Entrevista. João Correia Rodrigues: “Escolas médicas têm de inserir cadeiras ligadas à saúde LGBTQIA+”

por Ana Isabel Fernandes,    10 Setembro, 2021
Entrevista. João Correia Rodrigues: “Escolas médicas têm de inserir cadeiras ligadas à saúde LGBTQIA+”
João Correia Rodrigues / DR
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De momento, só existe a URGUS de Coimbra,  ou seja, uma Unidade de Reconstrução Génito-Urinária e Sexual para atender as pessoas trans que desejem fazer a sua transição.  Segundo João Correia Rodrigues, médico e integrante do projecto Anémona — projecto que visa facilitar a ponte entre a comunidade trans e o SNS — a descentralização é necessária porque, a seu ver, “há certas técnicas que são diferentes, mas os médicos cirurgiões, ginecologistas e por aí fora que fazem este tipo de procedimentos, também são capazes de fazer.”

Além da descentralização dos serviços, João aponta para outra falha, a lacuna que existe nos programas dos cursos de medicina respeitante à informação sobre sexualidade e saúde LGBTQIA+. “Os cursos têm uma lacuna muito grande nesta área, e um dos nossos objectivos, no projecto anémona, é, precisamente, a formação de profissionais de saúde e que as escolas médicas reconheçam esta lacuna e insiram nos seus programas cadeiras obrigatórias ligadas à sexualidade e à saúde LGBTQIA+ também.” Falámos com João Correia Rodrigues que, além de fazer parte da Anémona, esteve, no âmbito da sua tese de mestrado, a entrevistar, voluntariamente, durante seis meses, pessoas trans na consulta de Sexologia do Hospital Magalhães Lemos, no Porto.

Para começar, vou separar, aqui, estes conceitos: quando há discriminação ou preconceito puro por parte de profissionais de saúde; quando há falta de conhecimento, por parte dos profissionais, das guidelines a seguir no tratamento da pessoa trans e, por último, as longas listas de espera para quem queira fazer a operação. Qual destes três factores, para ti, tem mais peso no acesso aos cuidados de saúde no SNS por parte da pessoa transgénero?
Como é óbvio, todos esses factores têm o seu impacto. Mas o que acaba por ter mais impacto, sem dúvida, é o factor da discriminação, porque a existência dos outros dois deve-se à própria discriminação em si. Quando temos um serviço que não funciona bem, que tem umas listas de espera que são grandes — e estamos a falar de um serviço em específico — tentamos perceber as falhas e colmatar as falhas que existem. Isto, no entanto, é de há anos, as listas de espera não são de ontem. A equipa tem as suas funções estratificadas de uma forma que não permite dar resposta a todas as pessoas. Sabe-se deste problema, que não se consegue dar resposta, e não se procura ultrapassá-lo. Isto também revela alguma discriminação. Para mim, continuo a achar que a base desses dois problemas — depois de não haver a adequação dos currículos ou não haver interesse em procurar mais informação por parte dos profissionais de saúde — é a discriminação. Considero que esse é o principal factor e o que tem mais peso na barreira aos cuidados de saúde. No caso da discriminação mesmo, o que nós sabemos é que acaba por ter várias ramificações mas, claro, é mais óbvia quando nós vemos que muitas pessoas trans evitam aceder aos cuidados de saúde. Isso é a tradução mais óbvia de que há, de facto, uma discriminação porque não nos sentimos bem num determinado local. Se somos atacados ou mal tratados num determinado local, acabamos por não voltar a esse sítio, não é? E essa situação, nos serviços de saúde, deve-se à discriminação que ainda acontece. Para mim, portanto, penso que esse seria o principal problema.

Consideras que há esse receio? Ir a uma consulta e a pessoa deparar-se com um profissional de saúde desconhecido?
Aliás, uma das coisas que eu fiz foi dividir as minhas perguntas em três diferentes serviços: serviços de urgência, serviços de medicina geral e familiar e serviços de cirurgia. E, precisamente, o serviço que tinha mais episódios de discriminação que as pessoas consideravam mais desconfortáveis, era o serviço de urgência. Isso pode ter uma explicação — no serviço de urgência, vamos encontrar um médico que não conhecemos de lado nenhum, que nos é completamente desconhecido, e isso, também, pode ser um dos factores que se traduziu nesse desconforto, nesses episódios de discriminação. O resultado traduz-se no facto das pessoas evitarem ir ao serviço de urgência por terem receio, por experiências passadas ou por aquilo que ouvem na sociedade em geral: pelo receio de chegarem lá e serem mal tratados, usarem o dead name, usarem pronomes incorrectos e desvalorizarem a questão da transição. São vários os episódios de discriminação que são relatados — uns mais graves do que outros, obviamente — mas todos eles contribuem, depois, para que a pessoa evite contactar com pessoas que não sabem ao certo quem são.

Pelo que frisaste, até pelo uso do dead name, ainda há a tendência do médico prender-se à sexualidade biológica do indivíduo.
Acaba por ser um problema social, não exclusivo dos profissionais de saúde — o problema de desvalorizarmos as questões relativas à identidade de género. O preconceito está presente na sociedade quando olhamos para estas questões não só como tabu, mas como algo que não deve ser abordado nas escolas, por exemplo, ou questões que colocamos à parte quando somos confrontados com elas no dia-a-dia: isso tem repercussões em todo o lado. O SNS vai ser dos locais onde esses problemas têm maior ressonância ou repercussão — o que acontece no SNS tem repercussões em todo o lado. Acho que, enquanto médicos, enfermeiros e psicólogos as nossas formações deviam ter, precisamente, cuidado com estes assuntos, porque sabemos que, inevitavelmente, vamos encontrá-los, ao longo da nossa vida, enquanto prestamos cuidados de saúde — vão ser questões que vão ser abordadas frequentemente. Portanto, se a sociedade tem esta lacuna, os nossos currículos não deveriam ter, e devemos ter especial atenção a estes temas. Quando isso não acontece, nem a nível social nem a nível formativo, depois temos estas consequências que estão à vista e que os valores mostram, as pessoas relatam.

Achas que os cursos de medicina apresentam lacunas nos programas, relativamente a estas questões? Não há preparação devida nos cursos?
Não posso falar pelos cursos de psicologia ou de enfermagem porque não estive lá, só sei aquilo que me contam, mas nos de medicina — no meu curso inteiro de 6 anos — para além do que eu procurei (portanto autodidacta, não conta aqui para este ponto), só tive uma aula de 90 minutos sobre sexologia e, nessa aula de sexologia, abordou-se tudo, desde patologias, disfunções, identidade de género, ou seja, sexologia é uma cadeira e quase que era necessário um semestre inteiro. Em alguns locais, até é um curso e nós, em 90 minutos, é suposto falarmos tudo sobre sexologia e conseguir abordar todas as questões ligadas à sexualidade. Obviamente, isso não vai acontecer. Os cursos têm uma lacuna muito grande nesta área e um dos nossos objectivos, no Projecto Anémona, é, precisamente, a formação de profissionais de saúde e que as escolas médicas, especialmente as médicas, reconheçam esta lacuna e insiram nos seus programas cadeiras obrigatórias ligadas à sexualidade e à saúde LGBTQIA+ também. Queremos que médicos e médicas tenham a capacidade de reconhecer certas questões que vão aparecendo, invariavelmente, no nosso percurso e que necessitem de cuidado extra.

Mas as equipas hospitalares e os profissionais de saúde passam por vários sectores. Há os médicos, mas há também os enfermeiros e os auxiliares, bastante importantes no contacto directo com as pessoas que precisam de cuidados de saúde.
Exactamente, não é só formação académica, mas formação profissional. Não sei que tipo de formações é que existem mas, por exemplo, eu tive a minha formação académica e, depois, antes de iniciar o trabalho no hospital, tive uma formação que o próprio hospital me deu. Essas formações devem também ter umas sessões que abordem estes temas para, precisamente, no caso que tu disseste, profissionais de acção médica tenham também um comportamento adequado. Isto devia ser completamente desnecessário se, em sociedade, nós já reconhecêssemos a diversidade de cada indivíduo e nos comportássemos e tivéssemos atitudes, de acordo com essa diversidade, não-discriminatórias. Como isso não acontece nós temos de nos focar nas profissões que lidam mais de perto com esta população. Acho que, enquanto profissionais, enquanto estado, enquanto pessoas, temos de nos certificar que todas as pessoas são bem tratadas e independentemente das suas condições.

O médico de família também deve ser importante quando a pessoa começa a notar que há uma não-correspondência entre a sua identidade de género e a sua sexualidade.  
O médico de família tem o papel principal de acompanhar a pessoa toda a sua vida — supostamente. O papel do médico de família é reconhecer quando jovens ou crianças começam a demonstrar estes sinais e, portanto, reconhecer e dar apoio para que a pessoa consiga desenvolver a sua identidade de género na sua plenitude. Isto, em Portugal — em Portugal e em qualquer lugar —, quando temos uma sociedade que limita o nosso desenvolvimento, os factores externos que nos apoiem são ainda mais necessários. E, portanto, aqui é importante que o médico de família conheça bem os seus utentes nestas situações e consiga dar o acompanhamento necessário.

E os médicos de família sabem reencaminhar a pessoa para os serviços certos ou, ainda, há resistência.
Esse é um dos problemas que nós temos ainda, já começam a existir e já existiam médicos de família muito bem informados nestas áreas mas sempre houve, também, muitos médicos que não. Na medicina, o nome transexualidade, e, agora sim, transexualidade mesmo, foi criado para colocar estas pessoas numa caixinha de doentes e, há muito tempo, que pessoas trans tentam sair das caixinhas de pessoas doentes, porque não são pessoas doentes. Quanto aos médicos de família, há muitos que ainda defendem que todas estas questões não passam de transtornos mentais e que é preciso tratamento e, portanto, há um longo caminho a percorrer para que os médicos encaminhem para os serviços correctos — sexologia em Coimbra, na URGUS. Há muitos médicos de família que continuam, não só, a recusar este encaminhamento, como a encaminhar para outros sítios, o que inviabiliza o percurso natural da pessoa dentro do SNS — isto ainda acontece várias vezes. Temos aqui, portanto, muita oposição àquilo que a própria ciência já defende e já corrigiu nos seus conceitos de estigma e preconceito, mesmo com a condição trans.

Imagino também que o psicólogo e o tipo de psicólogo seja de extrema importância. Até pelo que tu disseste, para as pessoas trans não serem tratadas como alguém com algum transtorno de personalidade.
Em primeiro lugar, deve ser feita uma avaliação psicológica, não no sentido de confirmar a identidade de género — a identidade de género é autodeterminada — mas no sentido de dar apoio quando outras questões se levantarem. Pessoas LGBT, no geral, têm, pelo estigma ou pelo preconceito que sofrem na sociedade, uma maior incidência de perturbações, de doenças do foro psiquiátrico. É, portanto, mais do que normal que seja necessário algum apoio nesta área e o aconselhamento psicológico pode, nem que seja com um rastreio, identificar algumas destas questões e ajudar a própria pessoa que vai passar por um processo que não é fácil, um processo de transição que apresenta vários obstáculos. Este apoio em psicologia pode dar um reforço positivo e ajudar a pessoa a descobrir a sua própria identidade, as suas próprias fraquezas, os seus próprios fantasmas neste processo. Ou seja, é necessário um ou uma profissional que esteja focado e com formação certa, com a consciência certa das questões relativas à transição. Também sabemos que, no SNS, nem todos os profissionais de psicologia estão neste patamar. É, portanto, outra lacuna que existe nos centros de saúde.

Consegues explicar quais os efeitos psicológicos, na pessoa trans, que possam surgir quando  a transição é adiada por muito tempo?
Qualquer pessoa que necessita de um cuidado de saúde e vê esse cuidado, consequentemente, adiado, tal vai causar um transtorno muito grande, uma ansiedade. Isto varia muito de pessoa para pessoa. Há pessoas que lidam melhor com a espera do que outras. Mas o problema aqui é que muitas destas pessoas que precisam da transição e precisam de fazer alguma alteração, ou hormonal ou ao corpo, sentem-se presas, sentem-se como se a vida tivesse parada e, muitas vezes, o mudar o nome, começar a tomar hormonas ou fazer algum tipo de alteração, é um recomeçar a vida. Por isso é que se fala no nome morto [dead name], porque a pessoa antes da transição morreu e, a partir daí, nasce e cresce como uma pessoa nova. Obviamente, não é sempre assim para todas as pessoas. Todas as pessoas vivem a sua vida e, neste caso, a transição de maneira diferente, mas o que sabemos é que, de facto, este tempo de espera, esta ansiedade de precisar destes cuidados de saúde e não os encontrar pode ser desesperante. Tanto que, muitas vezes, as pessoas têm de recorrer ao privado, porque o público não dá resposta e endividam-se. Nem toda a gente tem a capacidade financeira de poder recorrer ao privado e, depois, ficam anos a lidar com essas dívidas. Há várias consequências desta demora no Serviço Nacional de Saúde e há quem não consiga fazer um empréstimo para conseguir fazer as cirurgias. Há casos extremos, mais infelizes, que, de vez em quando, vão acontecendo e vamos tendo conhecimento. Portanto, há, aqui, uma responsabilidade muito grande do estado para conseguir dar resposta a todas a estas pessoas que se encontram em situações, às vezes, dramáticas.

Mas se, muitas vezes, há o receio de se recorrer ao SNS. Se, muitas vezes, pessoas trans se endividam para poderem fazer a transição, pode-se dizer que estão, a nível de saúde e financeiro, num pé de desigualdade grande?
Sim, sim. Claro que isso é sempre especulativo porque não temos estudos. Esse é outro dos problemas, há muito poucos estudos que façam a diferenciação entre pessoas cis e trans — que comparem as situações entre cis e trans. Mas posso dizer, efectivamente, por aquilo que nós sabemos, pelo que é a experiência do que nós vemos no dia-a-dia, que há uma limitação no acesso ao emprego, uma discriminação no acesso à habitação. Muitos dos empregos têm de ser em call centers , por exemplo. Quando as pessoas não têm uma aparência normativa, são excluídas de empregos que lidem com o público; isto vai contribuir para o aumento da pobreza e da segregação social desta camada da população — neste caso pessoas trans e não binárias, que não têm uma aparência cis normativa. Isto tem repercussões, obviamente, no poder de compra e na limitação do acesso à saúde. E tem repercussões em todas as questões da nossa vida.

Falta ainda falar da URGUS, a Unidade de Reconstrução Génito-Urinária e Sexual. Só há um serviço centralizado em Coimbra, o que contribuirá para as longas listas de espera.
Neste momento, o SNS tem os cuidados de saúde focados e centralizado na URGUS, em Coimbra, e nós achamos que certos procedimentos não são necessários serem efectuados de forma tão concentrada, como é o caso das mastectomias, que são feitas no país inteiro, em vários hospitais. Há certas técnicas que são diferentes, é verdade, mas os médicos cirurgiões, ginecologistas e por aí fora, que fazem este tipo de procedimentos, também são capazes de fazer. Não é necessário centralizar todos estes procedimentos em Coimbra. O resulto é, precisamente, estas longas listas de espera para um serviço que não consegue dar resposta a tanta gente. Além do factor de que as pessoas têm de se deslocar até Coimbra e não são todas as pessoas que têm essa disponibilidade, por todas as razões que já falámos. Portanto, para além desta questão dos profissionais de saúde, é esta questão da descentralização dos cuidados de saúde.

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