Entrevista. Helena Freitas: “Se há coisa que a Ecologia nos ensina é exatamente isto: somos todos diferentes” 

por José Malta,    19 Junho, 2026
Entrevista. Helena Freitas: “Se há coisa que a Ecologia nos ensina é exatamente isto: somos todos diferentes” 
Helena Freitas / Fotografia de Rui André Soares – CCA
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Helena Freitas formou-se em Biologia pela Universidade de Coimbra e doutorou-se em 1993 em Ecologia, no ramo de Taxonomia e Ecologia Vegetal, pela mesma universidade, em colaboração com a Universidade de Bielefeld, na Alemanha. Passou também por Stanford, nos Estados Unidos da América, onde realizou o pós-doutoramento entre 1994 e 1995. É autora de mais de 300 publicações em revistas internacionais, foi fundadora da Sociedade Portuguesa de Ecologia, Presidente da Liga para a Proteção da Natureza entre 1999 e 2002,  foi também a primeira Provedora do Ambiente e Qualidade de Vida de Coimbra (2002-2005), continuando a liderar diversas iniciativas científicas e institucionais ligadas à biodiversidade e ao desenvolvimento sustentável.

É coordenadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE), diretora do Parque de Serralves, titular da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e representante de Portugal no IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre a Biodiversidade e os Serviços Ecossistémicos ) e no ICC-Mab (International Coordinating Council of the Man and the Biosphere Programme) da UNESCO. Teve uma curta passagem como deputada na Assembleia da República entre 2015 e 2016, continuando a ser presença assídua em iniciativas de cidadania desde o âmbito local até ao internacional. Foi distinguida com o Grande Prémio Ciência Viva 2025, devido ao seu contributo pioneiro na Ecologia e na biodiversidade, bem como na promoção da cultura científica em Portugal. Recebeu-nos no passado dia 20 de Maio no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, espaço do qual foi responsável entre 2004 e 2012, e que considera ainda hoje como um dos seus locais de eleição.

Estamos perante este espaço magnífico do Jardim Botânico, um laboratório vivo, já com mais de 250 anos, e que dirigiu durante oito anos. Este acaba por ser um lugar inspirador para os habitantes da cidade de Coimbra, mas também para quem vem estudar para Coimbra, independentemente da sua área. Como é que foi dirigir este espaço e que importância é que teve para si, visto que a sua formação base foi em Biologia, aqui em Coimbra?

De facto, estamos aqui, naquele que às vezes ainda chamo, entre amigos, como “o meu jardim”. Em 2003, passei à categoria de professora de Catedrática, e na altura fiquei com a responsabilidade do Departamento de Botânica, que integrava também o Jardim Botânico. Por isso, parte dessa minha função seria também fazer a gestão do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Esta era uma componente do Departamento da Área da Botânica, muito ligada também à história das áreas do saber e da Universidade de Coimbra. Fiquei também com essa missão de dirigir o Jardim que, desde o princípio, para mim, foi um privilégio imenso. Percebi rapidamente que tinha a oportunidade de fazer um projeto que era também um projeto de cidade e um projeto de universidade. Talvez agora já esteja esquecido, mas o Jardim Botânico esteve durante décadas fechado, sobretudo a parte da mata. O Jardim tem cerca de 13 hectares no conjunto, nove dos quais são mata. Este espaço estava completamente fechado e era quase um segredo dos deuses, diria mesmo que era quase até tabu. Este era realmente um espaço que não era visitado.

Entendi que era absolutamente fundamental que se abrisse o Jardim à cidade e às pessoas. Realmente, toda a gente que aqui estudou conhece o Jardim. É um espaço notável, é um espaço que atravessamos todos os dias com imenso gosto. É deslumbrante pela sua diversidade e pela sua beleza estética também. Rapidamente abracei também essa missão de tentar que, desde logo, o abríssemos e o requalificássemos. Na primeira oportunidade que tive de candidatar um projeto sobre estes assuntos estruturais, aqui na região, esse projeto contou com o apoio da Agência Nacional de Ciência Viva, pois pensei que devia de ter uma componente de educação de ciência importante. Fizemo-lo na altura, e tive que o abordar e estruturar. Para mim, sempre foi pensado como elo de uma iniciativa mais transversal à cidade. Também contou com o apoio de uma colega arquiteta paisagista de Lisboa. Pensámos um pouco no programa LINK, que visava fazer uma ligação entre vários núcleos da cidade e, portanto, fazer este projeto era também estruturante nessa perspectiva da cidade. Era necessário que a reitoria e a Câmara Municipal reconhecessem essa prioridade. Não foi assim entendido e tive que abordar essa oportunidade, centrando-me no Jardim. Por isso, as narrativas que fomos buscar foram essas: a educação e a ciência. E fizemo-lo logo na primeira oportunidade.

Deixei a direção em 2012, porque passei a ser vice-reitora da Universidade de Coimbra. Mas, nessa condição, só o seria desde que assumisse a responsabilidade pela estruturação do Jardim Botânico. Foi assim que fizemos e conseguimos realmente os apoios que permitiram a realização plena do Jardim, algo que foi extremamente importante. Na continuidade, nós tivemos o apoio da Câmara para abrir a totalidade do espaço, e conseguimos que também participasse na abertura desse espaço da mata. Para mim, foi um grande privilégio gerir este espaço, e é um privilégio para toda a gente. É muito gratificante perceber que hoje está em belíssimas mãos. Tem uma direção fantástica e há todo um empenho em continuar a dignificar a botânica e a ciência. O Jardim Botânico não é apenas um parque urbano da cidade. O Jardim tem uma missão na ciência botânica que é a promoção de um conjunto de áreas disciplinares que visam promover a ciência da vegetação, a ciência das plantas. Senti que era muito importante que percebêssemos a importância das plantas para a biodiversidade, para os ecossistemas, para o funcionamento da vida, mas os apoios não eram tão claros como felizmente agora são. Então, esse foi, de facto, uma parte muito significativa, muito gratificante da minha vida. E esse foi então o meu grande contributo para a Universidade e para a cidade. 

Helena Freitas / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Apesar desta sua ligação à Botânica, o seu doutoramento foi em Ecologia, que, de certo modo, acaba por estudar a relação entre os seres vivos e o ambiente onde vivem. Começou o seu doutoramento no romper da década de 90, quando já era evidente que havia problemas nos ecossistemas que estavam a ser degradados. Foi este fator que a levou a enveredar pela Ecologia, ou foi algo que tinha descoberto já durante os primeiros anos de estudante? 

Não. Sempre tive esse fascínio. Sempre quis conhecer o metabolismo da vida e interpelou-me sempre perceber esse funcionamento. Fundei a Sociedade Portuguesa de Ecologia, também em meados dos anos 90. Nós hoje temos, por exemplo, a Sociedade Americana de Ecologia ou a Britânica que já contam com mais de 100 anos. A nossa é realmente recente. Mas tive esse entusiasmo por perceber o funcionamento da vida e, para mim, foi uma opção clara a da Ecologia. Apesar do meu fascínio pelas plantas, nunca quis ser taxonomista.

Na altura não tinha essa oportunidade de optar por uma Ecologia mais de base vegetal, porque não tinha esse apoio académico em Coimbra. Por isso, tive que procurar lá fora. Tive alguns apoios, claro, sobretudo da parte da taxonomia. Mas sempre foi muito claro para mim que o meu objetivo era perceber o funcionamento da vida, estudar as plantas, os micro-organismos, os consumidores, os herbívoros, a vida… E, mais do que isso, também entendi que as comunidades humanas tinham que fazer parte desta equação. Muitas vezes até me indignava quando perguntavam se um ecólogo era um cientista que estudava os passarinhos e as plantas [risos]. Sempre foi, para mim, muito claro que nós tínhamos que trazer essas comunidades, entender a relação entre o desenvolvimento, a prosperidade, a economia social e a conservação dos ecossistemas. Isso, para mim, era o grande desafio.

Nos anos 90, já estava a fazer o meu pós-doutoramento e fui orientada para estudar o efeito do CO2 [dióxido de carbono] elevado nos ecossistemas mediterrânicos. Era algo que tinha a ver com a fisiologia dos ecossistemas, sobre as ligações do metabolismo do ecossistema. Era também nessa lógica de tentar perceber como é que era possível assegurar o conjunto de bens e serviços que os ecossistemas prestam, num quadro de grande pressão que já se começava a sentir. A Rachel Carson, nos anos 60, já tinha dito com toda a clareza que na natureza nada existe sozinho. Havia já uma série muito ampla de demonstrações em muitos níveis, especialmente na dimensão mais urbana, que os conflitos começavam a ser evidentes, sobretudo na poluição. Esta é uma área que hoje tendemos a esquecer, essa crise. Mas é absolutamente dramática. 

A Ecologia parece, na perceção pública, muito agarrada ao estudo da relação entre o ambiente e os organismos vivos. Mas é muito mais do que isso. É compreendermos também aquilo a que chamamos de socioecologia. Acho que é isso que nos deve interpelar no futuro. Há uma convergência de agendas que é bastante interessante perceber, que é galvanizadora e que nos deve entusiasmar. Sobretudo, quem também está na ciência deve perceber isso melhor que ninguém. Mas foi assim. A Ecologia foi, para mim, realmente sempre a minha escola. 

Se olharmos para o passado, depois da Segunda Guerra Mundial houve a chamada explosão demográfica, que levou a que houvesse uma enorme busca por recursos de forma absolutamente efusiva, a uma expansão das cidades, a um aumento da produção agrícola e industrial que acabaram por conduzir à situação em que nos encontramos hoje. Alguns especialistas dizem que já estamos no Antropoceno, ou seja, naquela fase em que a ação humana predomina sobre todas as restantes causas das alterações do clima no nosso planeta. Apesar da urgência na busca de recursos e do aumento da produção industrial, seria possível, na altura, evitar que chegássemos a esta situação? Ou era algo inevitável? 

Penso que teria sido possível, mas o tempo da vida humana é o que é. Penso que nos anos 70, particularmente com o tratado de Roma, que essa perceção também resultou um pouco da década anterior, a perceção da degradação dos sistemas vivos. No espaço urbano, esta conceitualidade percebia-se. E nos restantes sistemas em geral, como com a produção alimentar. Há, de facto, essa relação verde e também uma conjunção de agendas que torna muito clara que existia essa transformação. Nos anos 70, criaram-se movimentos importantes onde havia uma discussão ampla e muita ligação entre a saúde e o ambiente. Hoje voltamos a falar num anel [donut] de saúde planetária, da saúde global, como se fosse uma agenda nova. Nos anos 70 estávamos exatamente aí, a falar sobre isto e havia essa evidência. Penso que também o difícil foi instalar um conjunto de modelos de governação que permitiam olhar para esses problemas de uma perspetiva global. O movimento que é gerado nos anos 60, que conta com a comunidade científica e também muitos ativistas, tem alguma capacidade mobilizadora. No plano de organização, surgem órgãos nas Nações Unidas, como UNEP [Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente] e outros organismos começam a ser progressivamente criados. Há aqui também a oportunidade de desenvolver a fundamentação técnico-científica que a própria sociedade começa a exigir. 

A ciência também começa a ter um papel mais presente, há uma maior necessidade de fundamentar a decisão. A ciência aparece também muito nesta perspectiva. Diria que, apesar das evidências, talvez não tivéssemos ainda essa capacidade de uma resposta global. Isto é, saber porque é que temos realmente de agir, porque os problemas ambientais têm essa característica que é o de serem problemas globais. Mas vale a pena mencionar que, nos anos 80, com a questão dos CFCs [Clorofluorcarbonetos], houve um momento muito interessante em que houve uma mobilização pela perceção do problema global. Penso que a questão climática não surge com a mesma força porque também choca diretamente com um lobby fortíssimo dos combustíveis, do petróleo, e de outros carbonetos. Mais uma vez, nos anos 70, durante a crise do petróleo tivemos ali uma oportunidade e até se investiram um pouco em energias alternativas mas nada consistente o suficiente para garantir uma agenda política global que nos transportasse para um outro momento. Talvez por isso, infelizmente, demorámos demasiado tempo. A crise da biodiversidade, nessa altura, não é de todo percebida da mesma forma. Só começamos a ter os primeiros sinais, diria com a década de 70, 80, onde se anuncia o colapso dos ecossistemas. Mas essa é, de facto, uma crise posterior.

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra / Fotografia de Rui André Soares – CCA

As alterações climáticas hoje são uma evidência. Charles Darwin quando escreveu a “Origem das Espécies” e descreveu a chamada “luta pela sobrevivência” disse que as alterações do clima provocavam a mais renhida luta entre espécies, seja de mesmos indivíduos ou de indivíduos diferentes, pela questão do alimento. Isto, em 1859, quando ainda não se falava de alterações climáticas. Tendo em conta os cenários a que temos assistido, nomeadamente os incêndios e as tempestades atípicas, estes acontecimentos têm mostrado que somos uma espécie cada vez mais vulnerável às alterações climáticas e que isso irá criar cada vez mais disrupções sociais no nosso caso?

Antes de responder exatamente à questão, não posso desperdiçar a oportunidade de convocar aqui o Júlio Henriques que foi diretor do Jardim Botânico entre 1878 e 1918, e que foi um homem notável e vocal. Foi diretor deste jardim durante 40 anos e fez algo de extraordinário. Em 1865, poucos anos depois da publicação da “Origem das Espécies” do Charles Darwin, o Júlio Henriques trouxe o darwinismo para as universidades portugueses, sendo ele um botânico. O que é curioso! Foi o primeiro [em Portugal] a discutir e a debater o tema de “serão as espécies mutáveis?”, o que é muito interessante. Encontraremos seguramente várias narrativas científicas fortes em momentos diferentes chamaram a atenção para problemas e processos que não estávamos na altura a conseguir perceber e precisávamos de reestruturar do ponto de vista mais cognitivo. Gostava de o mencionar porque é uma figura absolutamente notável da nossa história científica para que não tendamos a esquecer estas personagens. Estamos aqui também perante uma estufa que ele próprio iniciou, acabando por dar também uma certa projeção internacional à ciência portuguesa. Foi um grande mentor. Trouxe e percebeu a relevância desse momento da história, naquilo que nós pensávamos ser o processo da evolução. 

Respondendo à sua questão, claramente. É preciso também entender que nós, de facto, somos uma espécie relativamente recente no quadro da evolução das espécies. As espécies têm de facto um processo evolutivo mais longo, têm os seus processos de adaptação. Estamos aqui perante árvores que têm uma expectativa relativamente à sazonalidade, por exemplo ao nível da precipitação ou da temperatura. Têm que gerir, por exemplo, a alimentação de carbono, as folhas têm de estar atentas se é preciso absorver carbono, saber que alimentos devem gerir porque não podem perder água. Essa gestão é uma questão crítica e, por isso, temos visto em vários momentos que as pessoas até estão atentas e dizem que, na cidade, em julho, parece que já estamos no outono. As folhas caem e isso é um sinal de que há uma alteração da fenologia da espécie, que é uma resposta que todos os organismos vão buscar forma de investir a sua energia naquilo que é crítico face a uma determinada situação. O problema é que estamos a fazer uma alteração muito profunda e radical num tempo muito curto, e muitas espécies não terão tempo para se adaptar a esse processo. E, claro, aquelas que têm menor mobilidade terão dificuldades, aquelas que têm nichos muito restritos de existência também terão mais dificuldades, as que já estão em patamares de altitude terão dificuldades em ajustar-se a outro clima. 

Temos situações muito variadas. Há um artigo recente feito à escala global e que é exatamente sobre a incidência sobre as espécies de interesse alimentar que nós chamamos, na língua inglesa, crops. Foi um estudo feito que incide sobre as espécies mais importantes na nossa alimentação e conseguiram verificar que pode já existir uma perda que, em alguns casos, é de 10% de alguns conteúdos elementos minerais dessas espécies. É precisamente porque, perante as alterações climáticas, essas plantas também já começam a deslocalizar o investimento para a absorção de nutrientes do solo. Essa relação, entre exatamente aquilo que é a fotossíntese e a capacidade de utilização de nutrientes. Tudo isto depende, claro, de outros factores, porque é necessário azoto também para a proteína que depois carboxila e acaba por estar tudo ligado. Aquilo que verificam é que existe cerca de 10% de redução de alguns elementos, como, por exemplo, o zinco, que são importantes para nós e que fazem parte do portfólio de elementos de que nós também precisamos, tal como outros organismos herbívoros. Isto para dizer que este tipo de impacto, que é relativamente novo na ciência, começa agora a ser evidente. Estes são os primeiros trabalhos que conheço em ciência em que já é reconhecido o impacto também das alterações climáticas neste âmbito. A Agência Europeia de Ambiente também teve um relatório muito interessante sobre o impacto das alterações climáticas nos ecossistemas florestais e agrícolas, e uma das coisas evidentes é exatamente essa. Na Europa já estamos a perceber, por exemplo, que alguns cereais já têm uma redução da produtividade na casa dos 20%-30%.

São muitos os exemplos. Estamos aqui a falar desta forma que parece um pouco ligeira, mas não é. Tudo isto depois tem impactos, com situações mais vulneráveis, com geografias mais vulneráveis, e por isso há seres que não têm a mesma a capacidade de resposta. Não têm tanto acesso à água, têm que ter uma gestão muito mais criteriosa e às vezes até muito condicionada pela produção alimentar. É evidente que isto vai trazer alguns problemas dessa natureza. Hoje em dia, penso que a complexidade dos problemas que estamos a observar têm sua na base algo relacionado com as alterações climáticas. Mas existem outros fatores de convergência. Os noruegueses, por exemplo, estão a tentar colocar ilhas artificiais nos Fiordes para conseguir que algumas das espécies consigam ter plataformas móveis nas águas que entretanto deixaram de existir. Como solução, estão a colocar plataformas móveis artificiais. Não há dúvida de que a escala global é particularmente preocupante as situações que se observam, principalmente no Ártico. Depois temos a questão das doenças que são geradas exatamente também por estas razões. Cada espécie tem uma susceptibilidade maior à doença, e por isso são muitos os problemas que estarão mais direta ou indiretamente associados às alterações climáticas, sem dúvida.

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Mencionou que somos uma espécie relativamente recente na história da vida na Terra e, em contrapartida, por exemplo, estima-se que as plantas tenham surgido há cerca de 400 milhões de anos. Foi graças às plantas que muitas outras espécies surgiram, ao criarem condições que continuam a ser fundamentais para a vida na Terra. Sendo nós uma espécie recente, não deveríamos ter um enorme respeito pelas florestas e pelas árvores, que são também seres vivos, que são muito mais antigos do que nós, e que, sem elas, a espécie humana não teria chegado aqui? 

É também um paradoxo. Muitas vezes fico perplexa a pensar nessas coisas. O paradoxo é que nós somos uma espécie extraordinária que consegue produzir conhecimento. O salto que nós demos, desde o Paleolítico, é algo absolutamente notável. Todo esse processo evolutivo que nos trouxe aqui é a prova de que somos realmente uma espécie mutável. Mas, simultaneamente, existe este paradoxo: parece que nos desligámos da nossa família. De alguma maneira, singularizámo-nos e acreditámos que somos, de facto, o centro do mundo e que, para além de nós, não existe mais nada. Penso que isso é crítico em muitos níveis. Estou profundamente convencida de que esse desligamento que tivemos da nossa própria biologia, da nossa condição, é muito nocivo. É muito nocivo porque deixámos de cuidar, de respeitar, de perceber que a vida está toda interconectada. Estamos todos, de alguma forma, ligados. A nossa saúde depende da saúde das plantas, dos solos que temos. Tudo isto é totalmente claro e este é o paradigma da ciência. 

Essa é uma dimensão que também me interpela: como é possível o facto de não percebemos isto e de este desligamento ter sido intensificado nas últimas seis, sete décadas? Entre vários fatores, esse desligamento foi criado por uma economia muito disruptiva, uma economia onde passaram a prevalecer valores muito questionáveis em muitos níveis. Há pouco tempo, um jornalista francês no Le Monde chegou mesmo a chamar “a economia da morte” que nos mantém aprisionados. É preciso construir uma economia da vida que nos reconecte. Penso que isto tem tido consequências também na maneira como estamos disponíveis uns para os outros, como nos organizamos e como temos capacidade de partilhar recursos. E com aquilo que é realmente necessário: perceber que a nossa condição biológica também é importante para a nossa existência coletiva. Isso é uma ruptura, uma ruptura que está a ter custos enormes. Regenerar, recuperar e reconectar esta relação é tremendamente difícil, porque ainda prevalece a tal economia.

Estamos hoje confrontados com isso. Como é que é possível, por exemplo, termos soluções limpas de energia, soluções que nos transportam para um mundo em que é possível vivermos muito melhor todos e deixarmos de utilizar? Como é que isso é possível? Estamos, de facto, reféns desta economia claramente ultrapassada. Julgo que o mundo percebeu, mas a verdade é que não conseguimos romper com isto, não é? Mas penso que quanto mais próximos estivermos da natureza, mais capazes e mais competentes estaremos para fazer as mudanças que são necessárias fazer.

Helena Freitas / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Temos feito alguns esforços a nível internacional para reduzir a emissão de gases de efeito estufa, com destaque para o protocolo de Kyoto em 1997, e depois o acordo de Paris já neste século, em 2015. Estes acordos foram grandes avanços para que houvesse uma unidade ao nível internacional entre diversos países na redução de gases de efeito estufa. Mas terão sido suficientes tendo em conta por exemplo a relutância dos Estados Unidos da América ao quererem-se colocar de parte nestes protocolos? Terá sido suficiente, ou ficou um pouco aquém do que se esperaria? 

Claramente ficou aquém. Aliás, aquilo que mostra que estamos atrasados e incapazes, é exatamente por causa desta incapacidade de estarmos todos juntos num único acordo até ao fim. Mas coletivamente diria, e acho que é inequívoco, que a descarbonização é inexorável. Isso é um processo que nos transportará todos, seguramente, para uma outra dimensão da energia. A descarbonização, penso que é um processo que, basicamente, será o futuro. Estamos num tempo difícil porque depois é fácil que as narrativas constituentes acabem por dominar, muitas vezes, o espaço público. Seria importante também conseguirmos que os países democráticos, que têm o privilégio de viver em liberdade, fossem também mais ativos, mais reivindicativos. Esses são os países que têm de mostrar que é possível e que vale a pena fazer um esforço colectivo. Gostaria de dizer também que, para além das políticas públicas, do setor público, e apesar de alguns países e de algumas lógicas que ainda dominam, é certo que aqueles países que contribuem para a prevalência desta economia são os que estão fortemente dependentes dos combustíveis fósseis. No entanto, alguns desses países estão a fazer um esforço para um caminho alternativo. Por exemplo, a China, apesar de estar muito dependente de combustíveis fósseis, está também a fazer, simultaneamente, um trabalho incrível e muito competitivo, muito ambicioso, de transição, expandindo as energias renováveis. Os Estados Unidos, apesar de não estarem, de facto, a colaborar na política do quadro mais global, têm uma comunidade científica que está a trabalhar ativamente no IPCC [Intergovernmental Panel on Climate Change]. Muitos estão a fazer um trabalho magnífico, e também seria injusto pensar o contrário. Há muita gente, muito contrariada, com grande desalento com o que se passa, e que está a trabalhar ativamente por um mundo novo. Temos muitas outras situações noutros países onde isso acontece. 

Se olhamos para os números, as energias renováveis estão claramente a avançar. Há um progresso que é global e estamos todos, progressivamente, a fazer esse caminho. É certo que a descarbonização não está a esse nível. Ainda há uma grande preocupação, ainda há muitas divergências, ainda há muitos conflitos. Ainda há, infelizmente, muitas sociedades que deviam ter mais acesso a este tipo de energias, como em África. Por exemplo, em vez de andarmos nestas guerras tontas, devíamos estar a investir em África para que consigam também fazer um caminho de transição energética rápida. É absolutamente indispensável que esse continente, que, apesar de contribuir muitíssimo pouco [para as alterações climáticas], é, de facto, um dos mais afetados. Penso que a descarbonização, como dizia, é inexorável. Mais tarde ou mais cedo haverá mais custos para a natureza, mais custos para as sociedades humanas. Mas esse caminho é o caminho, é a economia da vida, a economia do futuro, é a economia que respeita a natureza. E iremos por aí, seguramente. 

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Mantém uma atividade notável enquanto cidadã. Foi deputada à Assembleia da República, foi mandatária pela campanha de António José Seguro pelo Distrito de Coimbra, encabeçou a lista à Assembleia Municipal pelo Partido Socialista, na sua terra natal, Vila Nova de Famalicão, e foi mandatária da professora Ana Abrunhosa também à Câmara de Coimbra. Encontra-se também num período sabático, no qual divide o seu tempo entre Coimbra e a UNESCO, em Paris. Sendo a sua formação em Ecologia, sente que existe uma necessidade de um certo ativismo por parte das pessoas com a sua formação, para que estejam cada vez mais ligadas à cidadania, à política, e a tantas outras questões que ameaçam o mundo?

Desejaria que sim. O privilégio de conhecermos o funcionamento da vida, os biomas, os grandes ecossistemas, as espécies… Percebemos que um inseto pode ter uma importância extraordinária para que a vida seja possível. Percebemos hoje a importância que os micro-organismos têm na saúde global. Acho que isso é um privilégio. E também é uma obrigação, uma responsabilidade, nesse sentido. Mas respeito que cada um tenha o seu perfil. Se há coisa que a Ecologia nos ensina é exatamente isto: somos todos diferentes. Essas diferenças também devemos respeitar. Mas desejaria muito que tivéssemos esse ativismo entre nós, na ciência em geral, e não apenas na Ecologia. Porque o privilégio de trabalhar em ciência também é incrível. Há uma convergência das ciências para a sustentabilidade. Todos percebemos que é preciso cuidar do planeta, que é preciso regenerar o planeta. Quer seja na Física, na Química, nas engenharias, as soluções de base biológica que estão a ser trabalhadas para conseguirmos deixar cair, por exemplo, alguns dos agentes químicos que usamos na produção alimentar.

Existem tantas outras dimensões, como conseguimos eliminar os plásticos com todo o impacto que eles têm. Claro que estamos longe de atingir essas metas, mas hoje penso que a ciência em geral e os cientistas são, de facto, pessoas que têm o privilégio de conhecer e de perceber o compromisso social que a ciência é, porque a ciência é um compromisso social. Queremos soluções para o bem-estar coletivo. Num tempo em que somos afrontados, em que as coisas são questionadas, percebemos que existe uma falência dos modelos de organização, da democracia, do espaço de liberdade. Porque estes são exatamente espaços de ciência, espaços de cooperação, em que somos afrontados muito diretamente. Penso que é muito claro que temos de estar presentes na vida pública, temos de contar com cada um, como digo, respeitando.

Liderei uma unidade de investigação que tem centenas de investigadores, muitos deles das ciências sociais e das humanidades. Muitas vezes tenho questionado se não devia, de facto, até identificar e construir, na nossa comunidade científica mais próxima, um espaço de debate político. Não exatamente de forma como nós o percebemos, mas um espaço mais de política de intervenção, chamando aqueles que se quiserem juntar. O privilégio também é este: é trabalharmos em ciência, conhecermos a ciência, percebermos a importância que a ciência pode ter, e querermos que ela seja um modo mais operacional, mais evidente e mais concreto de transformar as sociedades. Porque a agenda de um cientista de hoje tem de ser a agenda do bem comum.

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Perante os cenários que se avizinham, e as previsões quanto ao futuro, como é que gostaria que as próximas gerações encontrassem um planeta que enfrenta cada vez mais dificuldades como o nosso? 

Gostaria que as próximas gerações pudessem ver o que vi nas florestas tropicais, nos mangais, nos corais… [pausa, emociona-se]. Porque não tenho dúvidas de que a tecnologia e a ciência nos ajudam a encontrar soluções para conseguirmos responder à alimentação e às nossas organizações coletivas. Mas a beleza do mundo natural, não sei. E as implicações disso, também não sei. Mas tenho uma enorme confiança de que ainda seja possível e que consigamos, de facto, perceber que nós somos natureza. Porque é mesmo isso: nós somos natureza.

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