Entrevista. Luís Severo: “Muitas pessoas fazem música por paixão mas sem grandes condições e isso merece reconhecimento. Não deve ser é idealizado como se a precariedade fosse algo positivo”

por Manuel Neves,    12 Maio, 2026
Entrevista. Luís Severo: “Muitas pessoas fazem música por paixão mas sem grandes condições e isso merece reconhecimento. Não deve ser é idealizado como se a precariedade fosse algo positivo”
Luís Severo / Fotografia de Rui André Soares – CCA
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Luís Severo estreou-se em nome próprio com o disco “Cara d’Anjo” (2015), desde aí destacou-se pela escrita intimista e uma abordagem muito própria à canção portuguesa.

Seguiu-se o álbum “Luís Severo” (2017), que consolidou o seu percurso enquanto um dos nomes mais relevantes da nova geração de cantores nacionais. Passado dois anos lançou o terceiro disco, “O Sol Voltou” (2019). Durante a pandemia, participou também no álbum coletivo “Cuca Vida”, criado em conjunto com outros artistas ligados à Cuca Monga, num período marcado pela criação colaborativa à distância e pelos desafios de reinvenção da forma de fazer música.

Em 2023, lançou os singles “Cedo ou Tarde” e “Incerteza”, temas que abriram caminho para uma nova fase artística e aumentaram a expectativas em torno do próximo disco. Entre os temas abordados nas novas canções surgem questões como a precariedade e as incertezas após uma fase de mudança.

Tivemos a oportunidade de conversar com o Luís Severo, durante a conferência de imprensa da 22.ª edição do Ageas Cooljazz, sobre o concerto que irá apresentar no festival a 31 de julho, o atual momento da sua carreira, o seu processo criativo e as suas inquietações.

Em 2023 lançaste dois singles, e desde então tem existido alguma expectativa em relação ao próximo passo. O que é que o público pode esperar desta nova fase?

Saíram dois singles e houve uma fase em que tinha praticamente tudo terminado. Mas depois percebi não que não estava totalmente satisfeito com o resultado final, sobretudo a nível de mistura e sonoridade, porque também estava a acabar muita coisa sozinho. 

Foi uma experiência muito diferente. Nunca tinha feito um disco desta forma, tão centrada em trabalho feito em casa e em processos mais dispersos. A Catarina Branco ajudou-me muito, sobretudo na construção dos arranjos. Ela esteve muito presente nesse lado do processo criativo, por isso não foi um trabalho feito completamente sozinho.

Mas foi, ainda assim, um disco muito particular, porque obrigou-me a uma dinâmica que nunca tinha vivido antes, gravar baterias num sítio, outras partes noutro, fazer muita coisa em casa, ir montando tudo aos poucos, também aconteceu porque, neste momento, não tenho um estúdio próprio, e isso mudou bastante a forma de trabalhar o disco e de organizar todo o processo de gravação.

Luís Severo / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Disseste recentemente que as novas músicas refletem, de certa forma, o estado atual do mundo e que, por isso, este poderá ser um disco “com menos luz”. Essa ideia levanta inevitavelmente uma questão, essa “menos luz” nasce diretamente da forma como olhas para o momento atual do mundo, que parece mais pesado e incerto, ou é também resultado de um lado mais pessoal e introspectivo teu?

Acho que estamos numa fase em que querer manter alguma fé ou acreditar minimamente no futuro acaba quase por ser uma escolha forçada. Porque, na verdade, muito daquilo que vemos à nossa volta não nos dá propriamente muita esperança. E, por isso, sinto que hoje em dia acreditar em algo melhor tem quase de ser um ato forçado. A esperança existe, mas talvez de uma forma mais lenta, mais difícil. E acho que, atualmente, temos mesmo de a construir à força, quase como uma escolha diária. O que até faz sentido porque há cada vez mais gente a cantar e a falar sobre este estado das coisas. De certa forma, habituámo-nos a um determinado período histórico que, entretanto, acabou. Não era perfeito, claro, mas tinha muitas coisas boas que hoje sentimos falta.

Há uma tendência muito óbvia para olharmos para o presente e pensarmos que estamos perante o fim de tudo, quase um fim do mundo. Mas a verdade é que provavelmente outras gerações sentiram exatamente o mesmo noutras épocas. E talvez a tentativa seja precisamente essa, continuar a criar, continuar a fazer canções e a procurar qualquer coisa nova antes de aceitar esse “fim do mundo”.

“Não é propriamente saudável haver tanta gente a sustentar projetos apenas à custa da paixão, sem retorno económico, sem segurança e muitas vezes sem condições dignas de trabalho.”

Ou seja, tu como agente cultural, como músico, onde é que achas que podes fazer a diferença nas tuas próprias letras nesse aspecto?

Acho importante que cada pessoa fale sobre o tempo em que está a viver. Pelo menos, eu sinto essa necessidade. Falo sem certezas absolutas, ou melhor, tenho certezas sobre aquilo em que acredito, sobre os meus ideais, sobre a forma como me posiciono politicamente e enquanto pessoa. Isso eu sei.

Mas depois há uma enorme incerteza em relação ao futuro. Não sei se isto é apenas uma fase difícil ou se estamos perante o fim do mundo. Não sei se o mundo vai melhorar daqui a alguns anos, se vamos atravessar décadas mais duras, ou até viver períodos mais autoritários antes de as coisas mudarem outra vez. E acho que muita gente sente isso hoje, uma mistura entre esperança e ceticismo. Há uma parte de mim que acredita que as coisas podem melhorar, mas há outra que se pergunta sinceramente se isso ainda vai acontecer no meu tempo de vida.

Às vezes penso mesmo nisso, quando for velho, será que o mundo já vai estar melhor? Ou estaremos apenas a prolongar os mesmos problemas de formas diferentes? Honestamente não sei, e é chato pensar nisso.

Mas também pode ser apenas uma visão mais pessimista. Talvez as coisas acabem por mudar mais depressa do que imagino. O que tento fazer é falar sobre estas inquietações sem apresentar respostas fechadas ou definitivas. Ou seja, partilhar dúvidas, medos e questões que sinto em relação ao mundo e ao tempo em que vivemos, sem assumir que tenho uma conclusão final ou uma verdade absoluta sobre isso.

“Há uma tendência muito óbvia para olharmos para o presente e pensarmos que estamos perante o fim de tudo, quase um fim do mundo. Mas a verdade é que provavelmente outras gerações sentiram exatamente o mesmo noutras épocas.”

Num contexto em que o setor da música está cada vez mais marcado pela crescente atenção a métricas e dados de desempenho dos artistas, como é que se consegue equilibrar essa lógica mais estruturada e comercial com a liberdade criativa?

Acho que existe um fator de sorte muito grande nisto tudo. Dou-me com pessoas que têm 125 ouvintes mensais e que, sinceramente, não consigo perceber porque é que não têm 20 mil ou 100 mil. Não encontro uma relação direta entre números e qualidade, ou seja lá o que quisermos chamar-lhe. Muitas vezes, essa lógica simplesmente não existe.

Por isso, acredito mesmo que há um lado de acaso e de timing. Quando olho para um disco que lancei há quase dez anos, e que correu bastante bem, claro que gosto muito dele e reconheço o valor que tinha. Na altura, o disco foi lançado pela Cuca Monga, numa das primeiras edições da editora, com distribuição da Sony Music. Não havia contrato de edição com a Sony e o trabalho continuou sempre a ser meu, mas eles ajudaram a colocar as músicas nas plataformas e na distribuição, o que obviamente teve impacto.
Ao mesmo tempo, sinto que houve um fator de sorte. O disco apareceu no momento certo, encontrou as pessoas certas e acabou por encaixar num determinado contexto. É muito difícil explicar isto de forma objetiva. Claro que existe trabalho, dedicação e contexto, mas há também uma dimensão imprevisível. Às vezes as coisas simplesmente acontecem, e outras vezes trabalhos igualmente bons passam completamente ao lado.

Do ponto de vista pessoal, sinto que os números têm muito de acaso, de sorte e de circunstância. Claro que tudo está ligado, mas não acredito que exista uma fórmula exata para explicar porque é que umas coisas crescem e outras não.

“Há uma parte de mim que acredita que as coisas podem melhorar, mas há outra que se pergunta sinceramente se isso ainda vai acontecer no meu tempo de vida.”

Até que ponto um artista deve adaptar-se ou resistir a essas lógicas?

Reconheço que existem hoje algumas redes de pessoas a fazer música numa lógica completamente diferente. Há editoras independentes, promotores independentes, pessoas a organizar concertos fora dos circuitos mais comerciais. Mas a verdade é que, nesse setor, existe uma precariedade máxima. Essa é provavelmente a palavra certa.

Muita gente faz isto quase exclusivamente por paixão. E não estou a falar apenas dos músicos. Há pessoas que passam anos a agendar concertos, a organizar eventos para artistas mais indie, e percebe-se claramente que muitas vezes não existe um verdadeiro retorno financeiro. Fazem-no porque acreditam naquilo, porque querem criar cultura, e querem que aconteça alguma coisa na sua cidade, na sua terra, no seu meio.

E isso, ao mesmo tempo que me impressiona, também me dá alguma esperança. Há qualquer coisa de muito genuíno nesse impulso/paixão de continuar a criar espaços para a música, mesmo quando não há garantia de retorno financeiro.

Mas, claro, também há um lado duro nisso tudo. Porque não é propriamente saudável haver tanta gente a sustentar projetos apenas à custa da paixão, sem retorno económico, sem segurança e muitas vezes sem condições dignas de trabalho.

Tem de existir algum equilíbrio entre evitar essa precariedade máxima e, ao mesmo tempo, aceitar alguma lógica de mercado que permita às pessoas viver do trabalho que fazem?

Da minha parte, aquilo que tento fazer é manter alguma flexibilidade. Sempre que sou convidado para tocar numa cidade e percebo que existe uma rede independente por trás, pessoas a organizar concertos por iniciativa própria, mesmo sem grandes condições, eu tento ir.

Claro que, muitas vezes, não são contextos tão confortáveis ou estruturados como tocar num cineteatro, por exemplo. Mas, se percebo que há ali alguém genuinamente empenhado em criar uma cena cultural, em fazer acontecer música fora de uma lógica puramente comercial, então sinto que faz sentido apoiar isso e estar presente.

O que tento fazer é precisamente equilibrar as coisas dentro do possível, continuar ligado a esses circuitos mais alternativos e independentes, que ainda existem muito movidos pela vontade de criar e não apenas pela lógica do negócio.

Mas também não quero romantizar a precariedade. Isso é importante dizer. O facto de existir tanta gente a trabalhar desta forma não significa que seja necessariamente justo ou sustentável. É apenas uma realidade que existe. Há muitas pessoas a fazer isto por paixão, mesmo sem grandes condições, e isso merece reconhecimento, mas não deve ser idealizado como se a precariedade fosse algo positivo.

Não julgo quem assina contratos com grandes editoras, porque eu próprio já passei por isso. Eu nunca vendi os meus discos no sentido de deixar de ser dono deles enquanto editor. Mas já trabalhei com a Sony Music e tive uma experiência muito positiva nessa altura. Estava numa estrutura mainstream, mas com a Paula Homem que me dava espaço, compreensão e liberdade para desenvolver o meu trabalho de uma forma que não sentia que era excessivamente mercantilista. Havia ali uma relação humana muito forte e isso fez toda a diferença.

Claro que também havia limites. O investimento no meu disco nunca seria o mesmo que o investimento feito num grande artista comercial da editora. Mas, ainda assim, senti sempre respeito pelo meu trabalho e uma abertura que me permitiu crescer de forma saudável dentro desse contexto.

“O que tento fazer é falar sobre inquietações sem apresentar respostas fechadas ou definitivas. Ou seja, partilhar dúvidas, medos e questões que sinto em relação ao mundo e ao tempo em que vivemos, sem assumir que tenho uma conclusão final ou uma verdade absoluta sobre isso.

O que podemos esperar do concerto no Ageas Cool Jazz? Tem algum significado para ti partilhar o dia com o Chet Faker?

Neste concerto vão existir coisas novas, que ainda não saíram cá para fora, mas também estarão presentes aquelas músicas mais clássicas. Vai ser um espetáculo que, até pelo próprio contexto do festival, faz sentido ser mais acústico.

E depois há sempre essa dúvida, não sei até que ponto o público vai ser maioritariamente o público que já me acompanha e conhece as canções. Mas mesmo que sejam cinco ou seis pessoas a saber as letras, há sempre algumas que sabem, e isso já cria uma ligação especial.

Acho que existe uma ligação [com o Chet Faker] e que, de certa forma, faz sentido estarmos associados no mesmo contexto. Acho que isso está bem pensado. Eu toco antes dele, simplesmente. Espero que corra bem. Vou atuar mais durante a tarde, e acho que isso pode criar um ambiente bonito. Espero mesmo que as pessoas apareçam e aproveitem o concerto. E, sinceramente, nunca pensei vir a tocar num evento ligado ao jazz, por isso também tem um lado muito especial para mim. É giro sentir que há espaço para este tipo de cruzamentos e aproximações.

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