, portanto, todos percebemos que a nossa soberania será defendida se defendermos a soberania dos ucranianos. Porque, a seguir, podemos ser nós.

O direito internacional funciona muito com base nessa ideia: há uma expectativa de que a nossa soberania será respeitada porque também respeitamos a soberania dos outros; e, quando a soberania desses outros é violada, temos de reagir. Foi isso que fizemos, especialmente perante uma potência nuclear.

Essa reação vai levar também a um aprofundamento da integração europeia. A União Europeia é um espaço de natureza federal que serve também para proteger os Estados europeus.

Não podemos esquecer que esta guerra começa, em 2014, com uma decisão dos ucranianos: a de quererem aproximar-se da União Europeia, de quererem ser europeus. Por isso, não me surpreende a reação que tivemos na Europa.

Claro que muita gente critica esta posição e diz que somos hipócritas, porque, quando os conflitos ocorrem noutras regiões, nomeadamente no Médio Oriente, já não estamos tão preocupados. Mas é normal que estejamos mais preocupados quando morre o nosso avô do que quando morre o avô do vizinho. A proximidade do conflito obriga-nos a uma reação mais forte.

Naturalmente, seria melhor termos uma política externa mais coerente. Mas, por vezes, a realidade exige certos compromissos. Na questão da segurança da Europa, porém, não podemos transigir. E é por isso que muitos líderes europeus dizem que esta é uma questão existencial para os países europeus. E eu concordo.

Francisco Pereira Coutinho / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Se tivesse de identificar o maior erro de comunicação jurídica do Ocidente durante a Guerra da Ucrânia qual seria?

Não acho que tenhamos tido, em geral, uma postura incorreta. Muita gente acusou o Ocidente de alguma tibieza em relação aos russos, designadamente no tipo de apoio que deu à Ucrânia, especialmente nos primeiros tempos, em que talvez houvesse uma hipótese de a Ucrânia fazer um contra-ataque mais robusto. Há também quem critique a circunstância de não termos apoiado militarmente a Ucrânia de forma direta, mas apenas indiretamente, não sendo parte no conflito.

Mas é preciso perceber que estamos a falar de uma potência revisionista, imperialista, que nos ameaça com o uso de armas nucleares. E, portanto, foi necessário compatibilizar a ética da responsabilidade com a salvaguarda dos valores europeus. Houve aqui um equilíbrio que os líderes europeus procuraram manter, porque não queriam arriscar demasiado contra um inimigo particularmente perigoso e que quebrou o statu quo que existia na Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial.

A ideia de que não se mexe em fronteiras nem se anexam territórios foi posta em causa pela Rússia. Creio que o equilíbrio encontrado foi difícil, mas trouxe-nos até aos dias de hoje: a Ucrânia continua a existir, continua a defender-se e defende-se com o nosso apoio.

Portanto, francamente, houve momentos em que achei que se podia ter ido um pouco mais longe no apoio à Ucrânia. Mas, globalmente, penso que é de louvar a postura dos principais Estados europeus.

“Qualquer pessoa pode ir às redes sociais, fazer um vídeo, mostrar qualquer coisa que está a acontecer. Ou seja, houve uma enorme democratização do acesso à informação. Claro que isso também tem riscos. É mais fácil, especialmente para as pessoas menos preparadas, mais jovens ou mais suscetíveis, acreditarem em mentiras. E, com a inteligência artificial, isso é cada vez mais evidente.”

Podemos concretizar aqui um pouco, olhando para o que escreveu neste livro, onde analisa muitas justificações jurídicas usadas pela Rússia. Também há argumentos do lado ocidental para a Ucrânia sobre o conflito que considera intelectualmente frágeis ou contraditórios?

Sim, há alguns argumentos frágeis também do lado ucraniano. Um exemplo é a ideia de que a Rússia deve ser expulsa do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O argumento é o seguinte: a União Soviética desapareceu e a Rússia terá ficado indevidamente com o seu lugar no Conselho de Segurança. Mas, tantos anos depois de a comunidade internacional ter aceitado essa continuidade, parece-me muito difícil sustentar juridicamente essa tese.

Outro exemplo é a ideia de que estaria em curso um genocídio cometido pela Rússia na Ucrânia. Houve, sem dúvida, crimes internacionais, mas não me parece que se possa afirmar que tenha existido genocídio.

Há ainda um último exemplo que me parece bastante hipócrita: a ideia de criar um tribunal especial para julgar a agressão russa contra a Ucrânia, tendo Putin como principal alvo político, quando ninguém fala neste momento em criar um tribunal especial para Trump por causa do Irão, nem para Netanyahu, a propósito da Palestina. Isto revela uma duplicidade evidente.

Não está em causa negar a necessidade de responsabilização pela agressão russa. O que está em causa é evitar que a justiça penal internacional seja percecionada como um mecanismo seletivo, mobilizado apenas contra alguns adversários e não contra todos os responsáveis por violações graves do direito internacional.

Depois da guerra da Ucrânia, acredita que o direito internacional caminhará para uma maior judicialização dos conflitos ou por uma lógica mais próxima do equilíbrio puro de força?

A tendência parece caminhar mais para a segunda hipótese. O direito internacional que se está a desenhar é menos baseado numa ideia de construção de uma comunidade internacional assente na criação de tribunais internacionais e de órgãos políticos multilaterais com poderes vinculativos.

Mas lá está: isso acontece também porque os Estados Unidos se estão a demitir do papel de “polícia do mundo”. Muita gente criticava os americanos por se arrogarem essa função, mas agora também há muita gente que sente falta do tempo em que eles estavam disponíveis para a desempenhar.

Um bom exemplo é a Primeira Guerra do Golfo. Saddam Hussein, líder do Iraque, decide conquistar o Kuwait. Depois temos os Estados Unidos a fazer pressão no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a convencer os outros Estados, e a conseguir uma intervenção sancionada pelas Nações Unidas, com mandato do Conselho de Segurança, destinada justamente a obrigar o Iraque a retirar-se do Kuwait.

A partir do momento em que o Iraque se retira do Kuwait, o que acontece? As tropas internacionais recuam e Saddam Hussein continua em funções. A Segunda Guerra do Golfo já não foi assim, precisamente por causa do desfecho da primeira. Eram claramente outros tempos. Em 1991, no fim da Guerra Fria, achávamos que estávamos num processo inexorável rumo ao surgimento de democracias liberais um pouco por todo o lado. Havia, de facto, um grande consenso internacional. Mas muito mais tarde, em 2015, também foi possível aprovar uma resolução no Conselho de Segurança sobre o programa nuclear iraniano, porque havia um consenso alargado de que não era boa ideia o Irão ter armas nucleares, mesmo entre alguns dos seus aliados.

Portanto, houve momentos históricos em que foi possível avançar. Agora, não é esse o caso. Quando temos membros do Conselho de Segurança empenhados em usar a força como instrumento das suas relações internacionais, isso significa regressar a uma lógica de direito internacional do século XIX, em que tudo funcionava com base na lógica do mais forte e as regras jurídicas serviam sobretudo para cristalizar os arranjos territoriais resultantes dos conflitos militares.

Só que isso é muitíssimo arriscado na era das armas nucleares. Porque é que ninguém confronta seriamente a Coreia do Norte? Porque já se sabe que tem armas nucleares e que, dessa forma, conseguiu garantir a sua soberania.

Mas, se esse for o caminho, então, a médio e longo prazo, as grandes potências deixarão de ter qualquer vantagem decisiva pelo facto de terem grandes exércitos. Se a Coreia do Norte conseguiu desenvolver armas nucleares, com o nível de conhecimento tecnológico que existe hoje, outros Estados também poderão consegui-lo. E, a partir desse momento, a vantagem que hoje permite às grandes potências coagir outros Estados, ameaçando usar a força, desaparecerá rapidamente. Portanto, não há interesse nenhum numa ordem internacional em que todos tenham armas nucleares e defendam as suas fronteiras ameaçando destruir os outros. Isso não interessa absolutamente a ninguém, porque quanto mais Estados tiverem armas nucleares, maior será o risco de que, em algum momento, elas venham a ser utilizadas. E isso terá repercussões e impactos potencialmente catastróficos sobre todos.

Fotografia de Rui André Soares – CCA

Vamos então chegar a um ponto em que vamos ter esse equilíbrio baseado no armamento, e ninguém vai olhar, por exemplo, para o Tribunal Penal Internacional como uma instituição relevante?

Não necessariamente. O Tribunal Penal Internacional continuará a ser uma instituição relevante. Mas talvez caminhemos para uma conceção mais clássica do direito internacional, mais centrada na soberania dos Estados e menos na ideia de intervenção internacional para proteger direitos humanos noutros Estados.

Historicamente, o direito internacional nasceu muito ligado à soberania. A ideia básica era simples: cada Estado decide a sua organização interna e os outros Estados não intervêm nessas opções. A dimensão internacional dos direitos humanos é muito mais recente, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial e, mais tarde, depois dos genocídios e crimes internacionais dos anos 90.

O problema é que essa dimensão humanitária sempre foi difícil de compatibilizar com a soberania. E pode ser instrumentalizada. Putin, por exemplo, invocou a existência de um genocídio no Donbas para justificar a invasão da Ucrânia. Mas aquilo de que falava era, no fundo, uma espécie de “genocídio cultural”: a ideia de que milhões de pessoas deixariam de ser russas para passar a ser ucranianas. Isso pode ter relevância na narrativa identitária russa, mas não é genocídio no sentido reconhecido pelo direito internacional.

É por isso que a questão essencial continua a ser esta: são os ucranianos que devem decidir o que querem ser. Esse é um assunto deles, não da Rússia. Um Estado não pode conquistar território de outro, anexá-lo pela força e decidir o destino político da sua população.

Portanto, pode haver um recuo para um direito internacional mais clássico, menos centrado na proteção internacional dos direitos humanos e mais centrado na soberania. Veja-se o caso da Coreia do Norte: tem armas nucleares e ninguém pensa seriamente em intervir para proteger os norte-coreanos contra o seu próprio governo. Isso nem sequer é uma hipótese realista.

Talvez seja para aí que estejamos a caminhar: para um direito internacional em que a soberania volta a ser protegida sobretudo pela força, e não apenas pelas instituições internacionais. Isso não torna o Tribunal Penal Internacional irrelevante, mas torna muito mais difícil acreditar que ele, sozinho, possa prevenir a impunidade.

Francisco Pereira Coutinho / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Se tivesse de acrescentar hoje uma questão 47 ao seu livro, qual é que seria a pergunta indispensável que ainda falta fazer sobre esta guerra?

Talvez um desenvolvimento da última questão do livro, que tem muito a ver com a discussão que tivemos nos últimos tempos: se a Ucrânia ceder o Donbas, alcançamos a paz?

Eu já coloco no livro a questão de saber se a paz em troca de território levará realmente à paz na Ucrânia. A minha resposta é que não. Mas talvez valesse a pena desenvolver um pouco mais esse ponto, porque foi, no fundo, aquilo que os americanos procuraram defender nos últimos tempos: a ideia de que bastaria convencer os ucranianos a cederem mais um pouco de território para Putin ficar satisfeito.

Não me parece que esse seja o caso. A pergunta indispensável talvez fosse precisamente esta: a cedência de território à Rússia traria paz à Ucrânia ou apenas prepararia a próxima guerra?

“Hoje é possível saber em tempo real factos que antigamente passavam pelo filtro dos meios de comunicação social, alguns deles controlados pelos Estados. Temos, portanto, um acesso mais direto à informação. Conseguimos, se quisermos, formar opinião com base em muito mais informação. O problema é que é obviamente difícil filtrar tudo isso.”

Qual é que foi a conclusão do livro que o mais surpreendeu?

Havia várias coisas que já sabia e que já tinha investigado, mas outras tive de ir estudar com mais detalhe. Uma das que achei mais interessantes foi a questão religiosa.

Não conhecia suficientemente bem o funcionamento do mundo ortodoxo e das igrejas ortodoxas. E foi muito interessante perceber a disputa religiosa entre Moscovo e Constantinopla a propósito da igreja ucraniana, bem como a forma como o Kremlin instrumentaliza a religião como se ela fosse parte do aparelho de Estado.

Isso ajuda também a compreender a decisão ucraniana de restringir a atuação da igreja ortodoxa ligada a Moscovo. À partida, se dissermos apenas que a Ucrânia proibiu uma igreja, isso parece inaceitável, sobretudo tratando-se de um Estado que se apresenta como democrático, pluralista e defensor da liberdade religiosa. Mas, quando olhamos para a história da igreja ortodoxa na Rússia e para a forma como Putin a utilizou na sua deriva nacionalista ao longo das últimas décadas, percebemos melhor a complexidade do problema. Essa dimensão religiosa mostra bem a natureza identitária desta guerra.

Outra conclusão que me interessou muito foi a intensidade das campanhas de desinformação russas. Muitas destas narrativas vêm ainda dos tempos soviéticos. A ideia de que os ucranianos estariam a desenvolver laboratórios para produzir armas químicas ou biológicas insere-se numa tradição antiga de propaganda. Já antes se tinha dito que os americanos tinham desenvolvido o vírus da sida; mais tarde, circularam narrativas semelhantes a propósito da covid-19. Há aqui uma reciclagem permanente de histórias destinadas a diabolizar o adversário. Tudo isto mostra as várias camadas deste conflito. Se pensarmos bem, já são quatro anos de guerra desde 2022, mas o conflito vem pelo menos de 2014, com a anexação da Crimeia. E não parece ter um fim à vista, precisamente porque envolve dimensões territoriais, políticas, religiosas e identitárias muito profundas.

Para terminar, há alguma ideia sobre a guerra da Ucrânia que mudou completamente na sua concepção enquanto escrevia este livro? Ou seja, antes de escrever o livro tinha uma ideia, e quando o escreveu ficou com uma ideia completamente diferente?

Não. Acabei por confirmar muitas das coisas que já intuía. Mas o processo de escrita foi muito útil, porque me permitiu ter uma compreensão muito mais ampla do conflito. E isso também se refletiu na forma como fui comentando a guerra no dia a dia: acho que passei a compreender melhor os acontecimentos e, portanto, a errar menos do que errava antes quando falava sobre estes assuntos.

Do ponto de vista do direito internacional, já conhecia os regimes jurídicos aplicáveis. Depois foi sobretudo uma questão de os aplicar aos factos concretos. O que me impressionou mais foi outra coisa: ao ler os discursos de Putin e ao perceber a sua inflexibilidade, tornou-se ainda mais claro para mim que ele não mudou substancialmente de posição.

Por isso, surpreendeu-me a forma como esta administração americana não percebeu, ou não quis perceber, a complexidade do conflito. Trump achava que a guerra se resolvia em 24 horas, quando era evidente que não fazia a menor ideia do que estava em causa. Só agora parecem ter começado a perceber isso, ao admitirem que talvez desistam do papel de mediadores.

Portanto, não diria que o livro me tenha levado a uma conclusão completamente diferente daquela de que partia. Houve sobretudo uma confirmação: este é um conflito muito mais complexo e mais difícil de resolver do que muitos quiseram admitir.

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