Entrevista. Jafar Panahi: “Os iranianos não são inimigos de ninguém, o governo iraniano sim”

por José Paiva Capucho,    13 Novembro, 2025
Entrevista. Jafar Panahi: “Os iranianos não são inimigos de ninguém, o governo iraniano sim”
Jafar Panahi – Fotografia de Quejaytee / via Wikipédia
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“Foi Só Um Acidente” é um dos acontecimentos cinematográficos do ano. Não só porque se transcende à medida que o rapto do suposto homem que torturou Vahid se desenrola, mas porque o realizador iraniano Jafar Panahi — um dos poucos cineastas a vencer todos os grandes prémios do cinema europeu, incluindo a Palma de Ouro deste ano — continua ser um portento a autocracia do Irão. Mesmo que se conheça alguns dos seus mais emblemáticos filmes como “Táxi” ou “Aqui Não Há Ursos”, não se está à espera desta ficção poderosa, sem medo, que agarra o espectador pelos braços para nunca mais o largar.

Jafar Panahi veio de propósito a Lisboa para a apresentação do seu filme no Cinema Ideal. Tem andado a viajar, e muito na sua primeira tour cinéfila, depois de uma rodagem ilegal e de ter estado por duas vezes preso. As restrições contra si foram, entretanto levantadas, mas o governo iraniano continua a criticar e a menosprezar o seu cinema. Trabalha com equipas pequenas e sabe o que é censura, ver a liberdade a fugir-lhe dos dedos e sentir a dor de um povo que quer mais do que viver sob uma ditadura. Assim que a Comunidade Cultura e Arte chega à York House e troca cumprimentos com o realizador, percebe-se que há uma solenidade quando Jafar chega. A sombra leve dos seus óculos escuros contrasta com o enorme peso, bem medido, de cada palavra traduzida de persa para inglês. Jafar Panahi, discípulo de Abbas Kiarostami, fala sempre muito a sério. E o filme também: sobre perdão, vingança, esquecer e seguir em frente. O seu cinema não é nenhum acidente. Nem esta conversa, que só pecou por ter terminado.

O som é muito importante em “Foi Só Um Acidente”.  É a partir dele que ecoa toda a memória de um sistema autoritário, que torturou e prendeu os protagonistas. Quando decidiu que ia ser tão importante?

Esta é uma experiência comum em todos os presos políticos no Irão. É habitual quando um prisioneiro está a ser investigado ir para um quarto, com os olhos vendados e sentarem-no contra a parede. Quem os prendeu dá uma caneta e um pedaço de papel e habitualmente faz perguntas. Quando é dada uma resposta, abrem-se as vendas e permite-se que escrevam. Os prisioneiros tentam fazer o esforço de ouvir melhor. Se conseguirem seguir os movimentos de quem os interrogou, conseguem retirar algum significado do que lhes aconteceu. E se ouvirem os barulhos quando são libertados, vão identificar quem os interrogou. Nestas prisões, não há advogados, não há defesa, nada que os possa ajudar, só a audição. Então tentam lembrar-se. De ficar com os sons na memória. Portanto, o som tem um papel muito importante. Decidi começar este trabalho com som e terminá-lo da mesma maneira. Nos meus filmes, não usamos banda sonora. Focamo-nos nos efeitos sonoros. Desta vez foi ainda mais importante.

Elenco de “Foi Só Um Acidente” e o realizador Jafar Panahi no Festival de Cannes 2025 / Fotografia de Kacy Bao via Wikipédia

O filme foi ilegalmente filmado no Irão. Como foi fazê-lo? E porque é que o carro acaba por ser importante para a acção?

Só 40% das filmagens se passam dentro do carro, o resto é fora. Se prestar atenção às cenas em que filmámos no deserto, ou quando o suposto torturador está preso à árvore, não se vê a carrinha. Bastava um operador de câmara dentro da carrinha para filmar. A rodagem foi feita às escondidas, não tínhamos permissão, dentro da carrinha estávamos mais seguros. Usá-la permitiu manter tudo em segredo. Foi fácil manter aquela gente toda dentro do automóvel porque foi usado um design básico para a produção desses momentos.

Os actores tinham algum passado na prisão como o seu? Falaram muito dessa experiência?

Não estiveram presos, nem nessa nesta situação. Mas como vivem no Irão e estão dentro de um possível cenário em que isto acontece, sim, conseguiam sentir a história. Se for ao Irão, encontra, claro, pessoas nesta situação.

De que forma o tem impactado a reação ao filme, até dentro do Irão? Foi muito bem recebido no seu país.

Se o filme não tem o potencial de agarrar o público, não vai ter sucesso. O sucesso do filme deve-se a quem segue este tipo de cinema. Primeiro, é preciso estabelecer essa relação com o espectador. Assim, o espectador pode ser “incluído” no filme. Em França mais de 60 mil pessoas viram “Foi Só Um Acidente”, o que mostra que esta relação está a ser conseguida. Em todos os festivais em que estive, percebi que isso também está a acontecer. Estas reações são diferentes entre países mas isso deve-se às diferenças culturais, acredito eu.

Parece que tem mais fé no cinema do que muita gente que faz filmes em países democráticos.

No mundo temos os media e as redes sociais, que têm imenso poder. Sobretudo, poder para afectar as pessoas. O cinema, para ser feito, dura entre dois ou três anos, em média. Mas o efeito nas pessoas pode ser ainda mais duradouro. Eu quero que as pessoas pensem. Quero provocá-las. Nos dias de hoje, a violência tem um papel de destaque. O mundo está cheio de guerra. Neste filme, o círculo de violência vai continuar ou parar? É essa a pergunta.

Jafar Panahi / Fotografia de Majid Saeedi

O Jafar diz que não é político. Que não faz filmes políticos. É difícil explicar isso a outros cineastas? Parece que é obrigatório ser político.

Não faço filmes políticos. Faço filmes sociais, para que possam estar na sociedade. Existe uma diferença. Há uma explicação simples para isto: não há maus seres humanos no tipo de filme que faço. Isto é contra a ideia de cinema político. Esse cinema faz essa diferença entre pessoas boas e más. É como um partido político, a sua ideologia e visão. Se concordas comigo, és bom, se não, és mau. Talvez seja possível retirar o tema político de filmes como o meu, claro. Nos filmes sociais, permites que toda a gente fale, que toda a gente se manifeste sobre o que gosta. Não os vês para decidir quem apoias. Não acusas os outros desde o início, nem os desculpas. Claro que sei que vivemos numa sociedade onde tudo é valorizado através da perspectiva política. Tudo é política. Sou diferente de quando faço um filme e de quando não faço. Quando não estou a fazer, sou contra o governo, converso muito, dou opiniões sobre políticas, sobre o que está a ser feito no Irão. Sim, tenho muitos problemas com quem governa lá. Agora, quando estou em rodagem, não quero impor a minha visão política. Se o quisesse fazer, não deixaria o Eghbal falar. Não lhe daria atenção. E quando está amarrado à árvore no meio do deserto, essa cena não existiria. Agora, está certo, neste mundo cheio de política, só se pensa nisso. Imagine que amanhã faço um filme de guerra, mas não o farei como é tipicamente pensado dentro do género. Farei sob esse tema.

Falemos dessa última cena. Quantos takes foram necessários?

Demorámos uma noite. Repetimos, claro. Mas não estava satisfeito. No dia seguinte, tentei perceber qual era o problema. Se era da representação, se era outra coisa qualquer. Depois percebi que não conhecia o actor que fazia de Eghbal. Descobri que é mais fácil encontrar alguém que esteja relacionado com este tipo de personagens. Tinha um amigo que passou ¼ da sua vida na prisão. Pedi-lhe ajuda. A seguir, pedi-lhe que viesse até à rodagem e perguntei quando é que os investigadores perdem a paciência. Quando sentem que têm poder, quando baixam a guarda. Esse meu amigo descreveu todas as situações ao actor. Como actuar. Depois de três ou quatro takes, ficou bom.

Ganhou a Palma de Ouro este ano no Festival de Cannes. É um dos poucos realizadores a ter todos os grandes prémios do cinema europeu, de Urso de Berlim ao Leão de Veneza. De certeza que o têm abordado para fazer cinema fora do Irão, com outra estrutura, com actores estrangeiros, etc. Estaria disposto?

É mais fácil ficar no Irão e fazer filmes. Porque conheço as pessoas, mais do que todas as outras à volta do mundo. Se sair de lá, faço filmes como se fosse turista. Sempre que me fazem essa pergunta respondo: tenho de fazer o meu trabalho no Irão. Se quiser fazer um filme no estrangeiro, tem de ser sobre o povo iraniano que vive fora do seu próprio país.

É possível sentir-se em paz com o passado depois de ter sido preso duas vezes?

Quando sentimos que temos dor, fazemos um filme. Quando sentimos que algo nos afecta e que pode ser inspirador, fazemos um filme. É preciso expressar esse sentimento. Depois, avalia-se se pode ser valioso falar sobre todos esses sentimentos ou não. Se pode haver uma visão artística por detrás. Claro que, se encontrar a capacidade artística e o tema, irei fazer um filme. Se tudo não estiver bem pensado, não tenho a certeza do desfecho. Quando termino um filme e consigo ter a certeza de que tudo está bem, sou capaz de colocar o meu nome à frente. A minha assinatura. Quando estou a pensar para os meus botões sobre o que fiz, sobre os meus filmes passados, não tenho vergonha de mim.

Em Portugal, o Irão parece quase visto como um inimigo porque somos muito influenciados pela cultura norte-americana. E, nos Estados Unidos da América, o Irão é um inimigo. Ou, pelo menos, parece.

Quando fala de Irão, fala do povo iraniano ou do governo? É que são diferentes. Os governos podem ter as suas políticas, que são diferentes de país para país. Mas não se pode julgar as pessoas através dos governos. Não podemos dizer que o Irão é o inimigo, mas sim o governo. Vejo-os de forma completamente diferente. Os iranianos não são inimigos de ninguém. Olhe para os EUA, é igual. Os norte-americanos não pensam da mesma forma do que quem está na Casa Branca. Deve haver muita gente contra o que o presidente norte-americano, Donald Trump, está a fazer. Contra as suas políticas. Não se pode concluir que os americanos estão contra o mundo. Ou que os portugueses estão contra o mundo. O que sai do governo é diferente do que sai das pessoas. Os governos estão sempre a mudar. Mas as pessoas ficam.

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