Entrevista. Françoise Vergès: “O feminismo ocidental ainda não realizou a sua própria revolução”

por Margarida David Cardoso,    21 Março, 2026
Entrevista. Françoise Vergès: “O feminismo ocidental ainda não realizou a sua própria revolução”
Françoise Vergès / Fotografia de Anthony Francin

Durante anos, Françoise Vergès achou que não era feminista. O rótulo era-lhe estrangeiro, sinónimo dos movimentos das mulheres francesas que distinguia como opositoras políticas — burguesas, imperialistas, “civilizadoras”. Assumiu-o só quando se deparou com a reivindicação histórica de outros feminismos — não-individualistas, anticoloniais, anticapitalistas — originários de lugares como o seu, negros e colonizados. 

Nascida em Paris, em 1952, Vergès cresceu numa família de políticos e militantes comunistas na ilha da Reunião, território de administração francesa no oceano Índico, construindo o seu pensamento político no cruzamento da teoria marxista da reprodução social com epistemologias indígenas.

Estudou na Argélia recém-descolonizada, e, de volta a Paris, nos anos 70, abandonou os estudos de Árabe e Chinês para integrar, a tempo inteiro, movimentos antirracistas e anti-imperialistas, durante a guerra do Vietname. Contrabandeou textos em defesa da libertação das mulheres sob censura para a União Soviética (1979), entrevistou familiares deos desaparecidos de Pinochet, no Chile (1981), foi empregada doméstica enquanto imigrante indocumentada nos Estados Unidos (1983). Esperou meses no México pela oportunidade de voltar a entrar, com papéis, no país. No regresso, doutorou-se em Teoria Política na Universidade da Califórnia-Berkeley (1996), com uma tese a partir dos colonizados e colonizadores da sua própria família. 

Nas décadas seguintes, trabalhou com ativistas e artistas, propondo formas de descolonizar a arte, a academia e os feminismos. Em França, foi presidente do Comité para a História e Memória da Escravatura (2009-2012), fez a curadoria de exposições no Museu do Louvre e no Memorial da Abolição da Escravatura em Nantes. Escreveu os livros Um Feminismo Decolonial (2019) e Decolonizar o Museu (2024). E, enquanto via representações raciais serem mais publicamente reconhecidas, objeto de estudos, debates e obras artísticas, acreditava que a “profunda negação da forma como séculos de império colonial” se manteve e que marcou a sociedade francesa.

No seu trabalho, a cientista política e ativista defende que, apesar da crença de que a social-democracia saída da II Guerra Mundial havia transformado grande parte do mundo ocidental em democracias liberais, essa aparente vitória escondia uma relação colonial por abolir. Nem o fim da escravatura histórica nem as independências foram suficientes para garantir justiça e equidade. O desequilíbrio de poder imposto pelo colonialismo continua a ditar quem tem acesso e controlo sobre a terra, a água, a propriedade, o trabalho, o descanso e a reprodução, afirma Françoise Vergès, em referência ao que Kwame Nkrumah chamou de neocolonialismo, o último estágio do imperialismo. “Estas necessidades básicas são ainda geridas através de relações coloniais. A relação com os recursos naturais é ainda uma de extração, desapropriação e exploração.” E, por isso, também de violência.

Em Uma teoria feminista da violência (tradução de Pedro Elói Duarte, Orfeu Negro, 2026), Françoise Vergès argumenta que a ausência dessa reflexão crítica contribuiu para que não se entenda a violência — não apenas aquela que é criminalizada — como produto do capitalismo e do racismo. Opondo-se aos movimentos feministas que reivindicam a punição e o encarceramento dos “homens violentos” como forma de proteger as mulheres, procura compreender a origem da sua violência na sociedade que os criou.

Por que é que esta discussão “é marginal”, o legado da colonização não reconhecido?

Por causa desta ideologia que nos acompanha desde 1945, de que vivemos num mundo dominado pela paz, desenvolvimento e progresso. É claro que houve desenvolvimento, graças aos governos independentes que, em alguns casos, por breves períodos, implementaram medidas essenciais de educação e habitação — aspetos básicos não assegurados durante o domínio colonial em vários países do Sul Global. Mas o Ocidente imperialista tem constantemente bloqueado o caminho para a sua soberania plena. Impôs muros, golpes militares, intervenções da CIA, do MI5 e da Mossad. Também são importantes os acordos comerciais do Fórum Económico Mundial, do Fundo Monetário Internacional ou do Banco Mundial, dominados por uma ideologia neoliberal, baseada na crença de que a sua forma de agir é a única e a correta; que impõe sanções e bloqueios a estados independentes, dizendo “Não se vão desenvolver assim”; que ligam todo o país a uma rede de relações capitalistas, deixando-o, se não tiver outras fontes de desenvolvimento, dependente do preço internacional do chocolate, do açúcar, do café, do óleo de palma.

Pesa também a ideologia do progresso pela tecnologia e pela necessidade infinita de energia. A ideia de que um país consegue alcançar alguma paz social ao encontrar petróleo ou gás, já que, com isso, o Estado pode construir o que precisa, como se tal lhe permitisse, de facto, um equilíbrio nas relações de poder. A Nigéria é um grande produtor de petróleo e é, no entanto, muito pobre para a maioria da sua população; os direitos dos seus povos indígenas são constantemente violados e as suas terras usurpadas.

Para o que é que contribui reconhecer a “importância das representações raciais na formação da nação francesa e de outros estados europeus”?

A nação francesa, apesar de pequena, obteve o poder que tem através de um império colonial, que, hoje, mantém através do território que ainda controla no mundo. Mas a negação de direitos, não apenas pela França, mas pela Grã-Bretanha, Alemanha, Itália, Estados Unidos, Canadá, está sujeita às condições que o Ocidente impôs: as antigas colónias podem ser soberanas, mas sob condições que lhes são impostas pela força — por intervenções armadas e golpes de Estado — ou através de pressão comercial, por via de um poder assimétrico. Temos assistido a tentativas constantes de impedir quaisquer desvios, como foi a pressão para reprimir a Tricontinental [Conferência de Solidariedade dos Povos da África, Ásia e América Latina de 1966], a cooperação Sul-Sul e, agora, os BRICS [aliança política e económica entre o Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irão, Indonésia e Arábia Saudita].

Capa do livro / DR

Partindo dessa ideia de “desenvolvimento condicionado”, argumenta que o trabalho humanitário não fez as pazes com o seu passado colonial ou o compensou.

Houve uma “ONGização” de muitos movimentos sociais dos anos 60, 70 e início dos anos 80, que eram revolucionários e faziam parte do movimento internacionalista, e, por isso, tiveram de ser esmagados. Com a “ONGização”, os países ainda se tornaram mais dependentes da intervenção do Ocidente para construir uma escola ou cavar um poço. “Nós trazemos-vos o dinheiro e os conhecimentos especializados, vocês tornam-se dependentes desta ajuda.” Isto nega o conhecimento e as práticas locais, ou as incorpora na ideologia dominante, transformando-as numa espécie de folclore. Também há práticas diretamente apropriadas pelo Ocidente. Mas tem havido uma resistência constante a este movimento por parte das comunidades.

“As antigas colónias podem ser soberanas, mas sob condições que lhes são impostas pela força — por intervenções armadas e golpes de Estado — ou através de pressão comercial, por via de um poder assimétrico.”

Sendo que entende a dominação também como forma de reprimir essa resistência. No livro [Uma teoria feminista da violência], descreve como movimentos feministas do Sul Global são desautorizados, remetidos a uma categoria de subespecialidade.

Ao tratá-los por feminismos indígenas ou feminismos negros, é como se entendêssemos que estas teorias pertencem apenas a esses grupos, são etnicizadas, restritas. Isso pressupõe também que outro feminismo é universal: o ocidental, que defende direitos que considera capazes de serem aplicados da mesma forma em todo o lado. 

O feminismo ocidental foi muito importante para “civilizar o feminismo”. Conseguiu afirmar que a luta se trava pela garantia de direitos individuais e pela igualdade das mulheres, o que nos torna a todas irmãs, apagando conflitos e contradições entre nós. Mas nunca se descolonizou verdadeiramente. Nunca, nunca, nunca. 

Dou o exemplo da luta das mulheres iranianas. O que está agora incorporado nos discursos feministas ocidentais diz respeito à sua liberdade individual. Por que razão, há mais de uma década, os mesmos movimentos nunca protestaram contra as sanções que o Estado francês impôs contra o Irão [a partir de 2010]? O Irão tem sido dos países mais sancionados do mundo. Não saberemos o que o Irão teria feito sem as sanções — que tipo de possibilidades ou transformações teriam sido criadas pela população iraniana. As sanções trouxeram pobreza, desigualdades, conflito — é uma constante e histórica restrição de possibilidades.

Nunca saberemos como, de outra forma, teria sido o Iraque, a Síria, o Chile, a Argentina, ou a Guatemala, quando [em 1952] os EUA intervieram para impedir a reforma agrária e a nacionalização das plantações de banana… Já a França passou por uma monarquia absoluta, pelo domínio imperial de Napoleão, por uma revolta contra ele, o seu Estado matou protestantes e judeus durante décadas — que direito tem de dar lições?

O anti-imperialismo e o anticapitalismo estão fora da agenda dos feminismos ocidentais? É por isso que não se considera a intervenção bélica estrangeira uma questão feminista?

Sim. Quando num país da América Central, o filho de uma família de proprietários de plantações feudais chega ao poder, as feministas deveriam protestar, porque sabemos que isso traz pobreza às pessoas mais pobres e às comunidades indígenas. A preocupação com as poucas mulheres eleitas para um Parlamento, para mim, não significa nada, porque há muitas mulheres eleitas em diferentes lugares e isso, por si só, não muda necessariamente alguma coisa.

Aponta a mutilação genital feminina para exemplificar como alguns feminismos podem ofuscar a luta das mulheres vítimas de discriminação racial. Como?

Nos países africanos onde a mutilação genital é praticada, as próprias mulheres têm lutado para acabar com a prática. Mas também têm prestado atenção ao seu contexto: quando há pobreza e guerra, a excisão aumenta, tal como aumenta a brutalização, a perseguição e a violência contra as mulheres mais frágeis, crianças, idosos, rapazes e homens. Alguns homens e mulheres procuram afirmar o seu poder ao serem quem pratica a mutilação, ganhando algum respeito na comunidade, do qual não querem abrir mão. Há aqui uma relação de poder, não se trata apenas de combater uma tradição patriarcal.

“O feminismo ocidental nunca se descolonizou. Nem revolucionou”

Na década de 80, Angela Davis escreveu sobre como feminismos brancos — apresentados como universais, civilizadores — procuravam falar em nome das mulheres em todo o mundo, mas que falhavam com as mulheres racializadas. Um tipo de feminismo que busca representação igualitária no exército e na polícia é um movimento pela igualdade ou uma tentativa de substituição de poder?

É a participação numa sociedade neoliberal militarizada. Algumas feministas nos EUA lutaram muito para entrar no exército, no final dos anos 80. Eu estava lá e pensava: “como é que queremos tornar-nos pessoas que matam?” Este exército não pode ser outra coisa senão um exército imperialista. Às vezes salva pessoas de um furacão, mas grande parte do trabalho é brutalizar o resto do mundo. E, efetivamente, vemos mulheres participarem nessa tortura sistemática: em Abu Ghraib, quando mulheres da Marinha violaram homens iraquianos, ou hoje, quando mulheres-soldado israelitas vão para Gaza participar no genocídio, ou no abuso sexual de mulheres e homens palestinianos nas prisões de Israel.

Portanto, enquanto as feministas ocidentais não quiserem reconhecer o imperialismo e o racismo, os seus movimentos vão falhar-lhes. Com os relatos que chegam das prisões israelitas, onde há uma violação sistemática de homens palestinianos, temos de alargar o conceito de violação — e eu sei que, na maior parte dos casos, são raparigas e mulheres violadas, em todo o mundo. Mas temos de entender por que é que o corpo de homens árabes, indígenas, trans, negros, asiáticos pode, de facto, tornar-se um corpo que pode ser violado — ou, durante a escravatura, vendido, traficado, usado como objeto sexual… O capitalismo racial desgenderizou o corpo. Há um movimento intrínseco ao imperialismo e ao racismo em que o corpo deixa de ser genderizado. Na prisão, por exemplo, onde os homens são violados. A cadeia, como disse Angela Davis, é realmente um sintoma: um espaço sintomático da desapropriação e do racismo, da resolução de problemas sociais através de um regime carcerário.

Enquanto feministas não liberais e não civilizadoras, temos de prestar atenção à forma como os homens racializados, que também podem beneficiar do patriarcado, da acumulação de propriedade privada, são desgenderizados sob o racismo e o imperialismo.

Como outras mulheres também podem beneficiar desse sistema patriarcal?

Claro. Os jornais económicos que dão voz às altas esferas neoliberais, como o Financial Times, são a favor de que as mulheres desfrutem do capitalismo, porque isso vai trazer mais recursos e mais imaginação, e o capitalismo precisa de expandir constantemente o seu espaço de intervenção. Portanto, se algumas mulheres podem trazer ideias sobre como adaptar ou transformar novas necessidades em mercadoria, para que se possa produzir mais, por que não?

Françoise Vergès – Fotografia de La Fabrique/Anthony Francin

Vem daí a sua consideração de que feminismos ocidentais, com frequência, oferecem argumentos fortes ao capitalismo?

Sim. Em 1985, no encerramento da Década das Nações Unidas para os Direitos das Mulheres, em Nairobi, no Quénia, ouviram-se vozes muito fortes de mulheres palestinianas, sul-americanas e africanas que afirmavam “Não queremos o vosso feminismo. Somos a favor da libertação do nosso povo, de um desenvolvimento económico que ultrapasse a divisão Norte-Sul”. Era uma altura de receio das elites: “Como é que usamos o “feminismo” para proteger o neoliberalismo?” 

Encontraram os “direitos das mulheres”. Quem é que se vai opôr aos direitos das mulheres? Quem vai ser a favor de uma menina casar aos 12 anos? Só que essa filosofia é profundamente individualista. Permite que argumentos como “Israel protege os direitos queer e das mulheres” seja dito ao mesmo tempo que Israel mata dezenas de milhares de pessoas em Gaza. 

Esse feminismo foi interpretado como se a única forma de existir fosse através da liberdade individual: “Eu faço o que quero comigo mesma.” Mas o meu corpo não me pertence. Vivo numa sociedade. Se sou uma criança, se estou debilitada ou doente, não estou sozinha. Preciso de quem cuide de mim, de quem produza a minha comida, cultive o meu café, o abacate e o tomate. Além de individualista, é uma ideologia que nega a necessidade básica do ser humano de viver coletivamente.

Num debate recente sobre o aborto, em França, uma feminista famosa defendeu que uma mulher tem uma criança “quando ela quiser, se ela quiser”. Mas essa criança terá creche? Terá acesso a brinquedos, boas férias, boa alimentação, boa escola? Achar que tudo se prende à decisão individual é uma negação do mundo social em que vivemos.

“O feminismo ocidental ainda não realizou a sua própria revolução, diria eu. Toda a ideologia da emancipação — o marxismo, o comunismo, o socialismo — foi obrigada a olhar para si mesma através das críticas de pessoas do Sul Global, para rever o seu eurocentrismo.”

“Quem é que vai ser a favor de uma rapariga casar aos 12 anos?” Como é que uma perspetiva decolonial desafia isso, para resolver e desmontar essa realidade?

E também, talvez, para a compreender. Em algumas situações, os pais procuram casar uma criança porque não têm meios para a alimentar. “Vejam como estas pessoas são terríveis.” Mas qual foi o contexto que as levou a pensar que não havia mais nada que pudessem fazer? Uma ideologia individualista tem um ponto de vista cego perante as desigualdades e coloca a responsabilidade na pessoa: “Se quisesses, conseguias.”

O feminismo deve ser inerentemente anti-autoritário?

Sim. O feminismo ocidental ainda não realizou a sua própria revolução, diria eu. Toda a ideologia da emancipação — o marxismo, o comunismo, o socialismo — foi obrigada a olhar para si mesma através das críticas de pessoas do Sul Global, para rever o seu eurocentrismo. Sabemos que olhar para a noção de luta de classes a partir do Brasil ou do Líbano não é o mesmo que fazê-lo a partir da Alemanha ou de França. Houve uma luta de libertação nacional que tem de ser considerada. O mesmo acontece dentro da religião: no cristianismo, com a teologia da libertação, ou no islão, também se pode encontrar a fonte da emancipação. Mas os feminismos ocidentais têm resistido muito a fazer esse trabalho; apoiado por fundações internacionais, instituições e governos continua uma via universalista, civilizadora.

Explica por que razão, durante algum tempo, não se considerou feminista?

Desde muito cedo comecei a acompanhar a minha mãe — feminista, comunista e anticolonial — por todo o lado na ilha da Reunião, encontrando mulheres que trabalhavam nos campos de cana-de-açúcar, como empregadas domésticas… Para mim, a questão da libertação, nacional e anticolonial, era muito forte. Via aí mulheres negras muito fortes. O feminismo era uma palavra do Ocidente branco e burguês.

Decidi chamar-me feminista quando percebi a forma como o feminismo ocidental capturou os restantes e afirmou que era ser o verdadeiro. Há décadas que existe uma tradição de feminismos diversos na América do Sul, na Ásia, em África, e até no Ocidente com o feminismo marxista. Por isso, quis reapropriar-me do feminismo por que mulheres do Sul Global tanto lutaram e continuam a lutar; dizer que existe um movimento que é anti-imperialista, antirracista, anticapitalista e que, por causa disso, é antipatriarcal.

Em França, às vezes ouço jovens negras dizer: “Nós não somos feministas, isso é coisa de brancos”, o que nega uma tradição de feminismos dentro das comunidades negras no Brasil, nos Estados Unidos, em África… Para mim, assumir o feminismo também foi uma forma de os respeitar e reconhecer. Mas a verdade é que a contra corrente é muito forte: mesmo entre as feministas, não é fácil encontrar cá quem saiba o nome de duas ou três feministas da América do Sul, Central ou de África.

Capa do livro / DR

Escreveu o seu livro anterior sobre o que é e o que não é o feminismo decolonial em que acredita. Neste novo, procura formular o que é e o que não é a proteção numa sociedade decolonial?

Para mim, proteção é autodefesa. Organização autónoma de autodefesa por parte de comunidades oprimidas e exploradas, que não confiam no Estado, por ele mesmo ser um instrumento para as oprimir e encarcerar. Em França, as prisões estão cheias de homens jovens, na sua maioria homens negros. 

A resposta à violência é mais violência, mas só quando exercida pelo Estado se diz legítima. Se, por um lado, é certo que os Estados Unidos têm uma das maiores populações prisionais do mundo e continuam a ter uma sociedade muito violenta (com números altos de violações e feminicídios), por outro, não quero que nos concentremos apenas nos atos que chamamos crime, mas na violência quotidiana. As mulheres negras estão exaustas, stressadas, fatigadas, mal pagas pelo trabalho doméstico que fazem, tendo de enfrentar racismo todos os dias. No Sul Global, crianças nascem com menor esperança de vida, mais propensas a doenças. Há pessoas sem-abrigo. Pessoas que não conseguem comer três vezes por dia. França, um dos países mais ricos do mundo, tem hoje mais pobres do que há 20 anos. Tem estudantes que recorrem a bancos alimentares para comer. Isto não é violência?

A vida quotidiana sob o capitalismo é incrivelmente violenta. Estás constantemente cansado e stressado, não tens acesso a boa alimentação nem a bons medicamentos — “Os meus filhos conseguirão entrar numa boa escola? Terão apoio? Terei tempo para descansar? Tempo para ficar em silêncio? E, em vez de sonhar, de facto, viver?” Não, e isso é violência.

Quando imagina proteção e cuidado, pensa-as fora do Estado. Se a proteção não é garantida pelo Estado, como se assegura que seja, de alguma forma, equitativa?

Através da organização coletiva. Não vai ser completa nem resolver tudo, mas é possível encontrar instituições — movimentos, coletivos, sindicatos, partidos, associações — e espaços — uma livraria para as crianças, uma clínica para mulheres… Multiplicar os espaços onde as pessoas se sentem seguras, encontrem um lugar acolhedor e de camaradagem, até para descansar. O direito de ter capacidade para descansar faz parte dessa autoproteção.

“França, um dos países mais ricos do mundo, tem hoje mais pobres do que há 20 anos. Tem estudantes que recorrem a bancos alimentares para comer. Isto não é violência? A vida quotidiana sob o capitalismo é incrivelmente violenta.”

Isso não depende da sorte, do acaso ou da circunstância de se ter uma rede de apoio por perto?

Quando jovens me perguntam o que fazer, digo sempre que a organização coletiva é o primeiro passo: “Formem um grupo. Não fiquem sozinhos. O isolamento não vos vai ajudar. Aprendam a estar num coletivo.” Não é fácil; haverá conflitos. Mas também é preciso aprender a enfrentar os conflitos com alternativas à punição, à violência, gritos ou ameaças. Aprender a lidar com os nossos sentimentos de raiva ou de dor e a geri-los coletivamente. Fora disso, não vejo o que mais se possa fazer.

Nas raízes da sua posição contra o Estado está a ideia de que quando a esquerda política vê o direito penal e o sistema prisional como ferramenta de transformação social se está a colocar à direita. O que é um movimento feminista não preocupado com políticas de segurança?

É perigoso, porque acabará por apoiar leis repressivas e punitivas que, de qualquer forma, irão atingir desproporcionalmente homens e rapazes não brancos. A punição como forma de proteger a sociedade é, na realidade, uma proteção do seu mundo burguês.

Durante o julgamento de Gisèle Pelicot, que foi drogada e violada pelo marido e por homens que ele convidava, muitas feministas presentes para a apoiar e mostrar solidariedade levavam cartazes a pedir 20 anos de prisão para cada um dos acusados. Eu só conseguia pensar: “Elas alguma vez estiveram numa prisão?” Essa ideologia punitiva que supostamente protegerá toda a gente não corresponde à realidade. É desproporcional em quem encarcera e em quem iliba.

Capa do livro / DR

Em Portugal, há sociólogos prisionais que descrevem uma desproporção étnico-racial na área metropolitana de Lisboa, apontando, no conjunto do sistema prisional, para uma maioria de homens brancos, mais pobres e menos escolarizados do que a população em geral — sugerindo que classe, educação e apoio familiar são as principais distinções entre quem está dentro e fora da prisão.

Os homens não-brancos, sendo uma minoria, tendem a ser proporcionalmente mais visados. Claro que jovens homens brancos também são presos e há uma divisão de classe — e, até certo ponto, o processo de racialização pode estender-se a pessoas brancas.

Essa é a teoria do marxista negro Cedric Robinson: a Europa teve um processo de racialização antes da colonização, com as pessoas judaicas e ciganas, vistas como não brancas durante o processo de construção da Europa, não como espaço geográfico, mas como ideia. A Espanha foi o lugar onde a ideologia da pureza da branquitude foi elaborada e teorizada antes de chegar à Grã-Bretanha e à França. De facto, o processo de racialização está profundamente ligado à criação dos Estados-nação e da Europa como conceito. A ideia de Europa — especialmente da Europa Ocidental — é um conceito profundamente racializado desde o início.

Quando escreve sobre violência sexual contra mulheres — citando Mona Eltahawy, “quantos violadores precisamos de matar para que os homens deixem de violar mulheres?” — diz que o medo precisa de mudar de lado. Isso significa defender uma inversão da hierarquia?

Não. Temos de fazer com que o capitalismo racial tenha medo, não tanto que os homens tenham medo. Claro que podemos ser seduzidas por essa ideia. Quando era mais nova, tinha esta fantasia: “Vamos encurralar um ou dois.” Compreendo o desejo de vingança.

Que é tão punitivo ou retributivo como o sistema penal.

Sim, mas sei que isso não nos leva muito longe. O medo em que acredito é outro: penso que há uma contra-revolução global em curso produzida pelo pânico que as classes dominantes sentiram perante movimentos sociais em erupção nos últimos anos: Black Lives Matter, movimentos indígenas e feministas no México, Argentina, Chile, movimentos antifascistas em Itália e na Polónia, agricultores na Índia… Houve um desafio constante à economia neoliberal e ao Estado que se tornou servo dessa economia. Acredito que temos que continuar a provocar-lhes medo. E não subestimar a força que temos.

“Quando jovens me perguntam o que fazer, digo sempre que a organização coletiva é o primeiro passo: “Formem um grupo. Não fiquem sozinhos. O isolamento não vos vai ajudar. Aprendam a estar num coletivo.” Não é fácil; haverá conflitos.”

Escreve que “construir um mundo pacífico não implica passividade”. O que é uma violência política que considera legítima e o que pode ela alcançar?

Quando somos atacados, temos de nos defender. Isso é legítimo. Houve momentos em que não houve outra escolha senão pegar em armas para autoproteção — uma conversa pacífica à mesa deixa de ser uma opção quando tens aviões a lançar bombas lá fora, como nas lutas argelina ou vietnamita.

Vemos trabalhadores a usar a greve, a ocupação ou o ataque à administração para forçar a negociar. Feministas mexicanas a avançar sem medo da polícia. Movimentos semelhantes na Argentina, Chile, Brasil. A longa luta das comunidades indígenas na Índia. É uma luta prolongada que tenta e falha diferentes estratégias, do uso dos media aos tribunais, achando eu que a educação política e social é a mais fundamental.

Depois há a autodefesa comunitária: impedir um fascista de entrar num bairro, evitar que um senhorio expulse pessoas de uma casa, responder constantemente à brutalidade através da força coletiva. Isso será chamado de violência pelo poder, mas é apenas resistência. Pegar em armas foi justificado durante a escravatura e o colonialismo, porque o outro lado fazia tudo para proteger o seu poder. A certa altura é preciso empurrá-lo de lá.

O objetivo final desse uso da violência é desmontar a hierarquia do poder?

Não apenas a hierarquia, mas desmantelar o capitalismo. Mas não penso que isso aconteça de uma só vez, como a tomada da Bastilha. É uma luta longa. A Revolução Francesa também foi preparada através de discussão, organização, revolta e insurreição que permitiram chegar àquele momento em que, de facto, a monarquia pôde ser abolida.

Esse trabalho de desmantelamento significa também desnaturalizar o que parece natural — demonstrar como vivemos num mundo que é construído por forças sociais e que, por isso, poderia ser feito de outra forma. A autoridade, obediência e dependência são construídas por um desenho social. Poderia ser diferente e melhor. Trata-se de construir espaços de liberdade onde possamos viver a possibilidade de outro mundo. E isso não é uma fantasia.

Isso implica também reparações?

O capitalismo nunca pode reparar. As reparações que conseguirmos construir para que haja menos brutalidade, menos crueldade e relações de camaradagem virão com a abolição deste sistema. Porque todo o progresso foi conquistado através da luta. Tudo o que alcançámos foi quebrando esse peso constante da impossibilidade, do cansaço e da exploração, abrindo espaços onde podemos imaginar algo diferente — ou mesmo construir algo diferente em conjunto.

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