Entrevista. Héctor Abad Faciolince: “Se a história ensina que os poderosos ganham sempre, perde-se a esperança de que o futuro possa ser diferente”
Duas jovens, Anabell Sotelo Ramires e Maryna Marchuk, abrem uma nova editora, a Macondo, na Ucrânia, dedicada à publicação de obras ibero-americanas. Escrevem, portanto, ao autor colombiano Héctor Abad Faciolince, em 2019, a questionar se seria possível a publicação do seu livro “Somos o Esquecimento que Seremos” (2006/edição portuguesa em 2023) em ucraniano. O escritor fica sensibilizado e aceitou de imediato a proposta, a publicação e tradução do livro dedicado à memória do seu pai, Héctor Abad Gómez, médico especialista em saúde pública e activista de direitos humanos vítima de assassinato, em 1987.
Mais tarde, em 2023, Faciolince participa na Feira do Livro do Arsenal, em Kyiv, na Ucrânia, onde conhece a romancista e poeta Victoria Amelina, de Lviv. O grupo decide rumar a uma das cidades mais próximas da linha da frente e, num restaurante em Kramatorsk, sofre um atentado — o centro da cidade é atacado por um míssil russo com seiscentos quilos de explosivos — que vitima mortalmente Victoria Amelina com quem o autor tinha trocado de lugar previamente.

O livro “A Nossa Hora” (2025) é sobre isso mesmo. Entre o peso da memória e o peso do esquecimento, um mundo que nos faz crer que a força ganha sempre, uma América do Sul que resvala para a direita trumpista e onde pode residir, afinal, a beleza, o autor cedeu uma entrevista à Comunidade Cultura e Arte (CCA) aquando da sua passagem no festival Babell, em Junho. “Se a história ensina que os poderosos ganham sempre, perde-se a esperança de que o futuro possa ser diferente”, referiu o autor à CCA na entrevista que se segue.
Abelardo de la Espriella venceu as eleições na Colômbia há pouco tempo. Trata-se de uma direita apoiada também por Trump. Como olha para esta eleição e como explica este resultado?
Isto significa que uma onda de propaganda, de mentiras, de grosseria e de exageros chegou também à Colômbia. São eleições ganhas pelas redes sociais, não pela verdade, mas pelo insulto. Não pela boa preparação do candidato, mas pela sua grosseria. É algo, no entanto, que está a acontecer em todo o mundo. Ele não é muito diferente de quem o patrocina, Donald Trump. Se eles se entendem, por algo é. São pessoas para quem a democracia não importa muito mas que, no entanto, chegam ao poder. É também um castigo aos exageros e às loucuras de um governo de esquerda bastante delirante.
Olhamos para Trump como o símbolo de uma classe política decadente, imperialista, que choca com o seu discurso autoritário e sem filtros. Mas enquanto sul americano, choca-o este tipo de personagem ter surgido nos Estados Unidos, ou sente que há aqui algo parecido ao passado da América Latina com os Estados Unidos?
Penso que o primeiro personagem desse tipo era um italiano, Berlusconi. Assim como o primeiro personagem do fascismo era também um italiano, Mussolini, que foi o grande mestre de outros fascistas como Franco e Hitler. Também na América Latina houve fascistas desse tipo. Os italianos são muito inteligentes para inventar novas personagens e novas histórias. O colombiano é uma cópia de cópias. É uma cópia do empreendedor rico, mesmo que ele não seja tão rico, que acredita que é muito importante vestir-se bem, cortar o cabelo muito bem, e que isso é muito mais importante do que a preparação e a verdade. Na América Latina, sim, também há um precedente que se parece com ele, Bukele, Milei e Bolsonaro, mas este está mais próximo, acredito eu, a Berlusconi e a Trump.
“A verdadeira missão na vida não é triunfar, mas que de fracasso em fracasso podes alcançar algo. Se a única coisa que pretendes, no entanto, é o triunfo, então o fracasso derrota-te. Sou um especialista e defensor do fracasso. Como dizia Borges [Jorge Luis Borges], a derrota tem uma dignidade muito maior do que a vitória.”
Também estudou jornalismo. Naquela altura, o que é que o levou para essa área?
Estudei jornalismo porque tinha de ganhar a vida para ser escritor, mas não sabia como fazê-lo. Comecei, primeiro, por estudar filosofia porque pensei que podia ganhar a vida como professor; depois medicina, porque pensei que podia ganhar a vida como médico; e depois jornalismo. Finalmente, acabei apenas em literatura, porque percebi que não podia tomar outros caminhos para ganhar a vida. Era o único caminho verdadeiro, no meu caso: a escrita e a literatura. Tive que fracassar três vezes para encontrar o meu verdadeiro caminho.
É importante o fracasso?
O fracasso é muito importante.
Porquê?
O fracasso é a única coisa que te faz corrigir os teus erros, que te encaminha. A dor é uma grande mestra e o fracasso é uma espécie de dor. Além disso, ensina-te que a verdadeira missão na vida não é triunfar, mas que de fracasso em fracasso podes alcançar algo. Se a única coisa que pretendes, no entanto, é o triunfo, então o fracasso derrota-te. Sou um especialista e defensor do fracasso. Como dizia Borges [Jorge Luis Borges], a derrota tem uma dignidade muito maior do que a vitória.
No seu livro, “A nossa hora” começa por explicar, tendo em conta o ataque que presenciou na Ucrânia e que vitimou Victoria Amelina, a escritora que estava consigo na altura, que escrever este livro não é uma forma de terapia, doi mexer na ferida. Porquê então escrevê-lo?
A primeira tentação era fazer o possível para esquecer, o que para mim era muito fácil. Sou um especialista em esquecimento. Mas, ao mesmo tempo, sentia a obrigação e a responsabilidade de não esquecer. Escrevi para poder esquecer, para me lembrar intensamente durante um tempo, mas ao invés de uma terapia, fazer um esforço de dor e de doença para, depois de ter escrito, dedicar-me ao que eu realmente quero e espero, que é poder esquecer o horror, as experiências mais horríveis da minha vida. Acho que me esqueço tanto para me curar da memória. Realmente, a memória pode ser uma grande doença. Muita memória é uma doença.

Acha que sim? Quando temos muita memória sofremos mais?
Penso que sim. Muita memória é uma doença. Claro que no mundo há muitas coisas lindas e é magnífico lembrá-las, mas erramos tanto, há tantos erros, tanta dor, tantos terremotos como o de há dias em Caracas, que com uma memória permanentemente viva dos erros do mundo não seríamos capazes de sermos otimistas. Somente aqueles que conseguem esquecer os erros do mundo — os naturais e os não naturais, os humanos e os políticos — é que podem conservar o otimismo. Sem otimismo não teríamos mais filhos e os seres humanos desapareceriam.
Acha importante mantermos, então, uma certa ingenuidade para suportarmos as coisas?
Sim, considero importante. Por exemplo, acho que as crianças deixam de ser crianças quando começam a ter a memória consciente do que já viveram. As primeiras memórias conscientes de quase todos nós são as dos quatro ou cinco anos, no entanto, penso que a vida mais bela é a das crianças que já falam, caminham, riem, beijam e abraçam, mas que ainda não têm a memória presente. Essa vida quase animal, talvez, e sem memória, é o momento mais mágico e extraordinário da nossa existência, mas não perdura, acaba rápido. A vida sem memória consciente dura apenas três ou quatro anos. Depois começamos a lembrar-nos e tudo se torna uma tortura.
“Acho que me esqueço tanto para me curar da memória. Realmente, a memória pode ser uma grande doença. Muita memória é uma doença.”
Voltando ao jornalismo. O jornalismo, hoje em dia, tem uma importância maior?
Tem muita importância, mas já não importa a ninguém. É um grande paradoxo. Quando mais precisamos de jornalistas que façam trabalho de campo, que vejam, que testemunhem, que digam a verdade, que sejam responsáveis, que tenham um compromisso com o que relatam, não há quem lhes pague. É uma profissão em risco que está a ser substituída pelas redes sociais e digamos que esse trabalho — que sempre foi importante, mas agora é ainda mais importante — está em risco e mergulhou numa crise ainda mais grave. Ninguém quer pagar para ler notícias bem investigadas, bem feitas e que defendam a verdade. Como não querem pagar a esses jornalistas, estamos a alimentar-nos de raiva, de mentiras, de ataques, de vulgaridade e de ignorância. É terrível.
Acha, então, que o jornalismo está a ser abandonado?
Sim, o jornalismo está em agonia tal como as enciclopédias. Penso que a Inteligência Artificial (IA) e os conhecimentos coletivos estão a ser registrados em cérebros não humanos e não sabemos para onde caminhamos nem o que vai acontecer ao certo. Estamos num momento muito estranho da história que se assemelha à era da invenção da escrita. Antes da escrita, só podíamos utilizar a memória, depois da escrita, o que ficava escrito era mais importante do que a memória. Posteriormente veio, então, a invenção da imprensa, que tornou mais fácil a disseminação e divulgação da memória e do conhecimento. Mas agora, com a inteligência artificial, não sei o que vai acontecer. É tudo muito diferente e não entendo. Sinto que já não sou capaz de seguir o ritmo do mundo. Já sou velho para entender. Sou como um velho que tem uma boa memória, mas que vê que a sua memória não é necessária porque alguém inventou a escrita. Assim me sinto eu. Acredito que o meu pensamento não é necessário porque as pessoas inventaram um tipo de pensamento que não funciona como o pensamento humano e não sabemos como vai funcionar.

Mas não é próprio dos seres humanos quererem registar a sua memória?
Sim, é próprio dos seres humanos. Talvez estejamos a depositar nas máquinas a nossa memória com o intento de sermos imortais. Talvez um dia, quando a Terra aquecer tanto a ponto de nos extinguir como máquinas de carne e células, outras civilizações possam entender o que fomos através de alguma coisa que não será destruída pelo calor, tal como a IA. Mas também duvido disso porque a IA precisa de imensa água e isso faz com que o planeta aqueça mais e mais. Talvez, por isso, este nosso intento de preservar a memória, não em livros, mas em chips, esteja condenado também ao fracasso.
Uma das justificações para a publicação do livro “Somos o Esquecimento que Seremos” na Ucrânia, dada pelas jovens editoras, foi a seguinte: “Ontem acabei de ler o seu livro “Somos o Esquecimento que Seremos” e ocorreu-me de imediato a ideia de o publicar aqui, na Ucrânia. É uma história que, do meu ponto de vista, representa tanta humanidade e carinho, que os ucranianos têm de ter acesso à sua leitura, especialmente agora”. Isto foi dito por uma das editoras. Apesar de serem tão distintos, com realidades diferentes, pode haver aqui, de facto, uma união entre povos?
Os povos ucraniano e colombiano são muito diferentes. O que há de verdade nisto é que os seres humanos de qualquer parte do planeta, até aqueles que vivem nos antípodas, os que falam as línguas mais diferentes — todos — têm a possibilidade de traduzir a língua e o pensamento a essas outras culturas. Não acho que haja nada em particular que una a história da Colômbia com a da Ucrânia. A Colômbia, por exemplo, não tem, praticamente, nenhuma experiência de invasões de países estrangeiros. A geografia é totalmente distinta. A Ucrânia é uma grande floresta plana, sem nenhum acidente geográfico. Por isso, foram invadidos. A Colômbia, ao contrário, é um país cheio de acidentes geográficos insuperáveis: selvas, oceanos, rios imensos e cordilheiras enormes. Geográfica e socialmente, a forma de ser é culturalmente muito distinta mas, apesar de todas essas diferenças, entendemo-nos muito bem. Se leio um poeta ucraniano ou se eu leio a Victoria Melina, podemos entender-nos muito bem. Não acho que seja necessário existirem parecenças históricas, geográficas ou partilha de experiências. Basta sermos simplesmente humanos. Só isso explica que, sendo tão distintos, nos entendamos.
“As primeiras memórias conscientes de quase todos nós são as dos quatro ou cinco anos, no entanto, penso que a vida mais bela é a das crianças que já falam, caminham, riem, beijam e abraçam, mas que ainda não têm a memória presente. (…) A vida sem memória consciente dura apenas três ou quatro anos. Depois começamos a lembrar-nos e tudo se torna uma tortura.”
O livro “Somos o Esquecimento que Seremos” parte de uma base real, o seu pai. Mas é possível escrever algo completamente ficcional ou tem de haver, sempre, uma base real para a literatura, mesmo quando parece ser ficcionada?
Para se escrever algo completamente fantástico e que seja totalmente distante da experiência, tem de se ser um génio como Borges. Borges é capaz de transformar a sua experiência em algo totalmente fantástico e que nunca reconhecemos como baseado numa experiência real. Sou exatamente o contrário do génio capaz de inventar e produzir histórias fantásticas. Tenho de ter a base da experiência e o intento de escrever a verdade e o testemunho a partir da experiência.
Gostaria de ter essa qualidade de poder ser um escritor de literatura fantástica que esconde e camufla toda a sua experiência em histórias irreais e que parecem não ter nenhum contato com a realidade. Desgraçadamente, não tenho esse talento, essas qualidades, e tenho sempre de escrever a partir da experiência. Mas é claro que é possível fazer isso com a fantasia, se formos um génio. Como não sou um génio, tenho de usar a realidade.
Diz muitas vezes, em várias entrevistas, que não tem a coragem do seu pai, que apenas conta histórias. Mas o ato de contar uma história não é, em si, um ato de coragem?
Não tenho coragem na vida, mas sim, tenho coragem para escrever, é o único ato de coragem que tenho. A minha única valentia é a escrita, talvez por isso me dedique a isso. No mundo real sou um covarde, não sou capaz de dizer a uma mulher do que gosto ou o que quero, mas ao escrever posso dizer tudo, apenas escrevendo, vivendo não. Essa é a minha única valentia, a minha coragem é escrever, mas o fundamental num homem é a coragem da ação e essa não a tenho. A verdadeira valentia é a ação, não a escrita. Houve quem morresse por aquilo que escreveu, mas são necessários muitos passos para que isso ocorra. O que não é verdadeiramente covarde é morrer na batalha a lutar, e isso não sou capaz de fazê-lo.
“O jornalismo tem muita importância, mas já não importa a ninguém. É um grande paradoxo. Quando mais precisamos de jornalistas que façam trabalho de campo, que vejam, que testemunhem, que digam a verdade, que sejam responsáveis, que tenham um compromisso com o que relatam, não há quem lhes pague. É uma profissão em risco que está a ser substituída pelas redes sociais (…). Ninguém quer pagar para ler notícias bem investigadas, bem feitas e que defendam a verdade. Como não querem pagar a esses jornalistas, estamos a alimentar-nos de raiva, de mentiras, de ataques, de vulgaridade e de ignorância. É terrível.”
Não foi também um ato de coragem daquelas jovens da Ucrânia avançarem com uma editora e publicarem o seu livro em ucraniano?
Mas criar uma editoria não são palavras. Criaria uma editora no papel. Faria algumas personagens que inventariam uma editoria e, isso, não custa dinheiro, não custa esforço, não custa nada, é puro palavreado. Já elas fizeram a editoria com ações e isso requer muita coragem. Estão a contribuir para a afirmação de uma língua que sempre foi discriminada pelos russos, uma vez que tentaram convencê-los de que o ucraniano era apenas um dialeto russo. Elas tiveram a coragem de defender o seu país na sua língua e de criar uma editoria real de livros, de coisas concretas feitas de papel e de palavras.
O jornalismo também se faz com palavras, faladas ou escritas. Não é um acto de coragem?
Mas o jornalista tem de ir e ver. O meu lema no jornalismo é o seguinte: “Se não se vai, não se vê. Há que ir e ver.” É aí que reside a coragem principal do jornalista: ir, ver, e depois contar através da oralidade, da escrita ou vídeo.
“Somos o Esquecimento que Seremos” e “A Nossa Hora” são ambos livros que partem de uma base real. Experimentou desconfortos semelhantes ao escrevê-los ou foram experiências distintas?
Escrever “A Nossa Hora” e “Somos o Esquecimento que Seremos” foi muito diferente. “Somos o Esquecimento que Seremos” escrevi a frio, quase 20 anos depois dos acontecimentos ou mais, uma vez que começo a contar desde a minha infância. São factos dos anos 60 que escrevo quase 50 anos depois. No caso da Ucrânia, escrevo a quente, imediatamente depois do que aconteceu, antes do esquecimento fazer o seu trabalho. No primeiro livro, não podia esquecer e tinha de escrever, no segundo era muito fácil esquecer e tinha de escrever para não esquecer. No primeiro, já depois da escrita, pude esquecer e muitas coisas eu esqueci. No segundo também: depois de escrita, já pude esquecer e começo a esquecer, apesar de ter passado pouco tempo, apenas três anos do atentado de Kramatorsk.
Pesa mais ficar com a memória ou perder a memória? Neste sentido, a memória pesa muito?
Perder a memória não pesa nada, perder a memória purifica. A minha memória é como uma caixa pesada da qual vou tirando roupa, livros, lápis, água. A palavra peso está aí muito bem, o que pesa mais. A má memória que esqueço é um desvanecimento, é como flutuar no ar como um pássaro.
“A Inteligência Artificial (IA) e os conhecimentos coletivos estão a ser registrados em cérebros não humanos e não sabemos para onde caminhamos nem o que vai acontecer ao certo. Estamos num momento muito estranho da história que se assemelha à era da invenção da escrita. Antes da escrita, só podíamos utilizar a memória, depois da escrita, o que ficava escrito era mais importante do que a memória. Posteriormente veio, então, a invenção da imprensa, que tornou mais fácil a disseminação e divulgação da memória e do conhecimento. Mas agora, com a inteligência artificial, não sei o que vai acontecer. É tudo muito diferente e não entendo. Sinto que já não sou capaz de seguir o ritmo do mundo.”
Estamos outra vez na era dos homens fortes liderados por Trump, Putin. Como olha para estas novas ondas de conservadorismo?
Acho que os chamados “homens fortes” querem e estão a conseguir ficar na moda novamente: os de peito cheio, os que gritam, são arrogantes e violentos, tal como Putin e antes Mussolini e Hitler. Renasceu agora um tipo de homens desagradável, machista e racista, tal como Trump. Para a desgraça do mundo, os homens fortes estão outra vez na moda. Parece uma tragédia para o mundo que estava, felizmente, a feminizar-se e, agora, está a masculinizar-se de uma maneira assustadora. É uma tragédia. Os homens, finalmente, começaram a entender que era muito melhor um mundo sem as atitudes tradicionais e “naturais” — assim se diz, mesmo que não sejam verdadeiras — de homens retratados como mais fortes que as mulheres. Desgraçadamente, estamos a voltar ao que pensávamos que já tínhamos superado. Mas ainda estamos em guerra. Os homens “frágeis” estão em guerra contra os homens “fortes”. Acho que uma união entre homens “frágeis” e mulheres ainda pode triunfar pacificamente.
Ainda há esperança?
Sim. Como me esqueço dos horrores, tenho esperança. Para termos esperança, temos de esquecer as coisas horríveis que acontecem. Temos de ter presente o que aconteceu, mas esquecer que os poderosos ganham sempre. Se a história ensina que os poderosos ganham sempre, perde-se a esperança de que o futuro possa ser diferente e que, no final, a debilidade, a justiça, a beleza e a verdade podem triunfar. Mas isso só acontece se perdermos o medo, por excesso de memória, dos homens fortes. Temos de esquecer que os homens fortes ganham sempre. Não, não ganham sempre. Não é por no passado isso ter acontecido, que tem de acontecer no futuro.
“Pobre do escritor burguês ou rico que apenas convive com burgueses e ricos: não têm nada para contar. Têm uma vida muito monótona, em que só se pensa no luxo e no dinheiro. Se alguém quiser contar algo mais interessante, tem de sair e ouvir as pessoas o tempo todo. Ter muitos ouvidos, muitos olhos, e não apenas leituras. Leio muito, mas interessam-me mais a audição e a visão do mundo do que qualquer outra coisa.”
O problema é que estão a influenciar os jovens e as crianças.
Nos diálogos de Platão, de Górgias, há uma grande discussão entre Sócrates e Calícles. Calícles defende que a única coisa importante é a força e que a força tem sempre razão: a verdade, a justiça e a beleza não importam para nada. Sócrates defende, ao contrário, que são a verdade, a justiça e a beleza que vão acabar por vencer. Quase ninguém se lembra de Cálicles, mas toda a gente se lembra de Sócrates. Até eu, que defendo o esquecimento, acredito que Sócrates, no final, vai ganhar. Esta guerra perdida, vai ganhá-la Sócrates que era um grande mestre da oralidade. Nunca escrevia nada. Não lhe interessava que a sua sabedoria ficasse no papel, porque não lhe interessava tanto a memória, a sua obra pessoal. Platão escreveu por ele porque era mais vaidoso, mas se não o fizesse, a voz de Sócrates estaria somente no vento, que é onde sempre está. Acredito que há no ser humano, mesmo sem ler, um Sócrates no ar. É o que na Bíblia se chama o espírito que sopra para onde quer. Sou ateu, mas há um espírito nos homens que sopra para onde quer e que está aqui e diz-nos ao ouvido: que a verdade, a justiça e a beleza vão derrotar a força.
“A minha coragem é escrever, mas o fundamental num homem é a coragem da ação e essa não a tenho. A verdadeira valentia é a ação, não a escrita. Houve quem morresse por aquilo que escreveu, mas são necessários muitos passos para que isso ocorra. O que não é verdadeiramente covarde é morrer na batalha a lutar, e isso não sou capaz de fazê-lo.”
A beleza não é também um tipo de força e resistência?
A beleza é a maior força que existe, porque a beleza transmite e gera amor.
Mas lá está, durante muito tempo na história olhámos para essas características, como a beleza e sensibilidade como sinónimos de fraqueza.
A beleza, o ser-se gentil. A beleza não é algo tão evidente. A verdadeira beleza não está só nos olhos, está em muitas partes. É necessária uma sensibilidade muito especial para descobrir a beleza que não é só ocular, a beleza ideal das estátuas gregas. Também é uma representação da beleza, mas não é só isso. Sócrates era horrivelmente feio, não obstante, era um grande apaixonado e um grande defensor da beleza. Entendemos a beleza graças a esse homem fisicamente feio que foi Sócrates.
O que o levou a querer escrever?
Acho que por amor ao meu pai e aos meus filhos. Ele acreditava e queria que fosse escritor e gosto de satisfazê-lo. Não tenho confiança em mim, nem na minha escrita nem na beleza da minha escrita. Mas o meu pai tinha confiança em mim e na beleza da minha escrita. Eu não acredito, mas ele acredita e quero dar-lhe o gosto. Quero estar de acordo com ele e não comigo. A leitura começa sempre pelo ouvido, pelas orelhas, literalmente, porque te leem ou porque te contam histórias. Começas a ler quando te contam histórias familiares, quando te recitam um poema de memória, quando te leem um livro ou um conto. Ler é decifrar palavras mudas na escrita, mas também é ouvir palavras. De alguma forma, é traduzir para o pensamento as palavras.
As palavras são a coisa mais misteriosa que existe, transformam-se em ideias e é muito estranho. É muito fácil acreditar que cadeira ou mão são palavras simples porque são coisas que conseguimos sinalizar, mas não podemos apontar para a beleza e para a justiça. As palavras abstratas não são deíticas, coisas que consigamos indicar com o dedo. Temos de entender e traduzir essas palavras quando lemos e ouvimos o que nos lêem ou contam. É nesse momento que nos tornamos um leitor, um escritor, uma pessoa que ouve o outro.
Os sons das palavras também podem activar ou influenciar a memória.
É muito estranho como cada língua, com ruídos diferentes, com sons diferentes, são capazes de chegar ao mesmo.
“Os homens “frágeis” estão em guerra contra os homens “fortes”. Acho que uma união entre homens “frágeis” e mulheres ainda pode triunfar pacificamente.”
A literatura oral, as histórias que se contam, foram muito importantes para certas classes sociais mais baixas que não tiveram oportunidade de estudar, de ter acesso a livros físicos. Mas é muito interessante que essas mesmas classes conseguiram criar a sua cultura popular que foi transmitindo de geração em geração.
O ser humano, o Homo sapiens sapiens, tem uns duzentos mil ou trezentos mil anos. A escrita só existe, portanto, há quatro mil e quinhentos ou há cinco mil anos. Então, antes, durante muito tempo, todas as classes eram populares e transmitiam cultura, somente, através de contos orais ou o que hoje se chama literatura popular. Assim se transmitia o conhecimento e se construiu a cultura humana. A anomalia, o estranho, é a escrita. A escrita é muito estranha.
Antes comunicávamos sempre com sons, mas são apenas um sucedâneo da voz. Já as palavras escritas são palavras mudas, mas são cópias dos sons da fala. Simplesmente duram mais tempo, não são levadas pelo vento, podemos repeti-las, voltar a lê-las e fixá-las.
Mas, por exemplo, Sócrates nunca escreveu nada, Cristo escreveu apenas três palavras na areia. A grande cultura sempre foi transmitida oralmente. E, claro, pobre do escritor burguês ou rico que apenas convive com burgueses e ricos: não têm nada para contar. Têm uma vida muito monótona, em que só se pensa no luxo e no dinheiro. Se alguém quiser contar algo mais interessante, tem de sair e ouvir as pessoas o tempo todo. Ter muitos ouvidos, muitos olhos, e não apenas leituras. Leio muito, mas interessam-me mais a audição e a visão do mundo do que qualquer outra coisa.
Mas isto também nos diz que o ser humano sempre teve necessidade de arte.
Se não houver beleza, riso, humor, ironia e inteligência, essas palavras são levadas pelo vento e pronto. Em contrapartida, se houver beleza, inteligência, aquilo a que chamamos arte, então essas palavras ficam, de facto, na memória.
Todos precisam de arte, de beleza, mas isso não tem nada a ver com a classe social nem com qualquer outra coisa. Para que alguma coisa permaneça connosco, eu, que sou contra a memória, para que consigas recordar alguma coisa, ela tem de ter uma beleza muito especial. Caso contrário, esqueceste, tudo se esquece. A maior parte das coisas que vivemos esquecemo-las e voltamos a esquecê-las.
