Entrevista. Inês Francisco Jacob: “O formato onde me sinto mais em casa talvez seja a prosa poética”

por Magda Cruz,    7 Janeiro, 2021
Entrevista. Inês Francisco Jacob: “O formato onde me sinto mais em casa talvez seja a prosa poética”
Inês Francisco Jacob / Fotografia de Pedro Moura Simão
PUB

Inês Francisco Jacob sempre gostou de escrever, mas nem sempre deu a mesma importância à escrita. Obrigação de escrever? Com Inês não, mas necessidade de pôr tudo no papel — seja em prosa ou poesia — essa há. A jovem poeta lançou o primeiro livro de poesia, “Sair de Cena”, e a convite do podcast Ponto Final, Parágrafo conta a sua história com a literatura e deixa conselhos para novos autores. Há espaço para muita poesia, falar sobre o humor na escrita, o regresso das cartas escritas à mão ao nosso correio e, claro, os livros que marcaram a sua vida.

Podes ouvir a entrevista completa, conduzida pela Magda Cruz:

É aos 28 anos que Inês Francisco Jacob publica o seu primeiro livro de poesia, mas ainda não se considera escritora ou poeta. “Eu escrevo. Pode ser que um dia chegue lá [ao nome de escritora ou poeta]”, diz. A setembro deste 2020 chegou às livrarias “Sair de Cena”, da Não Edições. Os poemas dentro desta capa branca com o que faz lembrar corais altos e esguios não são os primeiros que publica. “Sempre tive vontade de ter algo apenas meu, uma obra minha, fosse poesia ou prosa”, diz no episódio. Entretanto, o livro já vai na segunda edição, o que é ainda mais relevante quando estamos a falar de poesia.

No que toca ao passa-palavra de sugestões que acontecem por aí, Inês fica muito satisfeita que isso aconteça com o seu livro, mas o mais importante não é isso: “No fim de contas, o que mais importa é que de facto as pessoas apreciem os textos, as palavras, que gostem e que procurem. Tenho recebido um retorno vindo das pessoas, que dizem coisas maravilhosas — e a maior parte delas eu não conhecia antes e sei que não estão contaminadas por uma ideia pré-definida sobre mim, mas chegaram a mim através daquilo que escrevo. Isso é o ideal”. O livro divide-se entre “Depois” e “Antes”, por esta ordem, e tem poemas profundos construídos por uma linguagem simples e salpicada de humor, se o soubermos ver. No episódio, Magda Cruz lê dois poemas com que se riu a ler pela primeira vez.

Foto: João Pedro Morais/ESCS FM

Inês Francisco Jacob já participou nas revistas de poesia “Apócrifa” (que surgiu das Terças de Poesia Clandestina) e “Telhados de Vidro” (Edições Averno), esta última que pode ser chamada a sua estreia “enquanto pessoa que escreve para alguém ler”, diz Inês, “porque enviei coisas para que pudessem ver, ou seja, foi a minha iniciativa para apalpar um pouco o terreno e ver se tinha alguma piada e categoria que justificassem constar”, ri. No caso da publicação da Apócrifa, deu-se o caso de Inês ter quem admirasse a sua escrita e o mérito levou-a às páginas da publicação literária.

Tem ainda vários poemas publicados na Internet, como o “Circo e Instância”, um poema que é a recriação de uma canção de José Mário Branco que Inês foi convidada a fazer no 25 de abril e de que falamos no episódio do podcast.

Voltar ao início: à prosa

Foi por sua iniciativa que se fez ao caminho literário, começando pela prosa, onde se sente muito confortável. Então e a poesia? “A poesia foi algo que sinto que veio com uma certa ansiedade da adolescência; com uma certa necessidade de dizer mais coisas de outra maneira, talvez um pouco mais certeira e acutilante”, explica Inês, que tem vindo a tentar ser mais sintética nos versos. “Tentei. Acho que a escrita, acima de tudo, é uma brincadeira, um jogo, é um exercício. E tentei de que forma as minhas necessidades eram ou não satisfeitas com essa limpeza geral e nessa tentativa de não cair em excesso. Acho que a poesia ajudou”.

O primeiro livro é, assim, de poemas, e não de prosa. “O que não deixa de ser irónico”, brinca Inês, que deixa alguns conselhos a jovens escritores sobre como começar. “Hoje em dia há muitas frentes disponíveis, muitas edições independentes e outras do estilo ‘do it yourself’ (‘faz tu mesmo’) que brotam como cogumelos. Há muita coisa boa — e muita palha, como é em tudo. Mas o que interessa é escrever, se uma pessoa quer de facto ser publicado”. A título de exemplo, Inês fala da revista Lote, que até março de 2021 está a aceitar que as pessoas submetam, para a terceira edição, poesia (mínimo três poemas e sem tema concreto) e ensaios, que tem de seguir o tema “Cinema”.

Estas são algumas primeiras montras de que fala Inês Francisco Jacob, com mais detalhe no episódio.

Como sempre, o convidado traz três livros que tenham marcado a sua vida — para o bem ou para o mal. Nesta entrevista, Inês explica o porquê de devermos ler “As ondas”, de Virginia Wolf, uma das suas autoras favoritas, “apesar de ser de uma era muito diferente da nossa”. É com este livro, que é um exemplo de prosa poética, que Inês nos diz: “A prosa poética talvez seja o formato onde me insiro melhor, onde me sinto mais em casa”. Ao que Magda Cruz pergunta: “Na leitura ou na escrita?”. Inês faz essa reflexão pela primeira vez e percebe: “Pois, é em ambos. A prosa poética fez-me partir para a poesia com muito mais segurança porque eu já tinha a preparação e o salto foi muito mais confortável”.

Foto: João Pedro Morais/ESCS FM

Os outros dois livros que Inês traz são “De Profundis”, de Oscar Wilde; e “As Elegias de Duíno”, Rainer Maria Rilke — mais conhecido por “Cartas a um jovem poeta”. Ao longo do episódio vamos percebendo as impressões que cada livro deixou na autora e o porquê destas escolhas.

Licenciada em Ciências da Comunicação e Cultura, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e pós-graduada em Antropologia-culturas Visuais, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Inês concorreu e ganhou uma bolsa de criação literária com a duração de seis meses, em poesia. Uma experiência que se queria prazenteira mostrou-se mais intensa do que o normal devido à pandemia: “Tinha imensos planos, alguns utópicos, para usufruir desse espaço e tempo, e muito desse tempo tive de o passar em casa”. Quanto ao tema, Inês quis contornar a influência de uma pandemia que afeta todo um planeta — tarefa difícil.

Dias antes da entrevista, chega uma carta. O Ponto Final, Parágrafo desafiou a poeta a escrever uma carta onde refletisse sobre a sua escrita. Dessa folha escrita à mão, endereçada à própria Inês, percebemos que na relação de Inês com a escrita veio primeiro a prosa e só depois o verso. A carta faz parte do projeto “Um Código Postal”, que Inês mantém no Instagram. É bastante simples: quem quiser pode pedir uma carta, escrita à mão e enviada pelo correio ou por e-mail, para si ou para outra pessoa. Inês escreve em texto ou poema sobre um tema escolhido pela pessoa, com base em palavras-chave ou até mesmo sem qualquer guia — com total liberdade.

A chegada da leitura até Inês “não foi uma coisa repentina”, pelo contrário, foi algo que cresceu com ela. “Sempre me ofereceram livros e fui fazendo escolhas, percebendo do que gostava, o que fazia sentido para mim”. No que toca à escrita, não consegue precisar quando é que se tornou algo mais sério, mas admite que haja um chamamento de alguma espécie para escrever desde pequena. “Nada me obrigava a escrever fora da escola. Ou seja, porque é que eu em casa por vezes escrevia, porque é que tinha essa iniciativa, essa vontade. Isso é algo mais sério e que foi crescendo comigo”, explica.

Com um livro cá fora, chega a altura de deixar os leitores fazerem aquilo que sabem fazer — ler — e concentrar-se no próximo livro que nos dará o prazer de consumir.

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.