Entrevista. Karla Campos: “Portugal, por força da sua paisagem e clima, oferece uma experiência muito superior à de muitos festivais internacionais de música”

por Manuel Neves,    8 Junho, 2026
Entrevista. Karla Campos: “Portugal, por força da sua paisagem e clima, oferece uma experiência muito superior à de muitos festivais internacionais de música”
Karla Campos / Fotografia de Rui André Soares – CCA
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Karla Campos é uma das figuras centrais na consolidação do Ageas Cool Jazz enquanto referência dos festivais de verão em Portugal. Ligada profundamente a Cascais, território onde viveu grande parte da sua vida, foi precisamente dessa relação afetiva com a música e com o concelho que nasceu a vontade de criar um festival capaz de devolver à região a centralidade cultural e musical que marcou várias gerações.

O Cool Jazz nasceu em 2004 como um festival itinerante, passando por Cascais, Oeiras, Mafra e Sintra. Ao longo dos anos, foi-se transformando até se fixar definitivamente em Cascais. Atualmente, prepara a sua 22.ª edição, que arranca a meio de julho e termina no final do mesmo mês.

Tivemos a oportunidade de falar com a Karla Campos, durante a conferência de imprensa da 22.ª edição do Ageas Cool Jazz, sobre o passado, o presente e o futuro do festival, as novidades, bem como os desafios e exigências que a organização enfrenta em cada edição.

Ao longo dos anos, o festival foi consolidando a sua identidade. Depois de uma fase inicial marcada pela circulação entre Mafra, Sintra, Oeiras e Cascais, acabou por se fixar em Oeiras e, mais tarde, em 2022, passou a acontecer exclusivamente em Cascais. Atualmente, preparam a sua 22.ª edição, com programação a decorrer a partir de 17 de julho. O que motivou, numa fase inicial, a aposta numa programação distribuída por quatro concelhos? Em que momento perceberam que fazia sentido fixar o primeiro festival em Oeiras e, posteriormente, apenas em Cascais? E até que ponto esta mudança representou não só uma nova localização, mas também uma nova fase do festival e da própria identidade do Cool Jazz?

O festival, originalmente, estava pensado para acontecer apenas em Cascais. Em 2004, quem acabou por financiar o projeto foi a Junta de Turismo da Costa do Estoril, cujos estatutos, na altura, previam a dinamização do turismo nos quatro concelhos da região. Assim, quando apresentei a proposta para realizar o festival em Cascais, disseram-me que podia avançar, mas que teria de levar o evento aos restantes concelhos, foi assim que tudo começou.

Ao longo dos anos, tanto os estatutos como a própria forma de funcionamento da Junta de Turismo foram mudando. Entretanto, Sintra acabou por sair do projeto. Queria que o festival tivesse um ambiente de verão, ao ar livre, mas Sintra não tinha um espaço adequado para isso. Ainda tentei utilizar o jardim de Seteais, mas não era possível.

Foi então que Sintra saiu definitivamente do circuito e o festival passou a acontecer apenas em Oeiras, Cascais e Mafra.

Entretanto, a programação do festival foi crescendo em popularidade e notoriedade. Artistas como Diana Krall e Kanye West, fizeram com que o festival ganhasse outra dimensão. A partir daí, cada concelho começou naturalmente a querer concentrar mais programação. Mas, na prática, não havia volume suficiente para manter o festival com a mesma força em todos os territórios ao mesmo tempo.

Durante muitos anos, o evento manteve-se dividido entre Cascais, Oeiras e Mafra. Mais tarde, por questões estratégicas, acabou por ficar apenas entre Oeiras e Cascais. Houve fases em que Oeiras quis assumir a totalidade do projeto, outras em que tudo regressa a Cascais, como acontece agora, nesta fase em que nos encontramos. No fundo, estas decisões estavam sempre ligadas às prioridades e estratégias do festival.

“A música, por natureza, já é algo que nos descontrai. E quando a podemos viver ao vivo, isso torna-se ainda mais evidente e mais agradável.”

Apesar de o Cool Jazz estar hoje bem consolidado no eixo Cascais, nunca fez sentido explorar a ideia de uma edição especial fora da área de Lisboa ou numa lógica de “equipa que ganha não mexe”, ainda não há espaço para arriscar e levar o festival para outros territórios?

Isto foi pensado para acontecer aqui [em Cascais]. Sou daqui, moro aqui. Passei aqui grande parte da minha infância e cresci muito ligada a este lugar. Assisti a muitos concertos nesta zona, quando existia o Dramático, onde se ouviam bandas de punk e rock, e essas memórias marcaram-me profundamente. Daí a minha ligação à música e a este território é muito forte. Há uma componente afetiva muito grande neste projeto, porque, de certa forma, ele nasce das experiências e vivências que tive aqui desde muito nova.

Sempre fui a muitos concertos e festivais pelo mundo todo. Passei por festivais como o South by Southwest(SXSW) ou o Coachella, entre muitos outros. Vivi essas experiências como espectadora, sempre procurei perceber como funcionavam e o que tornava aqueles eventos especiais. E concluía que nós temos lugares muito melhores em Portugal e organizamos as coisas muito melhor do que muitos sítios por onde já passei.

Sempre senti que fazia sentido criar algo desta dimensão aqui, porque acredito verdadeiramente no potencial do território. Não tenho dúvidas de que em Portugal, por força da nossa paisagem e do clima, conseguimos oferecer uma experiência muito superior à de muitos festivais internacionais.

Olhando para o que o festival se tornou hoje, sentes que há também uma dimensão muito pessoal e emocional neste projeto, quase como a concretização de um sonho, no sentido de trazer aos cascalenses e aos concelhos à volta uma programação internacional tão rica?

Sem dúvida. A intenção sempre foi exatamente essa. Para mim, não faz sentido que este projeto exista noutro lugar. Cascais é um lugar de música, um berço da música em Portugal. Houve aqui uma geração de promotores e de espaços, que trouxeram concertos absolutamente marcantes. Vi Ramones, vi The Clash, vi tantos outros artistas e concertos que marcaram uma geração.

Depois, o Dramático acabou, deixou de haver concertos em Cascais e a música começou a concentrar-se noutros espaços, como o antigo Pavilhão Atlântico ou o Coliseu dos Recreios. Nos anos 80 nem sequer existia essa oferta toda em Lisboa. Não havia grandes concertos como existem hoje. Naquela época, muita coisa aconteceu aqui.

Entretanto, vinha da área da publicidade e de gestão, estive três anos na direção de marketing do Pavilhão Atlântico, e a partir daí aproximei me ainda mais da música como da organização de eventos. No final desse percurso, percebi que queria criar algo meu. A ideia foi precisamente trazer a música de volta a Cascais. Recuperar essa tradição e devolver ao concelho a centralidade cultural que teve durante tantos anos. Por isso é que este festival faz sentido ser aqui.

“A música portuguesa evoluiu imenso. De 2004 até agora é uma diferença brutal. Hoje em dia, ‘levantas uma pedra’ e há qualidade musical inacreditável.”

No contexto atual dos festivais, em que muitas pessoas vivem os concertos através do ecrã do telemóvel, acreditas que estamos a perder presença real na experiência ao vivo? Há quem fale até em “nomofobia”, a ansiedade de ficar sem telemóvel. Como organizadora, preocupa-vos ver públicos mais focados em filmar momentos para guardar ou partilhar do que propriamente em vivê-los?

Concordo completamente contigo. Aliás, já há vários artistas que começaram a adotar essa prática de limitar ou até recolher os telemóveis durante os concertos, como a Madonna ou o Bob Dylan, precisamente para preservar a experiência. Eu própria já assisti a esses dois casos.

É verdade que se torna desagradável quando estamos a tentar ver um concerto e temos constantemente braços no ar, telemóveis a bloquear a visão. Nem todos temos a mesma altura, e isso cria uma frustração evidente para quem está no público.

Acredito que neste festival em particular, isso se sente de forma diferente. Claro que há telemóveis, mas acho que o facto de existir apenas um concerto de cada vez, sem simultaneidade, muda completamente a dinâmica. Sinto que as pessoas acabam por estar mais relaxadas, mais presentes, porque sabem que não estão a perder outra coisa a acontecer noutro palco ao mesmo tempo.

Todas as pessoas estão ali porque gostam do artista daquela noite. Não há dispersão nem conflito de interesses, ninguém está em desacordo, está tudo alinhado, toda a gente está a viver o mesmo momento, e isso muda completamente a energia no recinto. As pessoas estão mais em sintonia umas com as outras, a cantar, a curtir. A proximidade com o palco ajuda. Mesmo estando mais atrás, não há aquela sensação de distância extrema. O palco está sempre relativamente perto, o que ajuda a criar uma ligação mais direta com o artista.

Karla Campos / Fotografia de Rui André Soares – CCA

A hiperbolizar, e pegando no exemplo da Madonna ou do Bob Dylan, achas que este modelo poderia funcionar num festival de verão, sem telemóveis, privilegiando sobretudo a experiência do momento e a vivência do concerto em vez da sua gravação?

Faria isso, sem dúvida, porque sou bastante mindfulness nesse sentido.

Os bilhetes ao longo dos últimos 20 anos têm vindo a aumentar em todos os festivais como nos concertos. As pessoas têm de fazer escolhas caso queiram ir a um festival, visto que “não dá para tudo” …O que distingue o Cool Jazz dos restantes festivais de verão em Portugal, tanto ao nível da curadoria como da experiência oferecida ao público?

Em relação ao preço dos bilhetes, ele varia consoante cada dia e também consoante o tipo de experiência dentro do recinto. Cada espetáculo tem várias opções de preço. No fundo, são como bilhetes diários dentro de uma programação mais longa. Imagina que tens oito dias de festival, podes, por exemplo, assistir a quatro concertos com bilhetes em pé a partir de cerca de 35€, dependendo da escolha e da disponibilidade.

Quanto mais próximo do palco estiverem, mais elevado é o preço, quanto mais distante, mais acessível se torna. Isso permite que cada pessoa escolha em função das suas possibilidades. Nesse sentido, acaba por ser um modelo mais democrático, porque não impõe um único preço de entrada, mas sim diferentes formas de viver o mesmo concerto.

“A situação económica do país e os rendimentos das pessoas são uma realidade que compete ao Governo procurar melhorar. Os promotores de espetáculos não são o Ministério da Cultura. O que está ao nosso alcance é desenhar um modelo que tente equilibrar essa realidade com a viabilidade do festival.”

Face à realidade atual, muitos jovens, e não só, têm rendimentos limitados, e acabam por consumir música sobretudo através de plataformas digitais, apesar de existir uma grande oferta de festivais, não estando muitas vezes em condições de os frequentar, considera que os festivais poderiam desempenhar um papel mais ativo na inclusão deste público?

A situação económica do país e os rendimentos das pessoas são uma realidade que compete ao Governo procurar melhorar. Os promotores de espetáculos são empresas privadas não são o Ministério da Cultura. O que está ao nosso alcance é desenhar um modelo que tente equilibrar essa realidade com a viabilidade do festival. No meu caso, isso passa por ter bilhetes em pé na ordem dos 30 a 35€. Por exemplo, podes vir ver os Franz Ferdinand e, num único dia, assistir a quatro concertos. Chegas às 7 da tarde e consegues ver tudo, sem teres de escolher apenas um momento ou um artista.

Acho que é um preço perfeitamente aceitável e justo dentro desse enquadramento. Depois há o dia das “Cascais Lazy Sunders”, gratuitas, permitindo que as pessoas possam vir sem qualquer custo.

Existe ainda uma outra dimensão ligada à Câmara de Cascais, o acesso para residentes do concelho através do cartão Viver Cascais. Através desse sistema, existe um número limitado de bilhetes por dia, garantindo acesso a um conjunto de lugares, tanto em bancada como em plateia em pé. No fundo há apoio facilitado pela Câmara aos residentes.

Quanto à comunidade condicionada, este ano foi introduzido o bilhete de acompanhante para quem presta apoio, e esse bilhete é gratuito. Esta medida resulta de uma parceria com a Fundação AGEAS, e tem como objetivo garantir melhores condições de acesso e inclusão para pessoas com necessidades específicas, permitindo que possam vir acompanhadas sem custo adicional para o acompanhante.

DR

Pensando no futuro, como imaginas o Cool Jazz daqui a 10 anos? E de que forma a crescente concentração de promotoras e a perceção de algum “monopólio” no setor pode influenciar essa evolução dos festivais a longo prazo em Portugal?

Estamos a assistir a um fenómeno global no setor da música e dos espetáculos. Há muitos mais promotores, mais espetáculos, porque muitos artistas dependem muito mais dos concertos para gerar rendimento, uma vez que o modelo mudou completamente. Se pensarmos no passado, os artistas ganhavam grande parte do seu dinheiro com a venda de cassetes, discos e CDs. Esse modelo praticamente desapareceu.

Hoje, os concertos passaram a ser a principal forma de rendimento para muitos artistas. É por isso que existe uma quantidade muito maior de concertos e festivais, visto que há uma necessidade real de estar constantemente em palco.

Há um fenómeno que sinto cada vez mais, que tem a ver com o facto de as pessoas estarem constantemente agarradas a um ecrã. Estar ao vivo, conviver com outras pessoas e ver música ao vivo acaba por ter um efeito de descontração.

A música, por natureza, já é algo que nos descontrai. E quando a podemos viver ao vivo, isso torna-se ainda mais evidente e mais agradável. Claro que depois existe a componente prática do bilhete, que tem de ser adquirido, mas esta experiência de sair do digital e estar presente, com outras pessoas, a viver o momento, é algo que estamos cada vez mais a valorizar.

Quanto à crescente concentração de promotores, pode acontecer. No meu caso, quero continuar a fazer isto durante muitos anos. Cheguei a dizer que, se um dia conseguisse ter 31 concertos de 1 a 31 de julho, esse seria o meu objetivo.

Agora, se aparecer alguém ou algo que altere completamente este equilíbrio, não vou insistir a qualquer custo. Enquanto for sustentável, saudável financeiramente e fizer sentido para todos os envolvidos, eu continuo. Se isso mudar, as pessoas têm de se adaptar à vida, como todos nós. Mas há algo que é essencial, esta “alma” que é minha, e isso não é algo que me possam comprar.

“Se pensarmos no passado, os artistas ganhavam grande parte do seu dinheiro com a venda de cassetes, discos e CDs. Esse modelo praticamente desapareceu. Hoje, os concertos passaram a ser a principal forma de rendimento para muitos artistas. É por isso que existe uma quantidade muito maior de concertos e festivais, visto que há uma necessidade real de estar constantemente em palco.”

Chegamos à 22ª edição, destas vinte e duas edições, consideras alguma mais especial? Se hoje fosse a primeira edição, o que farias de uma forma completamente diferente?

Esta 22.ª edição é completamente diferente da primeira. Não tem nada a ver. A primeira edição teve apenas seis concertos. Esta edição já conta com 32 concertos. Diferente, não teria os quatro lugares em simultâneo. Teria apenas um espaço fixo.

Não estar a rodar entre vários locais ao longo do mês acaba por ser, na prática, muito mais simples, e até menos dispendioso, do que estar constantemente a montar, desmontar, montar e desmontar estruturas. Na altura teve de ser assim, porque o modelo inicial assim o exigia. Mas com a evolução do projeto, o formato foi-se estabilizando até chegar ao modelo atual. E, neste momento, esse modelo mais concentrado é claramente preferível.

Para quem nunca teve no festival quais argumentos darias para motivar alguém a vir cá pela primeira vez? O que é que este festival se destaca comparativamente aos outros para quem nunca vem cá?

Olha, o facto de existir uma plateia sentada garante-te desde logo a reserva de um lugar. Quando escolhes a primeira fila, a segunda, a terceira, a quarta, a quinta, ou até a décima ou a vigésima, esse lugar é teu, é exclusivo. Claro que também existe a zona em pé, mas a possibilidade de ter um lugar marcado, fixo, dá uma experiência completamente diferente em termos de conforto e previsibilidade para o público.

A segunda diferença é que aqui tens quatro concertos em sequência, sem essa pressão de estar constantemente a escolher ou a deslocar-te entre palcos. Isso permite uma experiência mais contínua e mais tranquila para o público.

Há o dualismo entre um artista internacional e um português?

Nós temos um cabeça de cartaz internacional diário, o resto é tudo português. E isso acontece porque a música portuguesa evoluiu imenso. De 2004 até agora é uma diferença brutal. Hoje em dia, “levantas uma pedra” e há qualidade musical inacreditável.

No caso do jazz, por exemplo, o palco só começou em 2017, quando percebi que havia muitos jovens no Hot Clube ou no Conservatório, que não tinham propriamente estruturas ou contexto para se formarem em banda e mostrarem o seu trabalho ao vivo.

Por exemplo, a Jéssica Pina foi uma das primeiras artistas a integrar as Jazz Sessions logo na edição inaugural. Na altura, havia essa preocupação: “Ah, mas eu não tenho ninguém.” E a resposta era simples, ir procurar às escolas, ao Hot Clube, ao meio académico, encontrar músicos jovens, bateristas, pessoas com trabalho feito, até com capacidade vocal, e dar-lhes palco.

Isso acabou por criar algo muito importante, confiança. As pessoas começaram a sentir que podiam avançar, que havia espaço para mostrar trabalho e para crescer. Atualmente isso é muito visível.

E depois há casos concretos que mostram bem essa evolução. Muitos dos artistas que passaram pelas Jazz Sessions acabaram por ganhar percurso próprio. Por exemplo, a Gisela Mabel, que depois de passar por estes contextos, esta edição está a fazer a primeira parte da Diana Krall. Isto acaba por funcionar como um verdadeiro plano de carreira e de projeção para novos músicos.

Para terminar, como é que equilibram a criatividade com o risco num setor tão competitivo como o dos festivais de música, onde a pressão para inovar é constante?

O cabeça de cartaz é quem puxa o espetáculo, e, portanto, tem de ter capacidade de vender. Se não vender, eu não o contrato. Mas também não é uma ciência exata. Não há um termómetro nem um contador. Isto é tudo muito baseado em intuição, sensibilidade e numa leitura constante do mercado.

Depois há a construção do alinhamento, perceber o que funciona antes do headliner e o que faz sentido em termos de combinação artística, as decisões vão-se ajustando com base nesse equilíbrio entre intuição, coerência artística e leitura do público.

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