Entrevista. Jessie Ware: “Sinto que conquistei o meu lugar na música e que as pessoas embarcaram no mundo que criei”
Jessie Ware está em modo Superbloom. Na última meia-dúzia de anos, período em que lançou os álbuns What’s Your Pleasure? e That! Feels! Good!, afirmou-se como uma diva pop e disco num imaginário sedutor, de bolas de espelhos reluzentes e figurinos glamourosos. A trilogia atinge o clímax com o novo disco editado esta sexta-feira, 17 de abril.
Ao longo de 13 faixas, Jessie Ware dá vida (e som) a histórias de prazer e romance, aventuras magnéticas e personagens irresistíveis. É um disco luminoso e confiante que começou a ganhar forma quando a artista britânica imaginou um trabalho ainda mais imerso do que os anteriores na música de dança.
“Pensei que ia fazer um disco mesmo de dança”, conta Jessie Ware em entrevista à Comunidade Cultura e Arte. “Tinha passado do What’s Your Pleasure?, um disco dançável mais interrogativo, que refletia o facto de eu estar bastante perdida e menos segura; para o That! Feels! Good!, que foi como se estivéssemos simplesmente a aproveitar o sucesso do What’s Your Pleasure? em completa euforia. Neste, pensei: bem, tenho de fazer algo dançável mesmo à séria. Mas não estava a funcionar para mim. Foram canções como a Automatic que me permitiram encontrar o equilíbrio certo entre groove e romance.”
Olhando para o trabalho como um todo, a cantora londrina nota uma “despreocupação” em boa parte de Superbloom. “Queria dançar e deixar-me cair neste espaço que criei para mim, que os meus fãs criaram para mim e de que desfrutaram. Queria deleitar-me um pouco nisso. Quando o aceitei, percebi que era o disco que precisava de fazer.”
As canções de prazer são também meios para reforçar um empoderamento, uma sensação de confiança, uma transformação pessoal. “Este disco é mesmo sobre transformação, sobre crescimento e confiança. Sobre eu finalmente aceitar que este é um trabalho que as pessoas me permitiram ter e que não me vai ser tirado tão rapidamente como eu antes pensava. Sinto que conquistei o meu lugar na música e que as pessoas embarcaram no mundo que eu criei. Sinto-me mais confiante do que nunca, mesmo”, sublinha.

Quando apareceu há 15 anos com uma pop sofisticada de baladas soulful, num momento em que a música popular britânica ganhava tons introspetivos e minimalistas, envolta num contexto eletrónico — outros artistas, como James Blake ou The xx, também incorporaram essa vaga — sentia que o objetivo era apenas “sobreviver” numa indústria feroz e volátil.
“Nunca esperei que isto durasse, não havia uma ideia de futuro”, conta. “Agora, sim, sinto que é o meu trabalho e que poderei fazê-lo para sempre, o que é uma coisa linda. Ou seja, era um sonho ser aquela pessoa que se calhar aos 70 anos ainda consegue encher uma sala. Mas no início tinha um álbum e estava só feliz por ter assinado um contrato e ter uma oportunidade para o fazer. Agora isto tudo soa mais real, é a minha carreira. E sempre que faço um disco, tento fazer música que seja intemporal, porque isso perdura. E é lindo poder fazê-lo.”
Quando reflete sobre o processo de construção de Superbloom, explica que a principal diferença foi ter mais tempo para o concretizar. What’s Your Pleasure? foi lançado em 2020, em plena pandemia da COVID-19, e muitas das canções que acabariam em That! Feels! Good! foram escritas de seguida, num processo particularmente contínuo, numa época em que todos os espetáculos estavam suspensos.

“Este álbum já foi feito após imensos concertos. E depois acabou a tour: vamos compor. E acabou por demorar mais algum tempo, até porque eu pensava que estava a fazer um álbum diferente, então depois tive de rasgar aquilo em pedaços e começar de novo. Escrevi muito para este disco. Mas também foi uma boa forma de compreender a paciência. Foi perceber que não é preciso apressar as coisas. Estou simplesmente a ir trabalhar nisso aos poucos.”, refere ainda a artista.
A britânica manteve-se, como em projetos anteriores, na liderança do processo criativo, mas trabalhou com produtores como James Ford, Barney Lister, Karma Kid, Jon Shave e Stuart Price. Como é habitual num disco gravado de forma orgânica, com instrumentos, dezenas de instrumentistas contribuíram com os seus talentos, da flauta de Gareth Locklane aos teclados de Sam Beste, do baixo de Tom Herbert à bateria de Leo Taylor. Desta trilogia de álbuns, é provavelmente o registo mais retro, tendo em conta a orquestração elegante e o facto de ter deixado para trás alguma eletrónica mais futurista.
Inicialmente, escolheu Don’t You Know Who I Am? — a décima faixa do alinhamento — para título do álbum, mas acabou por considerar que seria uma decisão “tonta”. “Achei bastante engraçado, porque era tipo: não sabes quem eu sou? Tipo, não, se não me conheces ao sexto álbum, então isso é mau… Não fazia sentido. Superbloom parecia ser o que fazia mais sentido para combinar família, crescimento, o tempo… E o disco é muito sobre o meu marido, senti que conseguia ser este equilíbrio entre a minha vida real e o faz-de-conta.”

Nos últimos anos, Jessie Ware tem sido a protagonista de uma auto-fantasia, histórias românticas e de luxúria que tanto são fruto da imaginação como são inspiradas por vivências reais. Muitas vezes tem, aliás, transitado entre essas duas realidades aparentemente conflituosas: a pacata vida doméstica do dia a dia e um universo fantasioso sem limites. Como quem leva uma vida dupla recheada de segredos, como quem gosta de brincar às histórias no contexto familiar, num propósito conscientemente escapista.
“Às vezes é muito mais divertido do que a vida real, mesmo que eu goste da vida real. Consigo sentir-me mais criativa nesse mundo, posso contar histórias de uma forma diferente. Parece um pouco mais libertador, se criares um cenário. Ainda assim, foi muito importante para mim trazer a vida real para este disco, de diferentes formas. Mas quanto mais experiências tive a escrever e a compor com fantasia, a pintar um quadro de outro mundo, mais tive… Nem sequer apenas sucesso, mas também mais prazer nisso. Portanto, é o que realmente gosto de fazer.”, finaliza a artista britânica.
